2. A CONSTRUÇÃO DE UM CORPO DE DIREITOS PARA A CRIANÇA NO ÂMBITO DAS
2.1. A Declaração de Genebra (1924/1948): para proteger a criança
2.1.1. Explicitação dos princípios e sua aplicabilidade
Os princípios que aqui iremos analisar dizem respeito ao segundo projecto da Declaração de Genebra, proclamados em 1948, basicamente por serem os mesmos da de 1924, apenas se distinguindo pelo acréscimo de um sexto, que consideramos oportuno também o incorporar, pela adição de umas parcas palavras e pela transcrição do prólogo para o artigo 1º, referente à questão que induz à igualdade de protecção para todas as crianças, sem distinção.
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Desta feita, tanto a versão de 1924 como a de 1948 da Declaração de Genebra especificam, a primeira no prólogo, a segunda no artigo primeiro, que a criança deve ser protegida “fora de toda a consideração de raça, de nacionalidade e de crença”. Não obstante, quer uma quer outra, não fizeram alusão, específica e directamente, a uma igualdade de direitos e de deveres, muito embora, e no mesmo ano, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada pelas Nações Unidas, tornasse a repetir que “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em direitos”. Sem dúvida alguma que esta questão da igualdade não se encontrava no centro das preocupações dos legistas das duas versões. A justificação poderá estar, e na sequência dos flagelos registados com as duas grandes guerras, no facto da criança ter assumido um demarcado estatuto de vulnerabilidade e incapacidade ao assumir determinados actos. Muito provavelmente de forma inconsciente, não foi este um acto que lhe negou, ainda que provisoriamente, a sua dignidade e qualidade como pessoa, tendo que esperar pela idade adulta para que tal lhe fosse efectivamente reconhecido?
Quanto ao segundo artigo, no qual é defendido que “A criança deve ser posta em condições de se desenvolver duma maneira normal, material, moral e espiritualmente”, é evidenciada a apresentação de um direito da criança que apenas o circunscreve à necessidade de a pôr em condições de desenvolvimento, pormenorizando os vários planos (material, moral e espiritual) sem que exija, peremptoriamente, que tal ocorra em condições de igualdade e de dignidade e num clima em que a extensão da palavra
educação seja valorizada de forma efectiva.
O que não deixa de ser insólito é o descuramento, na Declaração em análise, de uma referência concreta e explícita relativamente ao direito que a criança tem à educação. Esta evidência torna-se ainda mais relevante se atendermos às transformações educativo-pedagógicas emergidas dos ideais da Educação Nova. Com efeito, fervilhava uma ideia no contexto da qual se passou a identificar a criança como sujeito autonómico, de infinita criatividade, que irremediavelmente deveria ter um papel activo no âmbito das sociedades, sendo a passagem pelo mundo escolar condição sine qua non para o desenvolvimento de todo este processo. Mediante esta óptica de pensamento, como acrescentam Sarmento e Soares, e mesmo já no âmbito da pequena reformulação que sofreu, em 1948, não é possível encontrar qualquer alusão à educação. Aquilo que, de forma frugal, nela encontramos é
(...) tão somente uma ténue e indirecta alusão nos princípios III e VI a algumas dimensões que, de alguma forma, se poderão relacionar com o mesmo. A ambiguidade permanece quando se procuram referências à necessidade de proteger a criança contra a exploração económica, a qual poderá encontrar algum eco no seu artigo V quando refere que “a criança deve ser colocada em condições de, no momento oportuno, ganhar a sua vida e deve ser protegida contra qualquer exploração”. Ficam, no entanto, as interrogações necessárias, quer em relação à oportunidade do momento considerado mais propício para o início de uma actividade e dos factores que o enformam, quer das possíveis estratégias para proteger a criança. (16)
Assim sendo, o que se depreende é que, mais uma vez, se verifica que o cerne da preocupação dos legisladores se limitava a uma protecção da criança, como maior vítima que foi (e que se pretendia evitar que o voltasse a ser) dos cataclismos provenientes dos adultos, como as guerras e os conflitos armados.
