3 PERCURSO TEÓRICO
3.2 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DA PRÁTICA DE EDUCAÇÃO
Encontrar caminhos que tornem visível o protagonismo de mulheres nas práticas corporais, culturalmente silenciadas pela ordem masculina dominante, de
cada época, é um grande desafio para todas/os que vivenciam e educam através da Educação Física e do Esporte. Entender como a história da subalternização feminina foi construída, é um movimento importante para a compreensão das relações de gênero no futebol na escola, nosso objeto de estudo.
Para Bourdieu (2009), no mundo sexualmente hierarquizado, com injunções continuadas, silenciosas e invisíveis, as mulheres são ensinadas para acatar, como evidentes e inquestionáveis, normas arbitrárias que se imprimem, insensivelmente, à ordem dos corpos. Para o autor:
[...] o corpo e seus movimentos, matrizes universais que estão submetidos a um trabalho de construção social, não são nem completamente determinados em sua significação, sobretudo sexual, nem totalmente indeterminados, de modo que o simbolismo, que lhes é atribuído é, ao mesmo tempo, convencional e ‘motivado’, e assim percebido como quase natural (BOURDIEU, 2009, p. 20, grifo do autor).
Compreendendo que as marcas de domínio dos homens, também se inscrevem nas práticas corporais, Lucena (2000) nos diz que a mulher começa a superar normas sociais e culturais de dominância masculina e mudar seu comportamento, a partir do processo das urbanizações das cidades e do surgimento de formas de divertimentos esportivos. São nesses espaços esportivizados que ela finca suas raízes, superando, primeiramente, a barreira do privado e se fazendo presente nos ambientes externos à casa, para em seguida, participar de forma mais efetiva da prática esportiva. A partir do entendimento de Lucena (2000, p. 105, grifos do autor), podemos ver que.
Nas provas de remo ou nas partidas de futebol, elas também passaram a se fazer cada vez mais presentes. Anotamos o caso divulgado na Revista Ilustrada, ainda em 1884, numa prova que causou apreensão ao público onde ‘tanto as remadoras vestidas de azul como as de encarnado, surpreenderam a todos pelo modo vigoroso, firme e certo no remar’.
Para Goellner (2005), a prática esportiva realizada pelas mulheres, área que se restringia basicamente aos homens, confirma-se apenas no início do século XX. Logo, a discriminação histórica contra a mulher, na Educação Física e nos esportes, não é recente, ocorrendo desde os Jogos Olímpicos da Antiga Grécia (TUBINO, 2001) até alcançar a figura do fundador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, Pierre
de Coubertin (SÉRGIO, 1994), que sempre manifestou ser contrário e ter uma antipatia pelo desporto praticado por mulheres, como confirmamos nessas palavras.
Technicamente as jogadoras de futebol ou as pugilistas que se tentou exhibir aqui e alli não apresentam interesse algum; serão sempre imitações imperfeitas. Nada se aprende vendo-as agir; e assim os que se reunem para vel-as obedecem preocupações de outra especie. E por isso trabalham para a corrupção do esporte, aliás, para o levantamento da moral geral. (COUBERTIN, 1938, p. 46 apud GOELLNER, 2005, p. 144).
No Brasil, segundo Soares (2012), a Educação Física seguiu os mesmos padrões de segregação de outrora e entendeu que o corpo da mulher era mero reprodutor dos filhos da pátria, alicerçando, desse modo, os ideais burgueses, no que diz respeito aos papéis que a mulher poderia desempenhar e nos espaços que poderia ocupar.
Soares (2012) ainda afirma que entre a segunda metade do século XIX e início do século XX, com base no pensamento médico-higienista e na eugenia que primavam pelo controle e planejamento familiar, a mulher recebeu atenção especial, sendo educada para contribuir, de forma exemplar, com o aprimoramento da raça, através da geração e criação de filhos fortes e saudáveis.
Para Soares (2012), a prática de exercícios físicos para mulheres serviria como medida eugênica para a construção de um corpo apto à nobre tarefa de reproduzir, devendo tais exercícios serem compatíveis com a própria biologia feminina. Conforme afirma Fernando de Azevedo (1960, p. 82-83 apud SOARES, 2012, p. 102), “[...] a educação física da mulher deve abranger os trabalhos manuais, os jogos infantis, a ginástica educativa e os esportes menos violentos de todo incompatíveis com a delicadeza do organismo das mães [...]” como, por exemplo, a natação e a dança. Logo, segundo Goellner (2005), o futebol era uma atividade inadequada, por seu caráter agressivo e viril para as formas e funções do corpo da mulher.
