A cidade do Crato no que se refere aos problemas ligados à falta de moradia teve seu desenvolvimento a partir de um processo desigual de desenvolvimento da urbe que possibilitou a concentração da propriedade privada da terra nas mãos dos proprietários fundiários e dos incorporadores imobiliários, dificultando o acesso à moradia pelas famílias mais pobres da cidade. Ao longo do desenvolvimento urbano da cidade, as famílias pobres tiveram dificuldades de acesso à moradia. Os pobres da cidade tiveram na organização e na luta a única saída para a conquista do direito à moradia.
O Crato, de acordo com o Plano Diretor Municipal (2005), contém cerca de 30 bairros. Na cidade, cerca de quinze áreas estão circunscritas nas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), que são áreas propícias a políticas habitacionais no município, devido o baixo índice de urbanização e o agravamento de problemas sociais ou como destaca a fala de um dos representantes do poder público municipal, as chamadas áreas subnormais.
Quando fizemos o nosso plano diretor de desenvolvimento urbano, e mais recentemente, quando fizemos a revisão do plano diretor, no plano diretor municipal, nós elencamos mais de 20 áreas que nós consideramos como assentamentos subnormais que são, áreas que tem baixíssimo índice de urbanização, uma área que é quase toda considerada uma zona especial de interesse social. Nós temos a Batateira, nós temos o bairro cacimbas, o Santa Luzia, que é conhecido como Baixada Fluminense, nós temos a Vila Cachumbo, a Vila Torta, nós temos a ocupação da área próxima à antiga fábrica de milho na Vila Alta né, naquele bairro,
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ali também é uma área de interesse social. (Entrevista – Representante do poder público municipal, 2014).
As áreas consideradas zonas de interesse social no Crato são: Alto da Penha, Baixada Fluminense, Barro Branco, Batateiras, Cacimbas, Gesso, Matadouro, Muriti, Pantanal, Rabo da Gata, São Miguel, Seminário, Vila Lobo, Vulcão, Novo Horizonte. Dentre essas quinze, algumas são bairros, outras são áreas dentro dos bairros29. Quer dizer, quase metade dos bairros da cidade contém problemas de cunho social, como a favelização, caracterizada pelas moradias precárias, falta de emprego, alto índice de vulnerabilidade socioambiental30, proliferação de lixões, falta de saneamento básico e rede de coleta de esgotos.
Esse dado revela tão somente que a cidade do Crato foi materializada por uma série de ocupações que caracterizaram a formação dos bairros periféricos do núcleo central urbano da cidade, tendo na organização e na força interventiva dos movimentos sociais de luta pela moradia a expressão de ocupações de terrenos para a conquista do direito à moradia. Essas ZEIS marcaram a institucionalização da segregação e dos problemas urbanos na cidade, sendo instituídas no Plano Direto Municipal (PDM – Crato) e no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) da cidade, que delimitaram as quinze áreas da cidade consideradas como zonas especiais, conforme o mapa 02.
29 Dentre as quinze zonas especiais de interesse social no Crato, as ZEIS Alto da Penha, Barro Branco, Batateiras, Cacimbas, Muriti, São Miguel, Seminário e Vila Lobo são de acordo com a planto oficial do município considerados bairros, totalizando 08 bairros na cidade que enquadram-se como Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). As outras cinco são áreas segregadas dentro de outros bairros da cidade.
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No mapa anterior, elaborado pela Prefeitura Municipal do Crato, a partir do Plano Diretor Municipal (PDM) que compõe o Plano de Estruturação Urbana, ressalta-se as ZEIS como instrumento responsável por identificar e institucionalizar as áreas que contêm problemas de cunho estruturante na área urbana da cidade, delimitando, assim, as zonas especiais que merecem um tratamento com maior atenção por parte do poder público, principalmente no quesito habitabilidade31.
Esses bairros, elencados no mapa acima como áreas de interesse social, são, na verdade, fruto ou surgiram a partir das ocupações dos movimentos sociais de luta pela moradia ou mesmo de ocupações isoladas de pessoas que provinham de outras regiões ou que estavam sem condições de pagar um aluguel ou de comprar uma casa. A maioria das pessoas que residem nessas áreas não tem emprego formal, compondo o que Karl Marx denominou ―exército industrial de reserva‖. Essas pessoas atuam nos ramos da construção civil, como empregados domésticos, catadores de lixo, quase sempre, nos chamados ―bicos‖, que são uma forma de sobrevivência e de reprodução social.
Essas ocupações das populações de baixa renda, na maioria dos casos, se dão em áreas de pouco interesse do mercado imobiliário, pois são áreas de encostas, morros, próximas a lixões, córregos de esgoto, de deslizamento, são áreas que não criam uma valorização do espaço, devido à baixa taxa de urbanização e a falta de equipamentos de uso coletivo, como veremos na imagem a seguir.
Existem, ainda, bairros na cidade do Crato, conhecidos por serem áreas nobres ou da classe média, como os bairros Grangeiro, Lameiro, Mirandão, Santa Luzia, que também detêm áreas que foram ou são fruto do processo de ocupação das classes mais pobres, ocupações coletivas ou meramente isoladas, circunstanciais e pontuais, aonde moradores chegam e ocupam determinados terrenos que não estão cumprindo sua função social.
