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Direito e globalização contra-hegemônica 15

No documento Flávia Carlet A : (páginas 41-45)

Capítulo 1. Epistemologias do Sul, mobilização do direito e lutas por território lutas por território

1.2 Estudos sociojurídicos críticos

1.2.1 Direito e globalização contra-hegemônica 15

Em seu artigo «Poderá o direito ser emancipatório?», Boaventura de Sousa Santos (2003a) analisa a globalização a partir da ideia de uma zona de confrontação entre

12 Ferreira e Pedroso (1999) salientam que essas duas correntes sofreram a crítica de não conseguir, em muitos casos, distanciaram-se de uma epistemologia positivista.

13 O termo ‘uso alternativo do direito’ foi originalmente criado por juristas progressistas italianos para expressar uma interpretação judicial das normas de modo democrático e em favor das classes trabalhadoras. No contexto latino-americano, o termo foi adotado para designar a atuação de advogados e defensores das causas dos movimentos sociais e grupos populares com o objetivo de «que la normatividad y su aplicación por parte de los tribunales e instancias administrativas favorezca a los intereses del pueblo o clases dominadas» (De la Torre Rangel, 1991: 04).

14 O Direito Achado na Rua, linha teórica criada por Roberto Lyra Filho em 1986, é uma referência na literatura sociojurídica crítica sobre a atuação dos novos sujeitos coletivos e suas práticas sociais instituintes de direitos. Referência de trabalhos científicos que têm aprofundado essa perspectiva teórica, ver Tokarski, 2009; Fonseca, 2016; Martins, 2015; Escrivão Filho e Sousa Junior, 2016.

15 Uma versão preliminar dessa seção foi publicada no artigo intitulado «Novos prismas para a análise da advocacia popular no Brasil no contexto da luta pelos direitos humanos», ver Carlet, 2013. Para esta tese, entretanto, o texto sofreu alterações, revisões e ajustes.

42 projetos hegemônicos e contra-hegemônicos. O projeto hegemônico apresenta-se representado pela emergência da globalização hegemônica neoliberal, uma versão recente do capitalismo que, a partir da década de 1990, passou a impor-se globalmente, sustentada por uma ideologia contrária à distribuição de riquezas e à inclusão social (Santos, 2003a: 12). No projeto de globalização hegemônica neoliberal, o direito hegemonicamente vigente não faz mais do que «fixar o quadro em que uma sociedade civil baseada no mercado funciona e floresce, cabendo ao poder judiciário garantir que o Estado de direito é amplamente aceite e aplicado com eficácia» (Santos, 2003a: 11). Nesse projeto, o direito está alicerçado numa concepção conservadora e «despolitizada da mudança social cujo único critério é o Estado de direito e a adjudicação judicial a um sistema judicial honesto, independente, previsível e eficaz» (2003a: 10-11).

Por sua vez, o projeto contra-hegemônico manifesta-se por meio de um ativismo social contestador dos projetos da globalização neoliberal, protagonizado por organizações, redes, movimentos e comunidades do Sul Global que, por meio de suas lutas, vêm resistindo à hegemonia do capitalismo e produzindo alternativas a ele. Se a globalização hegemônica propagou o mesmo sistema de dominação e de exclusão, por outro lado,

criou as condições para que forças, organizações e movimentos contra-hegemônicos localizados nas mais diversas partes do mundo se apercebessem da existência de interesses comuns nas próprias diferenças e para além das diferenças que há a separá-los, e que convergissem em combates contra-hegemónicos consubstanciadores de projectos sociais emancipatórios distintos mas relacionados entre si (Santos, 2003a: 11).

Com suas práticas de contestação e resistência em prol da justiça e da inclusão social, esses grupos promovem iniciativas e projetos – dentro ou fora das fronteiras do Estado – e por isso são denominados como globalização contra-hegemônica (Santos e Garavito, 2007: 18). Para atingir suas demandas, atuam tanto por meio de estratégias legais, como ilegais ou não legais (desobediência civil, boicotes, ocupações, ações diretas) (Santos e Garavito, 2007).

