O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação
sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós, o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular. Consequentemente, o lugar de onde falaremos põe um outro, aquele é que habitualmente nós vínhamos colocando em textos anteriores. E a mudança foi se dando a partir de certas noções que, forçando sua emergência em nosso discurso, nos levaram a retornar a questão da mulher negra numa outra perspectiva. Trata-se das noções de
45 Disponível em: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/04/29/brancos-sao-menos-da- metade-da-populacao-pela-primeira-vez-no-brasil.htm. Acesso em: 04 de ago. de 2012.
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mulata, doméstica e mãe preta. (Lélia Gonzalez, 1984, p. 224).
Ao abordar a questão da mulher negra na sociedade brasileira, Lélia Gonzalez (1984, p. 228) foca na mulata, na doméstica e na mãe-preta, afirmando que é no momento do rito do Carnaval que o mito da democracia racial é atualizado com toda sua força. O Carnaval é, portanto, um momento no qual aparentemente todos estão em uma interdependência momentânea, em que parece não existir as barreiras raciais verificadas no dia a dia. Em Santos (1983) podem ser encontradas pistas que exemplificam as consequências da sujeição à aparente democracia racial, uma vez que:
O mesmo mecanismo de construção da identidade total da pessoa a partir de um único atributo tem sua contrapartida na identificação do sujeito ao papel ou função social de artista. Deixando de ser negro para ser artista, o sujeito troca o atributo desprezado por um outro, apreciado e valorizado pelo branco. A situação de alienação, por ter sido invertida, não perde, entretanto, suas características fundamentais. Tanto faz “perder a cor” para tornar-se artista. O resultado é sempre o mesmo: a identidade negra existe como um apêndice do desejo e da palavra do branco. (SANTOS, 1983, p. 13).
E talvez esta seja a face mais cruel do racismo à brasileira, a própria negação de sua existência. O mito da democracia racial oculta algo para além daquilo que mostra em torno da doxa da harmonia entre as raças. Assim, exerce sua violência simbólica sobre toda a população negra e, de maneira especial, sobre a mulher negra, pois, entre outros tantos aspectos, quando ela está no cotidiano, é a doméstica e não a mulata – endeusada no Carnaval (GONZALEZ, 1984, p. 228).
Gonzalez (1984) aponta que a categoria mãe preta define o momento que a mulher negra é vista como gente, quando se referencia aos estudos de Caio Prado Júnior no momento que ele associa à “figura boa da ama de leite”. Lélia pontua que é essa mulher negra que terá para si a maior atribuição na sociedade, que tem o racismo como sintomática e que caracteriza a neurose cultural brasileira46, que é o de exercer o papel de
mãe. Assim, enquanto mucama, ela é mulher e enquanto “bá”, é a mãe. A mulher branca é a outra, se restringindo à procriação sem necessariamente ter o exercício da sua função
46 Lélia Gonzalez utiliza o conceito de neurose e recalque em Freud para analisar o pensamento de Caio Prado Jr. sobre a mulher negra escrava e diz que é uma expressão privilegiada do que chamaríamos de neurose cultural brasileira. Ora, sabemos que o neurótico constrói modos de ocultamento do sintoma porque isso lhe traz certos benefícios. Essa construção o liberta da angústia de se defrontar com o recalcamento. Na verdade, o texto em questão aponta para além do que pretende analisar. No momento em que fala de alguma coisa, negando-a, ele se revela como desconhecimento de si mesmo (GONZALEZ, 1984, p. 231-232).
105 materna. Como consequência dessa função, é a mãe preta que exercerá o papel de transmissão cultural:
E quando a gente fala em função materna, a gente tá dizendo que a mãe preta, ao exercê-la, passou todos os valores que lhe diziam respeito prá criança brasileira, como diz Caio Prado Júnior. Essa criança, esses infans, é a dita cultura brasileira, cuja língua é o pretuguês. A função materna diz respeito à internalização de valores, ao ensino da língua materna e a uma série de outras coisas mais que vão fazer parte do imaginário da gente (Gonzalez, 1979c). Ela passa prá gente esse mundo de coisas que a gente vai chamar de linguagem. E graças a ela, ao que ela passa, a gente entra na ordem da cultura, exatamente porque é ela quem nomeia o pai... a gente entende porque, hoje, ninguém quer saber mais de babá preta, só vale portuguesa. Só que é um pouco tarde, né? A rasteira já está dada. (GONZALEZ, 1984, p. 235).