[...] nós temos, na verdade, em quase todos os bairros do Crato, existem zonas especiais de interesse social, até no Parque Grangeiro que é considerado uma área nobre, nós temos uma faixa de cima que é ocupação, que é característica de zona especial de interesse social, inclusive esses áreas estão mapeadas e nomeadas em nosso mapa urbano. (Entrevista – Representante do poder público municipal, 2014). O depoimento acima, de um representante do poder público municipal, evidencia claramente como a produção do espaço urbano da cidade se dá em relação ao processo de uso e ocupação do solo urbano. Em sua fala percebe-se que a segregação sócio-espacial é um
31 Entende-se por habitabilidade, moradias com as mínimas condições necessárias para sobrevivência de uma família, como escola, posto de saúde, saneamento, residência com pavimentos etc. Para mais esclarecimentos ver, SOUZA JUNIOR (2007).
elemento importante que está imbricado na produção do espaço da cidade, onde bairros ditos nobres como o Grangeiro, vivenciam também, contradições inerentes ao processo de compra e venda da terra urbana, como as ocupações.
Figura 8: Ocupação de casas pela classe pobre, próximas às áreas de deslizamento, rios ou valas de esgoto – Seminário. Fonte: César Abreu. Data: 02/04/2010.
Na imagem acima, constata-se a realidade da maioria dos bairros periféricos e desprovidos de urbanização na cidade do Crato, fruto da lógica de desenvolvimento desigual das cidades brasileiras. No Crato, por exemplo, segundo depoimento de representante do poder público no legislativo, a cidade não tem rede de saneamento.
Nós temos uma demanda muito grande na cidade, que também está vinculada a questão da habitação que é a do saneamento. A cidade do Crato tem um déficit, aliás, ela não tem nenhum sistema de saneamento; nós temos redes coletoras na cidade, mas não tem um tratamento desses dejetos, eles vão para os leitos dos riachos, das ruas, enfim, o canal do rio Granjeiro é uma grande fossa e a única estação de tratamento que foi construída aqui para tratar os esgotos do bairro da Vila Alta. No primeiro ano de funcionamento, ela rompeu porque a tubulação atravessava o rio Granjeiro, foi rompido e nunca mais parou de receber os dejetos desse bairro. Até o bairro da Batateira (José Pinheiro), que tem um projeto de saneamento que era para interligar essa estação de tratamento, parou, porque a estação não recebe mais os esgotos desses bairros. Então essa é uma demanda, e o Ministério das Cidades tem uma política de financiamento de saneamento e não sei por que a Prefeitura do Crato não tem uma política de saneamento. Tem uma companhia de água e esgoto e não sei por que que não se dá prioridade, pois é fundamental para uma cidade se organizar; organizar seu espaço urbano é tratar do ambiente. Então essa é uma
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demanda importante (Entrevista – Representante do poder legislativo municipal, 2014).
Dessa forma, na cidade do Crato, a urbanização dos bairros periféricos não acompanhou o desenvolvimento urbano da cidade. Esses bairros tiveram no processo de formação a luta dos movimentos sociais de moradia que através de ocupações de conjuntos habitacionais e terrenos vazios a medida de conquista do direito a moradia (OLIVEIRA FILHO, 2013).
Nos subcapítulos seguintes, trataremos da trajetória e percurso do caminho dos movimentos sociais no Crato, enfatizando o papel e a importância da Igreja na consolidação das lutas sociais no Crato e na Região do Cariri.
3.2 A Igreja e a formação do movimento de luta pela moradia
Atuando de forma coletiva organizada, os movimentos sociais na cidade do Crato se efetivaram a partir da década de 1970 e conquistaram espaços de moradia na cidade. Na realidade local, tiveram uma contribuição presente da ala progressista da Igreja, das Comunidades Eclesiais de Base, e dos partidos políticos de esquerda, especialmente PT e PC do B. Mas, de certa forma, esses movimentos diferenciaram-se em alguns aspectos de ações coletivas em outras cidades, como o de não manter uma estrutura organizacional de maior âmbito, ou seja, as ocupações e os movimentos lutavam basicamente por necessidades mais prementes, configurava-se o anseio de resolver os problemas individuais através das coletividades imediatas. Também não surgiram ações para uma articulação mais ampla, uma ―regionalização‖ dos movimentos sociais de luta pela moradia. O que tem acontecido são mobilizações com caráter pontual.
Nesse sentido, entende-se que a trajetória da luta pela moradia na cidade do Crato foi marcada pelo grande numero de ocupações dos movimentos sociais de luta pela moradia, instigadas pelas mínimas condições de sobrevivência, o autoritarismo da ditadura militar e a proliferação de condições subumanas em que a classe trabalhadora se encontrava. Nesse período, entre as décadas de 1980 e 1990, tivemos no Crato a conjuntura de maior efervescência dos movimentos sociais, protagonizando novas formas de luta e manifestações, principalmente contra o Estado, que não cumpria suas funções enquanto instrumento que pudesse garantir os direitos do povo. Passeatas, caminhadas, ocupações, dentre outras formas