Seja em âmbito local, nacional ou transnacional, essas lutas cosmopolitas subalternas conferem ao direito uma dimensão não-hegemônica, porque buscam combater «as sequelas económicas, sociais e políticas da globalização hegemónica, mas também porque desafiam a concepção de interesse geral que lhe está subjacente e propõem uma concepção alternativa» (Santos, 2003a: 27). Dessa forma, por um lado, o direito tem-se constituído em instrumento hegemônico para os projetos da globalização neoliberal, por outro, tem tido um papel significativo junto aos projetos emancipatórios

43 dos grupos subalternizados «cujas reivindicações e critérios de inclusão social se projetam para além dos horizontes do capitalismo global» (Santos, 2003a: 29).

À iniciativa por parte desses grupos cosmopolitas subalternos, de usar estrategicamente o direito em favor de suas lutas, Santos denominou de legalidade cosmopolita subalterna. Trata-se do conjunto de projetos e lutas de caráter cultural, político e social protagonizados por iniciativas, organizações e movimentos que encontram no direito do Estado um componente significativo para o combate à exclusão social gerada pela globalização hegemônica neoliberal (2003a: 35-36).

O cosmopolitismo subalterno considera o direito como um elemento de luta e, nesse caso, este assume uma dimensão simultaneamente jurídica e política. Quando os grupos sociais fazem uso do direito de modo a impulsionar, a garantir suas reivindicações coletivas por meio de estratégias jurídicas, impulsionadas não apenas pelas ferramentas formais do direito, mas também por uma intensa mobilização social/política – estamos diante de uma legalidade cosmopolita subalterna, a qual «pretende ampliar el canon jurídico más allá de los derechos individuales y se concentra en la importancia de la movilización política para el éxito de las estrategias basadas en los derechos» (Santos e Garavito, 2007: 20).

Muitas são as práticas e as lutas jurídicas em diferentes continentes que hoje levam a cabo essas condições. Elas colocam a legalidade cosmopolita em ação e fazem do direito ordinário/estatal uma ferramenta importante na garantia, exigibilidade e aplicabilidade de direitos. A legalidade cosmopolita subalterna, portanto, a) reconhece que as profundas assimetrias de poder entre os diferentes atores e instituições demandam uma ação de cunho coletivo para alcançar as mudanças necessárias dentro do direito; b) reivindica uma concepção de campo jurídico voltada a conectar o direito com a política, para imaginar instituições jurídicas ‘a partir de baixo’; c) considera relevantes não apenas as estratégias legais e os caminhos institucionais, mas também aqueles considerados ilegais ou não-legais, mobilizados pelos movimentos sociais para alcançar suas demandas (Santos e Garavito, 2007: 19).

Para Santos (2003a), ao menos quatro pressupostos conformam o caráter central da ‘legalidade cosmopolita subalterna’ e as condições necessárias, para que o direito possa assumir um caráter de emancipação social. Entre os pressupostos que orientam as práticas da legalidade cosmopolita subalterna no uso do direito como estratégia legal de luta, estão: 1) Usar o direito de forma contra-hegemônica, de modo que as ferramentas jurídicas hegemônicas devem ser utilizadas para fins não-hegemônicos, o que significa

44 que o direito estatal e os direitos individuais (conceitos hegemônicos de direito) não devem ser excluídos ou desprezados das práticas jurídicas cosmopolitas, pelo contrário, devem ser considerados como aliados no combate jurídico-político; 2) Integrar as ferramentas jurídicas hegemônicas em mobilizações políticas mais amplas, de modo a permitir o seu uso de forma não-hegemônica ou contra-hegemônica, por meio de mobilizações políticas legais ou ilegais; 3) Buscar garantir os direitos humanos fundamentais daqueles indivíduos e grupos que estão em situação de exclusão social mais ou menos extremas.