O interessante é que Lélia registra a constatação da transmissão da cultura negra pelas mães-pretas e a rasteira dada à ação das “bás”. Conferem-se às “bás” o poder da transmissão da cultura negra para as crianças brancas - apreendida na transmissão da língua -, no entanto, o que se constata é que a linguagem não garantiu transformação do imaginário branco, que reproduz na sociedade as práticas racistas. E para este debate, Lélia deixou apontamentos relevantes quando diz que:
A gente tá falando das noções de consciência e de memória. Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento, do encobrimento, da alienação, do esquecimento e até do saber. É por aí que o discurso ideológico se faz presente. Já a memória, a gente considera como o não-saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção. Consciência exclui o que memória inclui. Daí, na medida em que é o lugar da rejeição, consciência se expressa como discurso dominante (ou efeitos desse discurso) numa dada cultura, ocultando memória, mediante a imposição do que ela, consciência, afirma como a verdade. Mas a memória tem suas astúcias, seu jogo de cintura: por isso, ela fala através das mancadas do discurso da consciência. O que a gente vai tentar é sacar esse jogo aí, das duas, também chamado de dialética. E, no que se refere à gente, à crioulada, a gente saca que a consciência faz tudo prá nossa história ser esquecida, tirada de cena. E apela prá tudo nesse sentido (1). Só que isso tá aí... e fala. (GONZALEZ, 1984, p. 227).
A existência do racismo pode ser explicada de forma dialética. Pode ser percebida no movimento de sua reprodução e de seu recrudescimento, e em consonância com as questões que sobressaem. Quando se reflete sobre este aspecto na sociedade brasileira, as inquietações podem ser pensadas a partir das seguintes indagações: O que aconteceu com o poder da mãe preta na transmissão cultural africana aos “donos do poder”? Será que o poder dominante falou mais alto? Essas crianças esqueceram os ensinamentos e foram cooptadas em busca de poder e status quo? Não restou nada da memória dos contos,
106 fábulas e músicas ouvidas quando crianças? Ou não entenderam o pretugês47 (o português
foi dominante)? O português que falamos hoje é culturalmente negro (de acordo com pesquisas recentes, como as da professora Yeda Pessoa, da Universidade da Bahia)48? Mas,
se nossa língua é negra, o que justifica reproduzir a linguagem negra e negar sistematicamente o negro? Quando e como este elo se rompeu? Ou foi coisa “para inglês ver”? Então, a questão que se indagada é: a educação transmitida pelas mulheres negras não impediu a retroalimentação do sistema? Enfim, são questões que ficam destacadas para estudos futuros sobre as relações raciais no Brasil.
A mãe preta exerceu um papel importante sim, porém, seu papel foi menosprezado, por esta mãe ser considerada apenas um objeto que poderia proporcionar a vida aos descendentes do poder, os brancos. Sua utilidade era em função de ter um seio cheio de leite e possibilitar a perpetuação da espécie dominadora. A “teta” deve ter sido considerada um recipiente com o líquido da vida e, talvez, por esse motivo, seus ensinamentos se dissiparam quando se cristalizou a consciência do dominante. Só restou o “pretuguês”, pois ela tinha pouca – ou nenhuma – importância social.
Mas, voltando à categoria “domésticas” em Gonzalez (1984, p. 230), a autora vê o engendramento de suas funções aos da mucama dos tempos escravistas (FREYRE, 2006), uma vez que as duas exerciam – e exercem –, obrigações similares nas diferentes residências das classes dominantes. No entanto, a doméstica é o lado oposto à exaltação da mulata no Carnaval, ainda que sejam a mesma pessoa associando a essa dúbia imagem àquela feita para todas as mulheres negras, quando são vistas como empregadas domésticas independente da profissão que possam exercer:
Quanto à doméstica, ela nada mais é do que a mucama permitida, a da prestação de bens e serviços, ou seja, o burro de carga que carrega sua família e a dos outros nas costas. Daí ela ser o lado oposto da exaltação; porque está no cotidiano. E é nesse cotidiano que podemos constatar que somos vistas como domésticas. Melhor exemplo disso são os casos de discriminação de mulheres negras da classe média, cada vez mais
47 Lélia Gonzalez dizia que os negros no Brasil tinham uma linguagem que misturava o português às linguagens de origem africana, logo, o pretuguês, tanto é que seus textos utilizavam palavras que não eram comuns ao rigor da linguagem acadêmica impregnada de erudição e eurocentrismo.
