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Edgar Morin e o Pensamento Complexo

No documento Carlos Augusto Daniel Neto (páginas 34-38)

CAPÍTULO 1: Da Certeza da Modernidade à Incerteza Contemporânea

1.3 A Incerteza da Complexidade

1.3.4 Edgar Morin e o Pensamento Complexo

Vive-se em um mundo de incertezas crescentes que incomodam boa parcela dos cientistas – a crença no determinismo universal propugnado pelo pensamento moderno não preparou o ser humano para compreender e enfrentar essa insegurança. Ao contrário, prefere muitas vezes o cientista ignorar o múltiplo, o contraditório, o circular e o complexo, para abraçar a segurança que as artificiais simplicidades, em suas singelezas lhe concedem.

61 LE MOIGNE, Jean-Louis, op. cit., p. 56.

62 LE MOIGNE, Jean-Louis. A teoria do sistema geral, p. 56. 63 LE MOIGNE, Jean-Louis, op. cit., p. 56.

Como explica Edgar Morin64, a complexidade é um tecido de constituintes heterogêneas inseparavelmente associadas, colocando o paradoxo do uno e do múltiplo, com seus traços de desordem, contradição, acaso, ambiguidade e incerteza. Nesse ponto reside a grande dificuldade do pensamento complexo: ao enfrentar todos esses traços acima citados dos fenômenos, acabar por exigir ferramentas que o pensamento moderno não dispõe – às novas respostas acompanham novos problemas, bem como novos meios de resolvê-los.

O que se pretende resgatar aqui é a ideia de uma unidade complexa, para além do reducionismo e do holismo, que liga o pensamento analítico-reducionista e o pensamento da globalidade, numa dialética perene65, como forma de superação do pensamento simplificador, que expulsa a desordem do universo, sem conseguir66 enxergar que o uno pode ser, ao mesmo tempo, múltiplo, que a causa pode ser, ao mesmo tempo, consequência.

As descobertas que marcaram a virada do século XIX para o século XX puseram em rota de colisão a ânsia dos cientistas pela ordem natural, e a desordem que a realidade lhe impunha forçosamente. A dicotomia não mais se sustentava. Era preciso compreender que a ordem e a desordem eram noções não antagônicas, mas aliadas que cooperavam para a organização de toda e qualquer parcela do universo. Explica Morin, a respeito da contradição imanente na natureza:

Pode-se dizer que o que é complexo diz respeito, por um lado, ao mundo empírico, à incerteza, à incapacidade de ter certeza de tudo, de formular uma lei, de conceber uma ordem absoluta. Por outro lado, diz respeito a alguma coisa de lógico, isto é, à incapacidade de evitar contradições.

[...]

Ora, na visão complexa, quando se chega por vias empírico-racionais a contradições, isso não significa um erro, mas o atingir de uma camada profunda da realidade que, justamente por ser profunda, não encontra tradução em nossa lógica67.

Nesse mesmo sentido, já distinguia Niels Bohr68 dois tipos de verdades: as triviais, cujo contrário era um evidente absurdo, e as profundas, cujo contrário também contém uma verdade profunda.

Uma vez exposto o ponto central do pensamento complexo, Edgar Morin aponta três elementos chaves – verdadeiros instrumentos – para a abordagem da

64 MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo, p. 13. 65 MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo, p. 53. 66 Ibid., p. 59.

67 Ibid., p. 68.

complexidade: a) a noção de sistema; b) a circularidade (looping); e c) o looping autoprodutivo.

A respeito da noção de sistema, Morin69 é direto em defini-lo como um conjunto de partes diferentes, unidas e organizadas. Essa ideia é importante pela capacidade específica que um todo organizado possui de produzir qualidades e propriedades que não existem nas partes tomadas isoladamente – fenômeno denominado de “emergência”. Exemplo disso é a relação entre o átomo e os seres – todos têm o mesmo componente básico, mas díspares caracteres, a depender da organização dessas partículas mínimas.

A segunda ideia que o autor entende por crucial ao pensamento complexo é a circularidade, em inglês looping, que diz respeito ao caráter retroativo que o sistema possui. Não obstante a simplicidade que encerra esta noção, as suas consequências são importantes: ela contraria diretamente um dos pontos centrais do pensamento moderno, que é a noção de linearidade, de uma causalidade direta e unidirecional, sugerindo uma causalidade circular, onde o efeito volta à causa70.

