Durante a existência da Brigada Real de Marinha foram poucas as vezes em que se observou o número de quantitativos previamente establecidos pelos documentos com força de lei. Esta dificuldade em manter os quantitativos estipulados verificou-se devido a diversas razões, apresentadas no capítulo anterior e definidas por diversos Inspetores Gerais e Comandantes da Brigada, nomeadamente: a falta de recrutas para colmatar as deserções que se faziam sentir, trabalho mais duro e uma má remuneração. Os problemas mencionados anteriormente, resultaram em diversas restruturações organizacionais do corpo ao longo de toda a sua existência.
Quando a família real embarcou para o Brasil levou consigo uma grande parte dos elementos da BRM, os restantes elementos que ficaram em Lisboa ficaram unidos num reduzido corpo denominado de Destacamento da BRM de Lisboa. A separação da BRM resultou numa perda de coesão, uma vez que, embora estivessem sob o mesmo comando, nem todas as ordens eram recebidas a tempo. Diversas propostas foram feitas para restruturar o Corpo da BRM de Lisboa, de maneira a que fosse possível cumprir com as suas missões na metrópole. Contudo, a aprovação destas restruturações sempre foi demorada, o que viria a influenciar a missão deste Corpo.
No entanto o principal impulsionador da decadência da BRM foi a partida de D. João VI para Lisboa, deixando ficar para trás o Corpo da BRM. Com a independência do Brasil, a BRM ficou reduzida à minoria que se encontrava em Lisboa e que, para além de apresentar poucos qualitativos, encontrava-se num enorme estado de desordem. Com o intuito de melhorar o estado do Corpo D. João VI mandou publicar o decreto de 22 de Outubro de 1823.
Ainda que o decreto de 22 de outubro de 1823 tenha organizado a BRM manteve-se as representações dos Comandantes deste corpo sobre a falta de pessoal, que foi sempre uma das maiores problemáticas deste corpo. A 20 de março de 1828 o Comandante da Brigada, Marechal de Campo Graduado Thomás de Souza Mafra leva ao conhecimento do Inspetor Geral da BRM as faltas de pessoal que se faziam sentir no Corpo da Brigada e a necessidade de recrutar mais pessoal, como se pode ler no seguinte excerto270:
“Faltando neste Côrpo 441 soldados para o seu estado completo, além de 16 Sargentos e 36 Cabos de Esquadra e Anspessadas, (…) hum pequeno nº de voluntários como se
80 faz vêr pelos que andão em instrução que somente são 18 (…) julgo por todo o referido, fazer-se indispensável mandar proceder a hum recrutamento de 200 soldados ao menos”.
Durante o governo de D. Miguel existiu uma política repressiva de forma a consolidar o seu poder régio e demover os seus opositores, os liberais. 271 Para que fosse possível conhecer os ideias políticos dos Corpos militares, criou-se um documento que contempla todas as praças da BRM que se encontravam no estado efetivo e na reforma, até ao posto de anspeçadas, onde se descreve sucintamente as características de cada elemento, tal como, a sua orientação política. Assim, poderiam ser tomadas medidas para que estes militares não levantassem armas contra o governo. Alguns dos oficiais encontravam-se presos e desertaram em detrimento da sua participação na revolta liberal de 9 de janeiro de 1829. 272 Desta forma a BRM perdia elementos que eram fundamentais para a execução das tarefas estipuladas para este Corpo.
O fim do governo do rei absolutista pode ser considerado quando a cidade de Lisboa se rendeu aos Liberais a 24 julho de 1833 e foram recebidos de braços abertos pela população de Cidade. Todavia, a guerra entre os dois ideais prosseguiu, apesar dos absolutistas nunca terem conseguido dar a volta à situação.273 De maneira a evitar uma revolta dentro do corpo da BRM contra o Governo do Duque de Bragança, foi elaborado pelo Comandante da BRM um documento onde se registaram todos os oficiais da Brigada que se contraponham a este novo governo.274 O Duque de Bragança após tomar conhecimento dos oficiais não simpatizantes do seu governo, ordenou que estes fossem reformados.275
A BRM possuía diversos soldados que não detinham capacidades de desempenhar as suas funções passando assim para o Corpo de Inválidos, como se verifica num documento do comandante da Brigada para o Almirante Major-General da Armada276:
“não podem fazer serviço de arma por estarem totalmente estropiados; e alguns deles avançados em anos, para que se sirva dar-me Ordem para os fazer passar para o Corpo d’Inválidos, e por ali terem os seus respetivos abonos”.