48 Segundo a professora Yeda Pessoa, da Universidade da Bahia, na entrevista "A língua portuguesa que falamos é culturalmente negra", concedida à Marcello Scarrone, da Revista de História, em 01 de maio de 2015: “Nós não temos um falar crioulo do português, como no Caribe, na Guiana ou em outras regiões onde os portugueses foram os colonizadores. Mas percebi uma coisa: Angola e Moçambique também não têm falar crioulo. Por quê? Devia haver um link, não só uma coisa extralinguística, mas algo de tipo intrínseco, que impediu que emergisse um falar crioulo em Angola, em Moçambique e no Brasil. E eu vi que foram as mesmas línguas que entraram em contato: o português arcaico e as línguas do grupo bantu, especialmente as do Congo e de Angola, pois o tráfico com Moçambique foi muito menor e posterior. No Congo descobri o que aconteceu no Brasil: a proximidade que houve por acaso entre o português arcaico e as línguas do grupo bantu, que resultou no português que falamos hoje ”. (PESSOA, 2015. p. 02).
107 crescentes. Não adianta serem “educadas” ou estarem “bem vestidas” (afinal, “boa aparência”, como vemos nos anúncios de emprego é uma categoria “branca”, unicamente atribuível a brancas” ou “clarinhas”). Os porteiros dos edifícios obrigam-nos a entrar pela porta de serviço, obedecendo instruções dos síndicos brancos (os mesmos que as “comem com os olhos” no carnaval ou nos oba-oba [...] só pode ser doméstica, logo, entrada de serviço. E, pensando bem, entrada de serviço é algo meio maroto, ambíguo, pois sem querer remete a gente prá outras entradas (não é “seu” síndico?). É por aí que a gente saca que não dá prá fingir que a outra função da mucama tenha sido esquecida. Está aí. (GONZALEZ, 1984, p. 230).
Sem dúvida alguma, Gonzalez considera que o que ocorre no Carnaval, associado ao mito da democracia racial, vai além de seus entroncamentos com as mulheres negras, mas também com os dos homens negros, quando diz:
Não é por acaso que nesse momento, a gente sai das colunas policiais e é promovida a capa de revista, a principal focalizada pela tevê, pelo cinema e por aí afora. De repente, a gente deixa de ser marginal prá se transformar no símbolo da alegria, da descontração, do encanto especial do povo dessa terra chamada Brasil. É nesse momento que Oropa, França e Bahia são muito mais Bahia do que outra coisa. É nesse momento que a negrada vai prá rua viver o seu gozo e fazer a sua gozação. (GONZALEZ, 1984, p. 239).
As reflexões de Iêda Leal (2016) sobre as questões refletidas acima, são importantíssimas. Inicialmente, ela tinha feito referência a um trecho do filme Histórias Cruzadas49 e avaliou: sobre o trecho que as empregadas domésticas conversavam sobre o tratamento que recebiam nas casas em que trabalhavam, e a mulher fala assim: E eu? Criei elas e não adiantou nada, não adiantou nada! Então hoje, se Lélia estivesse aqui, a gente teria que debater até mesmo essas afirmações. Por quê? Não adiantou, porque elas eram empregadas domésticas. Criavam as meninas, elas casavam e elas continuavam empregadas domésticas. As crianças que tinham cuidado continuavam querendo o banheirinho separado, querendo todas as coisas somente para si. Nós precisamos entender que, por mais esforço que tenhamos com alguns brancos que se alimentaram da gente, eles não deram conta de superar o racismo. Porque o racismo é muito forte, ele se renova. Eu sempre estou dizendo assim, é uma situação tão complicada, que conforme o andar dos tempos, ele vai se organizando para ser ainda mais cruel. Então, beber da
49 O filme é ambientando em Mississipi, EUA, década de 1960. Skeeter acabou de terminar a faculdade e sonha em ser escritora. Ela põe a cidade de cabeça para baixo quando decide pesquisar e entrevistar mulheres negras que sempre cuidaram das “famílias do Sul”. Apesar da confusão causada, Skeeter consegue o apoio de Aibileen, governanta de um amigo, que conquista a confiança de outras mulheres que têm muito o que contar.
