Capítulo 2. Contexto geral do Brasil e Equador: história, conflitos territoriais e direitos constitucionais conflitos territoriais e direitos constitucionais
2.2 O contexto do Equador
2.2.5 O sistema de justiça e os direitos constitucionais
Segundo Montaña e Pazmiño, o sistema judicial do Equador tem sido percebido como um poder excludente e indiferente à realidade política, social, econômica, cultural
vitales, estructura, funciones y procesos evolutivos. Toda persona, comunidad, pueblo o nacionalidad podrá exigir a la autoridad pública el cumplimiento de los derechos de la naturaleza. Para aplicar e interpretar estos derechos se observarán los principios establecidos en la Constitución, en lo que proceda. El Estado incentivará a las personas naturales y jurídicas, y a los colectivos, para que protejan la naturaleza, y promoverá el respeto a todos los elementos que forman un ecosistema».
103 No caso da via judicial, a Carta Política apresenta quatro medidas: Ação de Proteção (artigo 88); Ação de Acesso à informação (artigo 91); Ação por Descumprimento (artigo 93) e Ação Extraordinária de Proteção (artigo 94). O juiz pode ainda aplicar medidas cautelares de acordo com o tipo de dano, a fim de prevenir, impedir ou interromper as violações de direitos constitucionais (artigos 87 da CRE/08).
121 e étnica (2013: 30).104 Nesse sentido, a Carta Política de 2008 abriu expectativas na sociedade equatoriana quanto à sua efetivação, apresentando-se como possibilidade de colocar em prática um modelo de ‘justiça emancipadora’ (Ávila L.F, 2008).
Nesse sentido, em 2011, o Consejo Nacional de la Judicatura105 deu início a uma ampla reforma judicial, a fim promover as mudanças para renovar o sistema de justiça. Essa proposta teve como foco articular diferentes eixos programáticos, desde o investimento na infraestrutura civil e tecnológica – passando por um planejamento e financiamento democráticos – até a cooperação interinstitucional, a fim de coordenar a justiça ordinária e a justiça indígena e a investir na formação de operadores da justiça sobre os temas da plurinacionalidade e pluralismo jurídico.106
Naquela altura, juristas alertavam para o fato de que a percepção generalizada da debilidade institucional do sistema judicial equatoriano – parcialidade, corrupção e ineficácia – desafiava uma reforma judicial direcionada a atender as pretensões legítimas dos cidadãos e a «mejorar los niveles de eficiencia, vencer la corrupción y garantizar actuaciones imparciales e independientes».107
Durante o período de reforma judicial, um dos desafios mais importantes estava na implementação das questões relacionadas ao caráter plurinacional do Estado equatoriano e aos direitos da Natureza. No primeiro caso, alertavam os especialistas, pela necessidade de coordenação e cooperação entre os diversos sistemas jurídicos, nomeadamente, entre o sistema de justiça ordinário estatal e o sistema de justiça indígena.108 No segundo caso, pela resistência de advogados e juízes em conceber o novo
status constitucional da Natureza como sujeito de direitos, para quem «hablar de um
104 O sistema judicial equatoriano (Función Judicial) é composto pelos seguintes órgãos jurisdicionais: 1. Corte Nacional de Justiça; 2. Cortes Provinciais de Justiça; 3. Tribunais e Julgados; 4. Julgados de Paz (Artigo 178 da CRE/08).
105 Em 1992, o Consejo Nacional de la Judicatura foi introduzido como órgão administrativo, de vigilância e disciplina do sistema judicial do Equador. Diante da vigência da nova Constituição de 2008, uma mudança constitucional foi promovida para remodelar este Conselho. Em julho de 2011, foi criado um ‘Conselho de Judicatura de Transição’, a fim de dar início às reformas da administração da justiça, trabalho que se desenvolveu ao longo de dezoito meses. Atualmente o Conselho é integrado por 21 juízes e juízas designados por períodos de nove anos que, em conjunto, conformam o Pleno da Corte Nacional de Justiça.
106 As normativas de mudanças na administração da justiça do Equador foram previstas na Constituição da República do Equador de 2008 e posteriormente no Código Orgânico da Função Judicial de 2009.
