SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO
2 PROJETO ARQUITETÔNICO DIGITAL
2.1 O Processo de Projeto Arquitetônico
2.1.1 Características do processo de projeto arquitetônico
Existem diversas maneiras de descrever o processo de projeto arquitetônico e como esse interfere na produção do edifício. Algumas são mais precisas, outras são mais vagas. O problema das descrições, segundo Broadbent (1973), é que dizem pouco sobre o que se deve saber do processo de projeto. Um dos motivos é que essas são, em geral, superficiais e abordam a criatividade como principal componente do processo de projeto, interpretando-a como uma
atividade estática. Outro problema está na complexidade e variedade do processo de projeto. Esse varia, entre outros fatores, em função da natureza do problema do projeto, do perfil do projetista, das necessidades dos clientes. Pode empregar métodos mais explícitos e sistemáticos ou subjetivos e pouco sistemáticos.
Por outro lado, autores como Vries e Wagter (1991), Barber e Hanna (2001), e Lawson (2005) mostram que o processo de projeto arquitetônico apresenta características mais ou menos comuns, que devem ser consideradas nas investigações nessa área. Segundo Vries e Wagter (1991), essas características são: processo mal estruturado, processo em aberto, não existe um ponto de partida.
Um processo de projeto arquitetônico é mal estruturado porque os problemas, na maioria, são mal definidos, ou seja, os fins e os meios das soluções são desconhecidos e externos ao problema, pelo menos no seu conjunto (ROWE, 1988). Embora as características do problema (como tempo, esforço, requisitos) possam ser claros, grande parte da atividade de resolução de problemas se dá por definições e redefinições pouco explícitas. Na impossibilidade de descrever os passos que levarão a uma solução bem-sucedida de problema de projeto, os arquitetos criam soluções e então verificam se essas resolvem o problema de projeto.
Na opinião de Rittel (1995), há problemas de projeto tão mal definidos que podem ser chamados de perniciosos. Entre as características dos problemas perniciosos estão: problemas sem uma formulação definitiva, o que o deixa em aberto para a formulação de novas questões e reformulações; a qualquer hora, uma solução pode ser proposta, ampliada ou desenvolvida; diferentes formulações do problema implicam diferentes soluções e vice-versa; soluções propostas não são necessariamente corretas ou incorretas, o que impossibilita a formulação de alternativas definitivas.
Assim, fica difícil prever soluções para resolver um problema de projeto. Apenas para pequenas partes do projeto, que apresentam número limitado de restrições, é possível chegar a soluções mais definitivas. Por outro lado, Vries e Wagter (1991) mostram que projetistas experientes têm conhecimento prévio sobre procedimentos executados em um grande número de soluções e sobre seus sucessos e fracassos. Esses podem utilizar o conhecimento na definição de novas soluções que resolvam problemas de projeto parecidos. Essa capacidade de identificar,
controlar e variar o processo de projeto é uma das principais habilidades que um projetista deve desenvolver.
O processo de projeto arquitetônico está em aberto em virtude de não se alcançar uma “solução ideal” de edifício, e, de não existir, nas fases preliminares de projeto, uma meta real de morfologia desejada (VRIES, WAGTER, 1991; LAWSON, 2005). Os projetistas iniciam o processo de projeto sem saber exatamente como será a morfologia do que eles vão projetar. Por meio da otimização de um grande número de restrições e requisitos parcialmente conflitantes, o processo de projeto evolui em busca da “solução ideal”.
Pelo fato de partir de um “problema pernicioso”, não se pode dizer que alcançou uma solução definitiva, mas sim, que pode ser sempre melhorado. Dificilmente um projetista acaba um projeto por não conseguir melhorá-lo, mas, quase sempre, por causa de um prazo final ou de uma condição do orçamento. Os projetistas definem quais as condições mais importantes e aperfeiçoam a solução, mesmo que restrições menos importantes não sejam respeitadas. A escolha das restrições mais importantes não se relaciona apenas com o problema de projeto, mas, também, com as preferências do projetista (LAWSON, 2005).
A terceira característica comum de um processo de projeto arquitetônico é que ele não tem um ponto de partida (VRIES; WAGTER, 1991). Em geral, começa-se com alguns esboços, na tentativa de dispor um edifício num sítio. O projetista estabelece algumas conjecturas de projeto (objetivos do partido, volumetria, aparência e perfil do uso), para servirem de base, e as aperfeiçoa. Depois, avalia e confirma, nega ou aponta outros caminhos para a solução.
Em vez de um ponto inicial ou um ponto final, Lawson (2005) considera que o processo de projeto é, acima de tudo, ação para mudar o ambiente de alguma forma. Assim, o contexto principal do trabalho do arquiteto está na sua ação. Para minimizar o problema de imprecisão e incompletude inerente ao processo arquitetônico, há duas técnicas muito usadas por projetistas de arquitetura: reduzir o número de requisitos para um nível aceitável, e sobrepor princípios de ordenação de projeto (VRIES; WAGTER, 1991).
A redução do número de requisitos significa que, durante as primeiras fases do processo de projeto, apenas os requisitos que influenciam as principais partes do edifício são considerados. Com a evolução do processo de projeto, os projetistas devem considerar os outros
requisitos menos importantes e mais específicos. Esses, por serem mais específicos, terão efeitos apenas pontuais no processo de projeto.
A sobreposição de princípios de ordenação visa fornecer um ponto inicial para o processo de projeto e fornecer uma série de critérios que podem ser usados para a avaliação nos estágios iniciais. Esse último aspecto tem um papel importante, pois nessa fase inicial não existem informações precisas que possam ser usadas para a avaliação das soluções propostas. O ponto inicial é expresso nas primeiras configurações arquitetônicas. Essas configurações são representadas por diagramas. O uso de diagrama é um meio de trabalhar com poucos requisitos como partes essenciais do projeto. Informações pouco relevantes num dado momento são exclusas do diagrama.
Ao limitar as partes essenciais do projeto a poucos requisitos, simples e consistentes com as ideias básicas do projeto, facilitam-se as atividades no processo de projeto. Esses requisitos guiam a geração de alternativas de projeto, dentro de um espaço de soluções, e podem ser utilizados na avaliação das soluções mais apropriadas ou que melhor satisfaçam às regras estabelecidas nesses requisitos.
Acrescidas às características descritas acima, que são mais ou menos comuns no processo de projeto arquitetônico, Lawson (2005) mostra que esse também envolve a subjetividade, o julgamento e a descoberta, por ser uma atividade prescritiva e de criação. Essas, portanto, também são características que devem ser consideradas nas investigações em processo de projeto.