Também podemos considerar a Educação Física da Mulher, como sendo um mecanismo de educação eugênica, partindo de Rui Barbosa (SOARES, 2012), que advogava em favor do exercício físico adequado ao biológico da mulher/mulher-mãe que “[...] acentuasse as suas ‘formas feminis’, construindo, desse modo, boas condições físicas para uma maternidade futura [...]” (SOARES, 2012, p. 102, grifos
da autora), reforçando, assim, a ideia da época sobre as diferenças entre a mulher e o homem.
Em dissonância ao que foi mencionado, salientamos que a educação higiênica e eugênica das elites, valia-se da Educação Física para poder “[...] ditar as normas do ‘comportamento saudável’ e, através dele, inculcar valores de urbanidade, racismo, superioridade masculina, entre outros” (SOARES, 2012, p. 68) (grifo da autora). Na mesma linha, nenhum argumento médico e/ou científico foi favorável à prática de exercícios físicos para a mulher, nem mesmo com a intenção de melhorar sua função reprodutora, sendo julgada como imoral para mulheres.
No início do século XX, alguns projetos educacionais, leis e currículos, que tinham a ginástica como matéria de ensino, impediam as meninas de fazerem tais exercícios (SOARES, 2012), como também a proibiam da prática esportiva. Fernando de Azevedo que defendia a ginástica escolar para meninas e considerava o esporte como algo apenas complementar em sua proposta de Educação Física, não advogava em favor da uma prática esportiva para elas, como aponta Linhales (2009, p. 35, grifos da autora).
[...] essa inclusão do esporte na escola é feita tendo como referência os alunos do sexo masculino. Embora defenda a educação física também para as mulheres, quando a elas se refere não cita os esportes, mas, sim, a ginástica calistênica, considerada por ele o melhor caminho para o aperfeiçoamento psicológico e a elaboração estética ‘da menina de hoje’, ‘mãe de amanhã’.
Felizmente, o caráter discriminador do esporte em relação ao gênero feminino foi sendo denunciado ao longo da história, como afirma Estadella (1979, p. 121), no texto abaixo.
Outra função atribuída historicamente ao esporte é a de elemento discriminador entre o homem e a mulher. Para ela, o esporte constitui a história de uma longa subvalorização. Durante dezoito séculos, o acesso das mulheres à prática esportiva foi absolutamente interditado, na medida em que era considerada como algo próprio e específico do homem, por seu maior desenvolvimento muscular e por entender-se que a prática esportiva podia embrutecer a mulher. Esta concepção modificou-se um pouco no século passado e muito nos últimos cinquenta anos – substancialmente, em função da própria mulher, de sua decidida atitude em suprimir barreiras e tabus.
No mesmo texto, o autor reconhece movimentos e discursos contrários a essa segregação, conforme vemos abaixo.
[...] enquanto a equiparação da mulher em todos os aspectos da vida não for absoluta – sem preconceitos culturais ou sociológicos – ela não poderá encontrar o contexto que propicie a prática normal do esporte, e, portanto, sequer poderá apresentar um índice de seu verdadeiro rendimento. Os teóricos dos esportes sustentam que, quando a discriminação feminina tiver desaparecido, talvez seja possível abolir a atual classificação das categorias feminina e masculina para instaurar uma única e mista (ESTADELLA, 1979, p. 121).
Ao mencionarmos uma nova história das mulheres, nessas práticas, lembremos da frase de Sérgio (1994, p. 103), em seu célebre livro Motricidade Humana: contribuições para um paradigma emergente, explicitando que:
Homem e Mulher representam ambos a mesma humanidade. Ambos têm iguais direitos e deveres. O desporto deve exprimir essa mesma verdade, pondo termo a um tipo de prática predominantemente androcêntrica. Será então o fim do desporto? Não, é antes o fim de uma página da História do Desporto.
Essa transformação social no mundo contemporâneo atribuída à ascensão social da mulher, é devida ao ressignificar de seu papel na sociedade, libertando-se de antigas amarras pelas relações assimétricas de poder entre os gêneros. Segundo Moraes (2014, p. 156), “[...] essas disparidades entre os privilégios fornecidos aos distintos gêneros no esporte nacional é uma construção histórica, mas que vem se alterando significativamente, em muito, decorrente do esforço das mulheres”.