Elenco: Emma Stone, Jessica Chastain, Bryce Dallas Howard, Mike Vogel, Sissy Spacek, Allison Janney, Viola Davis, Chris Lowell Direção: Tate Taylor Gênero: Drama. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Cqn4XN21O1g. Acesso em: 16 jun. 2016.
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fonte, beber do leite, aprender algumas palavras não foi suficiente para aquelas pessoas entenderem. Às vezes o que recebemos é apenas uma homenagem no dia do meu aniversário, ou um presente no Natal. Mas isto não é suficiente para entender o que eu represento.... Você toma conta, você dá a vida, você se anula! E aí, o que você recebe? O que eu vejo e o que a gente está vendo é que, no dia do Natal, a mulher negra faz a ceia, levanta para atender a todas as pessoas da casa. O que sobra para a gente nesse dia... Eu acho que o feminismo negro, o movimento negro de mulheres, começa muito tempo atrás, aí eu começo a perceber que é isso mesmo, eu não nasci na cozinha.
Sem dúvida alguma, o pensamento de Lélia Gonzalez falava na perspectiva da afrolatinamericanidade, pois se olho para a história da América Latina e do Caribe, por exemplo, encontro muitas semelhanças, uma vez que, e de acordo com Hall (2003, p. 30- 31), o Caribe, como foi denominado, renasceu dentro da violência e através dela. Essas percepções me levam a concluir que a via para nossa modernidade está marcada pela conquista, expropriação, genocídio, escravidão, pelo sistema de engenho e pela longa tutela da dependência colonial. E no seu estudo, Stuart Hall (2003) afirma que a imagem de dominação apresentada é a da mulher indígena como objeto sexual, no Brasil. Entretanto, para além das Iracemas “de Lábios de Mel”50, as mulheres negras se tornaram sinônimo de lascívia e devassa, como também de cuidadora da casa, dos idosos e das crianças, assumindo, ainda, forçadamente, a iniciação sexual dos meninos da Casa-Grande e a resolução da libido do senhor de engenho.
Assinala Carvalho (2012, p. 20-21) que a miscigenação que se deu nesse período tinha o estupro como regra. Freyre (2006, p. 456) irá registrar que era a mulher negra da senzala e da casa-grande, a responsável por facilitar a “depravação do menino nos tempos patriarcais” ao “abrir as pernas ao primeiro desejo do sinhô-moço”. O autor ignora a existência do fator racial e a dominação nas relações de poder e de gênero ao apresentar tal argumentação e recorre apenas às justificativas econômicas em
A verdade, porém, é que nós fomos os sadistas; o elemento ativo na corrupção da vida de família; e moleques51 e mulatas o elemento passivo.
Na realidade, nem o branco nem o negro agiram por si, muito menos como raça, ou sob a ação preponderante do clima, nas relações do sexo e de que se desenvolveram entre escravos e senhores no Brasil. Exprimiu- se nessas relações o espírito do sistema que nos dividiu, como um deus poderoso, em senhores e escravos. Dele deriva toda a exagerada tendência para o sadismo característica do brasileiro, nascido e criado em
50 Iracema, musa indígena, homônimo do romance de José Alencar, lançado no ano de 1865, retrata a relação de um português e uma mulher indígena.
109 casa-grande, principalmente em engenho; e a que insistentemente temos aludido nesse ensaio (Freyre, 2006, p. 462).
A percepção e a ação sobre a mulher negra construídas e praticadas (pautada numa perspectiva europeia, incorporada em solos brasileiros), sempre estiveram associadas aos apelos sexuais. Estes apelos são visíveis em diversas modalidades documentais que registram desde as relações cotidianas, às construções de teorias científicas e, até mesmo, nas artes produzidas, mesmo que em tempos remotos, quando são adaptadas nos dias atuais, como debate a seguir servirá como exemplo.
