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Figura 07: Arquivo pessoal Rosalia Lemos

Eu nasci em São Miguel do Guamá, [Figura 07], que fica há aproximadamente 3 horas aqui de Belém. Minha infância foi relativamente boa, porque quando você mora numa cidade com caraterísticas rurais, você tem ausência de algumas coisas, de política pública, saúde, educação, mas por outro lado você tem fartura de alimentos. Tem essa questão da troca, muito peixe... Mesmo eu morando na cidade, eu tinha aproximação com o espaço rural, com uma comunidade quilombola chamada Santa Rita das Barreiras e também outras comunidades. Minha infância foi relativamente boa nesse sentido. O meu avô, o pai da minha avó ele era de uma comunidade quilombola e a minha avó materna era filha de Tembé, que é uma tribo indígena. Tem os Tembés do Alto Guamar e do Gurupi. Eu fui criada pelos meus avôs, porque minha mãe me teve com 16 anos e ela já trabalhava. O meu avô era funcionário da Prefeitura e disse: "então a gente vai adotar". Nunca morei com a minha mãe na infância. Fui morar com a mãe quando eu tinha 29 anos. Essa questão sempre me tocou porque a família de meu pai tinha aquele demarcador

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de não ter relação inter-raciais. Quando papai casa, gera conflito na família dele. É uma família negras e que a minha bisavó, mãe do meu pai, ela queria que os filhos sempre casassem com negros. Uma tia minha casou com um senhor branco e também foi conflito, a minha avó era muito matriarca, muito centralizadora da família. Meu avô casou com uma índia. Ela era muito resistente à questão inter-racial. A questão racial para meu pai foi muito forte que não era uma liderança política, não militava contra o racismo, mas sempre falava, que o negro sempre tinha que se valorizar, tinha que dar o seu valor. Meu pai-avô, me criou dessa forma. Eu tive sorte, porque eu acabei sendo a caçula da família. Numa família de 8 filhos se você é a caçula, tem certos privilégios, porque os mais velhos passam a trabalhar e depois acaba ganhando presentinhos, primeira neta. Então eu me sinto muito privilegiada nesse sentido de não ter morado com a mamãe, mas de ter ficado com meus avós e sendo criada como filha. Fui registrada no cartório e tudo, fui criada como filha mesmo. Em 1994 eu e minha avó, viemos morar para Belém, para minha avó ficar mais perto da minha mãe, que ficou um pouco doente. Era uma adolescente do espaço rural, mesmo morando na cidade. Minha ligação sempre foi muito forte com o rural, muito forte nesse sentido. A minha história era assim: eu chegava da escola, ia fazer farinha, lá na Santa Rita das Barreiras, uns 10 km, pegava minha bicicletinha e ia. Mas tinha essa questão da pobreza da periferia, que era diferente de São Miguel do Guamá. Quando eu cheguei, passei a morar em Tapanã, aqui em Belém. Lá em São Miguel eu sempre participava de comunidades, ligada à Igreja Católica. Mas não era só a questão religiosa, tinha também a questão social. Lá na Barreira tinha um grupo de mães e aqui eu passei a participar das CEBs - Comunidades Eclesiais de Base. Comecei também a participar da Pastoral Social, da Pastoral do Menor. Eu tinha trabalho com adolescente e criança, passei 10 anos na Pastoral do Menor até 2006. E 1996 é fundada a Pastoral Afro Brasileira a nível nacional. Em 1999 a gente começa a refletir sobre criar um grupo de Consciência Negra. A gente chamou de Grupo de Consciência Negra, eu tinha lá meus 21 anos. A gente cria na Paróquia do Tapanã, e aqui no Regional Norte II, Pará e Amapá, a Pastoral Afro para trabalhar essa questão da consciência negra, uma coisa assim, bem ligada à Igreja, mas refletia a questão da Teologia Negra. Eu passei por todo esse processo de formação da Igreja e vinha estudando. Terminei em 1999 meu ensino médio e fiquei um tempo fazendo vestibular, porque aqui era só uma Universidade Federal e era muito concorrido. Existiam as particulares e o IFPA - Instituto Federal do Pará. Fiz o IFPA, em 2003, e comecei a cursar Geografia, fui da turma de 2003 e estava quase saindo da Pastoral Afro para fazer um trabalho com Comunidades Quilombolas, com a Pastoral

