Capítulo 2. Contexto geral do Brasil e Equador: história, conflitos territoriais e direitos constitucionais conflitos territoriais e direitos constitucionais
2.2 O contexto do Equador
2.2.4 As Constituições da República do Equador
A partir da década 1990, distintos grupos e organizações da sociedade civil afro-equatoriana89 impulsionaram debates sobre os direitos individuais e coletivos do povo
89 Devem ser destacadas as iniciativas locais, nacionais e aquelas impulsionadas pelas mulheres afro-equatorianas: Movimiento Afroecuatoriano Conciencia (MAEC); Centro Cultural Afroecuatoriano (CCA); Asociación de Negros Ecuatorianos (ASONE); Fundación para la Cultura Negra Ecuatoriana (FECUNE);
113 afrodescendente. Nesse período, o processo organizativo afro-equatoriano assumiu «un fuerte discurso por la etnización o politización de su identidad cultural» (Antón, 2011: 113), refletindo, posteriormente, na aprovação da Constituição de 1998, a qual reconheceu da população negra como parte do povo equatoriano e titular de direitos coletivos.
2.2.4.1 A Constituição de 1998
A Constituição da República de 1998 (CRE/98), foi a primeira a definir o Equador como um Estado multiétnico e pluricultural (artigo 1); a reconhecer os povos indígenas e afro-equatorianos como parte do Estado (artigo 83); a garantir a esses grupos um amplo rol de direitos coletivos (entre os quais os direitos territoriais, protegidos pela garantia da propriedade imprescritível das terras comunitárias, inalienáveis, não embargáveis e indivisíveis) (artigo 84); e a assegurar o direito à posse ancestral das terras comunitárias através da sua adjudicação gratuita (artigo 84, itens 2 e 3).
Desse modo, a Carta Política de 1998 reconheceu a diversidade étnica e cultural do país, confrontando a visão, até então vigente, de uma nação mestiça (surgida de raízes indígenas e coloniais hispânicas), representada por uma só identidade equatoriana. O reconhecimento constitucional do caráter multiétnico e pluricultural do país «desencadeou uma política de reconhecimento legal das outras identidades, diferentes do modelo de mestiçagem ou do projeto identitário uninacional herdado do Estado colonial» (Antón, 2010: 25). Do ponto de vista do direito coletivo ao território, a previsão de circunscrições territoriais abriu a possibilidade dos afro-equatorianos concretizarem seu projeto político de autonomia territorial, cultural e comunitária, nomeadamente em regiões que preservam um forte caráter ancestral como Valle del Chota e Esmeraldas.90 Não obstante os avanços alcançados, os dispositivos constitucionais não ficaram isentos de críticas e questionamentos (Brandão, 2015). Catherine Walsh (2012b), por exemplo, observa uma ‘hegemonia indigenista’ na Carta Política de 1998, uma vez que o
Grupo Afroecuatoriano Despierta Negro; Movimento de Mujeres Negras de Quito; Coordinadora Nacional de Mujeres Negras (CONAMUNE); Movimiento de Mujeres Negras de la Frontera Norte de Esmeraldas (MOMUNE) (Antón, 2011).
90 A implementação de circunscrições territoriais indígenas e afro-equatorianas foi prevista no artigo 224 da CRE/98: «El territorio del Ecuador es indivisible. Para la administración del Estado y la representación política existirán provincias, cantones y parroquias. Habrá circunscripciones territoriales indígenas y afroecuatorianas que serán establecidas por la ley».
114 rol dos direitos coletivos esteve, particularmente, vinculado às reivindicações indígenas, negligenciando, por assim dizer, especificidades das lutas e reivindicações dos afrodescendentes.
Segundo Balanta (2008) e Rahier e Prosper-Dougé (2014), durante a Assembleia Constituinte, o grupo que trabalhou na redação normativa relativa aos direitos coletivos (artigo 84, CRE/98) foi conformado fundamentalmente por representantes brancos, mestiços e indígenas. Nesse sentido, a redação de tal artigo restou por fazer menção apenas aos indígenas, sem qualquer referência aos negros/afro-equatorianos. Face à tal situação, e diante da reclamação dos representantes afro-equatorianos, foi então elaborado o artigo 85: «El Estado reconocerá y garantizará a los pueblos negros o afroecuatorianos, los derechos determinados en el artículo anterior, en todo aquello que le sea aplicable».