O terceiro artigo, no qual, implicitamente, subjaz uma ideia de protecção e de assistência à criança vítima, e fazendo sobressair algum progresso relativamente à primeira versão que se teria contentado em reclamar que “a criança que tem fome deve ser alimentada, a criança doente deve ser tratada...”, caracteriza-se por uma visão mais abrangente, de acordo com a qual já evoca que “ A criança deve ser protegida tendo em conta o meio familiar e as exigências da segurança social...”. Ao especificar o papel e importância da família no âmbito da protecção para com a criança, está a reconhecer um dever da família para com a criança sem, contudo, pressupor qualquer direito da criança para com ela e, mais concretamente, para com os pais.
Concomitantemente, e em relação à “segurança social” não especifica a sua abrangência nem determina quem, em caso de incapacidade económica dos pais, a deve assegurar. Sabemos que a razão deste direito tanto se aplica à criança como ao adulto. Não obstante, as exigências para com a criança são redobradas, em virtude da sua fragilidade pedir cuidados especiais como uma alimentação adequada, cuidados médicos mais frequentes, entre outros. Em caso de incapacidade económica dos progenitores ou familiares quem a asseguraria? E no caso de crianças sem família? Quem as socorreria? Com efeito, o artigo em análise refere apenas que elas devem ser “recolhidas e socorridas”. Todas estas questões ficaram por definir nas duas versões da Declaração de Genebra que antecederam a Declaração de 1959.
(16) Sarmento, Manuel e Soares, Natália. “Os Múltiplos Trabalhos da Infância”. In Formosinho, Júlia (coord.). A Criança na
No que se refere ao quarto artigo, no qual é proclamado, tanto na primeira como na segunda redacção, que “A criança deve ser a primeira a receber socorros em tempo de perigo”, é evidenciada a preocupação de proteger prioritariamente a criança em situações particulares e catastróficas. No seguimento daquilo que Eglantine Jebbs (inspiradora, como já dissémos, da Declaração de Genebra) constatou após o final da 1ª Guerra Mundial “Todas as guerras, quer sejam justas ou injustas, quer se terminem pela vitória ou pela derrota, são feitas em detrimento da criança” (17). Em virtude destas palavras não será de estranhar que este tenha sido um dos artigos contemplados, sem alteração, quer na primeira, quer na segunda versão da Declaração de Genebra. A máxima situava-se, assim, na necessidade de consciencializar as nações que jamais se pode negar ajuda e protecção à criança nem lhe recusar socorro em situações especiais que façam sobressair a sua fragilidade. Porém, não seria este um direito já apreendido pelos adultos, quanto mais não fosse por as sociedades se terem revestido pelos valores de humanidade, depois da hecatombe decorrente das duas grandes guerras? Contudo, e apesar desta apreensão, sabemos, ainda hoje, que este é um direito que não passa de uma mera utopia para muitas crianças, sobretudo para as que vivem em países que não cessam de as envolver, directa ou indirectamente, nos conflitos armados.
O quinto artigo, redigido de forma lapidar em ambas as versões, viria a sustentar que “A criança deve beneficiar duma preparação que a ponha em condições de, quando chegar a altura, ganhar a sua vida e deve ser protegida contra toda e qualquer exploração”. A diferença da primeira para a segunda redacção centra-se no facto da dita declaração de 1924 ser ainda mais redundante ao aclamar que “A criança deve ser posta em condições de ganhar a sua vida e deve ser protegida contra toda e qualquer exploração”. A sensibilidade da versão de 1948 apela para o benefício de uma “preparação” para “quando chegar a altura” a criança poder ganhar a sua vida. O que, perante estes textos, fica pendente é a questão “quando estará a criança em condições?” e “quando será a altura”? Apesar da OIT, já em 1919, ter estabelecido uma idade mínima para a admissão ao trabalho, bem como a proibição do trabalho nocturno de crianças em fábricas, o facto é que muitas delas continuaram a ser vítimas do trabalho infantil razão, pela qual teria sido importante uma maior especificação deste princípio.
