C. Especificidades para a organização do currículo na escola integral
1.3. As escalas no trabalho escolar com os alunos
Conforme apresentamos anteriormente, a questão essencial do trabalho proposto nesta pesquisa e desenvolvido na escola foi compreender se e como é possível trabalhar interdisciplinarmente no contexto apresentado (da EEI). Se considerarmos que a EEI apresenta fraca classificação e fraco enquadramento, encontramos um ambiente propício para a realização do sistema de mensagem que Bernstein (1971) chama de pedagogia de forma que o cotidiano e as experiências de vida do aluno possam ser levados em consideração em uma perspectiva interdisciplinar.
18 O projeto foi entregue no começo do ano juntamente com o planejamento dos professores, e consta
Assim, a proposta inicial deste trabalho foi apresentar aos professores do ciclo III (no qual a pesquisadora também é professora) a possibilidade de um trabalho coletivo partindo do estudo do lugar do aluno e de seu cotidiano. A ideia foi priorizar a construção de conhecimento na escola, um conhecimento mais contextualizado, que fizesse o aluno pensar sobre o seu próprio entorno, percebendo que as questões socioambientais podem ser tratadas em diferentes escalas, articulando o conhecimento produzido a outras escalas de análise da Geografia (regional, global).
De acordo com Compiani (2007, p. 34), os locais, as regiões e o ambiente podem ser tratados a partir das dimensões horizontal e vertical. A horizontalidade enfatiza as relações entre as partes e o todo, faz com que um fenômeno, objeto ou aspecto seja contextualizado, situado espaço-temporalmente e comparado com outros a partir de sua localidade, acentuando-se as particularidades, singularidades e relações na busca de padrões. Aqui, a espacialidade é realçada. Em cada local pode-se desenvolver a respectiva historicidade, buscas de compreensão dos fenômenos em termos das causalidades situadas em um contexto. Já verticalidade enfatiza o caráter processual dos fenômenos, das coisas. Observa os diferentes contextos da horizontalidade, buscando explicá-los em conjunto ou conjuntos, em termos de propriedades, categorias: há um rumo para a descontextualização, para as generalizações, em que se ‘apagam’ tempo e espaço.
Callai (2010) afirma que a escola, o cotidiano e o lugar são referência para fazer o ensino e a aprendizagem de Geografia. A escola, por levar o conhecimento produzido pela humanidade; o cotidiano, por permitir que as novas aprendizagens sejam ligadas ao conhecimento que cada um traz, levando o aluno a compreender melhor o mundo em que vive, as coisas historicamente situadas e construídas; e o lugar, por ser o espaço que permite a cada um saber de suas origens e construir sua identidade e pertencimento, sendo, também, uma ponte para compreender o mundo.
A escola na qual o trabalho foi realizado está localizada em uma área que possibilita o desenvolvimento da pedagogia do lugar/ambiente, pois propicia importantes reflexões socioambientais que podem ser abordadas de forma interdisciplinar com os alunos: de um lado, bairros nobres com moradias de alto
padrão e a presença do Shopping Center Iguatemi; de outro, uma invasão às margens do Ribeirão Anhumas, conhecida como “buraco do sapo”, com diversas moradias em área de risco, onde vive boa parte dos alunos; e, ainda, bairros de classe média alta a média baixa (onde também residem muitos alunos). Pensar este contexto foi um ponto de partida essencial para o amadurecimento do trabalho com os professores do ciclo e, posteriormente, com os alunos. Em um primeiro momento, ao preparar uma apresentação para os professores dos ciclos III e IV, levantamos, isoladamente, possibilidades de trabalho pensando na articulação do local com o global, descritas a seguir:
- Realizar estudos a partir de imagens de satélite; verificar a ocupação no entorno do Ribeirão das Anhumas; realizar trabalhos de campo; buscar/observar de áreas de risco socioambiental nas proximidades da escola;
- Refletir sobre a questão da água a partir do Ribeirão Anhumas; realizar estudo das bacias hidrográficas; relacionar os problemas encontrados com os que afetam outras bacias;
- Observar os diferentes tipos de moradias do entorno da escola e bairros vizinhos. Pesquisar sobre a valorização e especulação imobiliária (pesquisa de preços na internet e jornais de anúncios imobiliários);
- Estudar a ocupação no entorno da escola; relacionar a possíveis movimentos migratórios e o crescimento da cidade (verticalização); realizar entrevistas com moradores, narrativas, pesquisa na biblioteca municipal (jornais antigos);
- Pesquisar o histórico da instalação do Shopping Center até suas reformas mais recentes; relacionar com a presença da comunidade: há muitas pessoas da comunidade que trabalham ali? Estudar setores da economia (no entorno e no município como um todo).
