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DITOS E NÃO DITOS QUE CONVOCAM O SUJEITO NEOLIBERAL

No documento sujeito neoliberal feminino (páginas 119-155)

4. OS DITOS E NÃO DITOS NO DISCURSO PÓS-FEMINISTA DA CAMPANHA

4.5. DITOS E NÃO DITOS QUE CONVOCAM O SUJEITO NEOLIBERAL

O contrato de comunicação engendrado pela campanha ―Silicone Seguro‖ atende ao sujeito neoliberal na medida em que apresenta os implantes como uma escolha individual, algo que se faz apenas para si mesmo como forma de amor próprio, ideia corroborada pelos discursos pós-feministas. Nesta construção discursiva favorável aos implantes, omite ou distorce tudo aquilo que lhe pode ser prejudicial, ressignificando uma prática especialmente arriscada (e dolorida) de labor estético como um sonho a ser realizado. O enunciador mobiliza os afetos para atingir o desejo daquilo que falta, o gozo a-mais que a indústria farmacopornográfica oferece aos seus sujeitos.

Na Tabela 2, a seguir, relacionamos os ditos e não ditos com as dimensões do sujeito neoliberal que abordamos ao longo da pesquisa, pois consideramos a campanha ―Silicone Seguro‖ um mapa de como atingir determinada ideia de sucesso, tendo as convocações midiáticas o papel de promover subjetividades constituintes deste sujeito.

Tabela 2: Os ditos e não-ditos do discurso da campanha Silicone Seguro

DITOS NÃO-DITOS SUJEITO NEOLIBERAL

Leveza e liberdade. Peso das próteses. Autônomo e agente de si.

Valorize seu corpo. Transforme seu corpo. Proativo e vigilante.

Colocar silicone é um ato de coragem e resistência.

Colocar silicone é uma

conformação à norma. A mulher empoderada é a que se cuida.

O sonho dos implantes de silicone.

O mercado de gozo infindável.

Trabalha para atingir suas metas e alcançar seus objetivos; deve se transformar para atingir o sucesso.

120 Amizade entre

mulheres.

Ausência da figura

masculina. Retorno às diferenças ―naturais‖ entre gêneros.

Apropriação de discursos feministas.

Esvaziamento do potencial de

transformação social.

Empreendedor de si, o sucesso é conquistado por conta própria, ignorando estruturas sociais que podem favorecer ou dificultar o caminho.

A cirurgia tem riscos. Informações claras e completas sobre riscos.

Disposto a correr riscos, se os possíveis benefícios compensarem.

Os implantes são uma escolha.

Os implantes são a

única opção. Autônomo e agente de si.

Mulheres de corpo magro.

Imagem do corpo siliconado.

Seu corpo ainda deve ser atender aos ideais hegemônicos de beleza, mas o mais importante é sentir-se bonita.

Autoestima elevada.

Autoestima pode não aumentar, quando não diminui.

Trabalha para aumentar sua autoconfiança, e os implantes contribuirão para isto; questões internas podem ser resolvidas por ações externas

(consumo).

Cirurgia de implante é relativamente segura.

Cirurgia de explante é complicada.

Esconde os prejuízos e supera as dificuldades por conta própria.

Preço baixo da cirurgia de implante.

Preço muito mais alto

da cirurgia de explante. Disposto a investir no seu corpo-capital.

Fonte: Elaborada pela autora

Pelos ditos e não ditos pudemos entender o funcionamento da fábrica do corpo neoliberal, movida por convocações regadas de afetos pós-feministas. Primeiro, com os ditos, entendemos que: as convocações com carga afetiva interpelam o sujeito para que ―Ame seu corpo‖, desde que resulte nos implantes de mama – de preferência, Mentor; com o

―Empreendedorismo empoderador‖, vimos que práticas de embelezamento são ressignificadas como emancipadoras; o ―Mundo de afetos‖ de ―Silicone Seguro‖ é inundado por sentimentos de amizade e realização; a mulher adulta, ainda que jovem, é transformada em uma menina ingênua que ama cor-de-rosa e se afasta do feminismo quando este começa a ficar sério demais, representando as ―Novas feminilidades‖ que o discurso pós-feminista engendra; ―A vigilância de si e dos outros‖ implica que este sujeito não pode descuidar da aparência, mesmo estando ―livre‖. Este tipo de liberdade está em, justamente, se conformar com a regra, mantendo o status quo. ―Eu tenho um sonho‖, não de uma sociedade mais igualitária, mas de colocar silicone.