Nesse sentido, Walsh considera ter havido uma assimetria no nível de absorção das demandas indígenas em relação às afro-equatorianas. Tal análise remonta ao fato de que durante o período constituinte diversas foram as reivindicações impulsionadas pelas organizações equatorianas mas, ao fim e ao cabo, os direitos coletivos dos afro-equatorianos encontraram-se amalgamados nos direitos conquistados pelos indígenas.91
Em 2006, por iniciativa de organizações afro-equatorianas que exigiam o reconhecimento normativo da sua voz, historicidade e demandas específicas (tal como observou criticamente Walsh), foi aprovada a Ley de los Derechos Colectivos de los Pueblos Negros o Afroecuatorianos92. Amparada nos dispositivos da Constituição de 1998, a lei buscou garantir as particularidades das reivindicações da população negra, de modo a fortalecer sua identidade, cultura, tradições e direitos. Dessa forma, esse novo marco assinalou, entre outros direitos, a igualdade de oportunidades, a representação em organismos e instituições estatais, a difusão da cultura afro-equatoriana, a igualdade de acesso à educação e a titulação de terras comunitárias.93
91 Durante o trabalho de campo, percebi o frequente discurso de grupos branco-mestiços sobre os afro-equatorianos viverem ‘à sombra das conquistas indígenas’ e de terem conquistado direitos constitucionais ‘graças às mobilizações indígenas’.
92 Daqui em diante, Lei dos Direitos Coletivos dos Povos Negros ou Afro-equatorianos.
93 No que diz respeito aos direitos territoriais, a Lei de Direitos Coletivos: a) reconhece os direitos dos povos negros sobre as terras ancestrais, suas práticas tradicionais de saúde e produção, bem como a sua propriedade coletiva e intelectual (artigo 2, item c); e b) obriga o Estado a apoiar os povos e comunidades negras que tenham suas terras ancestrais tituladas, bem como garantir que essas terras tenham prioridade frente ao aproveitamento comercial e industrial (artigo 12 e 13).
115 A Constituição da República do Equador de 1998 e a Lei de Direitos Coletivos dos Povos Negros de 2006 formariam, na década seguinte, a base para a Constituição da República de 2008.
2.2.4.2 A Constituição de 2008
Rafael Correa foi eleito Presidente do Equador em novembro de 2006. O período que antecedeu a eleição de Correa foi marcado por uma década atravessada por fortes mobilizações sociais, as quais demandavam nas ruas a efetivação de direitos conquistados e a ampliação de novos direitos. Nesse percurso, dois presidentes haviam sido expulsos por pressão popular e intensificava-se a articulação de um amplo grupo de atores sociais, como indígenas, mulheres, afro-equatorianos e camponeses.
Rafael Correa chegou ao poder com a promessa de amplas reformas políticas e sociais, cujos alicerces concretizariam um projeto de governo denominado Revolução Cidadã. De fato, tão logo eleito, um dos primeiros atos de Correa foi convocar um referendo sobre uma Assembleia Nacional Constituinte.
A proposta de uma nova Constituição foi submetida a referendo popular, em 15 de abril de 2008. Por ampla maioria de eleitores (81,7%), foi aprovada a criação de uma Assembleia Nacional Constituinte, a fim de elaborar a nova Carta Política. O processo constituinte contou com uma ampla participação popular na formulação de propostas ao projeto constitucional, assim como traduziu aspirações de longa data, a exemplo do movimento indígena que, desde a década de 90, erguia a bandeira da ‘refundação do Estado’ por meio de uma nova Constituição. 94
Terminado e apresentado o novo texto constitucional, um novo referendo foi realizado com o objetivo de submeter o mencionado projeto à aprovação. Na fase prévia à consulta popular, movimentos sociais assumiram a tarefa de difusão e debate sobre o texto proposto. Com 63,9 % dos votos, o projeto de constituição foi aprovado. Em 20 de outubro de 2008 foi publicada a Constituição da República de 2008, considerada uma das mais progressistas na América Latina.
