3 PERCURSO TEÓRICO
5.5 AS DORES DO PRECONCEITO
Na presente subseção, destacamos os trechos que retratam as respostas das alunas sobre as discriminações e os preconceitos sofridos por elas na prática do futebol.
Segundo Bourdieu (2009), a relação de dominantes e dominadas (no caso do futebol, do homem sobre a mulher) e a aceitação, por vezes tácita e contra suas próprias vontades, dos limites impostos ao juízo dominante, das censuras inerentes às estruturas sociais, são capazes de assumir formas de emoções no corpo como
vergonha, humilhação, mal-estar, timidez, ansiedade, culpa, raiva, cólera etc. Essas emoções corporais vivenciadas são maiores à medida que aumenta a desproporcionalidade “[...] entre o corpo socialmente exigido e a relação prática com o próprio corpo imposta pelos olhares e reações dos outros, [variando] nitidamente segundo o sexo e a posição no espaço social” (BOURDIEU, 2009, p. 81).
As emoções, perceptíveis nas falas de E4, demonstram, ao mesmo tempo, vergonha, raiva e fuga. Nas vozes de E6 e E7, o medo de não corresponder aos olhos dos outros (os meninos) é parte integrante do jogo de futebol vivenciado por elas e por outras meninas.
Hoje em dia eu não ligo mais, mas antigamente que queria dar na pessoa (bater na pessoa) por causa disso, mas hoje, eu não ligo mais. E4
E um menino foi contra [eu jogar futebol na Educação Física] e disse: “Não. Você não vai jogar e ponto final. Daí tipo, eu chorei, né ... e saí correndo com vergonha, porque o menino, ele botou mesmo, bateu o pé no chão e disse que não ia jogar, só porque eu era menina (voz embargada) e eu fiquei com raiva porque queria jogar, entendeu? Aí eu fui pra casa e tal. E4
Tinha outras meninas que gostavam de jogar, mas acho que elas não iam porque, com medo dos meninos falar besteira, não deixar, aí só jogava eu e ela. E6
[...] porque eu tinha medo de não saber jogar como os meninos jogavam, né, claro, e tinha medo de eles falarem besteira comigo. E7
Eu acho que, por mais que tenham meninas que saibam jogar, elas vão ter meio que medo de ir, por causa, é ... elas não vão saber como ir, vão ter medo de que os outros vão falar, do que os outros vão pensar: Ah, uma menina jogando bola, não sei o que...ou é sapatão ou é alguma coisa do tipo. E7
Situações de silenciamento ou formas similares de fuga de conflitos também foram observadas nas entrevistas, corroborando com os estudos de Corsino e Auad (2012) quando afirmam que a construção das identidades ocorre durante as aulas de Educação Física escolar, resignando-se às assimetrias de gênero na escola, a fim de manter um ambiente harmonioso. As falas das entrevistadas E1 e E4 são exemplos dessas identidades resignadas.
Tipo, quando eu tava jogando, aí um menino chegou, e só me tirou do time, assim. Falou que eu não sabia jogar, num sei o que, e me tirou do time. Aí eu fui pra casa...[fiquei triste] até demais. E1
Tem alguns que não gostam não, mas a maioria apoia, mas eu não gosto muito de jogar muito com os meninos, porque eles implicam com gente: Ah, ela aí não sabe jogar e tal. Não gosto muito de jogar muito com os meninos por isso, não gosto, acho que tem muito conflito. E4
Eu tento conversar com a pessoa, se a pessoa vir com ignorância, então eu só me afasto e deixo a pessoa falar sozinha. E4
Identificamos, ainda, em alguns relatos das alunas, sensações dolorosas ligadas às agressões simbólicas relacionadas ao preconceito, tais como as proibições e os estereótipos, atrelados ao esporte que elas praticam e que são potencialmente capazes de machucar.
Para Maia e Santos (2018, p. 63), a dor pode ser entendida como uma sensação de ordem “[...] subjetiva, ou seja, cada indivíduo percebe e reconhece o que é e como é [...]”, com base nas experiências de cada um e nos diversos sentidos que constroem sobre ela. Já Le Breton (2007, p.53) salienta que cada ser humano “atribui valor e significados diferentes à dor conforme sua história e pertencimento social".
Ratificando os achados de nossa pesquisa, Maia e Santos (2018) relataram em seus estudos que meninas que jogam futebol são afetadas pelas dores causadas pelo confronto ao domínio masculino, aos estigmas sociais arraigados aos esportes, e, também, por não vivenciar o esporte de forma livre, sem interdições. Em nossa análise, as vozes de E4, E5 e E6 ilustram essas dores percebidas pelas alunas.
[Na escola]... Já me chamaram de lésbica, várias vezes, porque jogava futebol [...]. De primeira eu chorava porque a pessoa falava isso, que isso me magoava bastante, mas hoje, eu nem ligo mais, porque tipo, eu estou fazendo que gosto, não estou fazendo mal a ninguém! Tô nem aí mais. E4
Não ligo mais para coisas que elas falam [sobre eu gostar de futebol]. Não me machuca como antes. E4
[...] eu, ano passado, os meninos não deixavam [jogar futebol na Educação Física], aí eu me sentia rejeitada, porque eu era menina. E5
Muitas meninas não participavam. Era tipo proibido, pra muitas meninas, e elas se sentiam, como eu posso falar...é...rejeitadas. E5
Meu tio é contra. Até hoje ele é um pouco machista, e ele até fala para eu parar de praticar isso, porque ele fala que: não dar dinheiro, que isso não é um bom futuro pra mim, que era para eu mim interessar por outras coisas. Isso machuca bastante (voz embargada), porque é uma coisa que a gente gosta e vê esse tipo de comentário no dia-a-dia não é legal...Eu ficava muito mal antes, quando eu ouvia, mas hoje ele fala e eu nem dou atenção. E6 [...] de primeira quando eu comecei a jogar, eu praticamente, não joguei nada, porque eu tinha vergonha e eu estava me sentindo inferior a eles, aí foi algo bem ruim. E6
[...] só pelo fato de a gente jogar bola, as pessoas podem colocar a gente pra baixo, e falar diversas coisas que nos machucam, só pelo fato de a gente gostar de um esporte, que praticamente é mais visto pelos homens, é mais visto pelo público masculino, é meio que um esporte masculino, e isso dói muito (voz triste). E6
[...] hoje em dia eu não tenho interesse como eu tinha antes, sabe. Eu acho também foi muito por causa de preconceitos ... eh, comentários ruins, porque eu acredito que isso afeta bastante, né? Faz as garotas, meio que quererem desistir. E6
Conseguimos constatar que o impacto negativo das críticas e dos comentários preconceituosos causam recusa e distanciamento das alunas na participação no futebol, além de sofrimentos sócio-afetivos, danos em sua personalidade, autoestima e bem-estar, além de inibir seu envolvimento com o esporte em outros contextos.