121 Já os não ditos nos ensinam que, para esta fábrica operar em plena capacidade, certas informações devem ser omitidas ou silenciadas, evitando-se apelar para a mentira pura e o confronto que a verdade implicaria. Apresenta-se um mundo de sonho, no qual até o corpo siliconado é uma abstração, representativo da falta que o sujeito nunca vai suprir, lembrando o supereu de gozo infinito desta economia libidinal. Se o desejo se constitui pela falta, quando o silicone for implantado, outro sonho tomará seu lugar (uma ―lipo‖, talvez?). O sujeito neoliberal, convocado ao gozo, estará pronto para persegui-lo.

Neste mundo os homens não são bem-vindos, mas, para compensar, as mulheres cultivam laços de amizade especiais entre elas mesmas. Todas têm o sonho de colocar as próteses e adoram conversar sobre isso – e, mesmo assim, ainda falta-lhes informação. Por fim, assim como a decisão parte delas mesmas, como indivíduos, a responsabilidade caso os implantes causem algum problema, recai sobre elas também. Se tivessem juntado mais moedas em seus cofrinhos, poderiam pagar uma cirurgiã mais confiável, e assim por diante.

Em outra nota, tendo em vista que a mídia estrutura percepções e cognições, um dos pontos que nos chama a atenção é que os sujeitos do pós-feminismo são mulheres que aderem às práticas de beleza e de consumo consideradas pelos feminismos de segunda onda como opressoras. Estas práticas são agora ressignificadas pelos discursos pós-feministas circulantes na mídia, apesar de serem quase as mesmas – a diferença é que são mais extensas, elaboradas e arriscadas – para se tornarem símbolo de emancipação da mulher. É uma liberdade disciplinada que exige trabalho e vigilância constantes, possibilitada pela midiatização da sociedade:

A mídia co-estrutura a comunicação e a interação (isto é, o nível da mediação), mas a midiatização ocorre através da institucionalização de padrões de interação particulares (regras formais e informais) e alocação dos recursos interacionais no interior de uma instituição social ou esfera cultural em particular. A mídia não deve ser considerada um fator externo à interação social ou às instituições sociais mas, ao contrário, tem se tornado parte integrante da estruturação de ambas. (HJARVARD, 2015, p. 4)

O discurso objetivista e racional da medicina se adequa às lógicas de mercado da nossa sociedade midiatizada. No caso em questão, a midiatização contribui para ressignificar uma questão de saúde pública como ―empoderamento feminino‖ no sentido pós-feminista do ethos midiatizado, ou seja, individualizado, desprovido de valores sociais. O dispositivo do perfeito é posto em ação, convocando as mulheres a se ―aceitarem‖, pois agora o chique é ser confiante, após décadas veiculando, não só pela mídia, mas na cultura em geral, um ideal de

122 corpo para agradar o olhar masculino e que a maioria nunca atingirá. Desta forma, mantêm as mulheres sob o controle de si mesmas.

Mas sabemos que as cirurgias plásticas não envolvem apenas uma questão de sujeição à ordem estética (ou de autoestima individual); existe uma série de riscos à saúde, a limitação dos movimentos que se adquire após os implantes, a perda de tempo com a recuperação, para talvez, no fim, ser necessária a troca das próteses, levando a mulher a passar por todo o procedimento novamente. Nada disto é falado no discurso de ―Silicone Seguro‖, pois se o fosse, seu mundo possível provavelmente não se sustentaria.

Por sua vez, este mundo possível oferecido pelas próteses Mentor é feito de muitas cores e dias ensolarados, onde as mulheres ficam mais leves e libertas após a implantação de sacos de silicone em seus corpos, cuja musculatura e coluna deverão se adaptar para suportá-los. O problema de autoestima e autoimagem se resolve por uma cirurgia, e não pelo trabalho intrapessoal. Se a mulher ainda continuar insatisfeita, existem outras práticas de beleza para suprir a eterna falta.

Cabe ressaltar que é muito mais complicado lidar com a questão da escolha individual quando a opção é uma cirurgia de grande porte e não unhas acrílicas ou extensões de cílios.

Quando uma prática da medicina privada passa a ser conduzida em hospitais públicos do SUS, isto se torna um problema de saúde pública. Como vimos com Jarrín (2017), as cirurgias plásticas são uma forma de biopolítica que se incide no corpo da população menos privilegiada, que deve arcar em silêncio com os problemas que possam vir a surgir de suas cirurgias. Mas a falta de informação e, portanto, a retirada do poder de escolha, é uma questão até para as pacientes de clínicas e hospitais privados, como mostra pesquisa feita pelo ICIJ102:

Mais de 300 mulheres de vários países que responderam a uma pesquisa do ICIJ disseram que não estavam cientes dos perigos dos implantes mamários antes da cirurgia. Essas entrevistadas foram contatadas pelo ICIJ por meio de grupos do Facebook em que mulheres relatam problemas com as próteses.