A partir da trajetória histórica da Educação Física e do esporte para as mulheres no Brasil, reconhecemos que a falta de acesso às práticas corporais, permeada por restrições e preconceitos, caminha lado a lado com a própria história esportiva da mulher, quer seja na infância, através dos jogos de rua, quer seja na juventude, durante a iniciação esportiva na escola. Com o argumento de proteção ao seu corpo e à sua saúde reprodutiva, o impedimento à prática esportiva mascarava o interesse de mantê-las passivas e submissas, através da delimitação e cerceamento dos espaços (RIAL, 2014), a serviço de uma ideologia sexista (SOUZA JÚNIOR; DARIDO, 2002).
Nesse entendimento, Franzini (2005, p.321) afirma que:
[...] além do machismo e do moralismo que essas ditas preocupações com o bem-estar das brasileiras não conseguem esconder, elas revelam que, na verdade, o grande problema dizia respeito não ao futebol em si, mas justamente à subversão de papéis promovida pelas jovens que o praticavam, uma vez que elas estariam abandonando suas ‘funções naturais’ para invadirem o espaço dos homens.
A realidade é que o preconceito e a discriminação contra as mulheres, e meninas praticantes de futebol, resistem em entidades importantes da sociedade, como a família e a escola, estendendo-se às universidades, onde as dificuldades ganham contornos mais evidentes. Admitindo as desigualdades na participação de mulheres e meninas no futebol, com a permanência de impedimentos de ordem subjetiva e objetiva, é preciso reconhecer que iniciativas pontuais de contestação, que valorizam a inserção da mulher no futebol, podem ser consideradas como estratégias significativas e renovadoras.
Felizmente, há o surgimento de iniciativas políticas, como a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável6 da ONU, que traz em seu quesito número 5, o
objeto de alcançar a igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas, colocando o esporte como facilitador desse processo de desenvolvimento para a sustentabilidade e emancipação de mulheres.
O esporte é também um importante facilitador do desenvolvimento sustentável. Reconhecemos a crescente contribuição do esporte para a realização do desenvolvimento e da paz ao promover a tolerância e o respeito e as contribuições que fazem para o empoderamento das mulheres e dos jovens, indivíduos e comunidades, bem como aos objetivos da saúde, educação e inclusão social (ONU, 2015, p.12).
Ressaltamos que esse entendimento corrobora com a Declaração e Plataforma de ação da IV Conferência Mundial sobre a mulher7 (ONU, 1995, p. 162),
6Esta agenda é um plano de ação da ONU, declarada em 2015, com 17 objetivos de desenvolvimento
sustentável (ONU, 2015).
7A IV Conferência das Nações Unidas sobre a Mulher, realizada em Pequim, em 1995, é considerada
um marco no processo de promoção da situação e dos direitos da mulher. Pois consagrou, o conceito de gênero, a noção de empoderamento e o enfoque da transversalidade, além de reconhecer que a desigualdade entre homens e mulheres é uma questão de direitos humanos (ONU, 1995).
realizada em Pequim, em 1995, em que consta que a igualdade entre homens e mulheres é condição basilar para uma sociedade mais justa.
O avanço das mulheres e a conquista da igualdade entre mulheres e homens são uma questão de direitos humanos e uma condição para a justiça social; não devem, portanto, ser encarados isoladamente, como um problema feminino. Somente depois de alcançados esses objetivos poderse-á instaurar uma sociedade viável, justa e desenvolvida. O empoderamento das mulheres e a igualdade entre mulheres e homens são condições indispensáveis para alcançar a segurança política, social, econômica, cultural e ecológica de todos os povos (ONU, 1995, p. 162).
Alinhados a esses documentos, vislumbramos o futebol em sinergia com princípios educacionais, como uma das diversas formas de potencializar o desenvolvimento humano e o avanço da mulher na direção de uma sociedade mais igualitária, em detrimento do seu histórico cruel de proibições e preconceitos.
Com a definição conduzida por Freire (2011, p. 17), em que “[...] o futebol é um esporte organizado em um conjunto particular de movimentos que, pela manipulação de uma bola com os segmentos corporais, [...], expressa ideias e os sentimentos de indivíduos e, de uma maneira mais global, a cultura de povos [...]”, estabelecemos uma referência para a história desse esporte em nosso país, em consonância com o que nos traz Daolio (1989, p. 58), quando considera o futebol “[...] como uma prática social que, como tal, expressa a sociedade brasileira, com todas as suas aspirações mais antigas, seus desejos mais profundos e suas contradições mais camufladas”.
