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1 As Cantigas de Santa Maria e o Português Arcaico

1.3 As Cantigas de Santa Maria

1.3.2 As fontes dos milagres marianos e a estrutura dos poemas

Outra questão a ser discutida aqui é a das fontes de onde foram retirados os milagres narrados pelas CSM. Fidalgo (2002, p. 27) diz que as primeiras coleções de narrativas de milagres atribuídos à Maria foram compiladas na Inglaterra, no século XI, e na França, no século XII, devido ao grande crescimento do culto à Virgem a partir da introdução da festa da Imaculada Conceição.

A diversidade dos temas tratados nas cantigas nos leva a acreditar que as fontes, sejam elas diretas ou indiretas, de que Afonso X dispunha para a composição das mesmas, eram muitas e muito variadas. Ainda assim, podemos distinguir três grupos temáticos.

O primeiro grupo é constituído de cantigas compostas com base em milagres atribuídos à Virgem Maria que são conhecidos e divulgados por todo o Ocidente cristão, sendo que essas lendas são transmitidas em coleções latinas como o Speculum historiale de Vicente de Beauvais e o Liber Mariae do frei Gil de Zamora (METTMANN 1986, p. 11).

No segundo grupo, temos cantigas baseadas em lendas relacionadas a santuários da Península, como o de Montserrat, Terena, Santa Maria do Porto, Santa Maria de Salas e Santa Maria de Vila Sirga, conforme podemos ver nos exemplos 1.7 e 1.8 a seguir.

(1.7) E ar dizer-ll‟ outro nome, de que an gran desconorto os mouros, porque lle chaman Santa Maria del Porto, de que vem a nos gran dano e a vos fazen y torto. e atal feito com‟ este deve ser escarmentado.”

Sabor á Santa Maria, de que Deus por nos foi nado...

(9ª estrofe da CSM nº 328, Mettmann, 1989, p. 161)

(1.8) Ca eu tal erro fezesse escontra a Gloriosa, yndo pera a ssa casa. Non te têes por astrosa de tal cousa demandares?” Ela foi en vergonnosa, e ata en Vila-Sirga non llo ar ouv' enmentado. O que a Santa Maria serviço fezer de grado...

43 No exemplo 1.7, temos uma menção ao santuário de Santa Maria do Porto, na CSM 328 e, no exemplo 1.8, é citado o santuário de Santa Maria de Vila Sirga, na CSM 355.

No terceiro grupo, situam-se aquelas cantigas, já mencionadas anteriormente, em que são feitos relatos de acontecimentos milagrosos sucedidos ao próprio Rei ou a pessoas da sua família, ou do seu séquito (cf. exemplos de 1.1 a 1.3).

Para Leão (2007, p. 40), muitas das histórias ou lendas de milagres atribuídos à Virgem Maria devem ter vindo da tradição oral, recolhidas por eruditos em coleções copiadas e traduzidas de um país para outro.

Já Fidalgo (2002, p. 37) levanta a hipótese de que alguns dos livros consultados, pelo rei ou pelos seus colaboradores, como fontes inspiradoras para a escrita das cantigas, poderiam não se referir necessariamente ao culto mariano, mas teriam vindo de campos diversos como a cultura clássica pagã ou as culturas orientais. Além disso, a autora ainda atribui parte dessa inspiração aos conhecimentos pessoais dos próprios colaboradores de D. Afonso X ou às histórias contadas ou vividas por guerreiros nas campanhas militares no Oriente. Portanto, estabelecer as fontes diretas das CSM não é tarefa muito fácil.

Além disso, fazem parte das CSM, no que diz respeito à temática, poemas parafraseados encontrados em outras obras. De acordo com Leão (2007, p. 22), há, no livro, vinte e cinco poemas dos Milagros de Nuestra Señora, originalmente escritos em castelhano arcaico, de Gonzalo de Berceo; sessenta poemas dos Miracles de Nostre Dame, ou Les miracles de la Sainte Vierge, escritos em francês antigo, de Gautier de Coincy; e trinta e oito poemas, escritos em anglo-normando, pelo clérigo Adgar e publicados sob o título Marienlegenden. Trata-se, então, de uma intertextualidade temática, porém com uma realização técnica diferente e original em todos os casos.

Em relação à estruturação dos poemas, podemos dizer que, nas cantigas de loores, o Rei e os seus colaboradores não seguiram modelos concretos; e os temas, epítetos, imagens e comparações destas cantigas possuem antecedentes paralelos na literatura referente à Virgem Maria já produzida anteriormente (METTMANN, 1986, p. 14). São 61 cantigas, pouco mais de dez por cento do total, que celebram, por meio de versos de grande beleza e emoção, Maria como auxiliadora, mediadora e procuradora. Essas cantigas são colocadas nas dezenas, ou seja, a primeira é a de número 10, a segunda é a de número 20, e assim por diante. Vejamos nos exemplos 1.9 e 1.10, abaixo, amostras de trechos de cantigas de loor.

