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5.5 A hipótese continuísta

5.5.2 As contribuições de Hyams

Os estudos empreendidos por Hyams assumem a hipótese da continuidade, que diz

respeito ao fato de as categorias funcionais já estarem disponibilizadas na gramática mental da

criança desde o início do processo de aquisição de uma língua natural. Hyams (1994) explica

que a ausência de elementos funcionais nos primeiros estágios da aquisição não significa a

ausência dessas categorias funcionais, mas que haverá, ainda, uma aprendizagem lexical

posterior. Desse modo, a aquisição das categorias funcionais se dá de forma contínua, uma

vez que, segundo a autora, os elementos gramaticais são mais complexos de serem adquiridos,

visto que não possuem conteúdo descritivo.

De acordo com Hyams, a evidência da existência de categorias funcionais na fase

inicial de aquisição da linguagem está na observação de operações sintáticas que possuem as

estruturas funcionais na sentença. De acordo com o arcabouço gerativista, em especial do

Programa Minimalista, os valores dos traços das categorias funcionais são fixados conforme a

exposição da criança aos dados linguísticos relevantes, ou seja, são fixados instantaneamente,

uma vez que o registro das categorias gramaticais está completo desde o início. Assim, a

gramática mental da criança não difere da gramática do adulto, mas a realização dos

elementos da língua, sim.

Muitos trabalhos de Hyams, os quais se iniciam a partir de 1981, evidenciam, por

meio de dados empíricos, a questão da continuidade no processo de aquisição da linguagem.

Para a presente pesquisa, selecionamos os trabalhos de 2001, 2007 e 2008, por apresentarem

uma discussão mais elaborada acerca da aquisição das categorias em estudo.

Hyams (2001) aborda a natureza da opcionalidade de flexão verbal na gramática das

crianças em processo de aquisição da linguagem. De acordo com a autora, enquanto a fala do

adulto pode exigir a realização evidente de elementos como sujeitos e seus determinantes ou

elementos flexionais, como auxiliares, na fala das crianças, parece haver uma omissão livre

desses elementos nas sentenças que elas produzem.

Para tratar da natureza da opcionalidade, Hyams discute o fenômeno do sujeito nulo,

que a leva a confirmar a hipótese de Wexler (1994) sobre fase da opcionalidade do infinitivo,

isto é, ora a criança produz verbos flexionados, ora não produz. Hyams (2001) explica que as

crianças podem deixar os núcleos funcionais, como INFL e D, não especificados, resultando

em uma ausência de finitude no domínio verbal e de especificidade no domínio nominal.

Entre os proponentes não especificados não haveria consenso sobre qual núcleo funcional

poderia ser não especificado, como tempo (verbo) e número (nome), por exemplo. A ideia

básica, porém, é a de que, se não existe uma especificação completa das características

funcionais, então nenhuma ancoragem temporal poderia ser estabelecida na cláusula não

finita.

Hyams (2001), baseando-se em Rizzi (1992), explica que as crianças têm a opção de

não projetar uma estrutura SC completa, o que causaria um truncamento na sentença,

resultando, então, em um truncamento na posição mais abaixo no ST, em uma sentença não

finita. Hyams (2001) explica que esse fenômeno não consiste estritamente em uma análise

morfológica ou semântica, mas sim na interface entre morfologia e sintaxe. Desse modo, a

autora apresenta a Hipótese da Oposição Semântica, na qual as crianças mapeiam os

significados para os elementos em INFL baseadas em uma hierarquia semântica. Nesse caso,

o morfema de infinitivo em línguas como o francês, o alemão e o holandês marca o modo

irrealis (que expressa desejo, necessidade ou possibilidade futura de um evento) e as formas

finitas marcam o modo realis (que expressa o evento no momento presente ou passado)

(HYAMS, 2001). Assim, conforme a Hipótese da Oposição Semântica, na gramática infantil,

o modo irrealis excluiria uma especificação de tempo, visto que as expressões de modo e

tempo estão, conforme a autora afirma, em distribuição complementar no desenvolvimento

gramatical da criança.