Lucena (2000, p. 119) ressalta que quando falarmos de futebol no Brasil, devemos lembrar que “[...] estamos lidando com uma manifestação social que, entre nós, favoreceu sobremaneira os contatos e, mais que isso, a interação entre grupos de características diferenciadas”. É a partir dessas características e definições que entendemos a evolução do futebol em terras brasileiras, sendo uma prática social, promotora da diversidade de nossa sociedade.
O aparecimento do futebol no Brasil, para alguns estudiosos, aconteceu no ano de 1894, através de Charles Muller, quando, ao retornar de seus estudos na Inglaterra, trouxe consigo as primeiras bolas desse esporte. No entanto, não foi só o jogo que foi importado dos ingleses, mas, também, a tradição de ser praticado somente pelas elites (REIS; ESCHER, 2006). Essa realidade, porém, não tardou em
mudar, conforme afirma Lucena (2000, p.116), ao esclarecer que “[...] negros e brancos pobres e operários ‘invadem’ os campos dos ‘football players’, primeiramente como plateia e depois como atores, quase indiferentes às reclamações e limitações impostas” (grifos do autor). O surgimento da popularização do futebol no Brasil é concomitante à nova fase da vida social brasileira, do final do século XIX.
Para Lucena (2000, p. 117),
[...] o futebol ganhava cada vez mais prestígio entre a mocidade do Rio de Janeiro, assim como vinha ganhando também, já há algum tempo, entre a população da cidade de São Paulo, desde os primeiros jogos organizados pelos também descendentes de ingleses, na década de 1890.
Nessa constância de crescimento do esporte no modo de vida urbano do final do século XIX e início do século XX, o futebol acabou sendo alvo cada vez mais frequente de interesse social, firmando-se através da fundação de clubes em vários locais do Rio de Janeiro (LUCENA, 2000), e possuindo o grande apoio dos meios de comunicação, considerados como os principais responsáveis por sua popularização (REIS; ESCHER, 2006; LUCENA, 2000).
Assim, o futebol se solidifica em nosso país, envolvendo não apenas “[...] os clubes fechados de imigrantes ingleses e seus descendentes [...]”, mas ocupando as ruas, calçadas, escolas, periferias, campos de várzeas e vários outros espaços da vida urbana da época (LUCENA, 2000, p.121).
Ao falamos do futebol de mulheres, destacamos que em diversos países ele é contemporâneo ao jogado por homens, surgindo também ao final do século XIX. Franzini (2005) salienta que na Europa, no início do século XX, especificamente na Inglaterra, o futebol de mulheres era muito popular, principalmente durante a Primeira Grande Guerra. Quando os homens trocaram os campos de futebol pelos de batalha, as mulheres foram obrigadas a assumir papéis sociais masculinos, inclusive os de jogadores de futebol, sendo restabelecidas às suas funções tradicionais com o final da guerra, potencializando, portanto, o declínio das equipes para mulheres.
No Brasil, a história da prática de futebol por mulheres, embora significativamente inferior à participação masculina, teve início no século XX (GOELLNER, 2005) e foi caracterizada principalmente por uma relação excludente,
composta por legislações proibitivas que reforçavam a reprodução de valores masculinos e criavam a cultura desse esporte como um reduto só de homens (REIS; ESCHER, 2006). Essas proibições se baseiam em discursos que afirmam que o futebol é prejudicial ao desenvolvimento do corpo, podemos lhe causar danos e masculinizar sua aparência, além de modificar o comportamento e caráter feminino (GOELLNER, 2005).
A sustentação desses discursos, atrela-se aos argumentos de que existe uma essência que define e é própria para cada sexo, que é, ao mesmo tempo, natural e imutável (GOELLNER, 2005). Evidências desses argumentos, vemos em Ballaryni (1940, p. 36 apud GOELLNER, 2005, p. 148), quando constata que:
Quanto às qualidades morais que todos os esportes coletivos desenvolvem, achamos ser o futebol, pela sua natural violência, um exacerbador do espirito combativo e da agressividade, qualidades incompatíveis com o temperamento e o caráter feminino. [...] Assim, pelas razões acima expedidas, que envolvem matéria de ordem técnica é nossa opinião ser o futebol, para a mulher, anti-higiênico e contrário à natural inclinação da alma feminina.