Do ponto de vista regional, a eleição de Correa significou o fortalecimento da ascensão do campo de governos progressistas do continente sul americano que, naquela conjuntura, tomavam lugar, como o de Hugo Chavez na Venezuela, Luíz Inácio Lula da
94 América Latina em Movimento, 02/09/2008. Disponível em: https://www.alainet.org/es/node/129486 (12 de dezembro de 2017).
116 Silva no Brasil, Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia. Do ponto de vista nacional, a Revolução Cidadã baseou-se em duas orientações principais: 1) centralidade do Estado como condutor do processo de modernização, de soberania nacional e de necessidade de melhoraria da eficiência dos serviços públicos; 2) geração de recursos econômicos, a curto prazo, para criar e melhorar serviços públicos e infraestruturas essenciais ao desenvolvimento do país, a fim de alcançar uma sociedade mais moderna e equitativa (Santos, 2016).
No percurso dos seus dois mandatos, Correa permaneceu no cargo de 2007 a 2017. Seu governo implementou os eixos programáticos prometidos (grande inversão pública para a infraestrutura de entidades públicas, vias de transporte, e segurança e desenvolvimento social). Porém, a urgência de implementar esse vasto processo de modernização foi realizada a partir da intensificação da exploração dos recursos naturais (petróleo, mineração, agricultura industrial). Analistas políticos e especialistas convergem em afirmar que a política de Correa – de intensificação do extrativismo da natureza para gerar riqueza – foi uma das principais contradições da Revolução Cidadã, porquanto restou por colidir com a própria Constituição de 2008, assentada na ideia da natureza como sujeito de direitos (não como recurso inesgotável) e de uma sociedade plural, intercultural e politicamente participativa das decisões políticas a serem implementadas pelos governos.
As inovações da Constituição de 2008
Entre as inovações mais importantes da Constituição de 2008, destacam-se: o reconhecimento da plurinacionalidade e da interculturalidade (artigo 1), os direitos de
buen vivir (artigo 12 a 34 e 275), a ampliação dos direitos coletivos dos indígenas, afros e montúbios (artigo 57 a 60) e o reconhecimento dos direitos da Natureza (artigo 10 e 71).
Essas inovações constitucionais, traduziram-se na proposta de ‘refundação do Estado’, porquanto direcionadas não à eliminação do Estado moderno, mas à realização de políticas anticapitalistas e anticoloniais, a serem alcançadas através de um novo tipo de constitucionalismo (Santos, 2010c). Tal refundação está ligada a um constitucionalismo distinto do constitucionalismo moderno, um constitucionalismo protagonizado pelos excluídos e seus aliados, no intuito de expandir o campo político através «de una institucionalidad nueva (plurinacionalidad); una territorialidad nueva
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(autonomía asimétrica); un régimen político nuevo (democracia intercultural); y nuevas subjetividades individuales y colectivas» (Santos, 2010c: 72). Como afirmam diversos autores, o processo de refundação do Estado e de efetivação de um constitucionalismo transformador, entretanto, está cercado de desafios e dificuldades e, por isso mesmo, trata-se de um movimento histórico de longa duração.
Plurinacionalidade e interculturalidade
O reconhecimento do Estado equatoriano como plurinacional e intercultural95
reafirmou não apenas a diversidade étnica, como também a existência de várias nações num mesmo espaço geopolítico. Desse modo, assume-se o compromisso de substituir um Estado uninacional (formado por um país mestiço homogêneo), por um Estado que privilegie todas as expressões identitárias e o reconhecimento de direitos das minorias.96 A previsão da plurinacionalidade foi uma reivindicação dos movimentos indígenas, em virtude da existência de suas 14 nacionalidades (ou nações)97, portadoras de cultura própria, cosmovisão, crença religiosa e organização social e política (Trujillo, 2012).98 Embora a plurinacionalidade diga respeito a todos o/as equatoriano/as e ao direito à autonomia territorial dos povos ancestrais, de acordo com Jhon Antón, o movimento social afro-equatoriano ainda não possui uma posição definida sobre a plurinacionalidade, embora esteja sendo percebida a partir da ideia de «inclusión ciudadana y de democracia participativa» (Antón, 2010: 26).
95 Artigo 1 da CRE/08: «El Ecuador es un Estado constitucional de derechos y justicia, social, democrático, soberano, independiente, unitario, intercultural, plurinacional y laico. Se organiza en forma de República y se gobierna de manera descentralizada».