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Afro. A gente fazia muitas visitas à alguns quilombos e participava também das atividades do CEDENPA. Em 2011, antes da Nilma lançar a proposta da Marcha, fui me envolvendo. Mas, a associação MALUNGU – Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Pará. Associação da Comunidades Remanescentes do estado do Pará estava se fortalecendo e eu sempre os ajudava elaborar um projetinho para mandar para a Ford, bem barato para ajudar a comunidade. Eu terminei minha graduação e eu comecei mesmo a estudar nessa questão da militância, que está sempre a falar, pesquisa participante. Na época da minha graduação eu era professora-bolsista de geografia um Pré-Vestibular para Afrodescendentes e Indígenas, que foi em 2005. Em São Miguel do Guamá eu não trabalhava, fui poupada... os meus tios trabalhavam, mas aí eu não trabalhava eu fazia mais serviços domésticos em casa ou então aos domingos. Era tudo muito coletivo, eu trabalhava coletivamente. Aqui eu fui trabalhar em casa de família. Às vezes, quando eu ia ajudar em alguma função, eu ia reparar um menino, ganhava coisas, por exemplo, higiene pessoal, uma roupa o dinheiro da passagem para ir para escola, roupa nova e as vezes roupa usada, então era muito essa relação. Muitas amigas minhas passaram isso que eu passei. Por exemplo, eu passei 2 anos, um ano na casa de uma mulher, porque estava muito difícil a situação lá em casa. Fui morar na casa dessa mulher, até aqui na municipalidade, aí ela me dava as coisas, higiene pessoal e me dava o dinheiro para ir para a escola, assim, o dinheiro da passagem. Eu morava na casa da mulher e aí eu não aguentei. Quando eu terminei o ensino médio, fui dar aula numa escolinha, aquela clássica, ne? Para ganhar alguma coisa e aí eu parei de fazer esses serviços domésticos. Mas, não tinha salário na escolinha, atrasava. [..] teve uma seleção para Agente Comunitária de Saúde na minha rua, aí eu fui e fiz a seleção e aí passei e fiquei como Agente de Saúde na minha rua, isso em 2001. De 2001 pra cá eu parei de fazer serviços domésticos, trabalhar como diarista. Eu já rompi com amigas minhas que fizeram esse processo, vieram lá do seu município para trabalhar aqui, aí trabalhava, morava. Aí "ah, é da família!", da família não", porque você não tem horário, não fica de perna para o ar, aqui eu fico de perna para o ar na minha casa. Eu já tive vários embates com amigas minhas, não é da família, elas me acham um pouco radical. Tem de uma colega minha que ela trabalha, ela é quilombola e hoje ela é Secretária Administrativa da MALUNGU, grande liderança quilombola e ela veio trabalhar pra cá, ela é de Salvaterra, ganhando R$ 50,00 reais. A história dela está

