3. CORPOSOFIA©: ENCONTRANDO UM LUGAR PARA O CORPO NA HISTÓRIA DA
3.10. O corpo como Luz: a espiritualidade do Corpo
As reflexões sobre o corpo apresentadas até agora são contribuições que têm constituído um novo olhar para a espiritualidade. Conforme o lugar do corpo se restaura também a espiritualidade passar ser vista com o corpo e não como uma válvula de escape dos conflitos existenciais.
Inicialmente, a Análise Bioenergética foi fundada por Alexander Lowen e John Pierrakos, a separação dos dois se deu principalmente em suas buscas pessoais que se refletiram em diferentes abordagens. John Pierrakos se apaixonou por Eva Pierrakos (1915 -), uma mulher conhecida, na época, por canalizar uma entidade que se entitulava de o Guia e, conforme foram se envolvendo, o casal Pierrakos fundou sua própria abordagem, o Core Energetics (Energética da Essência). Seus alunos também criaram suas escolas, como foi o caso de Bárbara Brennan (1939-) que criou uma das mais famosas escolas de ―curas‖ energéticas, a Barbara Brennan Schoool of Healing. Apesar da separação entre essas escolas que eram, inicialmente, a mesma, o Core Energetic favoreceu muito a pesquisa sobre os centros energéicos sutis, os chamados chacras da Filosofia hindu. Por outor lado, Lowen se vinculou a pesquisas científicas sobre a saúde especialmente relacionadas às doenças cardíacas, sobre essa investigação temos alguns resultados que apresento no anexo Na Batida do Coração dessa tese. Odila Weigand foi aluna e tradutora tanto de Lowen como de Pierrakos, e define que, para Lowen, em especial, a psicoterapia corporal tem como objetivo ―resgatar a liberdade, a graça e a beleza do ser – trinômio definido por Alexander Lower como natureza primária do homem – foi e é o grande objetivo da Análise Bioenergética‖ (WEINGAND, 2006, p. 14).
Para Lowen, a graça divina está na natureza, os animais têm graciosidade em seu andar justamente porque não perderam a capacidade de autoperceberem. A autopercepção existe nos animais e sua vida, integrada com os ritmos e fluxos da natureza, expressa a espiritualidade do corpo. Mas o que fez os seres humanos ―perderem a graça‖?
Sobre isso, há uma pesquisa e, também, prática clínica criada a partir do pensamento de Reich e da ótica de John Pierrakos, realizada pelo professor Dr. Dimas Calegari. Ele, atualmente, oferece cursos de formação pelo Brasil e continua sua pesquisa. Em sua obraDa teoria do corpo ao coração: uma visão do homem a partir da energia cósmica,
oferece as bases energéticas da consciênciapara esclarecer o conflito entre pensamento e sentimento. Para o autor,o que ocorre energéticamente é que a pulsação vital promove uma relação antitética entre a vivência corporal e a psíquica. Por exemplo, quando um indivíduo aumenta sua atividade mental, acaba diminuindo sua percepção corporal; ou quando aumenta os movimentos externos numa atividade física, diminui a percepção das ações viscerais. Aqui é importante ressaltar a contribuição reichiana e a reflexão de Calegari, pois essa relação antitética leva ao enigma que Reich buscou estudar, que é sobre a capacidade do sistema vivo de se autoperceber. Sobre Autopercepção e consciência,nos esclarece o professor Dimas Calegari:
No livro Análise do Caráter, no capítulo ―O desdobramento esquizofrênico‖, Reich postula que o anel visual, ao fundir as vivências corporais e psíquicas, organiza a autopercepção, base sobre a qual se constitui a consciência. A autopercepção íntegra significa que a pessoa percebe suas sensações corporais como fazendo parde de seu EU. Em pacientes psicóticos é comum o relato de sentirem partes do corpo como se não lhes pertencessem. Um organismo saudável funde as vivências corporais e psíquicas numa existência unitária e integrada que possibilita uma consciência também integrada. Uma autopercepçao falha, fragmentada ou cindida gerará estados de consciência també falhos, fragmentados ou cindidos (CALEGARI, 2001, p. 54).
Dessa forma, as vivências que o indivíduo experimenta são vistas como parte integrante de sua trajetória, sejam essas experiências cotidianas ou consideradas espirituais, ou místicas. Se essa experiência se passa numa psique integrada não serádesenraizada da realidade, e irámanifestar o que o Core Energetics chama de essência na existência diária, expresso no cuidado de si, em gestos de amizade, no companheiro e no fortalecimento dos relacionamentos saudáveis.Como veremos no próximo capítulo, assim como Reich, Lowen pensa uma dimensão para além do prazer que é a dimensão da alegria de viver como a autopercepção de si e de sua conexão com a terra e o cosmo.
Na direção de se pensar uma espiritualidade encarnada não se pode deixar de mencionar aqui que um dos esforços contemporâneos mais importantes em solucionar a tensão existente entre espírito e matériafoi realizado pelo médico e psicanalista, também discípulo de Freud, Carl Gustav Jung. Em Psicologia e alquimia, Jung transpareceu esperança ao falar das descobertas da física atômica para estabelecer essa conexão entre corpo e mente (cf. JUNG, 1990, p. 291). As impressões de Jung têm se tornado realidade, já que pensadores contemporâneos, inspirados nas descobertas da física quântica e da neurociência, buscam um
modelo que, ao invés de polarizar a dicotomia espírito e matéria, enalteça sua complementaridade e interdependência.
