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As falhas e os esquecimentos da Declaração

2. A CONSTRUÇÃO DE UM CORPO DE DIREITOS PARA A CRIANÇA NO ÂMBITO DAS

2.2. A Declaração dos Direitos da Criança (1959): a criança tem direito a

2.2.1. A Declaração: que inovações, que aplicabilidade?

2.2.1.3. As falhas e os esquecimentos da Declaração

condição de igualdade e de fraternidade que tanto a Declaração de 1959 como a Declaração dos Direitos do Homem, aclamados onze anos antes, se esforçaram por contemplar, com o propósito de fazer deles o motor que as nações precisavam para edificarem um mundo melhor e mais justo, no qual se incluem as crianças.

2.2.1.3. As falhas e os esquecimentos da Declaração

Na totalidade dos “direitos a...” que acabamos de enunciar não poderíamos

deixar de sublinhar o imperdoável lapso que os legisladores de 1959 tiveram quando se “esqueceram”de aclamar aquele que, para nós, constitui a pedra angular e o sustento de todos os princípios e de todos os direitos aclamados: o direito à vida. Não será este o mais nobre e sublime dos direitos? De que serve beneficiar de todos os outros se o direito à própria vida não está neles incorporado? Ou será porque este foi um direito que a Declaração dos Direitos do Homem de 1948 reconheceu (36) e que, por esta razão, fez- -se dele um direito subentendido mas inalienável? Concordando com Chazal, é inegável que enquanto o direito à vida se trata de um direito fundamental, os outros são “direitos essencialmente individuais, centrados na qualidade da pessoa mas que têm uma origem comum: o direito à vida de que a criança é titular” (37).

Outra falha em que não podíamos deixar de reparar diz respeito à família: conforme verificámos aquando da análise da Declaração de Genebra diz-se que “a criança deve ser protegida tendo em conta o meio familiar...” Contudo, a Declaração de 1959 não contemplou esta noção, referindo-se ao termo “família” apenas três vezes e num contexto secundário (38)

. Ora, se entendermos como fundamental, para uma abordagem dos direitos da criança, ter em consideração os direitos da família, porque razão a Declaração da ONU não atendeu à sua envolvência e importância no desenvolvimento e educação da criança? De facto, aquilo a que assistimos foi que ao termo “família” os redactores de 1959 preferiram o de “pais” e à expressão “meio

(36) No seu artigo 3º, a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 aclama que “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança social”.

(37) Chazal (1959). Citado por Saunier, Francis, Em Defesa da Criança, op.cit. p.149

(38) Princípio 1º (“Todas as crianças...sem distinção ou discriminação por motivo de..., nascimento ou qualquer outra condição, quer sua ou de sua família”) e Princípio 7º (“À sociedade e às autoridades públicas caberá a obrigação de propiciar cuidados especiais às crianças sem família... È desejável a prestação de ajuda oficial e de outra natureza em prol da manutenção dos filhos de famílias numerosas”.

familiar” a de “atmosfera de afeição e segurança”. Estaria esta ausência relacionada com aspectos de ordem social e cultural, característicos de algumas nações, para as quais a esfera familiar não é circunscrita mas antes concebida em termos abrangentes?(39)

Outro aspecto não contemplado nos desígnios da Declaração de 1959, corresponde, como já o dissémos algures, à ausência dos direitos-liberdades. Desta feita, paralelamente à enunciada lista de “direitos a...”, que lugar ocupavam e que dimensão abraçavam, nos propósitos dos redactores da Declaração ONU, os “direitos de...”? De que modo, e até que ponto, foi directamente descurado o direito de exprimir, de fazer, de executar, de expandir, de inventar, de realizar no campo de acção da criança, todos estes direitos-liberdades, providos de imensa subjectividade e infindável criatividade, aspectos tão demarcados da infância?