96 Como assinala Santos, a plurinacionalidade está articulada à noção de autogoverno e autodeterminação (mas não à ideia de independência), o que implica um desafio à ideia de Estado-Nação: «la plurinacionalidad es una demanda por el reconocimiento de otro concepto de nación, la nación concebida como pertenencia común a una etnia, cultura o religión» (Santos, 2010c: 81). Ainda segundo este autor, existe uma diferença substancial entre a interculturalidade no âmbito de um Estado-Nação e a interculturalidade no âmbito de um Estado plurinacional. Neste último caso, estão as dimensões culturais, as políticas territoriais e econômicas da diversidade: «la diversidad plurinacional implica el reconocimiento constitucional de que hay varias formas, todas igualmente legítimas, de organizar la acción política, concebir la propriedad, gestionar el territorio y organizar la vida económica» (Santos, 2012: 29).
97 São as nacionalidades: Secoya, Cofán, Huaorani, Shuar, Achuar, Siona, Kichwas, Zápara, Andoa, Shiwiar, Epera, Awá, Chachi, Tsa’chila, Chachi.
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Buen Vivir / Sumak Kawsay
Outro ponto destacado na Constituição de 2008 foi a adoção do paradigma do direito de buen vivir ou sumak kawsay, assente num tipo de desenvolvimento que esteja voltado a garantir direitos essenciais, como à água, à alimentação, à informação, à cultura, ao ambiente saudável, à educação, à moradia, à saúde, ao trabalho e à segurança social.99 Trata-se de uma relação direta entre esses direitos e uma outra noção de desenvolvimento, que confronta as noções de progresso e crescimento, de modo a permitir que os equatorianos e equatorianas possam gozar efetivamente dos direitos humanos (Ávila, 2012). Os direitos de buen vivir tem origem na cosmovisão dos povos indígenas, mas também coincide com as visões e princípios dos povos afro-equatorianos. Segundo o historiador Juan García Salazar, na cosmovisão das comunidades negras de Esmeraldas, o buen vivir corresponde a ‘viver bem em coletivo’, duas visões diferentes, mas com o mesmo significado: «cuando los mayores hablan de la montaña madre (...)siempre dicen ‘coge solo lo que cabe en las dos manos’. Entonces, hemos entendido que el Buen Vivir y el Estar Bien Colectivo es lo mismo, son dos visiones de dos pueblos que piensan en lo mismo. Nadie sacaba de la madre naturaleza más de lo que necesitaba para el día».100
Direitos coletivos das comunidades, povos e nacionalidades indígenas, afro-equatorianas e montúbios
A CRE/08 manteve a maior parte dos direitos coletivos dos indígenas, afro-equatorianas e montúbios previstos na Carta Política de 1998, a exemplo dos direitos de proteção à posse e propriedade dos territórios ancestrais, considerados indivisíveis, inalienáveis e imprescritíveis. Por outro lado, ampliou e introduziu novos direitos, enumerando-os em 21 direitos coletivos (seis a mais que a Constituição de 1998). É o
99 Artigo 275 «El régimen de desarrollo es el conjunto organizado, sostenible y dinámico de los sistemas económicos, políticos, socio-culturales y ambientales, que garantizan la realización del buen vivir, del Sumak Kawsay. El Estado planificará el desarrollo del país para garantizar el ejercicio de los derechos, la consecución de los objetivos del régimen de desarrollo y los principios consagrados en la Constitución. La planificación propiciará la equidad social y territorial, promoverá la concertación, y será participativa, descentralizada, desconcentrada y transparente. El buen vivir requerirá que las personas, comunidades, pueblos y nacionalidades gocen efectivamente de sus derechos, y ejerzan responsabilidades en el marco de la interculturalidad, del respeto a sus diversidades, y de la convivencia armónica con la naturaleza».
100 El Telégrafo, 29/11/2016. Disponível em: https://www.eltelegrafo.com.ec/noticias/buen-vivir/37/el-buen-vivir-y-el-estar-bien-colectivo-caminos-hacia-la-plenitud (17 de fevereiro de 2018).