Apenas duas entrevistadas disseram que foram avisadas sobre riscos de saúde sistêmicos ou de longo prazo antes do implante. Mais da metade disse que houve alertas sobre complicações locais, como infecção e ruptura, mas não sobre riscos de longo prazo. Cerca de dois quintos das mulheres disseram que não receberam nenhum alerta de segurança.

102 ICIJ. Empresas omitem lesões causadas por implantes de mama. Piauí. 2018. Disponível em:

<https://piaui.folha.uol.com.br/empresas-omitem-lesoes-causadas-por-implantes-de-mama/>. Acesso em jan.

2019.

123 Os não ditos da campanha ―Silicone Seguro‖ se somam a esta zona cinzenta que é a indústria das cirurgias plásticas no Brasil. A agência do indivíduo é ressaltada na hora de decidir pelos implantes, mas é uma escolha ilusória, já que as informações só são concedidas até certo ponto. Pode ser que muitas mulheres ainda decidissem optar pelos implantes, mas, pelo número de pacientes arrependidas nos grupos de Facebook criados para discutir o tema, podemos aferir que teríamos um quadro diferente caso estes riscos fossem comunicados mais abertamente.

Ademais, podemos identificar um pacote de subjetividade que se constrói ao longo do discurso de ―Silicone Seguro‖. O sujeito convocado pela campanha é, primeiramente, muito jovem e, de preferência, magro – característica legitimada pela medicina, já que as próteses não são indicadas para o corpo gordo. Ela é segura de si e normativamente bonita, além de divertida, leve e de sorriso fácil. Usa roupas coloridas e que mostram o corpo, mas não é extremamente sensual e sim, livre. Sempre na companhia de amigas mulheres, em um momento está tirando fotos com adereços infantis; em outro, está brindando em um bar. Ela é disciplinada, movida por suas metas e sonhos, mas se ―permite‖ um chocolate de vez em quando. Acima de tudo, valoriza a si mesma e seu corpo, e por isso escolhe as próteses Mentor.

Por mais que a campanha tenha como objeto trazer informações para auxiliar em tomadas de decisão mais seguras, e por mais que bata na tecla de que a decisão é da própria mulher, denotamos que seu lugar no mundo de ―Silicone Seguro‖ é de um sujeito passivo. O mapa sugerido pela campanha não permite desvios: o destino final é a cirurgia de implante, na medida em que omite quaisquer informações minimamente desfavoráveis ao silicone e legitima o cirurgião plástico como figura de autoridade máxima.

Felizmente, muitas mulheres estão se atendo às outras faces deste discurso, mas com força ainda reduzida diante dos desafios de lidar com as cirurgias plásticas no Brasil. Se a resistência só pode acontecer dentro da própria rede de poder, a mulher que decide explantar suas próteses está, de fato, resistindo, já que o procedimento é caro, a dificuldade em encontrar um médico disposto a realiza-lo é alta, a cirurgia é ainda mais complicada que a de implantes e as cicatrizes são longas e aparentes, fora as implicações psicológicas em ter de passar por esta situação.

124 Se os feminismos até a primeira década do séc. XX eram pautados por demandas sociais, na medida em que o neoliberalismo avança, desloca o social para o individual. Aquilo que era luta – a mulher alterando suas relações de poder na esfera pública – com o neoliberalismo, ao estimular o sujeito individualizado, o que passa a ter relevância é o querer, são os imperativos do desejo, não mais as ações voltadas ao bem-estar coletivo. Assim, o pós-feminismo, disfarçado de empoderamento feminino é, na verdade, a continuação das relações de poder hegemônicas, da qual a figura masculina, branca e heterossexual é a maior beneficiária. Por sua vez, a mulher é infantilizada e tem sua esfera de atuação restringida ao universo da subjetividade e das emoções. A autonomia adquirida sobre seu corpo é ilusória, pois é uma escolha com apenas uma opção: conformar-se ao ideal heteronormativo de beleza, ainda que prejudique a própria saúde no processo.

