Parte II A Natureza e a Relevância da Dificuldade
Capítulo 5 O Conceito de Dificuldade
5.1. As condições da dificuldade da escolha
A dificuldade decorre, potencialmente, da multiplicidade de valores ou dimensões de valor. A noção de valor é aqui entendida num sentido amplo. Tomando como referência Chang (1997, p. 5), “ [o] ‘valor’ é qualquer consideração a respeito da qual é possível fazer uma comparação avaliativa dotada de significado” .
As alternativas, percepcionadas pelo indivíduo como relevantes na sua situação de escolha, são avaliadas tomando por referência determinadas instâncias de valores ou dimensões de valor. Considere-se então o conjunto A das alternativas de escolha constituído pelos vários objectos de escolha ou cursos de acção
(
a1,a2,...,an)
e o conjunto Ap⊂ A, que representa o conjunto das alternativas deescolha que, num dado momento, são percepcionadas pelo indivíduo como admissíveis ou relevantes. A cada elemento a do conjunto Ai p corresponde uma
imagem no espaço de avaliação C. As dimensões do espaço de avaliação C são representadas por um vector de valores relevantes Vj cujos componentes
(
V1,V2,...,Vm)
correspondem a valores ou dimensões de valor à luz dos quais sãoavaliadas as alternativas. Assumiremos na discussão que se segue que, para todas as alternativas, as m dimensões de valor relevantes são as mesmas. A cada alternativa corresponde no espaço de avaliação C uma imagem
(
v1,v2,...,vm)
emque vj corresponde à avaliação qualitativa ou quantitativa da(s) consequência(s) dessa alternativa na óptica da j-ésima dimensão de valor.
Apesar da existência de múltiplas dimensões de valor, a escolha pode não ser problemática, isto é, pode ser possível e fácil identificar e seleccionar no conjunto
Ap uma e só uma alternativa: (a) se no conjunto Ap existir apenas uma alternativa não dominada; (b) se o indivíduo conseguir ordenar hierarquicamente as várias dimensões de valor; (c) se o indivíduo conseguir definir a importância relativa das várias dimensões de valor e admitir trade-offs entre elas.
Verificar-se-á o caso (a) se no conjunto Ap existir uma alternativa ai tal que
i l ≠
∀ l , , a e i al∈Ap, vj
( )
ai ≥vj( )
al , j∀ , j = 1, … , m e vj( )
ai >vj( )
al paraalgum j. Verificar-se-á o caso (b) quando, tendo uma ordenação das dimensões de valor numa escala de importância, existe um modo hierárquico de escolha – lexicográfico, de programação por metas, … – que permite a selecção de uma única alternativa que satisfaz mais completamente as prioridades do que todas as outras. O caso (c) verifica-se quando é possível atribuir a cada uma das dimensões de valor um ponderador w , tal que j 1
1
=
m j
w , que permita reduzir a um escalar, por multiplicação com o vector de ponderadores, o vector
(
v1,v2,...,vm)
ou umasua transformação. Apesar da multiplicidade de dimensões de valor ser uma condição necessária da dificuldade, as escolhas que envolvem múltiplas dimensões nem sempre são difíceis.
Além da multiplicidade, a dificuldade pressupõe também a incomensurabilidade das várias dimensões de valor. É possível identificar dois tipos de comensurabilidade (O’ Neill, 1993): comensurabilidade forte – a possibilidade de reduzir as várias dimensões de valor a uma escala ou medida única – e
comensurabilidade fraca – a possibilidade de ordenar numa escala de importância
as múltiplas dimensões de valor. Quando os valores não são fortemente comensuráveis, o agente da escolha não é capaz ou não quer estabelecer os
trade-offs entre as múltiplas dimensões do vector de valores relevantes
j
V :Vj=
(
V1,V2,...,Vm)
, que lhe permitiriam reduzi-lo a uma única dimensão1.Quando não existe sequer comensurabilidade fraca, o agente da escolha não é capaz ou não quer hierarquizar as múltiplas dimensões de valor
(
V1,V2,...,Vm)
, oque lhe permitiria determinar a alternativa ai que melhor satisfizesse a ordenação
de valores estabelecida.
Daqui resulta que a ausência de comensurabilidade forte elimina a eventualidade do caso (c) da escolha. Nesta situação, o indivíduo não é pura e simplesmente capaz de (ou não quer) determinar os ponderadores wj, isto é, os preços relativos
1 A curva de indiferença assenta precisamente no pressuposto de comensurabilidade forte, com a
dos diferentes valores, e consequentemente reduzir o vector
(
v1,v2,...,vm)
a umescalar. A ausência de comensurabilidade fraca exclui o caso (b) da escolha. A impossibilidade de ordenar os valores numa escala de prioridade inviabiliza a adopção de qualquer procedimento hierárquico de escolha. No entanto, a incomensurabilidade (fraca ou forte) não exclui necessariamente o caso (a), já que se existir uma solução não dominada é possível compará-la com todas as outras sem recorrer à redução unidimensional das múltiplas dimensões de valor ou sem ter que as ordenar numa escala de importância. Nesse sentido, a incomensurabilidade é apenas uma condição necessária da dificuldade.
A dificuldade da escolha pressupõe por último a conflitualidade, isto é, uma situação em que qualquer melhoria numa dimensão de valor implica uma perda em pelo menos uma outra dimensão. Esta situação pode em parte estar relacionada com o facto das diferentes alternativas de escolha concorrerem entre si pelos recursos escassos de que o indivíduo dispõe, o que determina a impossibilidade de realização simultânea das várias dimensões de valor. Mas esta não é a única razão para a existência de conflito, nem talvez a mais importante. O conflito pode residir ainda no facto da efectivação de certas dimensões de valor impedir que outras dimensões de valor sejam efectivadas. A escolha baseada em determinadas dimensões de valor pode implicar uma trajectória para o indivíduo na qual outras dimensões de valor são simplesmente negligenciadas ou até suprimidas. A existência de conflito exclui necessariamente o caso (a) da escolha. Note-se que encontrar uma alternativa não dominada significa precisamente, por definição, que foi encontrada uma alternativa que permite obter uma melhoria em pelo menos uma dimensão de valor, sem comprometer as restantes.
As três condições – multiplicidade, incomensurabilidade e conflitualidade – tomadas em conjunto são as condições da dificuldade da escolha.
O reconhecimento da dificuldade, por sua vez, abre espaço para um tipo de relação entre alternativas – a incomparabilidade – que não tem lugar no quadro da escolha ‘racional’ . Entre um par de alternativas a e b é agora não só possível ocorrer a b, b a ou a≈ b, como a I b (com I para incomparável).
As condições da dificuldade da escolha mostram ainda que a incomensurabilidade não implica necessariamente a incomparabilidade2. No caso em que existe dominância, duas alternativas são comparáveis apesar da incomensurabilidade de valores.