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3.2 Aspecto

3.2.2 O aspecto no auxiliar

O termo auxiliar, em gramática tradicional, designa uma categoria gramatical que

inclui verbos como ter, estar, haver e ser, seguidos de particípio passado ou gerúndio, como

em “ter passado” ou “está fazendo”. Esses verbos constituem, portanto, formas perifrásticas

como “o menino tem estudado muito” ou “ela estava fazendo bolo”.

Os auxiliares se dividem em auxiliares de tempo e auxiliares modais. Os auxiliares de

tempo, ou auxiliares verbais, são seguidos de infinitivo e expressam o desenrolar ou a

conclusão de uma ação, como em “o menino acabou de contar uma história”, em que “acabou

de” designa um aspecto terminativo e imperfectivo, marcando a conclusão de uma ação. Já os

auxiliares modais expressam as modalidades lógicas (contingente versus necessário, provável

versus possível). Os auxiliares modais incluem os verbos poder e dever seguidos de infinitivo,

como em “o menino deve chegar logo pela manhã”.

O termo auxiliar, em gramática gerativa, compreende uma categoria gramatical, que é

um constituinte obrigatório do sintagma de tempo.

De acordo com Wachowicz (2006), os traços semânticos de duração e atelicidade são

responsáveis para que verbos assumam o comportamento de auxiliar. Com isso, a autora

defende a ideia de que a categoria aspecto também estaria nas propriedades do verbo auxiliar.

A autora apresenta argumentos para sua hipótese de que os verbos auxiliares vir, ter e estar

carregam informação de aspecto lexical e gramatical, bem como de uma combinação de

ambos na determinação da noção aspectual de toda a sentença.

A partir de análises do comportamento dos verbos ir, ver e estar, a autora afirma que

esses verbos, no presente, carregam traços aspectuais de duração e homogeneidade, além de

abrirem um intervalo de tempo no qual se é possível agrupar os eventos denotados pelo verbo

principal. Tais argumentos, segundo a autora, permitem duas importantes perspectivas

teóricas, a saber, uma que lida com valores aspectuais lexicais em traços (aktionsart e as

subespecificações ± durativo, ±dinâmico e ±homogêneo) do sintagma verbal, ao passo que os

valores aspectuais gramaticais estariam no nível de categorias sintáticas que operam sobre o

léxico (±perfectivo). Assim, em uma sentença como “o menino tem comprado bala”, o

sintagma verbal “tem comprado” denota aspecto perfectivo marcado na terminação –do, que

indica uma série de “eventos que podem ser contados, pois são completos e terminados”.

(WACHOWICZ, 2006, p. 66).

A segunda perspectiva teórica, segundo a autora, está relacionada à representação do

sistema temporal em que estão presentes os momentos de fala, de evento e de referência,

propostos por Reichenbach (1947). De acordo com a autora, esses momentos explicam as

relações de presente, passado e futuro. Desse modo, conforme explica a autora, o modo como

os tempos se relacionam dependem dos momentos de fala e de evento, ao passo que a relação

aspectual depende da relação entre o momento de evento e o momento de referência

(WACHOWICZ, 2006).

Scher (2007) traz importantes contribuições e observações para proposta de

Wachowicz (2006). A primeira observação apresentada por Scher diz respeito à afirmação

que Wachowicz faz sobre o fato de que os traços de duração e homogeneidade da perífrase

dependem desses mesmos traços no auxiliar. Scher verifica se há duração dos verbos

principais de accomplishment e achievement utilizando o teste de advérbios (por e durante),

proposto por Vendler (1967):

(2) João tem encontrado/vem encontrando/está encontrando Maria durante todos

esses anos.

Em (1), temos verbos principais accomplishments, ao passo que, em (2), temos verbos

principais achievement. No caso da sentença (1), Scher afirma que é surpreendente a boa

relação dos advérbios com o verbo principal de accomplishment, uma vez que os advérbios

mencionados precisam de um escopo sobre uma eventualidade que se realiza por um

determinado período de tempo. Segundo a autora, Wachowicz explica que o auxiliar é

responsável por abrir esse intervalo do momento de referência dentro do qual os momentos de

evento podem ser distribuídos.

A questão levantada por Scher é que a boa formação da sentença em (2) pode ser

explicada em decorrência do traço de duração inerente aos verbos de achievement, sem a

necessidade do uso dos traços de duração e homogeneidade dos auxiliares empregados. Desse

modo, Scher explica que

As eventualidades denotadas por esses verbos não são homogêneas, é fato, mas

precisam se desenvolver em um dado intervalo de tempo e não necessitariam da

ação do auxiliar para abrir o momento de referência, para que os momentos de

evento pudessem distribuir. (SCHER, 2007, p. 12)

Este trabalho adotará a posição de que o aspecto de uma perífrase verbal está

especificado no verbo principal, pois ele é que denotaria a noção (± durativo), implicando nas

noções de (± perfectividade).

A discussão acerca do aspecto do auxiliar se faz importante, uma vez que o uso de

perífrases como “está comendo”, “vou indo”, “tenho me preocupado”, e outras tantas, são

recorrentes no Português Brasileiro. Consequentemente, crianças em período de aquisição da

linguagem estarão em contato com essas perífrases que irão atuar na aquisição das categorias

tempo e aspecto. Em decorrência de tal importância, os testes utilizados na presente pesquisa

se valem de perífrases com “está/estava+gerúndio” para verificar a compreensão das relações

de tempo e de aspecto. Desse modo, essa seção pretendeu apresentar um breve panorama

acerca do aspecto do auxiliar. Tal tema será retomado na descrição e análise dos dados.

Até o momento, procuramos apresentar um panorama acerca das noções de tempo e

aspecto. A seção a seguir pretende direcionar tais noções ao nível de categorias funcionais,

tendo em vista o objetivo da presente pesquisa acerca da aquisição de tais categorias.