107«Claroscuros de la reforma judicial en Ecuador», 28/08/2012. Disponível em: https://lalineadefuego.info/2012/08/28/claroscuros-de-la-reforma-judicial-en-el-ecuador-por-mario-melo1/ (01 de março de 2018).
108 Para uma análise dos desafios do Estado plurinacional equatoriano em conciliar as tensões advindas da interrelação entre sistemas jurídicos culturalmente diversos, ver Ximena Ron Erráez, 2015.
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nuevo sujeto (que nos es ni persona ni persona jurídica), parecia un contra sentido legal» (Ecolex, 2012: 17).
Passados quase sete anos desde que se iniciou a reforma da administração da justiça, algumas análises têm ressaltado que, não obstante as inovações e as propostas de mudanças em matéria de administração da função judicial, a aplicação das promessas constitucionais e das propostas promovidas pelo Consejo de la Judicatura ainda carecem de efetivação. De acordo com o Instituto Interamericano de Derechos Humanos (IIDH) uma grande parcela dos juízes apresenta dificuldades em aplicar os direitos coletivos dos povos indígenas e afrodescendentes – e os direitos da Natureza – no âmbito judicial (IIDH, 2009: 79).
De acordo com Boaventura de Sousa Santos, o desafio de implementar os princípios e as normas constitucionais – como os direitos coletivos, o reconhecimento da plurinacionalidade e do pluralismo jurídico – pode ser explicado pelo fato de expressarem um processo de transição e quebra da hegemonia da tradição jurídica eurocêntrica que desafia «todo o edifício jurídico e político do Estado moderno colonial» (Santos, 2012a: 18).
O sistema judicial e os direitos da Natureza
Para Miriam Lang, os direitos da Natureza constituem um dos desafios mais complexos de judicializar no campo da justiça (Lang, 2012). Dois anos após da entrada em vigência da Constituição de 2008, começaram a ser apresentadas as primeiras ações judiciais com base no novo marco constitucional.
A primeira ação judicial de que se tem notícia – objeto de análise dessa tese – foi a Ação Civil por Danos e Prejuízos (nº 08100-2010-0485), interposta em 23.07.2010, pelas comunidades indígena Awá Guadualito e afro-equatoriana La Chiquita que, em nome próprio e em nome da Natureza, judicializaram contra as empresas Palmar de los EsterosPalesema e Palmera de los Andes. A sentença da Corte Provincial de Justiça de Esmeraldas tardou seis anos para ser proferida. Não obstante tenha reconhecido o status
da Natureza como sujeito de direitos e admitido os danos causados pelas empresas palmicultoras (em razão da contaminação ao território ancestral e aos recursos naturais), a Corte aceitou apenas parcialmente a demanda das comunidades.
No mesmo ano, em 07.12.2010, o casal de estrangeiros ambientalistas Richard Frederick Wheeler e Eleanor Geer Huddle interpuseram em nome do Río Vilcabamba,
123 uma Ação Constitucional de Proteção (nº 11121-2011-0010), contra o Governo Provincial de Loja por violação aos direitos da Natureza, em razão da afetação provocada ao rio durante a execução da obra de ampliação da estrada Vilcabamba-Quinara.Em primeira instância, a sentença negou a ação por ausência de legitimidade passiva, ou seja, falta de citação adequada aos demandados.109 Em sede de apelação, o caso foi analisado por três juízes da Corte Provincial de Loja que, por unanimidade, reconheceram a violação aos direitos da Natureza.110
Em virtude da decisão em segunda instância ter reconhecido e aplicado os direitos da Natureza, o caso do Río Vilcabamba é considerado, até o momento, o primeiro caso de aplicação judicial dos direitos da Natureza (Simon, 2013: 35), melhor dizendo, o primeiro caso em que, por decisão judicial, se reconhece a Natureza como sujeito de direitos.
No entanto, se for considerado o momento da propositura da ação (e não o da decisão judicial), o caso de La Chiquita e Guadualito deve ser considerado o primeiro em que a Natureza reclama seus direitos com fundamento constitucional, no âmbito judicial. Isso porque, a demanda dessas comunidades foi apresentada ao judiciário cinco meses antes da ação do Río Vilcabamba, configurando, nesse sentido, o primeiro caso judicializado em que a Natureza figura como sujeito de direitos.111 Tal como afirma Martha Moncada, o caso de La Chiquita e Guadualito representa «la primera demanda judicial que reclama por los derechos de la naturaleza incorporados por primera vez en el mundo en la Constitución en Ecuador» (2013: 114).