De qualquer modo, tornou-se inegável o reconhecimento que os redactores sentiram pela criança, quer mediante a sua condição de pessoa, quer, e ao condenarem qualquer forma de exploração, estarem, sem dúvida, e ainda que subentendidamente, a levar em consideração a sua dignidade como ser humano. Em concomitância, a “preparação” a que se referem subentende uma formação, talvez no âmbito de uma cultura geral, visto o direito à educação, de forma específica e concreta, não ter sido contemplado.
No que se refere ao sexto e último artigo, de acordo com o qual, e ipsis verbis com a primeira versão, “A criança deve ser educada no espírito de que as suas melhores qualidades devem ser postas ao serviço dos seus irmãos”, e em função do modo como o possamos interpretar, somos confrontados com uma ideia, ou de abertura, num contexto internacional de fraternidade, ou num contexto mais restrito. De facto, se entendermos “irmãos” dentro de uma perspectiva cristã, o objectivo do artigo poderia identificar-se a uma prática universal de fraternidade; por seu turno, se o interpretarmos num sentido mais restrito, como uma comunidade, uma tribo, uma raça, uma ideologia (...), então o objectivo deixa de ser concebido sob o prisma da universalidade para ser identificado mediante uma fracção dessa universalidade. Contudo, e no seguimento do que escreve Saunier, “no pensamento dos autores, tratava-se já, efectivamente, do sentido lato: todos os homens seus irmãos” (18). De qualquer forma, vislumbra-se um ideal, mais tarde consolidado, como a seu tempo constataremos, que apela a uma proclamação da solidariedade e da fraternidade entre todos os membros da família humana, com base em valores como os da compreensão, da tolerância, da amizade e da indiscriminação. A Declaração de Genebra, ao mesmo tempo que se limitou a enunciar seis sintéticos princípios, mediante os quais a sua aplicação é deixada ao critério do cuidado e da consciência jurídica de cada Estado membro, e apesar de, sob alguns pontos de vista, se ter revelado “decepcionante”, recorrendo aqui ao termo usado por Korczack (isto no que se refere a uma aclamação dos direitos-liberdades da criança, cingindo-se a uma dimensão situada no registo da protecção e da defesa) não deixa, contudo, de ter constituído o primeiro documento de salvaguarda para a criança, muito em virtude de uma progressiva consciencialização pública em prol das necessidades de protecção e provisão de que a infância carecia. Apesar da sua irrupção se ter devido muito graças ao
(18) Saunier, Francis. Em Defesa da Criança, op.cit. p. 135
retumbante e dramático flagelo que foi a Primeira Grande Guerra, sem dúvida que personificou uma emancipadora ideia de que, ao invés da expressividade concedida aos pais, como personagens de direitos e deveres para com os filhos, a situação começar-se- ia a inverter em prol da infância, a partir do momento em que, muito mais que simples deveres as crianças têm direitos, embora ainda muito circunscritos ao registo da sua protecção, da sua segurança, da sua integridade física e moral. Este foi o começo de uma nova era de acordo com a qual, e muito progressivamente, a criança se viria a transformar num dos principais actores das sociedades democráticas, alvo de frutíferas atenções e preocupações.
De qualquer modo, a ideia que nos ficou após a análise da Declaração de 1924, rectificada numa segunda versão, em 1948, foi a de que havia ainda muito por que lutar a favor de um efectivo reconhecimento da criança como sujeito de direitos e, sobretudo de liberdades. Apesar dos progressos registados na Declaração dos Direitos da Criança de 1959, como constataremos já no ponto a seguir, teriam de se esperar quase mais setenta anos para que, finalmente, fosse promulgada a pedra angular de toda esta luta: a Convenção Internacional dos Direitos da Criança de 1989.