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As fases do processo de projeto arquitetônico

SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO

2 PROJETO ARQUITETÔNICO DIGITAL

2.1 O Processo de Projeto Arquitetônico

2.1.3 As fases do processo de projeto arquitetônico

2.1.3.1 Análise

A análise constitui-se na investigação das partes de um todo, tendo em vista conhecer sua natureza, suas características, suas funções, suas relações, etc. (FERREIRA, 2004). Constitui no processo de decomposição de objeto em seus diversos elementos constituintes visando obter uma melhor compreensão do todo. A análise relaciona-se com procedimentos utilizados para a compreensão das partes e do todo de um objeto.

Em arquitetura, a análise relaciona-se com a investigação do problema arquitetônico. Constitui-se na investigação dos principais elementos que compõem o problema de projeto. Nas análises, definem-se: as principais metas e objetivos que o projeto deve alcançar; os principais critérios de desempenho do edifício; as principais restrições; possíveis impactos das soluções para os usuários, clientes e localidade, etc.

No início do processo de projeto, as análises servem para auxiliar na compreensão do problema do projeto. Ao longo do desenvolvimento do processo de projeto e de geração da forma arquitetônica, novos problemas surgem e novas análises são requeridas visando compreender os problemas advindos com o desenvolvimento da solução de projeto. As análises auxiliam os projetistas na definição dos parâmetros de projeto.

Por meio da investigação dos problemas de projeto, as análises auxiliam no estabelecimento de especificações sobre os requisitos de desempenho que o edifício deve atender, por exemplo: características de dimensionamento; custo estipulado; configuração e determinação das relações entre os ambientes; perfil dos fluxos; orientações predominantes; visuais; formas de articulação do edifício com o entorno.

A análise é a fase de assimilação dos condicionantes relacionados com o projeto. Segundo Markus (1971), esses condicionantes são: esclarecimento das metas do projeto, identificação dos

problemas e da natureza das dificuldades, exploração de relações e gerenciamento dos dados. Entre os métodos empregados na análise, Jones (1971) propõe um que inicia com a discussão entre os projetistas sobre os pensamentos advindos com os primeiros contatos com o problema e finaliza com a definição de um programa arquitetônico. Alexander (1964) afirma que a análise corresponde à etapa de busca do programa mais apropriado a um dado problema.

Por meio da análise, é possível definir os principais conceitos do edifício. O conceito relaciona-se intrinsecamente com o problema do projeto e aonde se quer chegar com ele. De acordo com Deleuze e Guattari (2000), o conceito remete a um problema; sem o problema, o conceito não tem sentido. A análise de um projeto parte de um problema e de um conceito a ele associado. Esse conceito tem origem em condicionantes históricos e ideológicos, que vão definir a natureza do problema e também poderá sofrer influências de outros problemas e de outros componentes vindos de outros conceitos.

A análise, como um processo racional, relaciona-se com a obtenção e o gerenciamento de informações e dados advindos de: pesquisas de comportamento e entrevistas aos clientes; de casos precedentes; de códigos de edificações; de condicionantes culturais, econômicos e ambientais; etc. Essas informações não são o principal objetivo da análise em si, mas sim a maneira como essas informações são organizadas, de modo que possam ser úteis para as etapas subsequentes dos estágios de decisão.

2.1.3.2 Síntese

A síntese associa-se à fase criativa dos estágios de decisão. Nessa fase os arquitetos concebem as ideias e possíveis soluções que atendam aos objetivos, satisfaça às restrições e oportunidades visualizadas na etapa de análise. Kalay (2004) afirma que a síntese se constitui de passos intuitivos na busca de soluções dos problemas, por meio de organização de formas, materiais, hierarquia de visuais, orientações predominantes, iluminação e de outros tantos condicionantes, que, quando articulados na síntese, vão constituir o edifício. Segundo Markus (1971), compreende a criação das ideias, que podem expressar soluções parciais e combinações de relações parciais em soluções globalmente consistentes e factíveis de serem implementadas.

A síntese pode beneficiar-se de variadas técnicas durante a geração da forma, por exemplo, o uso de brainstorming, o emprego de formas precedentes, o uso de metáforas, a

exercitação de esboços reflexivos, assim como o conhecimento formal de regras de composição e estilos. Essas técnicas podem apoiar-se em métodos que explorem mais o processo criativo (caixa preta), ou a racionalidade apoiada em métodos sistemáticos.

O emprego de técnicas e métodos de decisão não é meio capaz de garantir que uma solução seja boa ou não. A solução pode ser otimizada em alguns requisitos, mas certamente tantos outros serão incompletos, podendo não ter todos os requisitos desejados ou conter conflitos internos. Lawson (2005, p. 123) assegura que “não existe uma solução ótima para um problema de projeto, mas sim, uma grande variedade de soluções aceitáveis, algumas mais outras menos satisfatórias em alguns aspectos e para diferentes clientes ou usuários.”

