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AS FORMAÇÕES SUFIXAIS QUANTIFICADORAS EM ARTIGOS,

No documento igordeoliveiracosta (páginas 83-91)

3 BREVE PANORAMA SOBRE OS ESTUDOS DAS FORMAÇÕES

3.5 AS FORMAÇÕES SUFIXAIS QUANTIFICADORAS EM ARTIGOS,

O conteúdo desta subseção encerra os achados de Mello (1981), Travaglia (1999), Guimarães (2008), Medeiros (2008), Russo (2009) e Schmitz (2011) acerca dos sufixos formadores de coletivos na Língua Portuguesa.

A partir de uma perspectiva gerativista do campo da morfologia (Hipótese Lexicalista), o foco de trabalho de Mello (1981) está na análise dos diferentes processos de formação de substantivos na Língua Portuguesa. Ao abordar os substantivos formados a partir de outros substantivos, um fato interessante sobre esse tipo de formação é observado: como a base é também outro substantivo, “a função meramente gramatical do sufixo desaparece, dando lugar a uma função semântica” (MELLO, 1981, p. 74). Dos sete sufixos analisados, quatro podem remeter à ideia de conjunto, coletividade. Os sufixos e as respectivas “Regras de Formação de Palavras” que levam à formação de termos que evocam a noção de quantidade (MELLO, 1981, p. 74-101) são:

1. -aria: [ X ] N [ [ X ] N aria ] N (“gentaria”, [+concreto] [+concreto] [+coletivo] “criançaria”)

2. -al: [ X ] N [ [ X ] N al ] N

(“craveiral, [+vegetal] [+vegetal] [+lugar]

“tangerinal” [+coletivo]

3. -agem: [ X ] N [ [ X ] N agem ] N

(“fardagem”, [-humano] [-humano] [+coletivo]

“plumagem”)

4. -ada: [ X ] N [ [ X ] N ada ] N

(“baianada”, [+humano] [+humano] [+coletivo]

“estudantada”) [+modo de agir]

[+pejorativo]

(“fantochada”, [ X ] N [ [ X ] N ada ] N

“historiada”) +concreto +concreto [+coletivo]

-humano -humano

-alimento -alimento

As RFP apresentadas, apesar de contemplarem apenas uma parte das formas sufixais associadas à semântica de coletividade, revelam um dado importante e que será retomado mais adiante: a possibilidade de [-ada] se combinar com bases nominais de naturezas distintas.

Travaglia (1999) apresenta uma interessante (porém, controversa) discussão acerca de “produção lexical, exterioridade e sentido”. Apesar de se utilizar de formações com o sufixo [-ada] e [-eiro] para ilustrar a questão, o mais relevante do trabalho é a sua consideração de que o sentido atribuído à palavra formada está vinculado ao que denomina “exterioridade sócio-histórica-ideológica”.

As RFP que envolvem o sufixo [-ada] servem à ilustração da questão. Segundo o autor, pelo menos seis regras envolvem essa forma: (1) prática ou

resultado de ação (“laçada”, “chegada”); (2) série de atos realizados em um período de tempo (“jornada”, “noitada”); (3) golpe, ferimento (“cabeçada”, “ferroada”); (4) preparados culinários (“galinhada”, “limonada”); (5) conjunto (“boiada”, “papelada”); e (6) porção contida em um objeto (“colherada”, “fornada”). Devido a isso, as RFP, simplesmente, não seriam capazes de “prever” que sentido o sufixo suscitará. Nesse intuito, a exterioridade atuaria limitando essas possibilidades.

Assim, a formação “criançada”, com sentido de “golpe”, embora plausível teoricamente, não ocorre, porque é obstada pela ordem do discurso estabelecida (que, por sua vez, é instituída pelos valores morais e éticos da sociedade). Dessa forma, uma formulação do tipo “João levou uma criançada nas costas” (com o sentido de golpe dado com Nb) não se faz plausível, embora o fosse em uma sociedade com outras normas sociais e de civilidade (TRAVAGLIA, 1999, p. 279-280).

Esse ponto de vista, ainda que por um caminho bem distinto do eleito neste estudo (a Análise do Discurso), ressalta o caráter sociocultural do signo linguístico, afirmado pelas teses centrais do paradigma sociocognitivista e construcionista (cf. seções 2.1 e 2.2). Contudo, a visão de “exterioridade” posta pelo autor se choca com as teses desse paradigma na medida em que dicotomias como ‘exterioridade/ interioridade’ estão amplamente superadas nesse modelo que opera, de modo fundante, com a dimensão sociocultural e interacional da cognição humana e da linguagem.

Fazendo uma releitura do seu trabalho de uma perspectiva mais contemporânea, diríamos que falta ao estudo uma análise dessas formações enquanto signos, ou seja, enquanto pares de forma-sentido, o que implicaria reconhecer desde bases diferentes destas construções (deverbais, acepção 1, e denominais, acepções 2 a 6) até propriedades semânticas mais consistentes (aferidas do conceito de frame, por exemplo) que poderiam, provavelmente, conduzir à detecção de possíveis estabilidades no processo de significação e a relações entre tais construções, reduzindo o caráter emergencial atribuído pelo autor a seus sentidos, equacionando, dessa forma, semântica e pragmática. Dentro dessa vertente analítica, o espaço para bloqueios de elementos construcionais por ordem de natureza moral, social também é pensado, como argumentam Bronzato (2000, 2010), em seu estudo sobre destransitivização de construções com veto moral (como “Quem senta, fuma e cheira vota no Gabeira”) ou social (“ela arrasou, ela destruiu na festa”), e Carrara

(2010), ao abordar formações intensificadoras do tipo (“linda de matar”, “feio de doer”) em que temos Instanciações Nulas Definidas dos EF vetados (cf. subseção 2.3.3.1).