Nos anos seguintes, após as ações judiciais de La Chiquita/Guadualito e Río Vilcabamba, outros casos foram judicializados em favor dos direitos da Natureza.112
109 Para Sofia Suárez, a decisão de primeira instância do caso do Río Vilcabamba, evidencia que os direitos da Natureza não foram entendidos pelo campo judicial, conquanto o magistrado «se limitó a analizar temas relativos al procedimiento, dejando de lado el análisis de fondo que constituía el examen de su vulneración» (2013: 07).
110 Disponível em: https://mariomelo.files.wordpress.com/2011/04/proteccion-derechosnatura-loja-11.pdf. (20 de agosto de 2016).
111 Importa referir que em 1970, o caso Sierra Club vs. Morton (nos Estados Unidos) impulsionou um debate paradigmático no campo jurídico e judicial relativo aos direitos da Natureza, especialmente do direito das árvores, com a tese de Christopher D. Stone publicada no artigo «Should tree have standing? Toward legal rights for natural objects» (Deveriam as árvores ter legitimidade para estar em juízo?) (Gordilho e Silva, 2012). Entretanto, o caso de Sierra Club não se judicializou com fundamento constitucional.
112 Podem ser mencionadas as seguintes ações: em 2011, Medida Cautelar (nº 0016-201) em favor dos direitos da Natureza em razão da contaminação provocada por atividades ilegais de mineradoras em San Lorenzo/Esmeraldas as quais causaram danos aos rios da região e impactos à saúde da população local. Em 2012, Medida Cautelar (nº 269-2012) em favor dos direitos da Natureza em razão da ampliação de uma via
124 Embora alguns tenham contado com sentenças favoráveis ao reconhecimento da Natureza como sujeito de direitos, o tema ainda desafia o campo da justiça. Além disso, a questão que se coloca, para além do reconhecimento judicial da Natureza como sujeito de direitos, está no plano da sua aplicabilidade. Segundo Suárez (2013), para que se cumpram as normativas constitucionais, relativas aos direitos da Natureza, torna-se necessário contar com instâncias judicias especializadas e formadas por operadores de justiça com experiência no tema; capacitar autoridades públicas e operadores de justiça capazes de aplicar a normativa constitucional; e garantir normas que outorguem conteúdo aos preceitos constitucionais que reconhecem a Natureza como sujeito de direitos (Suárez, 2013: 12).
O sistema judicial e os conflitos coletivos territoriais
Outra temática que tem envolvido o sistema judicial equatoriano, diz respeito aos conflitos entre comunidades indígenas/afrodescendentes e empresas extrativistas (madeireiras, palmicultoras, camaroneiras e mineradoras). Dos estudos encontrados sobre o assunto, depreende-se que, comparativamente ao universo de conflitos existentes no país, ainda são poucos os casos levados ao judiciário.
No estudo realizado por Carrión (2011), das oito denúncias de conflitos territoriais e socioambientais levadas à Defensoría del Pueblo113, apenas dois casos restaram judicializados.114 Por sua vez, no estudo realizado por Minda (2002), de um
pública na Ilha de Galápagos. Em 2013, Acción de Protección (nº 2013-0055) por violação dos direitos do Río Blanco devido a atividades mineradoras, bem como Medida Cautelar (nº 08242-2013-0053) para remediar a contaminação das águas do estero Wincheles em Esmeraldas devido a ruptura de um oleoduto (Melo, 2012b; Bedón, 2017).
113 A Defensoría del Pueblo tem como função a proteção e a tutela dos direitos humanos de acordo com o estabelecido no artigo 215 da Constituição da República de 2008. Entre suas atribuições, destacam-se: patrocinar ações judiciais (ações de proteção; habeas corpus; habeas data; ação de descumprimento, etc); receber denúncias de casos de violações de direitos humanos; investigar e resolver, no marco de suas atribuições, ações ou omissões de pessoas naturais ou jurídicas que prestem serviços públicos (artigo 215, itens 1, 2, 3 e 4 da CRE/08).