2.1.3.3 Avaliação

Segundo Scriven (1991, p. 139) avaliação é o “processo de determinação do mérito, importância “ou valor de alguma coisa ou ao produto de um processo”. O autor diz que o processo que compreende a avaliação inclui as seguintes ações: estipular, analisar, examinar, graduar, inspecionar, julgar, estabelecer ranking, estudar e testar. Preskill e Torres (1999) definem a avaliação como um processo sistêmico, planejado e intencional que envolve a coleta de dados sobre um objeto, visando ampliar o conhecimento e a tomada de decisão. Por meio da avaliação, pode-se verificar se as decisões tomadas trazem melhoria ou não para um programa, processo, produto, sistema ou organização. A avaliação associa-se ao julgamento, mérito ou valor de algo (PRESKILL; TORRES, 1999).

A avaliação em arquitetura visa garantir que uma solução proposta seja a mais aceitável. Para isso, procura detectar deficiências no projeto antes da produção, venda e uso, quando as alterações tornam-se progressivamente mais demoradas e caras. Na avaliação, a solução proposta é comparada com as metas, restrições e oportunidades que o projeto deveria atender e detectada na fase de análise do problema de projeto. O objetivo é distinguir o que é compatível e o que é conflitante, e estabelecer o grau no qual uma solução proposta atende aos requisitos de desempenho definidos na fase de análise. A avaliação é, tradicionalmente, vista como uma questão de experiência e julgamento, porém, à medida que a complexidade do projeto aumenta, as experiências e os julgamentos tornam-se menos efetivos (JONES, 1971).

Critérios qualitativos de desempenho como estética, comportamento humano e a percepção do edifício são difíceis de serem medidos e avaliados. Porém, o uso de métodos de avaliação pode ajudar os projetistas a preverem e medirem o potencial de uma solução em encontrar as metas e respeitar as restrições. De acordo com Markus (1971), a avaliação é um processo racional compreendido por: justaposição e provas; aplicação de critérios; restrições e limites; seleção da melhor solução entre as propostas; e teste de consistência de solução. Jones (1971) propõe o uso de métodos estatísticos no processo de avaliação; propõe julgamento (com base na coleta e avaliação de experiências anteriores); simulação (por meio de modelos reduzidos, desenhos, técnicas computacionais e experimentação); previsão lógica, usando mapas de interação e redes (para simular a multiplicidade de situações que o edifício pode encontrar durante seu ciclo de vida); e desenvolvimento de pré-engenharias (por meio de protótipos em escala reduzida, antes da produção, venda e operação do edifício).

Uma das principais dificuldades em avaliar uma solução é conciliar os conflitos entre diferentes qualidades concorrentes, como a ventilação, iluminação, eficiência energética, ruído, desempenho térmico, eficiência estrutural. Algumas situações de conflitos identificadas na avaliação podem ser resolvidas sem comprometer outros critérios de desempenho, mas há situações que requerem sacrifícios. Por isso, a avaliação deve ser capaz de conciliar diversas qualidades, ponderando a relevância de cada uma delas.

2.1.3.4 Representação

A análise, síntese e avaliação se repetem durante todo o processo de projeto, constituindo-se nos elementos essenciais das sequências de decisão. Cada uma dessas se articula com a outra graças aos mecanismos da comunicação. A comunicação é o meio que permite a passagem de informações entre uma fase e outra do processo de projeto.

Deficiências no projeto detectadas na avaliação podem levar à revisão da síntese, com melhorias, ajustes ou mudanças nas soluções e resultar redefinições de metas, de restrições e de requisitos de projeto na análise. Para isso, a comunicação entre essas fases torna-se um elemento fundamental, viabilizando a existência das sequências de decisões (Figura 2.5). A comunicação é o meio que permite que os participantes do processo de projeto, internos ou externos, sejam informados sobre a evolução das metas, das soluções e das avaliações.

A comunicação representa o elo entre as fases de análise, síntese e avaliação do ciclo de decisão. Serve como meio de registro e viabiliza o processo de projeto. Kalay (2004) é um processo complexo de codificação e decodificação de informações, usando, para isso, a representação. A representação, por sua vez, é a informação decodificada em um sistema simbólico que permite as partes compreenderem a informação que foi comunicada. Esta informação é usada entre as fases do ciclo de decisão, entre essas fases e os projetistas e entre os projetistas e demais envolvidos no processo de projeto. A representação da informação pode ser feita por meio de desenhos, perspectivas, modelos, especificações, anotações, etc. A representação, portanto é o quarto elemento fundamental da sequência de decisão. O modo de representação pode influenciar a formação do pensamento de projeto, com impacto direto no processo de projeto, segundo Schön e Wigging (1992).

Figura 2.5 A comunicação permite o fluxo de informações entre as etapas da sequência de decisões

Fonte: Autoria própria