119 caso do item 2 do artigo 57, o qual garante o direito das comunidades, povos e nacionalidades indígenas, afros e montúnbios, não serem objeto de racismo ou qualquer forma de discriminação fundada em sua origem, identidade étnica ou cultural. Também o item 3 do mesmo artigo, dispõe sobre o reconhecimento, reparação e ressarcimento a essas coletividades caso sejam afetadas por racismo, xenofobia e outras formas conexas de intolerância e discriminação.
Entretanto, tal como ocorreu com a Constituição de 1998, os povos afro-equatorianos não foram mencionados no caput do artigo 57 (dispositivo principal que enumeram os 21 direitos coletivos) mas, tão somente, no artigo seguinte (artigo 58).101
Por tal motivo, autores como Catherine Walsh (2012a) e Rahier e Prosper-Dougé (2014) novamente fizeram críticas à Carta Política equatoriana. Para Rahier e Prosper-Dougé (2014), na medida em que os artigos 57 e 58 da CRE/08 reproduziram a mesma assimetria dos artigos 83 e 84 da CRE/98, repetiu-se um tratamento constitucional diferenciado entre e os afro-equatorianos e indígenas. Para Walsh, não obstante o avanço dos direitos constitucionais, a história, a cultura e a identidade afro-equatoriana permaneceram sendo tratadas dentro de um marco indigenista, sendo apenas ‘incluídas’ dentro dele (Walsh, 2012a: 20).
Direitos da Natureza
Dos avanços constitucionais acima referidos, merece especial destaque a norma inovadora que reconheceu a Natureza como sujeitos de direitos: «(…) La naturaleza será sujeto de aquellos derechos que le reconozca la Constitución» (artigo 10 da CRE/08). Em virtude de tal dispositivo, a Constituição do Equador tornou-se a primeira do mundo que reconhece direitos à Natureza.
O capítulo VII da Carta Constitucional dispõe que são direitos garantidos à Natureza/Pacha Mama, o respeito integral a sua existência; a manutenção e regeneração dos seus ciclos vitais, funções e processos evolutivos; que toda pessoa ou coletividade possa exigir das autoridades públicas o cumprimento dos direitos mencionados; ser protegida pelo Estado, pelas pessoas naturais ou jurídicas.102 Também de acordo com a
101 Artigo 58 da CRE/08 «Para fortalecer su identidad, cultura, tradiciones y derechos, se reconocerá al pueblo afroecuatoriano los derechos colectivos establecidos en la Constitución, la ley y los pactos, convenios, declaraciones y otros instrumentos internacionales de derechos».
102 Artigo 71 da CRE/08: «La naturaleza o Pacha Mama, donde se reproduce y realiza la vida, tiene derecho a que se respete integralmente su existencia y el mantenimiento y regeneración de sus ciclos
120 Constituição, os direitos da Natureza são considerados de aplicação imediata por autoridades administrativas ou judiciais, de ofício ou por petição, podendo ser exigidos de modo individual ou coletivo por qualquer pessoa (natural ou jurídica), comunidade, povo ou nacionalidade.A CRE/08 ainda prevê que a proteção do Estado sobre o ambiente se realizará pelos mecanismos de exigibilidade e proteção dos direitos da Natureza, seja por via administrativa ou judicial.103
A Natureza, portanto, ganhou o status de titular de direitos, o que significa que particulares, empresas e Estados têm o dever de se absterem de ameaçar ou vulnerabilizar os seus direitos; garantir a adoção de medidas apropriadas e diligentes para restabelecer os direitos violados; bem como reparar integralmente os danos afetados (Murcia, 2012: 93-94).
As normas que definem os direitos da Natureza traduzem uma ampliação do texto constitucional do Equador, o qual passa a incorporar um novo ‘ente’ para a concessão do status de sujeito de direitos. Como explica a jurista equatoriana Diana Murcia, assim como o direito moderno ocidental reconhece a pessoas jurídicas (um ente não-humano) a titularidade de direitos, o mesmo reconhecimento foi conferido à Natureza pela relevância da sua relação com os seres humanos (Murcia, 2012). Ramiro Ávila acrescenta ainda que conforme o constitucionalismo avança, o status de titular de direitos também se expande, abrangendo – no caso do constitucionalismo equatoriano – também a Natureza, em suas palavras, «el concepto de derecho subjetivo y las condiciones
evolucionan hacia la expansión y mayor integración de sujetos protegidos» (Ávila, 2010:
10-11).