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CAPÍTULO 2: O CONTROLE DE DIRECIONAMENTO

1. A Necessidade pelo Controle de Direcionamento

1.1 As condições do controle de direcionamento

Para sustentar que o controle de direcionamento é compatível com o determinismo causal e avançar sua proposta, o método definido por Fischer consiste em “buscar estabelecer um equilíbrio reflexivo amplo dentro do domínio dos fenômenos associados à responsabilidade moral” (ibid., p.34)7. Para isso, sua exposição sobre a responsabilidade moral deve dar conta dos nossos julgamentos intuitivos sobre casos claros envolvendo responsabilidade moral – tanto nos casos em que há certa clareza de que o indivíduo seja de fato moralmente responsável, como quando há clareza de que não é possível considerar um agente moralmente responsável por uma ação. O autor, para realizar essa tarefa, começa com a exposição de casos em que há inclinação para não considerar agentes como responsáveis morais por suas atitudes.

1.1.1 A exposição dos casos claros e seus desdobramentos

Nesta seção, tomaremos um passo importante na elaboração do semicompatibilismo de Fischer. O objetivo aqui é apontar as duas características fundamentais do controle de direcionamento: a responsividade a razões e a posse do mecanismo8. O autor, ao expor casos em que há maior clareza de nossas intuições sobre a atribuição de responsabilidade moral (seja para conferi-la ou negá-conferi-la a alguém), busca mostrar que o tipo de controle relevante a este tipo de atribuição é satisfeito quando o agente manifesta as características apontadas acima. Por meio de uma reinterpretação de nossas demandas sobre o controle que um agente deve exercer, Fischer chega a esses componentes e poderemos, a partir daí, seguir rumo à apresentação concreta de seu semicompatibilismo. Vejamos agora esses casos claros.

Consideremos um cenário em que um agente esteja hipnotizado. À medida em que ele realiza os comandos direcionados a ele – seja a infração de

7 Tradução nossa. Texto original: “... seeking to stablish a wide reflective equilibrium within the domain of phenomena associated with moral responsibility”.

8 Esses dois conceitos serão expostos de maneira apropriada mais à frente, ainda neste capítulo.

No momento, deseja-se apenas indicar o porquê de Fischer tê-los visto como cruciais ao controle de direcionamento.

uma lei, seja uma ação virtuosa –, não parece ser o caso de que o agente esteja exercendo um tipo de controle sobre seu comportamento capaz de assegurar sua responsabilidade moral pelas ações realizadas. Percebemos essa mesma falta de controle – mesmo que o indivíduo aja com suas próprias mãos e provoque mudanças drásticas ao seu redor – em diversos cenários. Episódios que envolvam drogas potentes, formas fortes de manipulação e coerção costumam eximir a responsabilidade moral daqueles submetidos a tais forças.

Tais circunstâncias, em que fatores extenuam a autonomia dos envolvidos, revelam como a história causal de uma ação é relevante à responsabilização de um agente (ibid., p. 36), não bastando apenas o apontamento de um conjunto de propriedades físicas, por exemplo, para garantir que tenha havido responsabilidade moral no caso em questão.

Fischer contrapõe esses cenários com aqueles em que não há fatores que estorvam o comportamento autêntico das pessoas. Sem que se faça suposições adicionais sobre a verdade do determinismo causal, casos em que o agente delibera seguindo suas próprias motivações e realiza uma ação qualquer, sem que seu processo de escolha seja afetado por fatores com os apresentados acima, são considerados casos em que não há desafios consideráveis à atribuição de responsabilidade moral. Numa primeira interpretação, pode-se dizer que o que separa os casos claros em que não há responsabilidade moral daqueles em que há responsabilidade moral é a possibilidade de o agente agir de outra forma. No primeiro conjunto, quando submetido a fortes influências – coerção, drogas, manipulação –, o indivíduo é incapaz de escolher o que quer fazer. No segundo conjunto, por sua vez, o indivíduo pode ser alvo apropriado de tais atribuições morais por ser capaz de escolher o que fazer: é sua deliberação que indica o que ele fará. Esta interpretação é condizente com a demanda pelo controle regulativo.

Fischer propõe, no entanto, que interpretemos esses cenários de uma nova maneira. Um agente hipnotizado não é responsivo a razões do modo apropriado (ibid., p. 36). No estado de hipnose, o agente realizará os comandos que lhe foram feitos independentemente da apresentação de razões relevantes que poderiam dissuadi-lo de realizar tais comandos. Por outro lado, nos casos em que não há fortes influências sobre o agente, espera-se que ele seja

responsivo a razões. Suponhamos que um agente tenha deliberado e decidido por seus próprios motivos levar seu filho para um passeio numa praça. Espera-se de um agente moralmente responsável que ele Espera-seja responsivo a razões no seguinte sentido: se houvessem sido apresentadas razões suficientes para que ele deixasse de levar seu filho à praça – alguma manifestação violenta, por exemplo –, ele não o teria levado. Esta é a nova proposta de interpretação feita por Fischer: é a capacidade de ser responsivo a razões que representa o tipo de controle relevante à responsabilidade moral, não sua capacidade de agir de outro modo num cenário.

