3. CORPOSOFIA©: ENCONTRANDO UM LUGAR PARA O CORPO NA HISTÓRIA DA
3.2. O cuidado de si: uma perspectiva integrada do corpo na Antiguidade
Além de nos trazer elementos para problematizar a relação corpo e mente, a forma como a cultura grega antiga relacionou-se com o corpo se apresenta de forma mais integrada do que nos períodos posteriores. Como discutiremos no tópico dedicado a Nietzche, a cultura helenística tomava os instintos corporais de forma bem mais natural do que o período medieval e moderno.
O filósofo francês Michel Foucault (1926–1984), ao buscar a forma com que o corpo era tratado na Antiguidade Clássica, em seus escritos como Tecnologia deSi, Hermenêutica do sujeito e no terceiro volume de História da sexualidade,ressaltou que esse período histórico não pensoua epiméleia heautoût, que traduzimos como o cuidado de si, a partir de uma visão dicotômica corpo versus alma, mas a partir de uma relação corpo e alma. Para além do dito socrático do ―conhece-te a ti mesmo‖, Foucault retoma a expressão grega epiméleia heautoû, que pode ser entendida como inquietude de si, interrogar-se a si e também, na tradução mais corrente, cuidado de si.
Ressalva, ainda, que esse cuidar de si provocou no mundo helenístico e romano um individualismo, no sentido em que as pessoas valorizavam as regras de condutas pessoais e voltavam-se para os próprios interesses, tornando-se menos dependentes uns dos outros e mais subordinadas a si mesmas. Instaura-se então o que Foucault chama de cultura de si (BARBOSA & MATOS & COSTA, 2011).
Essa atitude do sujeito para consigo mesmo não é isolada, ela se expande na relação com os outros e com o mundo, constituindo uma forma de meditação, pois é um olhar para o que se passa nos pensamentos. A epiméleia heautoût também envolve ações do sujeito para consigo mesmo, por exemplo, ―as técnicas de meditação; as de memorização do passado; as de exame de consciência; as de verificação das representações na medida em que elas se apresentam ao espírito, etc.‖ (FOUCAULT, 2010, p. 12).
O cuidado de sié resgatado, por esse autor, da visão grega antiga e pressupõe necessariamente uma supervisão de um mestre, ―que cuida do cuidado que o sujeito tem de si
e que, no amor que tem pelos seus discípulos, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio‖ (Ibidem, p. 55).
Um dos compromissos que o discípulo tem para com o mestre é a aleturgia, que significa ―a produção da verdade, o ato pelo qual a verdade se manifesta‖ (Ibidem, 2011, p. 4). Um dos principais elementos da aleturgia é a parresia, isto é, a fala franca, ou dizer a verdade, isso pode se dar por meio de um exame de consciência e da confissão. Foucault não se detém em analisar se o discurso sobre o sujeito é verdadeiro ou não, ele se interessou em analisar ―o discurso da verdade que o sujeito é capaz de dizer sobre si mesmo‖ (Ibidem, p. 5). A parresia é inerente à relação mestre-discípulo, o ―conhece-te a ti mesmo‖ vem acompanhado da injunção ―é preciso dizer a verdade sobre si mesmo‖, isso extrapola o discipulado e se estende para as relações interpessoais. O outro é indispensável ―para que eu possa dizer – a verdade sobre mim mesmo, seja ele o médico, o psiquiatra, o psicólogo ou o psicanalista –, em compensação, na cultura antiga (...) pode ser um filósofo de profissão, mas também qualquer um‖ (Ibidem, p. 7).
Esse cuidado, que se constitui de forma interrelacional, abrange o pensamento, as ações, a dieta e também a prática terapêutica (BOLSONI, 2012, p. 9). Nessa perspectiva, o sujeito racional, por ser capaz de conhecer a si mesmo, é também capaz de agir para consigo mesmo. E, como ninguém é capaz de cuidar-se sozinho, a compreensão do cuidado de si passa a ser vista não apenas do ponto de vista biológico, mas também histórico e social, em função da dimensão interrelacional desse cuidado nos diferentes períodos históricos.
Ao estudar as formas de produção da verdade, do poder e da arte nas relações humanas, Foucault encontrou diversas tecnologias, sejam aquelas utilizadas para manufaturar coisas materiais utilitárias,ou símbolos, relações políticas de dominação e autoridade e as que ele chamou de tecnologias de si
que permitem aos indivíduos efetuar, com seus próprios meios ou com a ajuda de outros, um certo número de operações em seus próprios corpos, almas, pensamentos, conduta e modo de ser, de modo a transformá-los com o objetivo de alcançar um certo estado de felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade (FOUCAULT, 2004, p. 324).
Nessa perspectiva inicial, em que não há diferença entre conhecimento de si e cuidado de si, os neoplatônicos tiveram - no diálogo de PlatãoAlcebíades I- uma das suas principais referências. Esta obra oferecia ―o ponto de partida e um programa para toda a filosofia platônica. Cuida de si foi seu primeiro princípio‖ (Ibidem, p. 329).Nesse diálogo,
Platão, por meio das palavras de Sócrates, advertiu Alcebíades de que haviam pessoas que, por pressupor saberem o que de fato não sabem e desconhecerem sua própria ignorância, delegavam a outras pessoas assuntos que eram de sua própria competência, ou seja, por ignorância abdicaram sua capacidade de deliberar sobre assuntos que lhes diziam respeito. Sócrates transferiu esse problema para a questão da vida política da cidade e alertou Alcebíades de que a Assembléia estava povoada desses homens que, incapazes de cuidarem de si, também não são capazes de cuidar da vida pública.
