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As noções temporais relativas aos advérbios parecem bastante explícitas. Ao dizer

algo como “Ontem comprei banana”, nota-se que o tempo passado é realçado pelo uso do

advérbio de tempo “ontem”. Os advérbios também atuam com noções aspectuais, isto é, com

noções de tempo interno ao tempo, como veremos mais adiante.

Ilari (1985) utilizou dados do projeto NURC (Projeto de Estudo da Norma Linguística

Urbana Culta) para tratar dos advérbios aspectualizadores. Para sua análise, o autor utiliza

duas extensões de advérbios aspectualizadores, a saber, as locuções adverbiais como “às

vezes”, “vez por outra”, “sem parar” etc., e os advérbios e locuções que expressam tempo,

como “antigamente”, “no meu tempo”, “recentemente” (ILARI, 1985, p. 141). A análise de

Ilari é feita a partir das relações semânticas que os advérbios mantêm com o restante da

sentença. Segundo o autor, tais relações se referem ao modo como a sentença é expressa, o

que pode ser afetado pela escolha do predicado, pelo tempo verbal, pela quantificação dos

sintagmas nominais ou pela natureza do advérbio. Segundo Ilari, há uma “estreita vinculação

entre a escolha dos advérbios de tempo/aspecto e das formas verbais”. (ILARI, 1985, p.

143)19. Vejamos o seguinte exemplo:

19 A afirmação de Ilari (1985) concorda com os postulados de Cinque (1999), que também relaciona o advérbio a

noções de tempo e aspecto.

(1) Normalmente, ou pelo menos nos últimos anos, tem havido um acordo entre a classe

patronal e a classe trabalhadora para que se evite o dissídio coletivo.

Para o autor, o uso do advérbio “normalmente” indica um entendimento genérico,

durável, o que seria afetado com a mudança do tempo verbal de “tem havido” para “houve”

ou “vem havendo”.

Ilari (1985) também apresenta uma discussão acerca da dêixis de tempo e da anáfora

temporal. De acordo com o autor,

[...] muitos dos adjuntos20 que veiculam informações aspectuais expressam também

matizes temporais, estabelecendo uma relação cronológica entre o processo referido

na sentença em que ocorrem e outros processos ou momentos recuperáveis a partir

do contexto próximo. (ILARI, 1985, p. 145).

A diferença, portanto, entre a dêixis do tempo e a anáfora temporal, conforme explica

o autor, reside no fato de que a primeira se localiza em momentos ou períodos por referência

ao momento de fala, ao passo que a segunda não. Assim, podemos falar em dêixis apenas

quando a referência ao momento da fala é caracterizada. O autor apresenta o quadro a seguir

para demonstrar a dêixis e a anáfora nas expressões adverbiais de tempo:

Quadro 2 – Dêixis e Anáfora nas expressões adverbiais de tempo

Dêixis Anáfora

Anterioridade Vinte anos atrás

No meu tempo

Vinte anos antes

No tempo de...

Anteriormente, antes

Simultaneidade Agora

Atualmente

Então

Posterioridade No próximo

Agora na Semana Santa

Amanhã ou depois

No... seguinte

Depois, logo, qualquer dia, cada vez mais

Fonte: ILARI, 1985, p. 147

Ilari apresenta uma série de exemplos de sentenças que evidenciam os advérbios que

localizam processos no tempo, enfatizando, especialmente, aqueles que tratam da duração

interna, ou seja, dos que marcam a expressão do aspecto. Em se tratando de Português

Brasileiro, o autor afirma que existem muitas formas de se expressar a duração interna de um

20 Importante ressaltar que Ilari considera os advérbios como adjuntos, o que será refutado por Cinque (1999) ao

lidar com os advérbios como elementos constituintes de projeções funcionais. Sabemos que a abordagem de Ilari

está ancorada em uma corrente funcionalista e, portanto, diferentemente da corrente que fundamenta esta

pesquisa. Entretanto, nos pareceu enriquecedor abordar a teoria proposta pelo autor, que traz importantes

contribuições acerca dos advérbios na expressão do aspecto.

evento, sendo que a escolha por esta ou aquela forma estaria associada a uma noção de

aktionsart21. Tal análise pode ser resumida no seguinte quadro:

Quadro 3 – Processos aspectuais nas Expressões Adverbiais

Processo Definição Expressões Adverbiais

Pontual Todo processo que, ao ser

expresso no perfeito do

indicativo e ao sofrer a

aplicação de adjuntos como

“naquele instante”, continua

sendo considerado em seu todo.

Naquele exato instante

Em doze horas

Há muitos anos

Alguns dias

Cinco minutos

A semana toda

Durável que evoca tempo

empregado

Respondem às perguntas “em

quanto tempo?” ou “quanto

tempo levou para...?”

Em dezoito horas

Em dez minutos

Em poucos instantes

Em seis anos

Duráveis que evocam tempo

escoado

Aplicam-se a predicados cujo

esquema temporal subjacente

envolve escoamento do tempo e

respondem à pergunta “por

quanto tempo?”.

Durante todo o tempo

Os primeiros anos

Passo mais de 48 horas

Passava todo o dia assim

Fonte: ILARI, 1985

A respeito da noção aspecto em advérbios e locuções adverbiais, Travaglia afirma que

os adjuntos adverbiais “têm muito a ver com o aspecto” (TRAVAGLIA, 2006, p. 230). De

acordo com o autor, as expressões adverbiais indicam o aspecto iterativo, o habitual, o

durativo, o inceptivo, o terminativo e o acabado, exercendo, portanto, três funções, a saber: (i)

evitar ambiguidades; (ii) marcar o aspecto por si ou em combinação com outro elemento; (iii)

reforçar um aspecto expresso por outro elemento, tornando-o mais patente. Essas funções

podem ser demonstradas no quadro a seguir:

Quadro 4 – Função das expressões adverbiais na expressão do aspecto

Função Descrição Exemplo22

Evitar

ambiguidades

Evita a ambiguidade na

expressão do habitual pelo

pretérito imperfeito do

indicativo.

