4 BIM E O PROCESSO DE PROJETO DIGITAL
4.5 O Processo de Projeto de Arquitetura com o BIM
4.5.2 Revisão do processo de projeto arquitetônico com o BIM
Baseado nas tecnologias de modelagem paramétrica e na interoperabilidade, o BIM pode trazer melhoria na integração e no fluxo de informações durante o processo de projeto de arquitetura (EASTMAN et al., 2008). Para isso, é importante que também ocorram mudanças na cultura da prática de projeto (BIRX, 2005) com transformações em quase todos os aspectos que envolvem essa prática.
No projeto arquitetônico, é importante uma antecipação de atividades realizadas na etapa de desenvolvimento para as fases iniciais do projeto (FLORIO, 2007), haja vista que o BIM implica redistribuição nos esforços projetuais, dando maior ênfase à concepção. Essa mudança na forma de pensar o fazer arquitetura está na transformação do processo de projeto que deixa de priorizar a representação abstrata, com convenções fragmentadas de comunicação, para privilegiar a construção contextual, apoiada numa simulação inteligente da relação espaço- forma (AMBROSE, 2006).
Nesse contexto, os arquitetos passam a gastar mais tempo projetando e menos tempo desenhando. O grande potencial do uso do BIM em projeto está na possibilidade de revigorar a prática contemporânea da arquitetura pelo desenvolvimento e exploração do processo de projeto e de metodologias que deem prioridade a formas de ver, pensar e criar durante o processo de projeto. Com isso, pode-se aumentar o espaço de soluções, vislumbrando-se opções que dificilmente seriam pensadas na forma analógica de projetar.
Essa nova maneira de projetar provoca mudanças no nível de detalhe das soluções propostas e pode requerer, de acordo com o perfil do projeto, o uso de componentes (reais – representados virtualmente) baseados em modelos da construção, já nas primeiras etapas do lançamento do partido (PENTTILÄ, 2007). Para esses casos, o processo de projeto passa a apoiar-se num modelo central de informações em vez de uma simples modelagem geométrica 3D (GUIDERA, 2006). Pensar no edifício com os componentes é uma maneira de substituir a abstração pela simulação (AMBROSE, 2006). O edifício passa a ser construído literalmente (de
modo virtual): a concepção do espaço expressa o espaço, a concepção da forma expressa a forma. Substitui-se a tradicional convenção abstrata usada na representação (plantas, cortes e fachadas) por uma simulação, expressa no modelo de objeto inteligente, como saída antiabstração. Desse modo, o modelo torna-se mais próximo da tectônica arquitetônica, com a valorização da lógica material da construção física (PIÑÓN, 2008).
Dentro dessa nova maneira antiabstração, antifragmentação, anti-isolamento do processo de projeto, para um suportado por uma relação contextual, expressa no ambiente de modelagem e nos dados a ele atrelados, passa-se a reconceber, de modo mais nítido, a supremacia do todo sobre as partes, estabelecendo uma relação holística no projeto arquitetônico (AMBROSE, 2006). Nesse momento, a análise, síntese e avaliação do projeto arquitetônico passam a ser, cada vez mais, sobrepostas.
Uma das primeiras decisões que devem ser feitas está em estabelecer com clareza o objetivo do projeto e os critérios de desempenho que o edifício deve satisfazer. É também importante definir o papel da modelagem do edifício, o perfil da equipe que vai participar do projeto, os recursos que serão disponíveis, os benefícios do modelo, o formato de arquivos usado, o modo de realizar a interoperabilidade (ABOULEZZ et al., 2007), etc. Para o projeto arquitetônico, por exemplo, certos níveis de detalhe podem ser considerados desnecessários ou extremamente importantes. Estes devem ser definidos a priori.
Outra grande mudança no processo de projeto com o BIM vem com a necessidade de trabalhar o projeto de modo colaborativo, baseado numa prática integrada (discutida na seção anterior). A transposição de um modelo de tomada de decisão hierárquico e sequencial por um modelo baseado na colaboração pode resultar em mudança na estrutura do projeto arquitetônico, que passa, cada vez mais cedo, por processos de compatibilização.
Cabe destacar a existência de dois grupos de tomada de decisão com o BIM: uma de caráter mais arquitetônico e outro mais operacional. No primeiro, de caráter mais arquitetônico, valorizam-se os desempenho a serem alcançados pelas soluções arquitetônicas e estimulam-se o crescimento no espaço de soluções. Relaciona-se com a sequência de decisões e com a natureza exploratória do processo de projeto; apoia-se na computação. Esse é ainda pouco discutido nas pesquisas em BIM. O outro, mais operacional, de caráter de gestão e planejamento, integração e
projeto arquitetônico digital baseado no desempenho
sistematização de trabalho, relaciona-se com o fluxo de informação no processo de projeto; apoia-se na informatização.
Pensar o BIM do ponto de vista da sequência de decisões significa uma mudança na forma de pensar o processo de projeto arquitetônico, com o fortalecimento do conceito. No conceito, estabelecido no programa arquitetônico, estão expressas a ideologia, a ética, as afinidades com as formas/ espaços arquitetônicos, os princípios, maneiras de pensar o lócus, o modo de dialogar com o cliente, enfim, os condicionantes gerais que vão direcionar a maneira de projetar. Com o BIM, muitas das informações que vão embasar o conceito poderão ser mais facilmente adquiridas e visualizadas, inclusive, influenciando no discurso e na formatação do conceito. Além do mais, com o BIM, certos conceitos – que vão definir posturas projetuais e vão ser expressos na escolha dos critérios de desempenhos das soluções arquitetônicas – precisarão estar definidos com antecedência, o que pode resultar numa discussão preliminar e no aprofundamento de uma base conceitual para o projeto.
Diante das considerações expostas acima, a implantação do BIM só trará ganhos efetivos quando vinculados a novos métodos de projeto arquitetônico digital. Métodos baseados na modelagem paramétrica, na interoperabilidade e que incorporem: a diluição da divisão entre etapas de concepção e desenvolvimento, visando fortalecer a concepção arquitetônica (FLORIO, 2007; EASTMAN et al., 2008); a construção contextual; a redefinição no nível de detalhe da solução proposta em função do processo projetual; o desenvolvimento do projeto num modelo de informação compartilhada; o pensamento mais voltado para a lógica do material da construção; e o desenvolvimento de projetos mais colaborativos (AMBROSE, 2006; PENTTILÄ, 2007; GUIDERA, 2006). Para isso, é importante: a revisão nas atribuições profissionais; a modificação no perfil de remuneração e documentação; novas delimitações e maior clareza nos objetivos do projeto; e a utilização de formatos que possibilitem maior interoperabilidade.