Com efeito, a única menção à liberdade que encontramos após a leitura dos dez princípios, encontra-se no princípio 2º ao aclamar que “A criança gozará de protecção especial e ser-lhe-ão proporcionadas oportunidades e facilidades, por lei e por outros meios, a fim de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, espiritual e social, de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade». Em simultâneo, e apesar dos artigos 4º e 7º contemplarem a recreação, o jogo-actividade, tal não significa dizer que o faz numa perspectiva de evocar realmente a máxima concepção de direitos- liberdades. A posição do polaco Korczack, assim como se distanciou da Declaração de 1924, o mesmo aconteceu em relação à de 1959: o seu legado pedagógico, integramente direccionado no sentido da efectiva valorização da actividade e participação da criança, volta a ser descurado, tendo por isso ficado no limbo das preocupações dos redactores do segundo texto declaratório. De facto, aos olhos dos setenta e oito Estados membros que aderiram à promulgação da mais recente Declaração, a máxima pretensão atendia, prioritariamente, em detrimento de valores como os que se conectam à questão dos direitos-liberdades, ao favorecimento de condições que proporcionassem à criança o sabor da felicidade, um desenvolvimento sadio e normal, envolto por um clima de paz e segurança. Sobre este ponto de vista, não esqueçamos que, tanto os antecedentes da

(39)Sobre esta questão torna-se relevante acrescentarmos que leis e costumes de alguns países, sobretudo os muçulmanos, concebem nomeadamente a poligamia como uma prática comum, mas que dificulta a apreensão de uma ideia concreta de esfera familiar, dada a amplitude que, em termos de parentesco, engloba.

primeira Declaração como os da segunda, se demarcaram pela violência da guerra, pela destruição e devastação, pela dor e pelo sofrimento, pela morte e pela revolta.

Entre estes dois períodos, as crianças que vivenciaram o drama da primeira Guerra Mundial, foram as progenitoras daquelas que assistiram à hecatombe da segunda. Fragilizados pela repetição de momentos que, negativamente, lhes marcaram a infância, os adultos da segunda metade do século apenas desejavam para as novas gerações um apogeu de paz e de segurança e não tanto outras problemáticas, consideradas menos prioritárias, como o eram a liberdade e a subjectividade da infância. Assim, e em conformidade com o que Formosinho escreve:

A Declaração dos Direitos da Criança (ONU, 1959) reconhece à criança e à sua família direitos fundamentais (...) na justiça e na paz. Tornar-se pessoa, pela garantia de medidas que perspectivam o desenvolvimento, a segurança e o bem- estar, é o direito fundamental, direito que se sustenta em todos os outros. Os Estados Partes comprometem-se a garantir à criança a protecção, os cuidados e assistência necessários ao seu bem-estar integral, tendo em conta os direitos e deveres dos pais ou representantes legais (40).

É mediante a articulação de todos estes aspectos que, mais uma vez, constatamos que a história da infância só pode ser compreendida se atendermos à especificidade de uma época precisa.

A conjuntura de paz que caracterizou as sociedades ocidentais, no período posterior à Declaração de 1959, trouxe consigo a valorização de outras problemáticas, a ostentação de outras prioridades e preocupações: a partir de então, tal como sublinha Renaut, «la dynamique de l’émancipation et de l’égalisation a pu se développer à nouveau à l’égard des ages de la vie humaine, elle s’est réaffirmée avec d’autant plus de puissance et de rapidité, emportant tout sur son passage, qu’elle s’était trouvée pétrifiée durant une génération» (41).

O que a Convenção dos Direitos da Criança de 1989 traria, precisamente trinta anos depois da promulgação da Declaração da ONU, seria, tão simplesmente, o testemunho de outra conjuntura, favorável a uma representação da infância mais aberta, perante a qual os seus progenitores, sobreviventes da segunda grande guerra e pioneiros beneficiários da Declaração de 1959, foram alvos de uma tomada de consciência, em

(40) Formosinho, Júlia. “A Criança Institucionalizada”. In Formosinho, Júlia (coord.). A Criança na Sociedade Contemporânea, op.cit. p. 224

(41)

Renaut, Alain. La Libération des Enfants, op.cit. p. 336

parceria com os dirigentes das nações, de que, para além de sujeito de direitos, a criança é também sujeito de liberdades. De facto, a consagração da criança dentro desta óptica, ao se ter tornado numa das mais fortes exigências do espírito dos tempos, viu-se reflectida com o culminar da Convenção de 1989 e será, exactamente, sobre esta importante inovação que nos passaremos a debruçar nas páginas seguintes.