A terceira noção é uma complementação à segunda. Trata-se de uma circularidade, mas de caráter autoprodutivo (ou looping autoprodutivo), onde dentro de um sistema o produto se torna produtor – o efeito é ao mesmo tempo uma causa71.

O que se pretende afirmar a partir dessa construção de Edgar Morin é que o pensamento complexo abandona a causalidade linear e adota uma causalidade complexa, que implica novas formas de ver e relacionar fenômenos – substitui-se a relação linear pela relação circular, a disjunção é substituída pela inclusão, e o certo perde lugar para o incerto e contraditório.

Três princípios úteis a esse modo de pensar: a) o princípio hologramático; b) o princípio da recursão organizacional; e c) o princípio dialógico. Sem pretensão de esgotá- los, pretende-se expor o conteúdo dos mesmos, pela utilidade que terão para a análise pretendida.

O princípio hologramático é chamado dessa forma por referência aos hologramas, em contraposição às fotografias. O nome Holografia vem do grego holos (todo, inteiro) e graphos (sinal, escrita), pois é um método de registo "integral" da informação com relevo e profundidade. Eles possuem uma característica única: cada parte deles possui a informação do todo. Assim, um pequeno pedaço de um holograma terá informações de toda a

69 MORIN, Edgar. Complexidade e a Ética da Solidariedade. In: Ensaios da Complexidade, p. 13. 70 Ibid., p. 13-14.

imagem do mesmo holograma completo. Na fotografia, ao contrário, cada ponto corresponde a um ponto do objeto fotografado72.

Morin traz o exemplo do organismo vivo, composto por bilhões de células que contém, em seu interior, a totalidade do patrimônio genético do ser humano – ou seja, a parte está dentro do todo, mas o todo também está no interior das partes. A ideia não é distante do pensamento jurídico – basta pensar que o Direito Positivo (o todo) é composto pelo conjunto de normas jurídicas válidas (as partes), mas que cada norma jurídica válida, nascida de um ato de aplicação, reflete a totalidade do ordenamento incidente sobre um determinado suporte fático, ou seja, cada norma jurídica traz em si a totalidade de informação do Direito Positivo, como uma cadeia de DNA.

Toda a ideia por trás do princípio hologramático é resumida por Blaise Pascal, em célebre frase:

Sendo todas as coisas ajudadas e ajudantes, causadas e causadoras, estando tudo unido por uma ligação natural e insensível, acho impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, e impossível conhecer o todo sem conhecer cada uma das partes73.

Prosseguindo, outro operador apontado por Morin é o princípio “dialógico”, que implica que para a compreensão de alguns fenômenos complexos faz-se necessário juntar duas noções que seriam, a princípio, antagônicas, e que são, ao mesmo tempo, complementares74.

Neste caso, socorre-se o autor de um aforisma, à primeira vista sem sentido, de Heráclito – “viver de morte e morrer de vida”. O paradoxo vida/morte só persiste pela consideração das duas ideias como absolutamente antagônicas – as descobertas científicas mais recentes demonstram que a manutenção da vida humana (e de qualquer organismo) depende da morte constante de suas células antigas e a substituição por novas, a vida do organismo depende diretamente da morte de suas partes. Da mesma forma, a morte dos organismos que propicia o que os biólogos chamam de “ciclo nutritivo da natureza”, que condiciona a circulação da energia na biosfera, ou seja, a morte permite a vida. O antagonismo cessa e prevalece a complementariedade entre as ideias.

O terceiro princípio, da recursão organizacional, está estritamente ligado à circularidade autoprodutiva dos sistemas: um processo recursivo é um processo onde os

72 MORIN, Edgar. Complexidade e a Ética da Solidariedade. In: Ensaios da Complexidade, p. 14. 73 PASCAL apud MORIN, Meus Filósofos, p. 60.

produtos e os efeitos são, ao mesmo tempo causa e produtores do que produz, a exemplo da sociedade, que é produzida pelas interações entre os indivíduos mas, uma vez produzida, retroage sobre os mesmos e os produz75.

A ideia recursiva, explica Morin, é:

Uma ideia em ruptura com a ideia linear de causa/efeito, de produto/produtor, de estrutura/superestrutura, já que tudo o que é produzido volta-se sobre o que produz num ciclo ele mesmo autoconstitutivo, auto- organizador e auto produtor76.

No documento Carlos Augusto Daniel Neto (páginas 34-38)