271 J. V. Serrão, História de Portugal [1807-1832] …, p.413. 272 BCM- Arquivo Histórico, Cx. 79, 17 de dezembro de 1829.
273 Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal [1832-1851], Vol. 8, Lisboa, Editorial VERBO, 1986,
p.41.
274 BCM- Arquivo Histórico, Cx. 80, 14 de setembro de 1833. 275 BCM- Arquivo Histórico, Cx. 80, 3de outubro 1833. 276 BCM- Arquivo Histórico, Cx. 80, 9 de janeiro de 1834.
81 A Brigada devido à deterioração da saúde, ficava cada vez com menos elementos no estado efetivo. Para além da situação descrita anteriormente, os militares da Brigada serviam ainda em Corpos do Exército e nunca mais regressavam para o Corpo da Brigada, acentuando-se cada vez mais a falta de efetivos.277
Como referido anteriormente, os soldados da BRM integravam nos Corpos de Exército uma vez que estes desertavam à procura de mais benefícios em outro Corpo. A BRM era o único corpo destinado para o serviço no mar, e uma das principais razões que levaram à deserção de vários soldados, segundo o Comandante da BRM, era o facto de este ser um serviço muito mais exigente do que em terra, onde os soldados recebiam menos do que os seus pares no Exército.278 Este comandante refere que o problema das deserções dos soldados era o Decreto de 22 de outubro de 1823 que acentuou a diferença de soldos entre os soldados da BRM, verificando-se apenas 30 soldados com um vencimento maior de 83 reis e os restantes 50 com um soldo de menos 20 reis. O objetivo seria fazer com que os soldados que obtivesse maior mérito passassem a receber um soldo maior, contudo, este artigo despoletou em alguns soldados outra reação, como se pode observar na seguinte citação279:
“mas conseguiu o contrario; porque o Soldado acha mais barato desertar para hum dos Corpos de Exército, do que distinguir-se no seu, á espera de hua vacatura, que póde tardar anos a verificar-se; e para derribar este mal calculado sistema, basta a singela consideração, de que o Exercito não deixa de ter excelentes soldados sem ter necessidade de hua tal instituição.”
“Continuo a dizer a V. Exª que este Corpo está totalmente no maior desarranjo, que se pode
imaginar.” Estas palavras foram escritas pelo mesmo Comandante da BRM e demonstra que existia uma grande falta de oficiais, tornando necessário os oficiais subalternos comandarem duas companhias. Os oficiais das companhias deveriam ser 16 capitães, 16 primeiros-tenentes e 16 segundos-tenentes, contudo apenas existiam 2 capitães e 11 primeiros-tenentes, sendo os segundos-tenentes o único posto que se encontrava completo. Neste documento, o comandante volta a reforçar as razões da deserção dos soldados e refere que deveria de haver 480 soldados a receber o soldo mais elevado, mas apenas 152 soldados é que o recebiam efetivamente.280
277 BCM- Arquivo Histórico, Cx. 80, 20 de janeiro 1834. 278 BCM- Arquivo Histórico, Cx. 80, 26 de fevereiro de 1835. 279 BCM- Arquivo Histórico, Cx. 80, abril de 1835.
82 A BRM foi alvo de uma inspeção entre o final do ano 1835 e início do ano de 1836 para averiguar o estado em que se encontrava. Nesta inspeção foram levantados diversos problemas que até à data os comandantes deste corpo não fizeram referência. O responsável pela inspeção, no princípio do relatório refere que “Não achei boa apparencia do Corpo”, este comentário deriva de os oficiais estarem fardados com os próprios casacos já que não tinham recebido o fardamento, e os seus vencimentos encontravam-se com seis meses de atraso.281
A falta de uma boa escola de Instrução e de bons instrutores foram umas das lacunas apresentadas neste relatório como podemos observar nos seguintes excertos:282
“A postura militar de cada individuo em Parada, manifesta que não tem havido no Corpo boa escola de instrução: máo o porte das armas pelos soldados; e mesmo o das espadas dos Officiaes, mostra não ter sido sujeitos a lições.
Os movimentos feitos pelas fileiras, longe de serem bem executados mesmo os praticados com as armas, o que é atribuível ao Corpo não ter tido bons Instrutores.” Os oficiais segundo consta neste relatório, deixaram de avaliar as competências dos seus subordinados, acredita-se que este desleixo era derivado da falta de oficiais suficientes nas companhias, como foi previamente apresentado pelo Comandante da Brigada no dia 8 de maio de 1835.
Com este relatório consegue-se analisar o estado de desleixo generalizado, uma vez que existia um défice pessoal na BRM encontrando-se sobrecarregado nas suas tarefas, o que resultaria numa instrução subvalorizada. Após análise de todos os relatórios elaborados, demonstrou-se que o decreto de 22 de Outubro de 1823 não foi a solução para a BRM e que seria necessário uma organização profunda para que este corpo voltasse a ficar operacional.