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naquele Mulheres Negras em Primeira Pessoa33, Jaqueline Alcântara. E, isso, ainda se reproduz. Quando eu passei a ser agente de saúde, também passei a ser uma liderança comunitária lá no Tapanã de 2001, onde foi a base de minha formação. Em 2005 tenho a experiência como bolsista do PIC34 Pré Vestibular para Descendentes Indígenas. Em 2006 vou fazer meu TCC na comunidade quilombola lá em Concórdia do Pará, eu sabia que Santa Rita das Barreiras era uma comunidade quilombola, já estavam assim pelo processo de formação e Titulação, mas aí eu falei assim: eu não vou influenciada pela antropologia, por um lado foi bom e por um lado não foi porque eu cresci muito. Ah, eu não vou me envolver, né? Lendo Gertz, meio tortamente (muitos risos). Então eu vou procurar um outro lugar, fui fazer um trabalho com os quilombolas. Esse trabalho ficou bem intenso, até hoje, tenho esse trabalho com os quilombolas de Bugeri Concórdia do Pará, uma comunidade que é bem interessante. Existe um feminismo nos contextos rurais, a mulher que está lá, ela pode não se indicar "eu sou feminista negra", "vocês não falam coisa com coisa, quando a gente debate alguns assuntos que não é do cotidiano delas”, mas, existe um feminismo negro no contexto rural e isso está muito evidente aqui na Amazônia. A minha vida foi assim e quando eu terminei a graduação, eu me inscrevi, eu fiz o TCC: A Geografia na Territorialidade Quilombola em Concórdia do Pará, estudando o processo de territorialização das comunidades que se associaram à ARQUINEC - Associação de Remanescentes de Quilombo de Nova Esperança de Concórdia do Pará. Em 2007, fui para o Programa de Bolsa da Fundação Ford e fui selecionada, para fazer o mestrado. Quando eu me formei, deixei meu currículo na SEDUC e viram que meu perfil de líder, de educadora, trabalhava com criança e adolescente falaram que tinha vaga lá para o EREC35, a FEBEM de vocês, fui trabalhar até metade de 2008, como professora e fala da compra de panelas antiaderentes com o primeiro salário. (MALCHER, 2016).

33 Mulheres Negras em Primeira Pessoa. Disponivel em:

https://escrevivencia.files.wordpress.com/2014/03/mulheres-negras-na-primeira-pessoa.pdf. Acesso em: 22 de junho de 2016.

34 O Programa, através da seleção pública de projetos, apoia a instituição que promove o curso e oferece bolsas aos estudantes. São os PIC's projetos inovadores de curso, que se iniciaram em 2002, em três estados da federação e com 900 estudantes participantes. Em 2005, alcançamos mais de 5 mil alunos, distribuídos em sete estados da federação. Disponível em: Acesso em: 22 de junho de 2016.

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II. 6. Nilma Bentes36

Figura 08: Arquivo pessoal Rosalia Lemos

Fui a sexta filha entre oito (8) irmão [Figura 08], fiquei um tanto apagada no meio de todos. Tive consciência do racismo desde criança, pois minha avó paterna não gosta de negros. Assim sofri desde cedo com o racismo e até me revoltava com meus pais, pensava: “ se sabiam que eu ia sofrer por que me colocaram no mundo? ”. Quando estudante, fui uma atleta e pratiquei quase todas as modalidades esportivas no Colégio Estadual Paes de Carvalho, onde tentava, também, neutralizar o racismo estudando muito, muito, muito. Fiz graduação em Engenharia Agronômica e trabalhei por 26 anos em um banco regional (Banco da Amazônia S.A, de onde saí aposentada como analista de projetos agropecuários. Todas as minhas vivencias e militâncias contribuíram, entre tantas ações, para organizar a Marcha das Mulheres Negras 201537. (BENTES, 2016).

Figura 09 – A criação e a criatura – Nilma Bentes na Marcha

Fonte: Arquivo pessoal de Nilma Bentes

36 É oportuno reafirmar que a entrevista de Nilma Bentes foi perdida, mesmo tendo sido gravada em dois aparelhos e contar com a mesma técnica no momento de sua execução.

37 Minha homenagem especial à Nilma Bentes por toda sua trajetória no ativismo feminista negro, Axé, minha irmã! Reproduzido da página de Nilma Bentes no Facebook. 2015. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1647722125491574&set=a.1647722445491542.1073741837.100 007614066652&type=3&theater. Acesso em 25 de jun. de 2016.

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