4. A ANÁLISE BIOENERGÉTICA
4.1. As críticas mais comuns à psicoterapia corporal
Michael Heller Phd, em seu livro Body Pshycoterapy: History, concepts, methods, no capítulo ―Idealismos e verdades absolutas nas psicoterapias corporais‖, ao buscar as origens da psicoterapia no método dialético socrático apontava a saída idealista de Platão para as aporias socráticas, já como um refúgio no idealismo para as questões existenciais. Ao perceber essa tendência nas origens idealistas da psicoterapia, ele nos alerta dos perigos dessa atitude, sendo um dos principais riscos a tendência do idealismo não se limitar apenas ao âmbito especulativo, mas produzir visões totalizantes que passam a apregoar suas ideias como universais, se tratando de questões políticas e morais o idealismo (HELLER, 2012, p. 88).
Heller percebe que, curiosamente, essas visões se voltam para as questões sexuais e procuram estabelecer tipos ideais de relacionamentos, como ele menciona: ―uma homossexualidade militante em Platão; a castidade com alguns cristãos, ou pelo menos uma separação absoluta do prazer sexual e a necessidade de procriar; a insistência no orgasmo heterossexual com Reich‖ (Ibidem, p. 98). Ao criar modelos ideais de relacionamentos sexuais, ou priorizar um tipo ou outro de contato, os idealistas além da verdade se apropriam dos códigos morais e, geralmente, geram problemas éticos: primeiramente uma postura que não aceita críticas, mas se vê no direito de criticar os outros; em segundo lugar um professor idealista (ou terapeuta) quer influenciar seus alunos em todas as áreas de suas vidas, pois supõe uma validade universal de suas premissas; em terceiro lugar, os idealistas tendem a desrespeitar as decisões coletivas, em nome de princípios que se encontram acima de qualquer discussão (Ibidem).
Infelizmente, afirmou o autor, o idealismo ser tornou onipresente e promoveu muitos abusos por ter se tornado uma visão hegemônica. Na psicoterapia corporal, uma atitude idealista e até fanática foi realizada pelos discípulos diretos de Reich que se tornaram seguidores cegos e se aproximavam de uma ideia de seita. Nesse sentido,o autor elogia a postura de Lowen de ter se afastado, juntamente com Pierrakos, para fundar a Análise Bioernergética. Essa abordagem se consolidou como a primeira escola de psicoterapia corporal com fundamentos, métodos e uma discussão crítica da própria prática. Uma prova disso é que o conceito de bioenergia de Lowen, que inicialmente era usado de forma muito parecida com a energia orgone, aos poucos se tornou um conceito que diz respeito a todo o sistema corporal, aos metabolismos corporais e apsicodinâmica, pois "uma vez que a dinâmica somática é inibida, a atividade metabólica não é mais suficientemente nutrida para sustentar uma atividade orgânica apropriada" (Ibidem, p. 557). A proposta da Análise Bioenergética é restaurar esse livre fluxo de energia.
Todavia, nem todos os neo-reichianos, critica Heller, tiveram a postura de Lowen. No referido capítulo de Body Pshycoterapy, Heller retoma sua crítica ao idealismo, pois ele percebe essa visão em abordagens que tendem a uma espiritualidade romântica e, como exemplo, ele cita o idealismo neo-reichiano presente no pensamento de David Boadella, criador da Biossíntese; Gerda Boyesen, criadora da Psicologia Biodinâmica;e John Pierrakos, criador do Core Energetics. Heller critica esses autores por defendem a existência de uma alma ou essência que faz parte da natureza e que anima os organismos. Nesse contexto, a psicoterapia objetiva resgatar a conexão com a natureza primária do organismo. Heller nos
alerta que esse idealismo chega a ser platônico, pois defende uma natureza humana pura idealizada que foi contaminada pela influência da sociedade. Essa postura é perigosa e retoma posicionamentos filosóficos que já há muito tempo não apareciam, tais como a origem do mal e da existência da dor diante da bondade divina. Essa retomada metafísica oferece riscos a um raciocínio crítico.
Outro problema que reaparece com uma espiritualidade romântica é a busca pela ascensão. Desde o diálogo Timeu e Simpósio, Platão narra a busca pelo encontro com as forças curativas do Eros, que são geralmente uma experiência emocional profunda que pode ser uma amostra do mundo das idéias. Essa vivência profunda de certa forma, tanto em Jung, na experiência do sonho; como em Reich, na experiência do orgasmo; é promotora de uma mudança corporal e gera hamornia no sistema do indivíduo. Heller associa essa busca a alguns processos da psicoterapia corporal.