Ele falava às dez horas.

A presentificação é feita por um adjunto

adverbial, tornando a sentença ambígua em

relação à interpretação aspectual, que pode ser

durativa cursiva ou habitual. A ambiguidade pode

ser eliminada com o uso de um advérbio de

frequência, que torna a sentença apenas habitual:

Ele sempre falava às dez horas.

21 Verificar definição no Capítulo 2.

(continuação)

Marcar o

aspecto por si

ou em

combinação

com outro

elemento

Quando marca o acabado com o

presente do indicativo ou

quando marca o durativo, o

iterativo ou o habitual com o

pretérito perfeito do indicativo.

Roque não fala mais com você. (acabado)

Antonio procurou você durante a tarde toda.

(durativo)

Ele falou comigo várias vezes. (iterativo)

Aquele menino sempre desobedeceu aos pais.

(habitual)

Reforçar um

aspecto

expresso por

outro

elemento,

tornando-o

mais patente

Ocorre com os aspectos

iterativo e habitual expressos

pelo pretérito imperfeito do

indicativo e o presente do

indicativo.

Às vezes chovia forte.

Fonte: TRAVAGLIA, 2006.

De acordo com Travaglia (2006), os advérbios que atuam na expressão do aspecto são

quase sempre aqueles que indicam tempo ou frequência. O advérbio “já”, utilizado na

aplicação dos nossos testes de eliciação23, parece, segundo o autor, reforçar o perfectivo e o

acabado quando é usado com formas que marcam esses aspectos, ao passo que o advérbio

“ainda” parece fazer o mesmo com o imperfectivo e o não acabado. De acordo com o autor, é

importante lembrar que as expressões adverbiais de frequência, como “sempre”, “todos os

dias”, “às vezes”, “várias vezes”, “muitas vezes”, “aos domingos”, “normalmente”,

“diariamente”, “raramente”, “de tempos em tempos”, combinados com o presente e com o

pretérito imperfeito do indicativo e do subjuntivo indicam, quase sempre, a expressão do

aspecto habitual.

Outra relação a ser observada, segundo Travaglia, é a de que a noção aspectual

condiciona a interpretação que se pode dar à expressão adverbial, como em “Ricardo estudou

há três dias”, em que o aspecto é pontual e determinado, reforçado pelo perfectivo indicado

pelo pretérito perfeito e pela expressão adverbial “há três dias”. Quando o aspecto no verbo

passa para o imperfectivo, como em “Ricardo estudava há três dias”, a troca faz com que o

adjunto adverbial seja condicionado a ter uma interpretação também incompleta.

De acordo com o autor, o adjunto adverbial também pode afetar o aspecto quanto à sua

telicidade, fazendo com que um verbo atélico se torne télico. Travaglia chama a atenção para

23 Testes aplicados nas crianças em processo de aquisição da linguagem, os quais serão descritos no capítulo de

metodologia.

o fato de como determinados adjuntos adverbiais podem transformar um verbo télico em

atélico.

Como já vimos, os verbos télicos designam situações pontuais, enquanto os atélicos

indicam situações durativas. De acordo com Travaglia, isso é praticamente uma regra, mas

não ocorre sempre, pois existem situações durativas expressas com verbos télicos, como em

“emoldurar”, “ler um livro”, “andar 3 km”, “cantar uma música” ou “estudar a lição”. Assim,

Travaglia conclui que não é comum, em português brasileiro, a existência de situações

pontuais com verbos atélicos, mas que é bem possível a existência de situações durativas com

verbos télicos. Nas palavras de Travaglia,

[...] Como explica Comrie (1976), quando combinados com os aspectos da oposição

perfectivo/imperfectivo [...], as possibilidades semânticas dos verbos télicos são

consideravelmente restritas, de modo que certas deduções lógicas podem ser feitas

do aspecto de uma frase que se refere a uma situação télica, que não podem ser feitas

do aspecto de uma frase que se refere a uma situação atélica. Assim, por exemplo, o

perfectivo de uma situação télica implica que um ponto terminal da situação foi

alcançado. (TRAVAGLIA, 2006, p. 58)

Em se tratando da influência dos advérbios/expressões adverbiais em tal mudança,

uma sentença como “a menina estudou” não implica necessariamente que a menina não está

mais estudando, mas, ao acrescentar-se uma expressão adverbial, obtendo-se “a menina

estudou durante a manhã toda”, percebe-se que o verbo passa, de uma noção pontual para

uma noção durativa.

Vimos nas seções anteriores um breve panorama acerca da classificação do advérbio e

do modo como esta classe pode atuar na expressão do tempo e do aspecto, em especial, do

aspecto, trazendo abordagens como as de Ilari e de Travaglia. Vimos que os advérbios

constituem uma classe bastante heterogênea. De modo a afunilar nossas discussões para a

hipótese de que esta classe pode atuar no surgimento e na composição de categorias

funcionais, como tempo e aspecto, a seção a seguir pretende apresentar as especificidades do

Sintagma Adverbial em uma abordagem gerativista, conforme os estudos empreendidos por

Cinque (1999).