1. NEOLIBERALISMO, MÍDIA E CULTURA DO CONSUMO
1.4. AS DIMENSÕES PSÍQUICAS DO SUJEITO NEOLIBERAL
Scharff (2015), buscando suprir uma lacuna na teoria no que diz respeito à dimensão psíquica do sujeito neoliberal, realiza mais de 60 entrevistas em profundidade com mulheres musicistas. Seu pressuposto é de que o neoliberalismo não assume que os sujeitos incorporem o espírito empreendedor automaticamente, sendo necessário o desenvolvimento de formas institucionalizadas de divulgação e promulgação deste ideal. A autora justifica a escolha do corpus pelo modo como discursos públicos posicionam jovens mulheres e trabalhadores de indústrias criativas como sujeitos empreendedores ideais. As conexões entre juventude, feminilidade, consumo, transformação de si e noções de escolha sugerem que jovens mulheres são posicionadas como sujeitos neoliberais, assim como trabalhadores de indústrias culturais,
44 devido à ênfase em autonomia, autorrealização e competição, típicas do setor. Logo, as musicistas entrevistadas podem ser consideradas sujeitos empreendedores por excelência.
Além disto, dois pontos são importantes de se considerar: primeiro, a maioria das entrevistadas é branca de classe média; segundo, as mulheres são de diversos países, apontando para uma subjetividade neoliberal globalizada – a autora não encontrou diferenças específicas em relação às nacionalidades.
Ao fornecer análise baseada em pesquisa empírica sobre como a subjetividade empreendedora de si é vivida, o trabalho de Scharff (2015) contribui com a nossa pesquisa a partir de duas frentes: primeiro, ao abordar questões sobre subjetividade, de fato adentrando na dimensão psíquica do neoliberalismo; segundo, por se basear em dados empíricos, a pesquisa explora a subjetividade empreendedora e demonstra que esta se constitui no discurso, a partir de enunciados performativos que reiteram a mentalidade favorável ao capitalismo.
Neste sentido, as dimensões psíquicas do sujeito neoliberal empreendedor de si encontradas pela autora, a partir das entrevistas, foram:
Eu-empresa
Muitas vezes utilizando uma linguagem de negócios ao referir a si mesmo, o sujeito neoliberal se enxerga como empresa. Esta visão, portanto, se diferencia do liberalismo clássico, na qual o sujeito era propriedade. Melhoramento pessoal não tem limite e exige trabalho constante. Além disto, tanto aspectos físicos quanto mentais e espirituais devem ser otimizados.
Proatividade o tempo todo e com tempo de menos
Mesmo nos horários de lazer, o sujeito neoliberal exerce alguma atividade produtiva.
Ele nunca para (mentalidade 24/7). Como não há limite para o desenvolvimento pessoal, o uso produtivo do tempo é de praxe. E como esta produtividade é aplicada a todas as esferas da vida, ocorre a sensação de que o tempo nunca é suficiente.
Abraçando os riscos, aprendendo com os fracassos e se mantendo positivo
Assim como as empresas, os sujeitos neoliberais estão dispostos a correr riscos.
Assumindo uma perspectiva otimista e positiva, os empreendedores de si enxergam os
45 fracassos como experiências de aprendizado e não como fatores desencorajantes. Esta psicologia positiva é comum nas subjetividades neoliberais, e pode ser despolitizante na medida em que absorve a crítica e o desencanto.
Sobrevivendo a dificuldades
As dificuldades são coisas do passado e já foram superadas. Narrativas de superação são comuns na retórica neoliberal, pois atestam a capacidade do sujeito empreendedor em administrar sua própria vida. O empreendedorismo é posicionado como esforço individual enquanto questões sociopolíticas mais amplas são deixadas de lado, na medida em que estes discursos apontam o episódio de superação, e não tanto a causa do sofrimento.
Escondendo os prejuízos
Os discursos neoliberais repudiam a vulnerabilidade, condição que se reflete na subjetividade empreendedora. Problemas de saúde podem ser normalizados e considerados culpa do próprio sujeito e não das condições precárias de trabalho, por exemplo. Segundo Scharff (2015, p. 9):
Responsável pela gestão de oportunidades e constrangimentos, o sujeito empreendedor pode culpar apenas a si mesmo caso algo ocorra mal. O impacto das forças socioeconômicas é desacreditado enquanto o bem estar é conquistável a partir da autogestão de si apropriada14.
Negociando discursos concorrentes
Os discursos empreendedores frequentemente intersectam outros discursos que podem afirmar, subverter ou resistir a retórica empreendedora. O discurso empreendedor não se firma absoluto.
Discursos sobre desigualdade estrutural são evitados
Vai de encontro à mitologia neoliberal que prega o sucesso por meio de conquistas individuais, sublinhar as desigualdades sociais estruturais que os sujeitos podem enfrentar.
