Inicialmente, importante destacar que as Forças Militares já existiam muito antes das primeiras Constituições, confundindo-se, até mesmo, com o descobrimento do Brasil.
Sodré (1979, apud Guimarães, 2003) ensina que a previsão legal acerca dos militares teve início com a Carta de Doação, datada do ano de 1534, e foi
ampliada, em 1548, com o Regimento do Governador Geral do Brasil, destinado a Tomé de Sousa, o qual recebeu a incumbência de fortificar o litoral da Colônia.
Em virtude da necessidade de expulsão dos holandeses que aqui estavam (no Brasil), em 19 de abril de 1648, com a Batalha dos Guararapes, surgiu o primeiro Exército Brasileiro, composto por brancos, negros e índios, que despendiam todos os esforços para a restauração da pátria em troca de liberdade (GUIMARÃES, 2003).
No contexto constitucional, as Forças Armadas tiveram a primeira previsão na Constituição do Império de 1824, embora com outra nomenclatura, conforme artigo 145 e seguintes:
Art. 145. Todos os Brazileiros são obrigados a pegar em armas, para sustentar a Independencia, e integridade do Imperio, e defende-lo dos seus inimigos externos, ou internos.
Art. 146. Enquanto a Assembléa Geral não designar a Força Militar permanente de mar, e terra, substituirá, a que então houver, até que pela mesma Assembléa seja alterada para mais, ou para menos.
Art. 147. A Força Militar é essencialmente obediente; jamais se poderá reunir, sem que lhe seja ordenado pela Autoridade legitima.
Art. 148. Ao Poder Executivo compete privativamente empregar a Força Armada de Mar, e Terra, como bem lhe parecer conveniente á Segurança, e defesa do Imperio.
Art. 149. Os Officiaes do Exercito, e Armada não podem ser privados das suas Patentes, senão por Sentença proferida em Juizo competente.
Art. 150. Uma Ordenança especial regulará a Organização do Exercito do Brazil, suas Promoções, Soldos e Disciplina, assim como da Força Naval (Brasil, 1824).
Os artigos em comento estavam inseridos no Capítulo VIII, que tratava da “Força Militar”.
Conforme dicção do artigo 145 supramencionado, as Forças Armadas teriam a função tanto de defesa dos inimigos internos, quanto da defesa de seus inimigos externos. Além disso, todos os brasileiros seriam integrantes das Forças Armadas para a proteção do Império, não havendo, portanto, órgãos especificamente designados para tanto.
De acordo com Mathias (2010, p. 43), durante o império, “empregar a força internamente significava garantir a autonomia de um Brasil recém-nascido: a nação seria forjada pelas armas”.
Nas constituições subsequentes, também houve previsões acerca das Forças Armadas. A Constituição de 1891, por exemplo, previa, em seu artigo 14: “Art. 14. – As forças de terra e mar são instituições nacionais permanentes,
destinadas à defesa da pátria no exterior e à manutenção das leis no interior” (Brasil, 1891).
Ao passo que a Constituição de 1824 prescrevia que todos os brasileiros seriam integrantes das Forças, a Constituição de 1891 passou a prever um órgão permanente com a atribuição de defesa da pátria e de manutenção da lei.
As Constituições de 1934 e 1937 também fizeram previsão das Forças Armadas como defesa da pátria, mas com base na obediência hierárquica, veja-se:
Art. 162. – As forças armadas são instituições nacionais permanentes, e, dentro da lei, essencialmente obedientes aos seus superiores hierárquicos. Destinam-se a defender a Pátria e garantir os poderes constitucionais, a ordem e a lei (Brasil, 1934).
Art. 161.- As forças armadas são instituições nacionais permanentes, organizadas sobre a base da disciplina hierárquica e da fiel obediência à autoridade do Presidente da República. (Brasil, 1937).
Seguindo-se o curso das alterações, a Constituição de 1946 passou a prever a composição das Forças Armadas, as quais seriam formadas pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, com base na hierarquia e também na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República. Na íntegra, seus artigos 176 e 177:
Art. 176. – As forças armadas, constituídas essencialmente pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República e dentro dos limites da lei. Art. 177 – Destinam-se as forças armadas a defender a pátria e a garantir os poderes constituídos, a lei e a ordem. (Brasil, 1946).
Por fim, as duas últimas Constituições (1967 e 1988) mantiveram, praticamente, o que previa a Constituição de 1946, unindo-se às disposições das Constituições anteriores:
Art. 92.- As forças armadas, constituídas pela Marinha de Guerra, Exército e Aeronáutica Militar, são instituições nacionais, permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República e dentro dos limites da lei. § 1º - Destinam-se as forças armadas a defender a pátria e a garantir os poderes constituídos, a lei e a ordem (Brasil, 1967).
Art. 142.- As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exercito e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem (Brasil, 1988).
Como visto, desde a Constituição de 1937, houve a necessidade de prever que a base das Forças Armadas seria calcada na hierarquia e na disciplina. Isso se justifica pelo fato de que se fossem indisciplinadas, revelar-se-iam
impotentes para o desempenho de suas tarefas, as quais, diga-se de passagem, são de extrema relevância para a nação, e, nesse sentido, as Forças Armadas precisam ser organizadas e preparadas para repelir prontamente agressões de outros países contra o Brasil (MARREIROS et al, 2015).
A hierarquia consiste na ordenação da autoridade em níveis diferentes, que se dará por meio de postos ou graduações (posto refere-se ao grau hierárquico do Oficial, e graduação ao grau hierárquico do Praça), enquanto que a disciplina consiste na rigorosa observância e acatamento das leis (LENZA, 2016).
Nesse contexto histórico, Proença Júnior (2011), afirma que “Na Constituição brasileira, as Forças Armadas são tanto a espada da República quanto o escudo da Constituição”.
Isso porque a defesa da pátria e a garantia dos poderes constitucionais estão no mesmo plano, não havendo uma atividade superior a outra. A garantia dos poderes constitucionais se fará pela força, representada pela espada, enquanto que a defesa da pátria consiste no escudo (PROENÇA JÚNIOR, 2011).
Esmiuçados alguns conceitos básicos das Forças Armadas, passa-se, então, à análise de suas funções.