Fechando nossa análise, Buitoni (2014, p. 41), ao analisar as revistas femininas ao longo do século XX, percebe que a Revista Nova, ―a princípio, parecia uma publicação que defendia a inserção feminina na esfera pública; porém sua perspectiva sempre foi vinculada ao consumo. A mulher continuava a precisar trabalhar o corpo para ser mais desejável para o homem‖. No caso da campanha institucional de ―Silicone Seguro‖, temos um empoderamento domado, semelhante ao observado na Revista Nova. A atuação da mulher continua restrita a ambientes que não apresentam nenhum tipo de risco ao patriarcado e, no fim, a autoridade máxima é uma figura masculina, que opina sobre o corpo da mulher para então, literalmente, moldá-lo, seguindo suas próprias recomendações.

Embora se venda a transformação do corpo como uma possibilidade de autonomia e agência feminina, a relação de biopoder que se exerce sobre os corpos das mulheres fica evidente com a análise feita ao longo de toda a pesquisa. Isto mostra a capacidade do capitalismo em cooptar discursos, se apropriando de lemas e ideias feministas de emancipação feminina e as vendendo de volta ao consumidor na forma de tecnologias do self potencialmente prejudiciais à saúde física e mental da mulher. Uma mulher fraca é uma mulher sem vontade. Somado a isto, ainda precisa lidar com acusações – disfarçadas de recomendações médicas – de que seus sintomas podem ser coisa de sua cabeça. Parece que voltamos ao século XIX, nos tempos de mulheres histéricas, sem voz, subjugadas a figuras masculinas de autoridade. A diferença é que, agora, somos convocadas a tomar parte por conta própria nestas relações de poder desfavoráveis a nós.

125 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta etapa de conclusão de nossa pesquisa, resgatamos nossa questão mobilizadora, refletimos sobre as limitações e trazemos algumas possibilidades de continuidade, além das contribuições do trabalho ao campo, especialmente em relação ao debate sobre Comunicação e Consumo e suas imbricações nos discursos sobre beleza e saúde. Enquanto produtor de sentidos, o discurso é um processo contínuo e dinâmico. Em nossa pesquisa observamos as movimentações discursivas que promovem biossociabilidades, seja na construção do sujeito neoliberal que enxerga nos implantes de mama um investimento, seja na luta das mulheres que se arrependeram e se unem para reivindicar justiça.

Buscamos, neste trabalho, a partir de nossos corpora, constituídos por materiais dispersos na mídia sobre o discurso das cirurgias plásticas e pela campanha ―Silicone Seguro‖, levando em conta sua formação discursiva, responder à seguinte questão: Como se constituem as interações discursivas entre os discursos midiáticos sobre beleza e saúde, considerando a articulação entre comunicação e consumo na produção do sujeito neoliberal e na promoção de biossociabilidades? Nosso objetivo, por sua vez, é de contextualizar e analisar os discursos midiáticos sobre beleza e saúde, identificando seus ditos e não ditos à luz de teorias da comunicação e do consumo.

Para respondermos nosso problema e atingirmos o objetivo, realizamos um percurso teórico-analítico baseado em pressupostos da Análise do Discurso Francesa articulados a teorias a respeito de neoliberalismo, pós-feminismos e biossociabilidades, tendo como grande guarda-chuva os estudos sobre Comunicação e Consumo. Em cada capítulo, procuramos contextualizar os aportes teóricos, analisando os discursos midiáticos sobre beleza e saúde conforme avançamos na discussão.

Iniciamos a dissertação demarcando nosso ponto de partida nos estudos de Comunicação e Consumo, nos atentando às articulações entre estes dois campos. A mídia veicula a linguagem do consumo e convoca os sujeitos a perseguirem mapas simbólicos com destino a uma boa vida. A intensificação da midiatização da sociedade altera os modos de ser e estar, constituindo o ethos midiático. A mídia passa a ser a instituição, em detrimento de valores familiares, religiosos e políticos, e tem o consumo como linguagem primordial.

No contexto da gestão neoliberal globalizada, os sujeitos são convocados a administrar suas vidas como se fossem empresas, cujas metas de sucesso se elevam infinitamente. Os

126 discursos midiáticos fornecem os mapas para a construção desta subjetividade, sempre pautadas em práticas de consumo. Os avanços da tecnociência, por sua vez, permitem a formação de subjetividades medicalizadas, definidas pelas substâncias estranhas que o corpo carrega – o silicone é uma destas. A dimensão subjetiva dos trabalhadores passa a ser explorada como mais-valia. Para a mulher, isto significa empreender o labor estético: seu corpo deve ser transformado, e sua autoconfiança, trabalhada.