Santos ainda adverte que as formas não-hegemônicas de direito não promovem necessariamente a legalidade cosmopolita subalterna, podendo até mesmo estar a serviço do direito hegemônico, aprofundando a exclusão social, isto é, as formas não-hegemônicas não são automaticamente contra-não-hegemônicas (Santos, 2003a).

Após quinze anos da publicação do artigo “Poderá o direito ser emancipatório?”, a pergunta segue com vitalidade. Como o próprio autor vem advertindo, a indagação continua a demandar um esforço teórico e empírico por parte de investigadore/as interessado/as em contribuir para a formulação de possíveis respostas ao caráter emancipatório do direito.16 Santos permanece sustentando que a indagação ao caráter emancipatório do direito não pode ser contestada com um simples ‘sim’ ou ‘não’, mas tem sido mais enfático quanto à importância de se levar em conta as especificidades dos grupos e movimentos em luta; as pautas e reivindicações em constante mudança; o lugar onde essas lutas sociais estão a se realizar (por dentro ou por fora das instituições) e o contexto político em que se encontram.

Em uma de suas investigações mais recentes, Santos testou tal pergunta junto a representantes dos protestos de rua emergidos entre 2011 e 2013 – a exemplo do Ocuppy Wall Street, das Jornadas de Junho e da Primavera Árabe – a fim de averiguar se os pressupostos que defendeu há mais de uma década sobre o caráter emancipatório do direito se aplicavam a esses grupos. O resultado mostrou que, para esses movimentos (os quais promovem ações diretas e iniciativas anti(extra)-institucionais, mesmo em contextos democráticos), «o direito estatal nas sociedades capitalistas nunca foi tão radical e destrutivo para a vasta maioria das nossas sociedades como é hoje» (Santos,

16 Com tal intento, foi publicado o Dossiê “Revisitando o Poderá o Direito ser emancipatório?”, o qual compila um conjunto de artigos científicos de investigadore/as latino-americano/as sobre o caráter emancipatório do direito a partir de distintos campos de observação. Ver Santos e Aragón, 2015.

45 2017b: 368), de modo que não faz sentido falar de um ‘caráter emancipatório do direito’ ou considerá-lo como instrumento de emancipação social e ferramenta de luta.

Para Santos, o que esses grupos advertem é que vivemos uma mudança de época em que as instituições democráticas foram ocupadas (e dominadas) por grupos e interesses não-democráticos, de forma que – embora vigentes – essas instituições não desempenham as funções para as quais foram criadas (2017b: 361). Por outro lado, assinala, isso não quer dizer que não seja mais possível utilizar o direito como instrumento de emancipação social, mas que as condições para a potencialidade emancipatória do direito estão cada vez mais reduzidas face à «emergência de um novo tipo de autoritarismo no seio de sociedades politicamente democráticas» (Santos, 2017b: 377), particularmente pela degradação institucional dos Estados, pelos retrocessos de conquistas sociais e de direitos à cidadania e pela expansão de poderes políticos antidemocráticos. Trata-se de uma perda, portanto, das condições para que o caráter progressista do direito se manifeste, seja em países centrais, periféricos ou semiperiféricos (Santos, 2017b).

Entretanto, diferentemente dos representantes dos protestos de rua, para as lutas estudadas nessa tese, faz sentido falar do direito como instrumento de emancipação social. As comunidades negras La Chiquita e Marambaia estão lutando pelo direito coletivo ao território a partir de uma mobilização pró-ativa do direito estatal, isto é, por meio do recurso aos tribunais e ao sistema normativo como ferramenta estratégica de luta jurídica e política para exigir e garantir a aplicação dos seus direitos, consagrados em legislações nacionais e internacionais.

Nesse sentido, a seguir, abordarei o tema da mobilização do direito enquanto estratégia de atuação jurídica de movimentos sociais, indivíduos, grupos, ONGs e advocacias coletivas do Sul Global, em escala local, nacional ou transnacional.

No documento Flávia Carlet A : (páginas 41-45)