114 O primeiro, refere-se à contaminação hídrica por exploração petroleira na região amazônica equatoriana, em que 86 famílias das comunidades de Vía Los Tetetes apresentaram, em 2005, uma demanda judicial contra a Petroecuador por danos ambientais. O segundo caso, também incide sobre problemas de contaminação envolvendo atividades mineiras nas regiões de Eloy Alfaro e San Lorenzo. Nesse caso, a
Defensoría del Pueblo, em 2011, interpôs Medida Cautelar (n°58-2011). A decisão do juiz de San Lorenzo (Julgado Sexto de Garantias Penais de Esmeralda, proferida em 24.03.2011) foi considerada emblemática conquanto determinou a suspensão imediata das atividades mineradoras em favor das comunidades afetadas. Todavia, em razão da medida cautelar não ter sido aplicada, em 2017 foi apresentada uma Ação de Descumprimento à Corte Constitucional. Informações sobre o caso podem ser encontradas em: mathttps://www.youtube.com/watch?v=CX_Lj68gIbI&feature=youtu.be (19 de fevereiro de 2018).
125 universo de nove conflitos mapeados, dois foram judicializados contra o Estado e empresas extrativistas.115 O conflito levado às instâncias judiciais mais conhecido no Equador e com forte repercussão internacional, refere-se ao caso da Chevron-Texaco, apresentado pelos povos e nacionalidades indígenas contra a transnacional petroleira em razão da contaminação à varias comunidades locais.116
Durante o trabalho de campo, advogado/as e especialistas afirmaram que existem poucas demandas, no Equador, levadas ao judiciário por parte de comunidades ancestrais para defender seus territórios da atuação do Estado e de empresas extrativistas.117 O advogado e professor Ramiro Ávila afirma que, via de regra, as comunidades ancestrais e os movimentos sociais do país não priorizam a judicialização de suas lutas. Segundo ele, a maioria dos conflitos coletivos – como aqueles relacionados ao extrativismo de empresas mineradoras sobre os territórios ancestrais – são resolvidos por meio de pressão social, protestos de rua e marchas públicas. Uma das razões, segundo Ávila, está relacionada ao fato de esses grupos sociais possuírem uma enorme desconfiança em relação aos advogados e ao sistema judicial do país, considerando, portanto, mais eficaz a ‘luta nas ruas’, «tomando las calles»,do que nos tribunais.118
Portanto, um mapeamento e análise mais aprofundado sobre os conflitos por território/socioambientais, judicializados no Equador, ainda carecem de atenção por parte dos estudos sociojurídicos. O mesmo vale para os casos judicializados pela Natureza como sujeito de direitos.
115 São os casos envolvendo os territórios ancestrais afro-equatorianos de Comuna Rio Santiago-Cayapas
e Comuna San Francisco del Onzole y Arenales, localizados no norte de Esmeraldas. Tratam-se de conflitos relacionados a disputas por territórios e recursos naturais motivados, no primeiro caso, pela compra de parte do território por empresas madeireiras e, no segundo, pela sobreposição de títulos de propriedade sobre território ancestral (título emitidos pelo INDA a camponeses sobre área de comunidades afro-equatorianas). Ambas ações foram mobilizadas pelas comunidades afetadas, a fim de anular a escrituras de compra e venda, no primeiro caso, e anular os títulos de propriedade, no segundo caso.
116 Após décadas de batalha judicial, em 2017, Chevron obteve uma vitória na Suprema Corte dos Estados Unidos para não pagar uma indenização aos cidadãos equatorianos. El Universo, 19/06/2017. Disponível em:https://www.eluniverso.com/noticias/2017/06/19/nota/6239155/victoria-chevron-caso-contaminacion-ecuador-concede-corte-suprema (30 de abril de 2018).
117 Entre os casos que foram mencionados pelos entrevistados estão o da Federación de Organizaciones Campesinas del Cordón Fronterizo Ecuatoriano de Sucumbíos (Forccofes); o da Comuna Río Santiago-Cayapas (já mencionado na nota de rodapé 115); o da Comunidad de Wimbí e o caso do Pueblo Kichwa de Sarayaku.
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