Alguns psicoterapeutas pensam que quando uma pessoa torna consciente o inconsciente, não apenas a psique funcione melhor, mas todas as outras dinâmicas do organismo. Os psicoterapeutas corporais que adotam esse ponto de vista às vezes têm a capacidade de levar as pessoas a estados quase de transe, que mobilizam o organismo totalmente e que têm uma imensa intensidade de alegria e tristeza surpreendentemente entrelaçadas. Essas experiências têm um impacto hipnótico. Os pacientes que vivem essas experiências subseqüentemente têm uma impressão clara de ter encontrado dentro de si uma vitalidade serena que os acompanhará pelo resto de suas vidas (HELLER, 2012, p. 90). Um problema aqui é pautar a prática psicoterapêutica na catarse, essa é uma das críticas que ele realiza em relação à Análise Bioenergética que é expressa em uma das preocupações para se trabalhar com corpos contemporâneos, a intenção de não gerar a couraça secundária.
Ainda refletindo sobre essas experiências de grande expansão e sobre alcançar estados alterados de consciência, Heller levanta alguns estudos da psicologia transpessoal, especialmente a da experiência transpessoal. Esse aspecto transpessoal é um dos mais interessantes em relação às vivências, pois os indivíduos podem retornar à terapia para experimentar estados alterados. Para pensar o uso da psicologia transpessoal na educação, a prof. Dra. Vera Pesseguini Saldanha se dedicou a compreender a amplitude da experiência transpessoal. Para ela, essa experiência se caracteriza por trans+passar= ir além da identidade individual e expandir-se para a dimensão da humanidade, da vida, na qual a psyché percebe a vida além da dualidade ―onde acontece a vivência da unidade, da não separatividade, denominada de experiência transpessoal‖ (SALDANHA, 2006, p. 88). Heller problematiza as
bases dessas vivências e questiona a importância de promovê-las e também a possibilidade de ser manter esse equilíbrio, ou de sustentar esses estados de consciência em meio às intempéries do mundo. Essa é uma das questões que Lowen levantou sobre o trabalho que Reich fazia com seus clientes quando focava na liberação do reflexo orgástico e na idealização do caráter genital. Em Alegria, Lowen busca no grounding a sustentação tanto para dar suporte às experiências consideradas negativas, quanto para sustentar o prazer e a alegria.
Para pensar a desvairada busca por harmonia e equilíbrio, ele se questiona: Deveria sempre um tratamento buscar a harmonia? Para ele, na cultura grega antigajá havia essa questão sobre o objetivo de um tratamento ser a harmonia do organismo e, para aprofundar essa perspectiva, recupera os Ritos da Primavera, especialmente para pensar a noção de ciclos e recuperar as fases do método dialético que, desde Heráclito, inclui o caos como parte do processo vital. Assim, uma situação caótica como o adoecimento pode ser uma oportunidade para o sujeito entrar em uma forma de vida mais harmônica. (HELLER, 2012, p. 93)
David Boadella, em seu artigo A Rewiew of Michael C. Heller´s Body Pshycoterapy: History, Concepts, Methods, elaborou um tipo de resposta às objeções de Heller. Primeiramente, sobre a presença de práticas psicoterapêuticas que realizam uma ampla discussão sobre os riscos de se estimular catarses, Boadella compartilha dessa preocupação, mas alerta que Heller não menciona trabalhos importantes sobre o tema, como os de Robert Lewis. Boadella critica o fato de Stanley Keleman, um dos neo-reichianos mais importantes, ter sido mencionados muito brevemente. (BOADELLA, 2012).
Além disso, Boadella afirma que as observações de Heller sobre outros pós- bioenergéticos são mínimas e não reconhecem os avanços dessa abordagem no século XXI.Heller omitiu uma informação importante,a referênciade queDonald Winnicott, na Inglaterra, foi quem usou pela primeira vez o termo ―grounding/aterramento‖ em relação a conectar a psique ao corpo. Também não há referência alguma ao tabalho pioneiro de Pierre Janet em psicoterapia corporal, do artigo de Courtenay Young, intitulado The History and Development of Body-Psychotherapy: The American Legacy of Wilhelm Reich. (Ibidem, p. 43).
É inegável a contribuição da obra de Heller para fundamentar e também rever os métodos da psicoterapia corporal, mas as considerações de Boadella são muito bem fundamentadas e devemos considerar que, como uma prática não dogmática, a psicoterapia
corporal deve sempre ser revisitada para que se esclareçam suas bases e fundamentos e a sua prática seja capaz de responder às demandas da sociedade atual, seja no âmbito da clínica privada, da saúde coletiva ou, no caso de Corposofia©, como um processo somático de sensibilização de questões filosóficas fundamentais.