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CAPÍTULO 2: O CONTROLE DE DIRECIONAMENTO

3. A POSSE DO MECANISMO

3.5.3 Manipulação do processo de “assumir a responsabilidade”

Este grupo de casos envolve fatores mais complexos. Vimos a necessidade da análise histórica do agente para garantir que ele assume uma relação apropriada com seus mecanismos de tomada de decisão para que ele possa ser moralmente responsabilizado por suas ações. Essa condição livra os agentes da responsabilidade por mecanismos que foram implantados sem seu conhecimento ou autorização. Falamos acima que os exemplos de manipulação são muito vastos, o desafio proposto aqui trata de casos em que o próprio processo de assumir a responsabilidade por um mecanismo foi realizado via

45Tradução nossa. Texto original: “If causal determinism is true, our mechanisms of practical reasoning have always been deterministic; thus, in taking responsibility for ordinary practical reasoning, we take responsibility for its deterministic character”.

46 Fischer propõe uma metáfora sobre o que acontece ao assumirmos responsabilidade por um mecanismo: quando vemos a ponta de um iceberg, reconhecemos também que esteja lá, mesmo que não vejamos, toda sua parte submersa. Neste sentido, o autor propõe que, ao assumirmos a responsabilidade por um mecanismo, assumimos a responsabilidade inclusive por partes de que não temos plena consciência. Para assumir responsabilidade nesse sentido, um agente não precisa saber os detalhes das redes neurais que compõem seus mecanismos de ação. Isso se aplica ao caráter determinista dos mecanismos (dada a verdade do determinismo causal):

nesses casos, se o agente assumir a responsabilidade da maneira apresentada por seu mecanismo, não há problema algum em o mecanismo ser determinista.

manipulação. Nestes casos a proposta de Fischer estaria impelida a aceitar esses casos como legítimos?

Relembremos a terceira condição definida pelo autor para que um agente pudesse assumir a responsabilidade: o agente deve estabelecer essa visão sobre si – como agente e alvo apropriado às atitudes reativas – baseando-se de modo apropriado em suas evidências. Fischer reconhece que esta não é uma definição precisa, mas ela parece ser suficiente para mostrar que indivíduos que foram eletronicamente estimulados – ou guiados por outros métodos externos a si – a assumir a responsabilidade não o fizeram do modo apropriado. Por não pormenorizar o modo pelo qual o agente deve lidar com as evidências que tem para assumir devidamente a responsabilidade, Fischer reafirma que seu argumento não estabelece de modo definitivo a compatibilidade entre determinismo causal e responsabilidade moral. Em vez isso, ele adota uma postura mais modesta e defende que sua proposta evidencia a plausibilidade dessa compatibilidade. Parece não haver nas possíveis especificações sobre como o agente deve se relacionar com essas evidências algo que entre em contradição com o determinismo causal.

Esta foi a apresentação do controle de direcionamento. Para o autor, esta é a forma de controle necessária para a atribuição de responsabilidade moral.

Este controle é composto por duas categorias principais: a responsividade a razões moderada e a posse do mecanismo pelo agente. Nossa exposição trouxe essas categorias separadamente pela consideração de que exposições dedicadas pudessem apresentá-las com maior precisão, mas as condições feitas em relação a elas devem ser satisfeitas simultaneamente para que haja responsabilidade moral. Antes de recordar os passos tomados em cada uma das análises, há dois fatores em comum às exposições dessas categorias: o primeiro diz respeito à necessidade de demonstrar que elas podem acontecer em cenários em que o determinismo causal é verdadeiro, afinal este é o objetivo do autor; o segundo trata do caráter mais modesto da proposta de Fischer, que busca iluminar a relação entre determinismo e responsabilidade por meio dessas categorias em vez de arrematar a questão categoricamente. O esforço do autor foi para mostrar que a compatibilidade é razoável e ele acredita que pode

convencer muitos leitores disso, recusando-se a tentar finalizar de vez essa discussão.

Sobre a responsividade a razões, vimos como as exigências feitas pelo modelo forte deixavam de fora várias ações em que o sujeito deveria ser responsabilizado: as exigências, apesar de serem desejáveis, restringiam indevidamente os fenômenos estudados. Por sua vez, a responsividade a razões fraca permitia que agentes que não apresentavam critérios razoáveis para agir fossem responsabilizados. Sendo assim, vimos a responsividade a razões moderada, que apontava a necessidade por um padrão de reconhecimento de razões coerente e embasado na realidade. A responsividade a razões moderada, no entanto, não basta. Por isso, Fischer introduziu a necessidade da posse do mecanismo.

Esta categoria trata da relação que o agente deve ter com os mecanismos pelos quais atua. Sua necessidade surge pelos casos em que um agente desempenha a responsividade a razões apropriada por meio de manipulação ou por meio de mecanismos que não são seus. Sendo assim, foi preciso definir como é a relação entre sujeito e mecanismo para que possa haver responsabilidade moral. Essa relação é estabelecida historicamente: em sua formação como agente moral, o agente deve assumir responsabilidade por seus mecanismos. Ou seja, ele deve se ver como alvo apropriado às atitudes reativas feitas a ele. Ao fazer isso, ele assume responsabilidade pelos mecanismos que guiam seu comportamento. Somente existindo essa visão do indivíduo sobre ele mesmo que ele poderá ser devidamente apontado como agente moral. Foram esses processos que buscamos apresentar aqui.

O primeiro capítulo enfrentou os principais desafios que o determinismo causal coloca à nossa noção de responsabilidade moral; o segundo capítulo apresentou os elementos da teoria do autor que mostram como essa compatibilidade entre determinismo causal e responsabilidade moral acontece.

Essas apresentações se esforçaram para dar clareza aos passos argumentativos de Fischer, deixando de lado momentaneamente críticas às propostas feitas. Essa análise sobre a robusteza dos argumentos apresentados ficou reservada para o terceiro e último capítulo. Embora haja muito a ser

discutido, tentaremos lidar com as objeções mais fortes à teoria de Fischer sobre os pontos trabalhados aqui.