Por exemplo, estes sujeitos podem negar que sofram discriminação de gênero. Desta forma, o poder transformador da crítica social é neutralizado na medida em que o fracasso se torna
14Responsible for managing opportunities and constraints, the entrepreneurial self only has itself to blame if something goes wrong. The impact of socio-economic forces is disavowed and well being presented as achievable through appropriate self-management. (SCHARFF, 2015, p. 9)
46 pessoal, gerando ansiedade e frustração, o que nos leva à próxima característica encontrada por Scharff (2015).
Ansiedade, insegurança e falta de autoconfiança
A precariedade das relações de trabalho desreguladas, típicas de regimes neoliberais, acaba por causar ansiedade. Este sentimento é contrário ao discurso empreendedor e, em vez de causar raiva, leva à falta de autoconfiança do sujeito. Este medo e insegurança constituem um dos modos de funcionamento dos regimes neoliberais ao tornar os indivíduos dóceis.
Competindo consigo mesmo
A competição com si próprio é o único combustível necessário à subjetivação neoliberal. Esta internalização denota modos mais profundos em que as relações de poder da subjetividade neoliberal operam e exploram os sujeitos.
Estabelecendo limites e culpando outras pessoas
Os sujeitos empreendedores costumam se afastar de pessoas ―tóxicas‖ ao seu desenvolvimento pessoal, incompatíveis com seu modo de vida. Normalmente, estas pessoas são vistas como ―preguiçosas‖. A falta de empatia é comum, na medida em que as subjetividades neoliberais são construídas sobre dinâmicas de exclusão e separação, assim como os próprios regimes neoliberais democráticos também são. Scharff (2015) explica que a subjetividade empreendedora se constitui a partir da rejeição àquilo que esta não é. Ao se enxergarem como esforçados, os sujeitos constituem seu self empreendedor, repudiando aqueles que consideram preguiçosos e sem demonstrar empatia com o fracasso alheio.
Resumindo, estes sujeitos neoliberais referem-se a si mesmos como uma empresa, são proativos, não apenas aceitam como abraçam os riscos, administram os obstáculos e escondem os prejuízos. Sua retórica envolve uma diversidade de discursos sem, no entanto, abordarem questões políticas de transformação social. Em vez disto, as aspirações por mudanças são direcionadas ao próprio indivíduo, transmutando críticas sociais para críticas individuais, o que gera ansiedade e insegurança. A competição também se volta ao indivíduo, levando os sujeitos a competirem com outros e consigo mesmos. Por fim, estes sujeitos rejeitam aqueles que não são empreendedores como eles. Ainda, Scharff (2015) atesta que
47 esta rejeição não é um efeito colateral da subjetividade empreendedora, mas sim, constituinte desta.
Os atravessamentos de dinâmicas de poder pautadas em gênero, raça e classe, junto às convocações para a gestão de si nos modos empresariais levantam questões sobre os efeitos psicossociais do neoliberalismo, aponta Scharff (2015). Alguns dos efeitos descobertos por diversos autores são: repúdio à vulnerabilidade e dependência por parte dos sujeitos neoliberais que, por sua vez, manifestam intenso individualismo; ilusão de autonomia e, relacionada a isto, a ênfase na responsabilidade pessoal; mais amplamente, sentimentos de insegurança, ansiedade, estresse e depressão também são associados aos regimes neoliberais.
Ainda sim, nos discursos veiculados pelos media e pelo subsistema da publicidade, somos o tempo todo convocados ao gozo e o desempenho a-mais, como denomina Prado (2013), e isto recai com força especial sobre as mulheres, como vemos no Capítulo 2, a seguir.
Concluindo este capítulo, vimos que o consumo é a linguagem pela qual os sujeitos contemporâneos constroem suas subjetividades e codificam o mundo a sua volta, levantando muros ou estendendo pontes. A mídia veicula a linguagem do consumo, seduzindo os sujeitos por meio de seus discursos a participarem de mundos possíveis criados pelas marcas. Ao lado do consumo, o estudo da mídia é uma chave de reflexão sobre nossa atual conjuntura e, devido sua condição discursiva, devemos localizar seu lugar específico na história, se quisermos apreendê-la por sua complexidade.
A midiatização da sociedade, em consonância com o avanço do neoliberalismo, engendra novos modos de ser e estar. Neste cenário, os discursos midiáticos têm papel pedagógico, ensinando aos sujeitos como serem bem-sucedidos à luz da ideologia empreendedora enquanto silencia os lados menos ilustres de seus mundos possíveis. O sujeito neoliberal vê a si mesmo como empresa, um capital que deve ser investido por meio de práticas de consumo. O corpo é a subjetividade externalizada, dependente do olhar do outro e, portanto, deve ser transformado em busca de um melhor desempenho (mais social do que físico). A produção deste sujeito neoliberal ocorre pela encarnação do discurso, afetando o próprio ethos, como vimos com Scharff (2014) e suas musicistas.
No próximo capítulo, aprofundamos a discussão sobre neoliberalismo a partir de um recorte de gênero. Para as mulheres, uma das implicações da ideologia neoliberal é o labor
48 estético, o trabalho em se manter sempre apresentável, tornando-as ainda mais vulneráveis a coerções subjetivas.
49