Quanto à nossa análise, o recorte empírico se deu pela coleta de materiais da campanha ―Silicone Seguro‖, tanto os posts veiculados em sua página no site de rede social Facebook, quanto partes de seu site oficial. Com isto, pudemos identificar e analisar as estratégias discursivas de um exemplo exemplar do discurso sobre implantes de mama no Brasil. A partir da noção de ditos e não ditos, encontramos categorias relativas às convocações midiáticas ao sujeito neoliberal que, no caso de ―Silicone Seguro‖, condizem com a sensibilidade pós-feminista da contemporaneidade.

As interações discursivas de ―Silicone Seguro‖ convocam o sujeito neoliberal feminino a empreender o labor estético na medida em que naturalizam uma intervenção radical, tratando-a como apenas mais uma prática de beleza que a mulher faz porque gosta.

Nesta construção discursiva engendrada pelo dispositivo do perfeito, ignoram-se estruturas sociais mais amplas ao posicionar a mulher como agente de si, cujas decisões partem de um desejo profundo e não relacionado com a pressão social perene sobre o sujeito feminino para que esteja sempre ―se cuidando‖. Por conta disto, consideramos a campanha ―Silicone Seguro‖ conservadora em diversos aspectos, ainda que seja uma tentativa de diferenciação das concorrentes. O ―empoderamento‖ que prega é domado, inofensivo.

Ao desvelarmos a complexidade dos discursos sobre cirurgias plásticas, no âmbito midiático, nos fortalecemos diante de suas estratégias. O sujeito neoliberal, acostumado a gerenciar riscos, aceita a cirurgia pela suposta segurança, considerando que os benefícios compensam os riscos. A mídia institucionalizada divulga os inúmeros benefícios dos implantes para a mulher enquanto as silencia narrativas desfavoráveis. Mas, como vimos, as complicações são mais comuns do que se pensa, e a divulgação de informações aos pacientes é limitada devido ao lugar de prestígio que os cirurgiões plásticos guardam na sociedade brasileira. Ao investigarmos estas interações discursivas, revelamos que o funcionamento dos discursos sobre beleza e saúde no Brasil são pautados por relações de poder/saber profundamente marcadas por gênero. De um lado, as mulheres que se engajam no labor

127 estético e aderem às práticas de embelezamento radicais, como as cirurgias estéticas. De outro, a figura masculina do médico que, como especialista, tem autoridade para opinar sobre o corpo feminino a partir de uma posição de poder.

O direito à beleza implica no corpo menos privilegiado sendo utilizado para estudos clínicos e testes de produtos que, mais tarde, serão vendidos para os que podem pagar, caso sejam minimamente seguros. Os não ditos deste discurso gritam, pois não deveriam estar silenciados. Os implantes não são testados em longo prazo, e todos parecem aceitar este contrato silencioso entre empresas, médicos e pacientes a respeito da [falta de] segurança destes dispositivos. A lógica da obsolescência programada se aplica de forma cruel aos implantes de silicone mamários, cujas implicações à saúde de milhões de mulheres são reais.

Por maiores que foram os avanços feministas até hoje, nesta segunda década do século XX, com um neoliberalismo já avançado e um mundo em crise, o corpo da mulher ainda é lócus privilegiado para investigarmos as relações de poder. As cirurgias plásticas podem ser frutos de uma escolha, mas por que não se divulgam com a mesma veemência as cirurgias para homens? E por que sempre se referir aos seios de uma mulher mais velha como flácidos e caídos? A mulher que decide pela cirurgia tem o direito de querer melhorar sua autoestima, mas devemos nos questionar por que sua autoestima abaixou em primeiro lugar. Em nossa conjuntura, antigos papéis de gênero estão sendo revisitados, e toda manifestação de retrocesso deve ser criticada.

Quanto às limitações da pesquisa, entendemos que, ao analisarmos apenas uma marca dentre um universo muitas, restringimos nosso olhar. Por conta disto, tentamos exaurir em verticalidade o que não conseguimos em horizontalidade. Ainda sim, sabemos que nosso objeto empírico é rico em sentidos e permite uma infinidade de análises. Nesta pesquisa, optamos por um recorte enxuto, porém significativo e, mais importante, suficiente para responder nossa pergunta.

Nossos resultados não são definitivos, como em todo processo investigativo que se preze, outras pesquisas trarão novos achados que se somarão aos de nossa pesquisa na construção de conhecimento do campo da Comunicação. Os discursos sobre implantes de mama estão em ebulição, com a segurança destes dispositivos sendo, novamente, posta em cheque. Vale a pena nos mantermos atentos às novidades e desdobramentos destes discursos,

No documento sujeito neoliberal feminino (páginas 119-155)