Os governantes consideram que o estado em que se encontrava a BRM não era vantajoso para o serviço e que uma nova restruturação não seria a solução. Assim, a 7 de novembro de 1836 foi publicado o Decreto de D. Maria II que extinguia a Brigada Real de Marinha. Os elementos deste Corpo seriam incorporados nos Corpos do Exército ou no Corpo que a iria substituir e os elementos da extinta BRM continuariam a desempenhar os serviços a bordo das
281 BCM- Arquivo Histórico, Inspecção passada ao Corpo da Brigada Real da Marinha nos fins do anno de 1835 e os começos ddo de 1836, Cx. 81, 5 de fevereiro de 1836.
83 embarcações da Armada até a criação de um novo Corpo.283 De acordo com o último Mapa do estado da BRM, a Brigada tinha no seu estado efetivo 721 elementos.284
Com este Decreto termina a existência deste Corpo que passou por tantas restruturações, conflitos nacionais e internacionais. Participando em campanhas de extrema importância para a soberania de Portugal tendo sido sempre fiel aos governantes que se encontravam no poder.
A extinção da BRM e a criação do Batalhão Naval (BN) pelo Decreto de 7 de janeiro de 1837 resultou da redução dos meios navais e à respetiva perda do poder de fogo285. Desta forma, os Destacamentos passaram a ficar mais reduzidos e optou-se pela criação de um Corpo mais pequeno, com uma organização mais simples e menos dispendiosa para a Coroa, como se pode verificar no Quadro Comparativo entre a BRM e o BN.
O BN era um Corpo formado apenas por um batalhão e com oito companhias. Este ficou reduzido a 41,3 % dos quantitativos da Brigada. O destino das praças da extinta BRM ficou definido neste Decreto: as praças que iriam compor o BN eram originárias da BRM e seriam escolhidas de acordo com as suas aptidões. As praças não admitidas neste novo Corpo formariam um Depósito juntamente com o Corpo de Inválidos da Extinta Brigada, até que fossem necessários noutro serviço. O Corpo de Inválidos da Extinta Brigada ficou agregado ao BN.286
283 Collecção de Leis e outros Documentos Officiaes, Publicados desde 10 de setembro até 31 de dezembro de 1836, 6ª Série, Lisboa, Na Impressa Nacional, 1837, p. 113.
284 BCM- Arquivo Histórico, Mappa do Estado actual da BRIgada Real da Marinha, Cx. 82, 2 de novembro
de 1836.
285 Jorge Manuel Moreira Silva, A Marinha de Guerra Portuguesa desde o regresso de D. João VI a Portugal e o Início da Regeneração (1821-1851), Adaptação a uma Nova Realidade, Dissertação de
Mestrado em História Marítima na Faculdade de Letras-Departamento de História, Universidade de Lisboa, 2009, p.67.
286 Collecção de Leis e outros Documentos Officiaes, Publicados do 1º Semestre de 1837, 7ª Série-
84
Quadro Comparativo entre a BRM e o BN
BRM
BN
Comandante
Chefe de Esquadra (pelo menos) Coronel ou Tenente-coronel
2º Comandante Brigadeiro Major Estado Maior 31
*
1 17 Nº de Batalhões 2 1 Nº de Companhias 16 8Quantitativos de cada Companhia
101 83
Total de Elementos
*
21647 681
*
1: Inclui o Estado Maior dos dois Batalhões;*
2: O BN ficou reduzido a 41,3% dos quantitativos da BRM.Quadro 7- Quadro Comparativo entre a BRM e o BN.287
85
Conclusão
O principal objetivo desta dissertação de mestrado foi realizar um estudo sobre a BRM e dar a conhecer como este Corpo se organizava, as restruturações que teve ao longo da sua existência e as ações em que os elementos da BRM participaram.
Para tal, começamos por procurar e estudar alguma bibliografia que abordasse a época em que este Corpo existiu de modo a compreender a política que os governadores seguiam de acordo com o panorama nacional e internacional, e conhecer qual era o rumo que a marinha seguia relativamente às reformas, para posteriormente enquadrar a Brigada e compreender os motivos da sua criação.