Pesquisas sobre os estados de consciência em meditação e nossa constituição biológica foram realizadas de forma sistemática por Franciso J. Varela (1946-2001) e Evan Thompson (1962 -) na obra The Embodied Mind. Os autoresse atentaram às mudanças de comportamento dos praticantes de meditação, como um aumento em sua capacidade de empatia e compaixão e uma disposição em estar em prontidão mindfulness/awarenes. Essa atitude não é abstrata, como pensado por Heidegger e Merleau-Ponty, mas um estado de presença em que o meditador se torna consciente de seus pensamentos encadeados e hábitos e, por isso, pode quebrar o elo do condicionamento (cf. VARELA & THOMPSON, 1993, p. 25).
Varela, em parceria com o Humberto Maturana, lançou seu olhar integrativo dos sistemas vivos para a formação dos seres humanos, propondo uma educação baseada na autopoiesis (do grego auto "próprio", poiesis "criação"), ou seja, uma educação integral. Essse modelo integrativo deve confiar e estimular os indivíduos às suas habilidades de gerar e criar. Isso se estenderia também para a sociedade, sob a forma de uma relação afetiva com o planeta terra feita do ponto de vista da responsabilidade e criatividade. Esses autores influenciaram o que podemos chamar de paradigma sistêmico.
Os autores que mais tiveram influência desse pensamento foram Fritjof Capra e Pier Luigi Luisi, que dedicaram sua obra, A visão sistêmica da Vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticias, sociais e econômicas à memória de Francisco Varela. O modelo holístico de Capra também pode ser encontrado emO Ponto de mutação (1982), O Tao da Física (1983) e A teia da vida (1997). Cito, também, O universo autoconsciente (1998), de Amit Goswami; A solução Heartmath (1999), de Dona Beech e DocChildre; e Biologia da crença (2011), de Bruce H. Lipton. Esse grupo de teóricos geralmente trabalha com uma visão do ser humano em que
o universo deixa de ser visto como uma máquina, composta de uma infinidade de objetos, para ser descrito como um todo dinâmico, indivisível, cujas partes estão essencialmente inter-relacionadas e só podem ser entendidas como modelos de um processo cósmico (CAPRA, 1982, p. 154). Nessa mesma abordagem, podemos citar também O Paradigma Holográfico (1982), de Ken Wilber, que, ao invés de usar a metáfora da teia elaborada por Capra, utiliza- se da metáfora do holograma, em que também todas as coisas estão interligadas. Para esses
autores contemporâneos, a visão holística é mais adequada do que o do edifício da razão kantiano ou o mecanicismo, de Newton, para se pensar como as coisas se relacionam no universo (cf. WILBER, 1982, p. 122).
Como já dissemos, a proposta da Análise Bioenergética pode ser considerda como um holismo histórico dialético, que leva em consideração uma complexidade de elementos na análise dos indivíduos. Para Lowen, outro ganho que o trabalho corporal oferece em longo prazo aos clientes é chamado, em Alegria e Espiritualidadedo corpo, de autopossessão (Self Possesion), ou seja, o sujeito começa a se perceber como sendo o corpo e ocupando o corpo e se rende aos fluxos da vida. Essa rendição nada tem a ver com a passividade, mas sim com uma integração dos fluxos vitais. Para essa visão holística,Lowen remonta à posição de Reich em SuperposiçãoCósmica e abre a dimensão da alegria para tudo na vida, afirmando que não ocorre uma superação no sentido do ego, mas uma superposição. De maneira simples podemos dizer que o corpo do sujeito é uma onda vibratória que, ao diluir as defesas do ego, pode entrar em comunhão com o cerne vital, essa verdade é o substrato da existência capaz de integrá-lo na grande música do universo.
No decorrer desse capítulo, pudemos percorrer esse breve panorama teórico sobre o corpo e o problema da autopercepção. Percebemos que o corpo recuperou o seu lugar no pensamento ocidental e nos chama atenção, principal,mente, as abordagens que tomam o homem como um ser integral e energético. Aos poucos fomos apresentando essa abordagem teórica e prática que busca entender o ser humano como um ser integral: a formação histórica e social do corpo, as emoções, a mente e o espírito,que éa Análise Bioenergética. O próximo capítulo será dedicadoa afirmar que essa abordagem, como uma proposta para integrar corpo e mente, possui uma metodologia e técnicas que são fundamentaisem uma sociedade hiperconsumista que tem cultuado a imagem nascísica, ao invés de estimular a autopercepção e o afeto, como base das relações interpessoais17.
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A civilização ocidental foi profundamente marcada pela tradição cristã que, por sua vez, foi influenciada pela cultura grega e judaica. Nessa perspectiva a própria espiritualidade se tornou um fenômeno meramente intelectual. Para Lowen, resgatar a espiritualidade do corpo é perceber que num corpo gracioso ―sentimentos e pensamentos estão integrados‖ (LOWEN, 1995, p. 13).