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CAPÍTULO 2: O CONTROLE DE DIRECIONAMENTO

2. Responsividade A Razões

2.3 Responsividade a Razões Moderada

2.3.5 O problema do comportamento não reflexivo

2.3.5 O problema do comportamento não reflexivo

Para concluir a apresentação do modelo de responsividade a razões adequado para a responsabilidade moral, Fischer mostra como a proposta elaborada até aqui também dá conta de atitudes não reflexivas28. Esse problema

28 A proposta do autor pode ser questionada em diversas frentes – tanto sobre dimensões da responsividade a razões que já foram tratadas como sobre dimensões que o autor não tratou, de

surge da oposição entre as ideias de razão prática e responsabilidade moral, por um lado, e de comportamento não reflexivo, por outro. Nesta concepção, agentes só poderiam ser responsabilizados moralmente por ações que foram realizadas por meio do exercício de uma deliberação consciente, em que razões para agir são explicitamente trazidas à mente do agente. Sendo assim, já que o comportamento não reflexivo não envolve o exercício desse tipo de deliberação intencional, agentes não poderiam ser responsabilizados moralmente por seus comportamentos não reflexivos. O autor ressalta, logo no início de sua resposta a este problema, que em momento algum de sua teoria foi dito que o único mecanismo pelo qual agentes pudessem ser responsabilizados fosse o de uma deliberação ativa (ibid. p 86). Comportamentos não reflexivos como o do motorista que simplesmente dirige até o trabalho sem uma deliberação profunda, da pessoa que lava louças sem analisar cada etapa do que está fazendo e do socorrista que não pensa antes de pular na água para salvar uma criança são alguns dos diversos exemplos que mostram como uma abordagem que restringe a responsabilidade moral a casos em que há razão prática pode ter dificuldades29.

A abordagem de Fischer, no entanto, não se limita assim. Pensemos no exemplo de José, que dirige até seu escritório de manhã e, como sempre, sem refletir sobre o assunto, segue pela avenida principal de sua pequena cidade, por ser o caminho mais rápido30. José pode ser responsabilizado moralmente por esse comportamento mesmo que ele não o tenha feito segundo uma deliberação proposital. Relembrando as condições colocadas pelo autor para que se possa atribuir responsabilidade moral a um sujeito, é preciso que haja um cenário em que existam condições suficientes para o agente agir de outro modo e que, mantendo o mecanismo que atuou na sequência real, ele aja de outro modo nesse cenário. Imaginemos um cenário em que houvesse placas indicando que a avenida principal estivesse interditada para obras. Nesse caso,

acordo com os motivos do debatedor. O problema do comportamento não reflexivo não é o ajuste final a ser feito na teoria. Sua apresentação ao fim da exposição sobre a responsividade a razões indica simplesmente a relevância do problema, mas não pretende dar à responsividade a razões um aspecto definitivo.

29 Esses comportamentos não reflexivos podem ser realizados segundo fatores como hábito, caráter ou instinto (ibid., p. 84).

30 O exemplo utilizado aqui foi adaptado do exemplo usado por Fischer (ibid., p. 85).

José seguiria por outro caminho sem que houvesse um processo intencional de deliberação: ele mudaria sua rota de maneira não reflexiva assim como quando seguia pela avenida principal. Esse exemplo mostra como o mecanismo de José desempenha a responsividade a razões proposta por Fischer sem exercer a razão prática.

Além da responsividade a razões, a outra demanda diz respeito ao padrão razoável de receptividade a razões. Sobre este ponto, o problema dos comportamentos não reflexivos poderia representar um risco à elaboração de Fischer por meio da afirmação que comportamentos não reflexivos não são compatíveis com a receptividade a razões. O autor rejeita essa interpretação e afirma que “o mero reconhecimento de que certas razões existem não implica que o agente esteja considerando e ponderando essas razões como parte de uma tentativa de responder à questão prática em evidência” (ibid., p. 87)31, algo característico do de uma deliberação intencional. A distinção a ser feita a fim de superar essa crítica é que, embora o reconhecimento de razões seja um momento indispensável de deliberações reflexivas, nem todo processo que envolva reconhecimento de razões é necessariamente um processo reflexivo.

Sendo assim, os exemplos usados (do motorista, da pessoa lavando louça e do socorrista) atendem às demandas feitas por Fischer (receptividade e reatividade a razões apropriadas) mesmo sendo casos de comportamentos não reflexivos:

o autor define esses casos como aqueles em que o agente não se pergunta continuamente o que deve fazer e pondera as razões para solucionar essa questão.

Esta foi a apresentação dos principais traços do primeiro elemento do controle de direcionamento: a responsividade a razões. Vimos que a responsividade a razões forte apresentava demandas restritivas demais em relação às nossas intuições sobre responsabilidade moral. Mesmo que desejáveis sobre certo aspecto, essas demandas não poderiam compor uma teoria que tentasse ser justa aos fenômenos estudados. Por sua vez, a responsividade a razões fraca não restringia de maneira suficiente os

31 Tradução nossa. Texto original: “The mere recognition that certain reasons exist does not imply that the agent is considering and weighing those reasons as part of an attempt to answer the practical question at hand”.

comportamentos pelos quais agentes poderiam ser responsabilizados. Assim, chegamos à responsividade a razões moderada, que faz demandas mais adequadas. Por um lado, vimos a necessidade de o agente reconhecer razões morais segundo um padrão razoável e conectado à realidade; por outro, mantivemos a exigência por uma reatividade a razões (não necessariamente morais) fraca. Como foi dito no início do capítulo, o outro elemento do controle regulativo é a posse do mecanismo, sem a qual os elementos apresentados acima não bastariam para garantir a responsabilidade moral. Vejamos agora como a posse do mecanismo entra na teoria do autor e os motivos de sua necessidade.