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As Escolhas “Racionais” e o Direito Tributário

No documento Carlos Augusto Daniel Neto (páginas 146-150)

Capítulo 6: O Pilar Instrumental

6.1 A Instrumentalização Interna do Direito Tributário

6.1.5 As Escolhas “Racionais” e o Direito Tributário

Conquanto tudo que foi dito anteriormente possa parecer distante da realidade tributária, certamente não o é. Pelo contrário, a compreensão do a teoria abordada e da sua crítica são essenciais para que se possibilite o fenômeno da instrumentalização interna do Direito Tributário, tornando-o motor de sua própria eficiência.

Isso se aplica diariamente ao Direito Tributário, desde a decisão mais básica de realizar ou não o fato gerador, considerando a possibilidade de vir ou não a ser autuado pelo Fisco para pagar o tributo devido, até outras decisões como a de entrar em um parcelamento ou se manter litigando na execução fiscal.

Quando se pensa o atual “estado de arte” da tributação brasileira, com uma fiscalização notoriamente deficitária, aliado ao baixo percentual de sucesso da Fazenda Pública nas execuções fiscais396, não dá para deixar de mencionar o modelo de Estado de Natureza Secundário proposto por Robert Nozick, bem como a crítica empreendida por Otfried Höffe.

Nozick aponta como alternativa ao Estado de Natureza Primário, de origem hobbesiana, a sua versão secundária, que, de forma singela, envolveria uma renúncia recíproca à liberdade como forma de garantir a sua própria existência, confiando na igual renúncia por parte dos outros membros da comunidade – a renúncia da liberdade se torna a garantia da liberdade397.

Todavia, a base desse Estado de Natureza secundário, mais do que a renúncia da liberdade, é a expectativa da reciprocidade – especialmente diante da ausência de uma coerção institucionalizada por um Estado – o que leva ao seguinte quadro:

De acordo com o anarquismo residual, nós deveríamos poder confiar no reconhecimento dos ajustes, porque contêm em si uma vantagem distributiva. Este argumento é acertado enquanto houver estas duas

396 Conforme dados empíricos obtidos em dois trabalhos de Jurimetria desenvolvidos pelo Estado Brasileiro: o

“Estudo sobre Execuções Fiscais no Brasil”, promovido pelo Ministério da Justiça em 2007, e o “O Custo Unitário do Processo de Execução Fiscal na Justiça Federal”, organizado pelo CNJ e IPEA em 2011.

possibilidades de escolha: coexistência sem regras da liberdade do Estado primário de natureza e a renúncia reciprocamente igual do Estado secundário de natureza. Na verdade, porém, existe uma terceira possibilidade e esta se revela ainda mais vantajosa que a renúncia recíproca à liberdade. É a renúncia unilateral à liberdade – certamente a renúncia unilateral dos outros.398

De fato, em um sistema baseado na confiança da renúncia recíproca, o free

rider399 tem um grande incentivo para burlar essa expectativa de reciprocidade e aproveitar a renúncia do outro, sem renunciar à sua própria liberdade. É o que se dá no Direito Tributário brasileiro.

De fato, as falhas na fiscalização e na cobrança de tributos tornam a opção de sonegação bem mais vantajosa pessoalmente do que a de pagar os tributos. Aplicando a teoria dos jogos à decisão de pagar ou não o tributo, Cristiano Carvalho observa que a decisão que resultaria no resultado ótimo seria a de todos pagarem seus tributos, pois a arrecadação e geração de bens públicos seriam maiores, além de permitir a diminuição da tributação per

capita – mas que isso não ocorre porque os indivíduos buscam racionalmente a situação que

lhes traga a melhor recompensa, gerando o Equilíbrio de Nash, que é inferior à solução cooperativa, Kaldor-Hicks eficiente400.

Atualmente, a realidade tributária no Brasil pode ser descrita, de forma análoga, através do jogo dos prisioneiros, que foi mencionado anteriormente:

Figura 3 - Matriz de Payoffs: dilema dos prisioneiros

Fonte: autoria nossa.

398 Ibid., p. 370.

399 Free Riders são aqueles sujeitos que se aproveitam da impossibilidade de sofrerem sanções por conta do

descumprimento de uma obrigação para aproveitarem um determinado benefício sem arcar com os custos dele.

Ou seja, é baixa possibilidade de ser pego violando a obrigação tributária ou, ainda que seja pego, a chance de haver expropriação de seu patrimônio é reduzida, de forma que a estratégia dominante do contribuinte será sempre a de sonegar o tributo.

O compromisso do Direito Tributário com ele mesmo é o de converter esse quadro utilizando-se de seus próprios instrumentos normativos – transformar um jogo não- cooperativo em um jogo de cooperação. Para isso deve-se fazer com que a tributação deixe de comportar-se como o jogo dos prisioneiros e se torne próximo do jogo da caça ao cervo401:

Figura 4 - Matriz de Payoffs: caça ao cervo

Fonte: autoria nossa.

Nesse caso, a opção de ambos pagarem o tributo trará maiores vantagens para todos, pois com uma maior base de arrecadação seria menor a quantidade de tributo a ser cobrado de cada um cada contribuinte para que se satisfaçam as necessidades financeiras do Estado – é dizer, diante de um custo constante C do aparato estatal, a base de arrecadação é inversamente proporcional ao custo unitário de cada sujeito.