Antes de avançar para a explicação das condições para que um agente seja responsivo a razões do modo apropriado, Fischer aponta traços significativos de sua abordagem. Relembrando os exemplos de Frankfurt, vimos neles casos em que a reponsabilidade moral de um agente é afirmada mesmo que ele não tivesse possibilidades alternativas nem fosse responsivo a razões.

O autor defende que

... um modo proveitoso de se desenvolver uma abordagem da sequência real à responsabilidade moral é mudar do foco nos agentes relevantes e suas propriedades para um foco nos processos ou “mecanismos” que levam concretamente à ação.

Em outras palavras, inferimos dos exemplos de Frankfurt (entre outras coisas) que é melhor assumir o que pode ser chamado de uma abordagem à responsabilidade moral “baseada no mecanismo” do que uma abordagem “baseada no agente” (ibid., p. 38)9.

A afirmação de que o agente nos exemplos de Frankfurt não é responsivo a razões pode ser explicada esquematicamente como se segue.

Independentemente das razões que lhe sejam apresentadas para tomar este ou aquele rumo de ação, o agente fatalmente realizará a mesma ação (no caso de Maria, o voto depositado seria o mesmo no fim das contas mesmo que fossem apresentadas a ela os motivos mais convincentes, devido à influência do interventor externo). Sendo assim, os agentes nos exemplos de Frankfurt não

9 Tradução nossa. Texto original: “... one very useful way to develop an actual-sequence approach to moral responsibility is to switch from a focus on the relevant agents and their properties, to a focus on the processes or “mechanisms” that actually lead to the action. In other words, we infer from the Frankfurt-type cases (among other things) that it is better to take what might be called a ‘mechanism-based’ approach to moral responsibility than an ‘agent-based’

approach.”

manifestam ações diferentes no fim da sequência relevante. Entretanto, esta leitura não dá conta da intuição que, como se viu, acredita que houve responsabilidade moral no caso. A abordagem baseada no mecanismo, por sua vez, consegue explicar essa impressão. Mesmo que o agente não seja responsivo a razões, o mecanismo que opera na sequência real o é. Uma vez que se dirija a atenção sobre como a sequência real se desdobrou, é possível afirmar que o mecanismo10 que resultou no voto de Maria reagiu apropriadamente às razões que lhe foram apresentadas, sem interferência de qualquer fator que afetaria a responsabilidade moral de Maria por sua escolha.

Além da necessidade pela responsividade a razões, Fischer afirma que há outro componente fundamental do controle de direcionamento: a posse do mecanismo pelo agente. Nos exemplos de Frankfurt, há dois mecanismos candidatos à execução do voto de Maria: o seu próprio mecanismo, que responde às suas razões e características pessoais, e o mecanismo implantado nela, que atende a razões externas e alheias às de Maria. A responsividade a razões por si só não bastaria para uma explicação robusta para todos os casos de responsabilidade moral já que pode haver casos em que um agente apresente o tipo apropriado de responsividade a razões por causa de estímulos e manipulações inconsistentes com a responsabilidade moral. Por isso é necessário destacar a diferença entre um mecanismo que seja de fato do agente e um mecanismo inapropriado à atribuição de responsabilidade moral. Neste sentido, Fischer elabora a noção da posse do mecanismo como condição necessária para a atribuição de responsabilidade moral.

Por fim, Fischer resume assim o princípio que guia sua formulação do controle de direcionamento: “... um agente exibe controle de direcionamento sobre uma ação na medida em que o mecanismo que atua de fato na ação seja o seu próprio mecanismo responsivo a razões” (ibid., p.39)11. Tendo sido

10 Fischer, ao usar o termo “mecanismo”, refere-se simplesmente aos processos que levaram à realização da ação investigada (processos físicos, químicos, biológicos, neurológicos, entre outros). A totalidade dos processos que levam a uma ação é imensamente complexa e Fischer acredita que definir esta totalidade não seja um ponto central tendo em vista os objetivos de sua proposta. Quando o autor fala de mecanismos responsáveis por ações, sua intenção principal é apontar que há uma série de processos naturais que aconteceram no indivíduo que o levaram a realizar a ação em questão.

11 Tradução nossa. Texto original: “... an agent exhibits guidance control of an action insofar as the mechanism that actually issues in the action is his own, reasons-responsive mechanism”.

apontadas essas duas condições, vamos inicialmente nos debruçar sobre a responsividade a razões para, em seguida, observarmos a posse do mecanismo.

Apesar de serem necessárias simultaneamente, essas características serão apresentadas separadamente para maior efeito didático. Portanto, enquanto tratarmos de uma, deve-se ter sempre em mente que pressupomos também a presença da outra. Vejamos, então, a responsividade a razões.