Hyams (2001) argumenta que a aparente opcionalidade recorrente na gramática da

criança é uma condição de interface que mapeia oposições semânticas sobre a morfologia de

modo sistemático, de acordo com uma hierarquia particular de cada língua. Assim, infinitivos,

que são temporalmente ancorados na gramática da criança, são bons candidatos para

significados irrealis, e formas finitas são temporalmente ancoradas, expressando noções de

tempo e aspecto, assim como ocorre na gramática do adulto.

Hyams (2007) afirma que as diferenças de flexão de tempo e de modo associadas às

formas verbais no infinitivo, como no inglês, no russo, no grego e no holandês, devem-se ao

fato de as diferenças entre as línguas poderem ser derivadas de princípios universais de

interpretação aspectual e propriedades aspectuais particulares de cada língua. Para argumentar

tais ideias, Hyams se guia pelos dados apresentados na tabela a seguir:

Tabela 2 – Compreensão de características de tempo e modo em orações não finitas por

parte de crianças28

Presente Passado Modal / Futuro

Inglês 65% 25% 8% ns

Russo 26% 48% 26%

Grego ns ns Aprox. 100%

Holandês 10-26% 1% -3% ns 73% - 86%

* Ns não significativo, <10% em todas as crianças.

Fonte: (HYAMS, 2007, p.3)

Conforme se pode observar na tabela, em se tratando da compreensão de sentenças

com verbos flexionados, no inglês e no russo, a interpretação foi predominantemente de

tempo, apresentando percentuais superiores aos relacionados a uma interpretação modal. Já no

grego e no holandês, a interpretação foi predominantemente de modo.

De acordo com a autora, as crianças normalmente produzem eventos passados com

verbos télicos, enquanto a compreensão de eventos no tempo presente é quase sempre

expressa com verbos atélicos, conforme evidenciam os dados da tabela a seguir:

Tabela 3 – Referência temporal e (a)telicidade de verbos infinitos

Interpretação Aspecto

Télico Atélico

Passado 48(94%) 9 (6%)

Presente 16 (15%) 88(85%)

Fonte: (HYAMS, 2007, p. 6)

De acordo com a autora, os dados em inglês são semelhantes aos resultados obtidos

por Brun et al. (1999) para verbos não finitos no russo. De acordo com a autora, em seu

estudo, Brun et al. observaram que todos os verbos russos estão marcados para o aspecto

gramatical, seja na forma perfectiva ou imperfectiva. Brun et al. (1999), citado por Hyams

(2007), mostram que em formas verbais não finitas a perfectividade correlaciona-se com a

referência temporal. Assim, verbos que ocorrem em contextos de pretérito são em sua maioria

perfectivos, enquanto verbos que ocorrem em contextos atuais são imperfectivos, conforme se

pode observar na tabela a seguir:

Tabela 4 – Relação entre a (im)perfectividade e referência temporal (de Brun et al. 1999)

Interpretação Infinitivos Raiz

Perfectivo Imperfeito

Passado 67(94,6%) 4 (5,4%)

Presente 2 (1,7%) 36(98,3%)

Futuro / Modal 40 (53%) 36 (47%)

Fonte: (HYAMS, 2007, p. 6)

A autora assume a proposta de Brun et al. (1999) de que, quando não há tempo, o

aspecto gramatical fornece uma ancoragem temporal para a sentença, mas apresenta uma nova

articulação da relação entre a estrutura do evento e da referência temporal dos verbos não

finitos na linguagem infantil. Com isso, a autora fornece uma conta dos efeitos de telicidade

em inglês, bem como as propriedades modais/temporais dos outros idiomas apresentados na

tabela anterior.

De modo a apresentar uma discussão mais aprofundada acerca da aquisição da

categoria aspecto, a seção a seguir traz as contribuições de Jakobson (1981); Bronckart e

Sinclair (1973); Bloom, Lifter e Hafitz (1980); Kazanina e Philips (2003); Vinnitskaya e

Wexler (2001) e Hyams (2008).