Algumas imagens antigas da cultura francesa servem para exemplificar tais afirmações. Uso como exemplo, duas pinturas clássicas, que tiveram releituras atuais comerciais e midiáticas, que ainda reproduzem pensamentos racistas e arcaicos. A primeira, o “Retrato de uma Negra”, de Marrie-Guilhermine Benoist52, e, a segunda, o “Retrato de uma Menina”, de Jean Baptiste-Camille Carot53, ambas de 1800, corroboram minha observação que, para Mauad (1996, p. 15). A história embrenha as imagens, nas opções realizadas por quem escolhe uma expressão e um conteúdo, compondo através de signos, de natureza não verbal, objetos de civilização, os significados de cultura.
Figura 13 – Retrato de um Negra e de uma Menina
Fonte: http://temasdeartecontemporanea.blogspot.com.br/2013/07/publicidade-mescla-o-moderno-e-o-vintage.html
Na obra O Retrato da Mulher Negra, o corpo seminu chama atenção para o corpo exposto da negra contrapondo-se à pureza no Retrato da Menina, [Figura 13] totalmente vestida com rendas mostrando sua “candura”. A cor, estritamente associada à definição e demarcação das funções, demonstram os papéis que as raças desempenham social e culturalmente. Na releitura comercial, os seios tendem a pular do vestido que cobre seu
52 As imagens trazem a arte original e apresenta a leitura atual ao ser usada como peça de propaganda. 53Disponível em: http://temasdeartecontemporanea.blogspot.com.br/2013/07/publicidade-mescla-o-moderno- e-o-vintage.html. Acesso em:15 de maio de 2014.
110 copo e assume um semblante sedutor. O cabelo exposto da branca, cuidadosamente penteado, entra em choque com o da negra, na tentativa indelével de esconder sua “carapinha”, num turbante que combina com o pano cobrindo metade do seu corpo. O negro, um corpo disponível e o branco, protegido, mesmo que os semblantes das duas, na leitura moderna, insinuem “algo mais”.
Ainda no campo das peças publicitárias, no dia 06 de março de 2014, para celebrar “O dia da mulher brasileira”54, nas vésperas do Dia Internacional da Mulher, a Riachuelo55 apresentou sua campanha de joias56 e levou ao ar um vídeo de trinta segundos, no qual uma mulher negra – tal como um acessório à parte – colocava um colar em uma mulher branca. Seu rosto não aparecia. Eram os braços, as mãos colocando os acessórios da marca – colares e sapatos – na modelo principal. Estava, mais uma vez estampada, em atitude de subserviência tão comum na cultura brasileira. Houve grande reação nas redes sociais57, forçando, diante de muita pressão, a empresa a retirar o comercial do ar, afirmando que a exclusão racial, nas bases de classificação da cor das pessoas, não mais faria parte das coleções ou comunicações da marca e, em nota se justificou:
“A Riachuelo tem o maior orgulho de ter sido a primeira grande rede do Varejo de moda a perseguir uma meta: DEMOCRATIZAR A MODA. Para nós, todas as mulheres são especiais. Elas não têm cor, raça ou credo. E todas brilham. Democratizar é incluir sempre e cada vez mais. A exclusão nunca fez e nunca fará parte de nossas coleções ou de nossa comunicação” (ADNEWS, 2014).
Devo destacar que o argumento usado tem, mais uma vez, o teor racista, uma vez que a Riachuelo se desculpa afirmando que as mulheres não têm cor. Segundo Fanon (2008), isso não corresponde à realidade por ser a cor um componente definidor de papéis e estabelece ao negro total invisibilidade:
Deslizo pelos cantos, captando com minhas longas antenas os axiomas espalhados pela superfície das coisas, - a roupa de preto cheira a preto – os dentes do preto são brancos – os pés do preto são grandes – o largo peito do preto, - deslizo pelos cantos, permaneço silenciosos, aspiro ao anonimato, ao esquecimento. Vejam, aceito tudo, desde que passe despercebido! (FANON, 2008, p. 108).
No mundo midiático, o poder exercido pelos meios de comunicação é enorme, uma vez que o poder simbólico se constrói através de sua programação que contribui para a
54 Apesar de ter sido retirada do ar, algumas cópias circulam no Youtube. Ver em: