3. L IBERDADE E S OFRIMENTO NO U RBANO , RELAÇÕES COM A E STIMA DE L UGAR
3.3 As contradições do urbano: liberdade e sofrimento a partir dos afetos
O tema “liberdade” foi escolhido como relevante para esse estudo, pois durante a revisão bibliográfica sobre pesquisas de campo com pessoas em situação de rua, as referências à liberdade se destacaram por serem muito recorrentes, mesmo que nem sempre fosse um tema muito explorado nos textos. Inclusive, no 1º Censo Nacional (BRASIL, 2008), a preocupação com a liberdade é citada como o principal motivo para quase todos que preferem dormir na rua, ao invés do albergue. Para 44,3%, foi a falta de liberdade na instituição, já 27,1% queixaram-se do estabelecimento de horários, e 21,4% citaram a proibição do uso de álcool e outras drogas. Todos esses motivos referem-se à sensação de liberdade mencionada pelas pessoas em situação de rua em vários estudos.
A liberdade, tal qual falada pelos moradores de rua, é problematizada em quase todos os trabalhos consultados. Kasper (2006) questiona se a pessoa na rua pode afirmar que libertou-se da casa, família e trabalho, se não seria mais coerente dizer que perdeu-os. Quintão (2012) cita o renomado economista indiano Amartya Sen, quando afirma que a pobreza está ligada à privação de liberdade, logo, numa análise macrossocial, não se pode falar em liberdade entre as pessoas, pois vivem em situação de extremas privações. Gomes (2006, p. 67) formula uma interessante síntese dessa questão quando diz:
Caberia problematizar a ideia romântica de rua como espaço de liberdade, logo a possibilidade de "escolha" pela rua. [...] ao nos reportarmos ao contexto brasileiro, será que poderíamos falar em uma escolha pela rua? A questão é: as pessoas têm a possibilidade ou condições de escolher onde querem ficar?
Na pesquisa realizada por Campos (2012), a convivência familiar e dos locais de albergamento foi apontada como contraponto ao valor da liberdade experimentada na rua. As relações entre as instituições e a população de rua mostram, por um lado, as dificuldades do convívio social nas relações íntimas e, por outro lado, as formas de opressão que são praticadas nessas relações. Varanda (2003) ressalta ainda que estar longe da família significa liberdade também em não precisar ser referência de moralidade. Assim, a condição de rua é associada à liberdade no sentido de representar o poder de se apropriar do tempo e do espaço. Alguns respondentes, porém, fazem uma análise que esse tipo de liberdade às vezes custa muito caro, visto que a rua também é lugar de perdas, sendo nela encontradas a miséria e a violência. Na rua, a liberdade não deixa de impor limites.
Há ainda uma análise das referências à liberdade na rua que parece moldada nos valores neoliberais da vida na cidade. Alguns autores fazem referência a isso. Costa (2008) mostra como o paradigma liberal é fundado na desigualdade nas relações, pois só permite o
laissez faire, laissez aller, laissez passer (do francês: deixai fazer, deixai ir, deixai passar)
para aqueles que possuem certo grau de autonomia econômica, somente eles gozam do que seria a liberdade numa visão liberalista. Entretanto, para aqueles que não reúnem condições suficientes para seu autossustento, pesa a vulnerabilidade diante do outro. Ela fala de uma liberdade individualizante, que parece ver esse outro como ameaçador de uma liberdade pessoal. Essa sensação neoliberal de liberdade, que vivemos hoje, parece também ser buscada nas ruas. Graziolla (2011) inclui a aspiração de encontrar liberdade através do trabalho, identificada na população em situação de rua, no que chama de tramas socioeconômicas da estrutura social, de ordem neoliberal. É um trabalho onde se busca alguma liberdade, mas que também exige muito esforço. Mattos (2006) concorda com esse ponto de vista e diz que o fortalecimento do neoliberalismo fez aumentar o número de pessoas na rua por ter emprestado seu sentido de liberdade a esse público. Ele observa que, de modo geral, a humanidade nunca teve tanta liberdade, porém com inédita insegurança.
Para melhor compreensão da relação entre liberdade e ambiente, mostrou-se relevante também observar como as pesquisas no contexto específico sobre Fortaleza discutem essa temática. Nos estudos encontrados, percebemos que os sentidos de liberdade foram parecidos com as pesquisas em outros contextos, apresentadas acima.
Marinho (2012) destacou a liberdade regulada com relação ao acesso a alguns lugares, pois a territorialização de algumas áreas faz com que determinados lugares não sejam de livre acesso, o que pode gerar violência pela disputa do território. A liberdade foi citada como contraponto ao risco da vida nas ruas de Fortaleza. Langa (2012) observou que a liberdade foi associada em vários aspectos da vida na rua, no uso de drogas, nas escolhas de lugares e companhias, das práticas sexuais. Entretanto, essa condição de sempre dever decidir sobre cada detalhe do cotidiano, também faz aumentar os riscos, e essa liberdade pode ser percebida também como um peso. Moura Júnior (2012) encontra a liberdade associada ao uso de drogas, à fuga de situações familiares opressoras, à possibilidade de esconder-se diante do papel social de criminoso por ter cometido atos infracionais. Entretanto, a pobreza da vida nas ruas implica na restrição das expressões de liberdade, embora haja potencialidades identificadas entre os atores sociais na rua.
Ainda sobre o contexto fortalezense, Rodrigues (2005) percebeu que o desenraizamento das pessoas em situação de rua com as instituições sociais, tais como família, trabalho, comunidade, garante a liberdade e a permissividade nas ruas, ao mesmo tempo, geram também solidão, principalmente nas situações quando o corpo necessita de amparo ou cuidado. Esmeraldo Filho (2010) percebe a expressão dos valores da ideologia liberal entre as pessoas na rua, principalmente o forte individualismo, observado na auto- culpabilização pela situação de rua e na ideia de liberdade como poder para fazer escolhas e ter um crescimento pessoal. O autor questiona os discursos sobre liberdade observados entre as pessoas na rua, pois, diante de uma sociedade marcada por intensas desigualdades sociais, deve-se duvidar que estar na rua resulte de uma opção daqueles que preferem a liberdade que ela proporciona, uma vez que são negadas opções de escolha para essas pessoas. Costa (2013) faz questionamento semelhante, quando afirma que mesmo ouvindo pessoas falarem da rua como escolha pela liberdade, não se pode deixar de ouvir seu sofrimento, suas privações, seu contínuo enfrentamento aos riscos e vulnerabilidades. Precisando ser repensada a defesa do direito das pessoas viverem nas ruas, pois pode justificar a omissão do Estado. Entretanto, a autora lembra que não se podem esquecer os aspectos subjetivos da vida nas ruas, como a ideia de liberdade, pois essa expressão simbólica também precisa ser reconhecida.
Em todas essas obras, os autores referenciam a liberdade como um valor indispensável, uma necessidade, que chega a ser também considerado muitas vezes como um fardo para quem está nas ruas. É inegável que há uma sedução pelo tipo de liberdade experimentado nas ruas, no sentido de estar livre dos principais compromissos que tanto causam preocupações para qualquer pessoa que mora em um domicílio, principalmente quando responsável pela sua manutenção.
Mas a liberdade na rua também foi apontada como possibilidade de fuga de situações de opressão, vividas principalmente no contexto familiar. Sendo a rua considerada também como fator de proteção, o que é mais recorrente entre crianças e adolescestes em situação de rua. Eles optam pela rua em decorrência do fascínio que a liberdade sugere como contraponto às explorações da vida domiciliada, com as quais convivem, tais como abuso sexual, agressões físicas e verbais, exploração da força de trabalho.
Essa liberdade é expressa através da análise da relação desse público com o trabalho é uma das representações mais fortes no relato de quem está na rua. Trata-se do trabalho informal, autônomo, ser o próprio administrador da sua fonte de renda, escolher horários e dias para trabalhar, ser seu próprio chefe. Não é que seja uma população
preguiçosa, mesmo porque o tipo de ocupação que se sujeitam geralmente exige grande esforço físico. Lacerda (2012) fala sobre essa característica em relação ao trabalho de reciclagem, quando o individualismo, trasvestido de defesa da liberdade, constitui-se em empecilho para uma organização social mais sólida, que gere maiores rendimentos e melhores condições de trabalho para o trabalhador em situação de rua.
A valorização dessa forma livre de encarar todos os aspectos da vida parece não ser observada na organização das instituições que atendem a esse público, ou o fato de ser uma organização por si só já seja suficiente para representar um risco à ideia de liberdade das ruas. Em uma das falas, relatada no trabalho de Varanda (2003), há um exemplo característico dessa relação aversiva com as instituições, mesmo aquelas que permitem ao sujeito sair quando quiser. Um dos respondentes faz referência à visão do cadeado colocado no portão para o momento de dormir como algo perturbador, pois, para ele, sugere menor autonomia sobre seus atos.
A prestação de serviço de instituições talvez represente para a população domiciliada um favor que o Estado ou a sociedade civil organizada presta para os “coitados” que estão na rua, entretanto pode ser encarada como uma tutela similar àquela da família, da qual empreenderam fuga. As dificuldades no convívio de uma vida regrada pelos parentes parecem ser similares com aqueles que compõem os locais de acolhimento. Mattos (2006, p.176) resume bem como a população em situação de rua percebe essa relação: “Ou seja, a vida nessas instituições significa a captura de suas vontades e liberdades por forças extrínsecas, vivendo uma domesticação maior na situação de rua do que antes dela”.
Andrade, Costa e Marquetti (2014) apontam as formas contraditórias como a liberdade foi referenciada através da figura metafórica do imã, como algo que consegue atrair mesmo que a pessoa não queira, como um ímã. Nesse caso, a ideia de liberdade experimentada na rua ao mesmo tempo em que é buscada, é também compulsória. Como se fossem na rua, os sujeitos estivessem condenados a viverem esse modelo de liberdade. Matos (2006) relatou um sujeito afirmando que a liberdade também machuca, pois ela lhe é imposta, e reduz as possibilidades de fazer escolhas, é uma liberdade não-livre.
Diante da análise desses estudos, percebe-se que as concepções de liberdade entre as pessoas em situação de rua sugerem que a liberdade tem que ser considerada em sua dimensão dialética da inclusão-exclusão social, pois configura-se como atrativa e opressora, possibilidade e restrições nas escolhas, opcional e compulsória, fuga e exposição a riscos, traz
consigo os contextos macro e microssociais. Essa condição dialética da liberdade da vida nas ruas também é observada na relação com os lugares.
Essas contradições entre ser livre para fazer escolhas na rua como sendo ao mesmo tempo bom e ruim, gerando liberdade e inseguranças, sendo divertido e um fardo. A contestação da liberdade da vida errante se dá por ser apenas parcialmente experimentada na rua, pois é uma condição de obrigatoriedade, é compulsória, e por isso transmuta o conceito de livre-escolha, decisão e vontade, os quais também são contestados pela obra espinosana, que faz sua crítica a partir de uma concepção peculiar sobre liberdade.