Começou por se fazer uma pesquisa na legislação da época, uma vez que não foi possível encontrar muita bibliografia relacionada com a BRM, sendo apenas pequenos parágrafos ou apenas pequenas frases. Foi através da legislação referente à BRM que se começou a compreender a organização, constituição e posteriormente as restruturações que ocorreram. O preambulo da lei em vigor, na maioria das situações explicava os motivos pelo qual se estava a legislar determinado assunto. No entanto, a legislação referente à BRM não era o suficiente para que se pudesse fazer uma análise mais aprofundada sobre este Corpo. Iniciou-se assim a procura de informação no AHM pelos Livros Mestres, que se mostram logo de início pouco relevantes para o estudo, de seguida passou-se para a documentação avulsa nas caixas dedicadas à BRM que foi onde se obteve maior proveito na pesquisa, apesar de muitos dos documentos se encontrarem nas caixas não passavam de meros atos administrativos e solicitações ao Inspetor Geral ou ao Comandante da Brigada.
Através dos Mapas de Estado da BRM, realizados mensalmente pelo militar que se encontrava no comando deste Corpo, conseguiu concluir-se que foram poucas as vezes que a BRM teve o estado completo estipulado pelos documentos com força de lei.
As propostas realizadas pelos Inspetores/Comandantes da Brigada foram fundamentais para se perceber o estado em que se encontrava este Corpo ao longo da sua existência e a partir destas propostas conseguiu verificar-se uma fragilidade que acompanhou este Corpo desde a sua criação até à sua extinção. Esta fragilidade era a constante falta de pessoal que era agravada pelos soldados que desertaram porque as condições que eram oferecidas nos Corpos do Exército eram melhores.
86 Um dos grandes problemas na realização do quarto capítulo, foi a falta de informação relativa aos quantitativos que migraram com a Família Real em 1807, não existindo muitos documentos deste período, existindo apenas no AHM documentos que se referem ao pequeno Destacamento da BRM que ficou na capital, entre estes destacam-se as repetidas queixas dos Comandantes deste Destacamento relativas à retenção dos elementos da Brigada que iam embarcados nos navios com rumo ao Brasil e nunca mais regressavam à metrópole. Sendo esta uma das principais razões para a restruturação do Destacamento da BRM em Lisboa.
No início do processo de investigação pensou-se que iria existir uma quantidade alargada de documentos e obras sobre as campanhas militares em que a BRM participou, no entanto, este acontecimento não se verificou. Existem apenas umas pequenas referências, relativas aos quantitativos da BRM que participaram nas campanhas militares da América do Sul sob as ordens de D. João VI.
A decadência da BRM começou quando este Corpo ficou separado pelo Oceano Atlântico, ficando apenas um pequeno Destacamento na metrópole que perdia sempre que se aprontava um navio para o Brasil, contudo não era uma perda efetiva porque continuavam a servir debaixo do mesmo Inspetor Geral. Mas um ponto que veio fragilizar a BRM foi a independência do Brasil, porque o rei D. João VI tinha deixado os elementos que serviam no Brasil às ordens de D. Pedro. Assim, a BRM ficou reduzida apenas aos elementos que se encontravam no Destacamento de Lisboa, sendo um Corpo reduzido que não tinha elementos suficientes para desempenhar todas as funções que lhes tinham sido atribuídas. Para colmatar esta situação foi criado um novo decreto, porém este não veio resolver a situação, muito pelo contrário até veio agravar como referiu um Comandante da Brigada. A BRM encontrava-se num ponto em que era muito complicado legislar algo para colmatar as suas deficiências, como tal extinguiu-se a BRM e criou- se um novo Corpo para desempenhar as mesmas funções, sendo assim criado o Batalhão Naval. Este capítulo foi realizado com base em exposições realizadas pelos Comandantes da Brigada aos seus superiores, dando-lhes a conhecer a situação da BRM. Na procura de informação foi também utilizada alguma legislação para saber quando é que a BRM foi extinta e quando foi criado o Batalhão Naval.
A realização desta dissertação teve algumas limitações: a primeira limitação sentida foi o encerramento do AHM entre o período de 18 de março e 25 de maio a partir desse momento começou a funcionar com um número reduzido de leitores, que tinham de fazer marcação com antecedência, tendo de esperar vários dias até que fosse possível consultar a documentação. Na
87 BCM o tempo de encerramento foi semelhante, mas abriu no dia 18 de maio, desde o momento que abriu não houve qualquer impedimento na investigação. Desta forma, o processo de recolha de informação foi prejudicado e existiram vários momentos em que não houve oportunidade de continuar a investigação devido à condição atípica que estamos a viver.
Expostas as principais conclusões e limitações que ocorreram ao longo do processo de investigação, resta apenas indicar o que ainda pode vir a ser estudado acerca da BRM. Começa- se por salientar que a investigação acompanhou o estudo organizacional deste Corpo ao longo da sua existência, não contemplando de forma detalhada os combates/batalhas em que a BRM participou, este poderia ser um tema para uma nova investigação.
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Fontes e Bibliografia
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