Nesse sentido, podemos ter uma ideia do surgimento das imagens sociais, de homens e mulheres, e de sua relação com os esportes, em específico com o futebol, como afirma Dunning (1985, p. 397-398):
[...] enquanto o ideal masculino é retratado como arrogante e fisicamente forte, o ideal feminino – segundo a perspectiva masculina – é representado como tímido, frágil e dependente. Isto correspondia à imagem dos papéis masculino e feminino dominantes no modelo de família nuclear patriarcal que na época se estava a tornar a norma entre as classes médias em expansão (DUNNING, 1985, P. 397- 398).
Durante um período de mais de 30 anos, entre 1941 e 1979, e determinado por lei (RIAL, 2014), o futebol foi proibido para as mulheres, causando uma mancha na própria história do nosso futebol. O artigo 54 do Decreto-Lei n. 3.199 de 1941, que restringia a prática de esporte por mulheres, ocasionando a interrupção do desenvolvimento do futebol praticado por mulheres em todo Brasil (RIBEIRO, 2018), vinha com a seguinte redação:
[...] Art. 54. Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país (BRASIL, 1941).
Na sombria ditadura militar, que se iniciou em 1964, essa repressão às mulheres só veio a aumentar com a Deliberação nº 7 do Conselho Nacional dos Desportos (CND) de 1965, em cumprimento à determinação contida do Decreto-Lei, de 1941, que estabelecia que: “2. Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, pólo, rugby, halterofilismo e baseball” (BRASIL, 1965).
Mesmo assim, vale salientar que, apesar das interdições, existiram ao longo da história amostras da participação das mulheres em vários esportes, inclusive no futebol, mostrando a resistência contra tais determinações, transgredindo os discursos oficiais de proibição e sendo indiferentes às convenções morais e sociais hegemônicas, referente à identidade feminina (GOELLNER, 2005).
Durante o novo movimento feminista8 brasileiro, surgido na década de 1970,
que tinha como objetivos lutar contra a discriminação e promover a conquista de direitos e a emancipação da mulher em vários espaços sociais (GOLDBERG- SALINAS, 2009), o CND revogou em 1979, a Deliberação nº 7 de 1965, trocando-a pela deliberação nº 10, que permitia à mulher praticar modalidades esportivas até então a ela proibidas. Apenas em abril de 1983, através da deliberação CND 01/83, ficaria regulamentada a prática do futebol por mulheres no Brasil, o que culminou em 1986, com a Recomendação nº 2 do CND, na qual identificava “[...] a necessidade do estímulo à participação da mulher nas diversas modalidades desportivas no país […]” (CASTELLANI FILHO, 2012).
Como resultado dessas novas regulamentações, na década de 1980, várias equipes de mulheres são formadas e algumas competições em território nacional são realizadas, ampliando as possibilidades de apropriação dessa prática pelas mulheres (GOELLNER, 2005). Mesmo assim, somente em 1988 a nossa primeira seleção brasileira é formada para participar de um Torneio Internacional experimental na China, tendo em sua base jogadoras das equipes do Esporte Clube Radar do Rio de Janeiro (clube responsável pela difusão do futebol para mulheres
8 Segundo Goldberg-Salinas (2009), o ano Internacional da Mulher instituído em 1975 pela ONU, é
no Brasil na década de 1980) e da Juventus de São Paulo, sendo essa competição a pioneira organizada pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) e protótipo da primeira Copa do Mundo, que foi realizada em 1991 (GOELLNER, 2005).
Os anos sucessivos são marcados por expressivas conquistas da seleção brasileira, em vários eventos mundiais, o que confirma e estimula a crescente presença no número de mulheres praticantes de futebol em escolas, no momento de lazer e até em clubes, o que faz com que a mulher se incorpore definitivamente à prática de esporte brasileiro (GOELLNER, 2005).
Embora o futebol de mulheres tenha se libertado das amarras de algumas leis proibitivas, e avançado em vários aspectos, isso não significa dizer que ele alcançou um tratamento igual, ou ao menos similar, ao que era dado ao futebol praticado por homens. Verificaram-se vários vestígios de continuidades a certos impedimentos, assim como a formas diferentes de tratamento, de valorização (questão salarial) e