44 (1.9) [O]utrossi loar devemos

a por que somos onrrados de Deus e ar perdõados dos pecados que fazemos; ca tẽemos

ca devemos por aquesto lazerar, mas creemos e sabemos

uqe no pod‟ela guardar. Muito deveria

ome sempr’ a loar

a Santa Maria e seu ben rezõar

(2ª estrofe da CSM nº 300, Mettmann, 1989, p. 97)

(1.10) Tu es alva dos alvores, que faze-los peccadores que vejan os seus errores e connoscan as folia, que desvia d‟aver om‟o que devia, que perdeu por sa loucura Eva, que tu, Virgen pura, cobraste porque es alva. Virgen Madre groriosa...

(2ª estrofe da CSM nº 340, Mettmann, 1989, p. 187)

Há também temas como súplicas, rogos, incitações para se louvar Maria, explicações do porquê de se amar Maria, a oposição do amor mundano ao amor de Maria e muitos outros temas de elevação da Virgem.

Como os trovadores não seguiram um determinado molde para a elaboração das cantigas de loores, estas apresentam uma grande diversificação métrica e se apropriam das temáticas tradicionais com destacada originalidade, fazendo com que cada uma constitua uma pequena obra-prima poética (Leão, 2007, p. 135).

Já em relação às cantigas de miragres, nota-se a predominância da forma virelai, constituída de um refrão que precede a estrofe inicial e contém a lição que deve ser aprendida com o relato daquela cantiga, isto é, contém a ideia principal, a qual nos é colocada inicialmente na forma de um provérbio ou uma sentença, que será glosada na primeira estrofe e, ao final de cada estrofe, o refrão é repetido. Geralmente, as três primeiras estrofes são

45 introdutórias, indicando o local e a época referente ao milagre relatado, ou nomeando as pessoas envolvidas e indicando a fonte da história narrada (METTMANN, 1986, p.13).

No entanto, Leão (2007, p. 38) nos diz que o modelo versificatório seguido, na maioria das cantigas, é o zéjel, composição de origem moçárabe, que surgiu, alguns séculos antes, em Córdoba; a estrutura do zéjel, na sua forma mais simples, segundo a autora, coincide com a do virelai (LEÃO, 2007, p. 136). Em relação a tal estrutura, a autora nos diz que

Na sua forma básica, o zéjel se constitui de um refrão com dois versos rimados, seguido de estrofes de quatro versos, compostas cada uma de um trístico monorrimo com rimas diferentes de estrofe para estrofe (a “mudança”), mais um quarto verso que rima com o refrão (a “volta”). (LEÃO, 2007, p. 38-39)

No exemplo 1.11, abaixo, temos um exemplo de cantiga que apresenta a forma do zéjel explicitada pela autora.

(1.11) REFRÃO O que a Santa Maria mais despraz, é de quen ao seu Fillo pesar faz.

E daquest' un gran miragre | vos quer' eu ora contar, TRÍSTICO que a Reinna do Ceo | quis en Toledo mostrar MONORRIMO eno dia que a Deus foi corõar,

na sa festa que no mes d'Agosto jaz. VOLTA

O que a Santa Maria mais despraz... MUDANÇA O Arcebispo aquel dia | a gran missa ben cantou;

TRÍSTICO e quand' entrou na segreda | e a gente se calou, MONORRIMO oyron voz de dona, que lles falou

piadosa e doorida assaz. VOLTA

O que a Santa Maria mais despraz...

(1ª e 2ª estrofe da CSM nº 12, Mettmann, 1986, p. 89)

Estas cantigas somam um total de 356, possuindo, conforme vimos anteriormente, um valor artístico desigual, com traços estilísticos muito divergentes, devido, provavelmente, às diversas mãos que as compuseram.

El valor artístico de las cantigas narrativas es muy desigual, lo que, en parte, se puede explicar por la pluralidad de autores. Al lado de composiciones donde el encanto de las leyendas es reforzado por una narración hábil y vivaz e la soltura de los diálogos (véase por ejemplo la ctg. 64), hay otras que, como queda dicho, son productos de serie u obra de um poeta de poco talento. (METTMANN, 1986, p. 14)

46 Todas as cantigas possuem uma estrutura de composição muito rígida. Isso quer dizer que a quantidade de sílabas poéticas por verso, o tipo de verso e o esquema de rimas estipulado para a primeira estrofe de uma determinada cantiga é seguido em todas as demais estrofes dessa cantiga.

Trata-se, portanto, de uma versificação muito sofisticada, devido à combinação dos metros, a estruturação das estrofes e a disposição das rimas, o que afasta as CSM da simplicidade estrutural das cantigas dos cancioneiros profanos de uma maneira geral. Essas cantigas também apresentam um vocabulário muito rico, uma vez que as suas temáticas não se restringem à tópica amorosa das cantigas de amigo e de amor, tratando de diversos temas representativos da vida na Península Ibérica da Idade Média.