Nesse diálogo, pode-se perceber o modo agonístico (agon – disputa) tanto na defesa dos argumentos na Assembléia, como na defesa bélica do território; os conselhos socráticos buscavam fortalecer Alcebíades para derrotar seus adversários e, nesse programa, o cuidado de si expande o ―conhece-te a ti mesmo‖ para uma forma de educação mais ampla do que apenas intelectual,
só pela indústria e pelo saber nos será possível sobrepujá-los (...) será preciso que investiguemos juntos o melhor modo de nos aperfeiçoarmos porque tudo o que eu vier a dizer a respeito da educação não se aplica menos a mim do que a ti (PLATÃO, 1975, p. 229).
Existe uma preocupação de Sócrates em advertir Alcebíades sobre o despreparo dos governantes que almejam a vida pública e têm uma pedagogia deficiente. Na juventude, a ambição política se depara com o despreparo ético para assumir a vida pública (FOUCAULT, 2004). Intrigado sobre o que consituiria o conhecer a si mesmo e cuidar de si mesmo, Alcebíades segue interessado a questionar Sócrates sobre esse caminho. Sobre isso, Sócrates esclareceu seu discípulo que o cuidado de si não se refere ao cuidado exclusivo do corpo nem de nossas posses materiais, mas ao fortalecimento da alma como comandante do corpo.
Não é a arte que deixa melhor as coisas que nos pertença, mas as que nos deixa melhores a nós mesmos (...). Quer seja coisa fácil, quer difícil, Alcebíades, o que é certo é que, conhecendo-nos ficaremos em condições de saber como cuidar de nós mesmos, o que não poderemos saber se nos desconhecermos (PLATÃO, 1975, p. 237).
Foucault nos recorda que na cultura grega antiga não havia uma primazia do conhece-te a ti mesmo em relação ao cuidado de si mesmo e os cuidados com a vida pública, pois não havia uma diferença entre Filosofia e Espiritualidade. Ao buscar conhecer a si mesmo, o discípulo se questiona sobre o que realmente tem valor, por exemplo, Sócrates
alertou a Alcebíades que o verdadeiro amigo é aquele que nos considera além das aparências e pertences, o corpo pertence à alma e é incluído no cuidado de si, bem como o cultivo das virtudes:
O cuidado de si refere-se sempre a um estado político e erótico ativo.
Epimeleisthai expressa algo muito mais sério do que o simples fato de
prestar atenção. Envolve diversas coisas: preocupar-se com suas posses e sua saúde. É sempre uma atividade real, e não uma simples atitude. Esta expressão é utilizada em relação à atividade de um fazendeiro cuidando de seus campos, de seu gado, de sua casa, ou em relação ao trabalho de um rei em cuidar de sua cidade e seus cidadãos. Ou, ainda, ao culto aos ancestrais ou aos deuses, ou a um termo médico que traduza o fato de cuidar. (FOUCAULT, 2004, p. 331).
No Alcebíades I, o conhecimento de si se refere ao cultivo das virtudes da alma. Para Platão, uma cidade feliz não é aquela que possui muros altos, mas aquela na qualos cidadãos cultivaram as virtudes. E uma pessoa que busca conhecer a si mesma deve cultivar as virtudes,exercitá-lase buscar a liberdade: ―Então, amigo, é preciso fugir da condição servil‖ (PLATÃO, 1975, p.248).
Em sua dissertação de mestrado, intitulada Epimeleia Heautou: o Cuidado de Si no Alcebíades de Platão,Jacqueline Marreto conclui que a desvinculação da dimensão do cuidado de si (epimiléia heautoût) e do conhecer-se a si mesmo se relaciona com o momento em que a Filosofia se separa da Espiritualidade. Essa separação fica mais evidente após Descartes e Kant, no período moderno; mas Foucault nos indica que o cartesianismo é só um momento inserido num processo maior e que essa separação não ocorreu de fato no século XV, ou seja, o que ocorreu não foi uma oposição entre ciência e espiritualidade, mas uma separação entre espiritualidade e teologia (MARRETO, 2011).
Essa separação, iniciada no referido período histórico, fez com que a teologia se dedicasse ao estudo e fundamentação de dogmas religiosos e não da espiritualidade que incluía, na dimensão do cuidado de si, o cuidado com o corpo e as relações interpessoais. A espiritualidade passa a ser uma idéia metafísica. Como veremos a seguir, os germes dessa relação depreciativa em relação ao corpo e a separação entre corpo e mente se fortalecem principalmente a partir de Santo Agostinho e se extende a todo o período medieval. Isso fortalecerá uma desconfiança no corpo como lugar de conhecimento verdadeiro, a sensopercepção será colocada em cheque em nome dos ideiais ascéticos medievais.