Cabe lembrar que estas primeiras considerações vieram de uma Geógrafa e tiveram como finalidade mostrar aos demais professores as amplas possibilidades de trabalho. Posteriormente receberam contribuições dos professores das outras disciplinas para que o trabalho integrado pudesse realmente acontecer. A
descrição do trabalho realizado, desde os diálogos iniciais com os professores, até sua concretização, é assunto que será retomado no capítulo 3.
O que queremos deixar claro, mais uma vez, é que a adoção da escala micro para começar o trabalho com os professores e os alunos é uma opção para construção de currículo a partir do local, que pode ser proporcionada pelo fraco enquadramento da EEI. Isso significa dizer que em outra realidade essa proposta possa encontrar mais dificuldades para ser realizada. Quando optamos por partir do estudo do lugar e das relações cotidianas para realizar um projeto interdisciplinar na escola, estamos buscando contextualizar o ensino, valorizar o conhecimento prévio do aluno, aproximar a escola da comunidade, fazer o aluno perceber as relações entre o local e o global. Conforme Callai (2010), isto é “estudar o lugar para compreender o mundo”. Para Compiani (idem, p. 43) “temas presentes no cotidiano da comunidade local podem e devem ser tratados pelos professores nas escolas”. Já que o “local” não faz parte dos livros didáticos, deve ser buscado na aproximação com a comunidade.
De acordo com Compiani (2007, p. 33):
A escola, de certo modo, ignora a vida, pois idealiza um aluno abstrato, sem tempo e sem espaço. O aluno real, em seu contexto, com sua experiência social e individual em sua localidade é ignorado. Por não ter um interlocutor real, a escola é incapaz de ocupar seu lugar de produção de conhecimentos gerados na interação entre o mundo cotidiano e o científico. Os alunos investigam somente quando resolvem problemas com a mente aberta. A postura de curiosidade e investigação pode ser propiciada pela mediação do professor. É preciso situar informações e dados em seu contexto para que adquiram sentido.
Outro ponto abordado pelo projeto realizado na escola foi o uso de estudos do meio, ou trabalhos de campo, metodologia característica da Geografia, como um dos pontos fundamentais. Para Compiani (2007, p. 31)
[...] o uso dos trabalhos de campo por professor e alunos pode orientar o questionamento sobre as velhas disciplinas, aperfeiçoando novas linhas teóricas na tentativa de entendimento mais amplo das relações entre local/global e entre disciplinas escolares científicas e a transversalidade.
Assim, a proposta do trabalho de campo também tem essa preocupação em conhecer o contexto do aluno e fazê-lo se apropriar de outras formas de ver e aprender. Para estudar Geografia é preciso afinar o olhar, observar o espaço
geográfico e dele conseguir retirar informações, realizar reflexões e relacioná-las a outros contextos (e outras escalas). E se a Escola de Educação Integral apresenta as possibilidades para a realização deste trabalho, cabe aos professores ocuparem seus espaços. E uma das formas de realizá-lo é a partir do trabalho interdisciplinar.