A forma usualmente proposta para a conversão da tributação de um jogo não cooperativo em uma cooperação é o incremento das sanções e aumento das fiscalizações, como forma de aumentar os payoffs negativos advindos do descumprimento, bem como o risco de ser descoberto e punido pela quebra da confiança recíproca402 – todavia, tal raciocínio esbarra em grandes limitações tanto jurídicas quanto fáticas.

401 O jogo da caça ao cervo funciona da seguinte forma: dois caçadores tem a opção de cooperarem para caçar

um cervo que traria grandes vantagens para ambos, ou de não cooperarem e contentarem-se com coelhos, mais fáceis de caçar individualmente. Se um deles tentar caçar o cervo sozinho, ele não terá sucesso, enquanto o outro sempre conseguiria caçar o coelho (CARVALHO, Cristiano. Teoria da Decisão Tributária, p. 143 et seq.)

Em um trabalho de análise dos dados obtidos em dois trabalhos de Jurimetria403 – o “Estudo sobre Execuções Fiscais no Brasil”, promovido pelo Ministério da Justiça em 2007, e o “O Custo Unitário do Processo de Execução Fiscal na Justiça Federal”, organizado pelo CNJ e IPEA em 2011 – pode-se concluir de forma simples que para que se torne racional a opção de pagar os tributos, seriam necessárias uma das duas condições seguintes: a) ou um índice de sucesso de autuações maior ou igual a 50% das infrações; b) ou uma sanção maior ou igual a quatro vezes o valor do tributo.

A primeira condição esbarra nas limitações fáticas e administrativas – haja vista que esse percentual é significativamente maior do que o atual -, enquanto a segunda condição encontra óbice na aplicação da proibição do confisco às multas tributárias, o que acaba por inviabilizar os caminhos mais tradicionais de conversão da mentalidade tradicional.

O outro caminho, e esse era o ponto que se pretendia chegar, é compelir a massa de contribuintes a assumir um pré-compromisso de cumprirem o imperativo categórico de pagar os tributos devidos, abandonando a opção imediata de uma maior utilidade em prol de um benefício maior em maior prazo. É preciso fazer com que o contribuinte-Ulisses abandone a miopia que o levaria à sereia-sonegação, e haja de forma planejada para chegar à Ítaca da cidadania fiscal.

Esse processo de desenvolvimento de preferências de segundo nível para o contribuinte está intimamente relacionado com a assunção de um sentido material ao Direito Tributário e a tolerância recíproca com o Estado – ora, veja-se o exemplo europeu, especialmente nos países de melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs), os quais apresentam cargas tributárias superiores à brasileira, além de índices de sonegação inferiores404.

Isso não se dá porque o Brasil não possui sanções tributárias suficientes ou porque as vias expropriatórias não funcionam, mas porque nos países que ocupam os primeiros lugares no ranking da carga tributária, a atuação fiscal é marcada por uma ética recíproca entre os participantes desse processo: uma atuação responsável do poder legislativo, da Administração Fiscal, e do Judiciário, aliada ao reconhecimento do seu dever de pagar os tributos por parte do contribuinte.

A instrumentalização interna do Direito Tributário consiste, pois, no conjunto de tudo que foi abordado nos itens anteriores: desde o desenvolvimento de sanções

403 Tal trabalho, de nossa autoria, todavia, encontra-se inédito ainda.

404 Sobre isto, vide o sítio virtual do Tribunal de Contas da União: Disponível em:

<http://portal2.tcu.gov.br/portal/page/portal/TCU/comunidades/contas/contas_governo/contas_09/Textos/Ficha %203%20-%20Carga%20Tributaria.pdf>.

tributárias mais firmes e o de meios fiscalizatórios mais eficazes – sempre respeitando os direitos fundamentais do contribuinte e os limites dos poderes públicos – até o desenvolvimento pragmático e dialético de preferências de segundo nível relacionadas ao imperativo categórico do dever de pagar os tributos, através da repetição de práticas éticas tanto na instituição, arrecadação, fiscalização e controle, como também no próprio pagamento dos tributos.

A grande limitação de analisar o fenômeno tributário pela teoria dos jogos e a teoria das escolhas racionais, como foi feito anteriormente, é a impossibilidade de apreender a repetição inerente a essa relação: por se tratar de não uma interação somente, mas uma sucessão infindável de repetições, é natural que a adequação das estratégias de acordo com as expectativas que vão sendo construídas.

A sonegação é a estratégia dominante no caso de uma única repetição do jogo, haja vista que no caso de várias rodadas, a tendência é a indução à cooperação (tit for

tat), de modo que o jogador coopera se o outro tiver cooperado na rodada anterior, e se não cooperou, ele também não coopera na seguinte405. A possibilidade de repetições infinitas de um determinado jogo permite que os jogadores criem expectativas a respeito das atuações dos outros, e com isso desenvolvam estratégias que tendem à otimização de seus payoffs.

Portanto, concluindo este tópico, deve-se observar que, para o Direito Tributário a aquisição de um sentido material e a construção de relações de tolerância recíproca entre os agentes envolvidos são as bases desse processo de instrumentalização

interna, ou seja, são os motores da sua própria eficiência.

No documento Carlos Augusto Daniel Neto (páginas 146-150)