O trabalho de Guimarães (2008) tem um objetivo claramente explicitado: estabelecer os aspectos estruturais de nomes coletivos “teoricamente opacos quanto ao processo de formação” (i.e. as estratégias de quantificação em um nível estritamente lexical que envolvem substantivos). Entretanto, a autora levanta aspectos relevantes dos estudos dessas palavras, dos quais destacam-se: (i) a equivocada atribuição de um significado do tipo lexical aos sufixos formadores de coletivos na gramática tradicional; (ii) o apagamento, por parte dos coletivos formados por sufixos, do traço de pluralidade, passando a denotar extensão da matéria indicada por Nb; (iii) a desconsideração dos locativos formados em [-al] como coletivos; (iv) o fato de [-ada] e [-alha] não serem pejorativos por natureza.

De fato, as questões que envolvem (i), (ii) e (iv) parecem não envolver polêmica, principalmente se as entendermos de uma perspectiva construcionista que postula que o produto de uma construção é fruto da interação entre os seus elementos, logo não se configura como uma operação exata do tipo “um mais um são dois”, o que faz com as unidades que resultam do processo acabem “sendo bem mais complexas do que os elementos que as constituem” (SALOMÃO, 2009b, p. 39). Por outro lado, afirmar que os substantivos formados pelo acréscimo de [-al] não podem integrar a subcategoria dos nomes coletivos por uma suposta concorrência com as formas em [-ada] é temerário, uma vez que, no levantamento de dados para esta tese, encontramos casos em que [-al] atua como um sufixo quantificador, em construção que participa da mesma rede das três construções aqui estudadas, a rede de Construções Quantificadoras Mórficas Sufixais (CQMS). Casos como “(...) resolvemos, eu e mais dois amigos, que cada um deveria levar uma cerveja diferente pro nosso cervejal semanal [...].” (http://www.tabernadomamute.com.br/

index.php/blog/1-algumas-explicacoes-e-o-retorno) e “Vão [...] e compram uma bela

meia tenda iglo para montar na praia e proteger o criançal dos efeitos nocivos da praia.” (http://infertilidades.blogspot.com.br/2007/08/directamenrte-da-praia-ou-o-

O sufixo [-ada] recebe bastante atenção dentro do desenvolvimento do paradigma gerativista chamado Morfologia Distribuída32. As teses de doutoramento de Scher (2004) e Medeiros (2008) são pesquisas importantes dentro do referido arcabouço teórico no Brasil. Esses dois trabalhos, entretanto, priorizam as nominalizações em [-ada] que participam de construções com o “verbo leve dar” (e.g. “Dar uma paulada”). Em vista do escopo do seu trabalho (as formas participiais do Português), Medeiros (2008) dedica um capítulo inteiro às nominalizações que utilizam tal sufixo, mas trata de modo brevíssimo da formação de coletivos em [-ada] em uma seção que nomeia “Outras nominalizações em -ada”. Em tal seção, são discutidas nominalizações em [-ada] que não integram construções com o verbo “dar” e que também não denotam eventos. Compõe esse rol, além das nominalizações que denotam coletivos, as que indicam “pratos, iguarias, bebidas e outros artigos culinários”.

Para o autor (MEDEIROS, 2008, p. 237-239), as nominalizações em [-ada] derivadas de raízes de nomes de seres animados ou adjetivos que marcam certos grupos humanos resultam em nomes que denotam a ideia de coletividade. Haveria duas subcategorias distintas relacionadas a esse tipo de nominalização: (1) a de palavras cujos nomes formados remeteriam à ideia de agrupamentos mais arbitrários (a exemplo de “passarada”) e (2) a de palavras relacionadas a grupos sociais e/ou raciais marcados, que estaria “quase sempre carregada de preconceito” (como “judeuzada” e “crioulada”).

Assim, é observado que esse tipo de nominalização possuiria, em sua estrutura, um traço aspectual estativo que, associado à raiz, resultaria em uma interpretação de estado/propriedade, que, por sua vez, abarcaria algumas particularidades não previsíveis através da análise estrutural: não referir a entidades particulares, mas a grupos de entidades e denotar pejoratividade seriam as duas idiossincrasias de significado ligadas à estrutura. Tais palavras ainda aglutinariam um traço de gênero feminino, puramente formal e atrelado ao núcleo estativo.

Medeiros (2008) justifica sua escolha teórica por um modelo não lexicalista de análise (a Morfologia Distribuída), contrastando com vertentes lexicalistas desenvolvidas no interior do próprio programa gerativista de investigação linguística.

32 Em uma definição ampla, a Morfologia Distribuída é um modelo não lexicalista que busca explicar, a

partir do arcabouço teórico da Gramática Gerativa, a formação de palavras através dos mesmos mecanismos que geram sentenças.

Seus argumentos recaem sobre três pontos: (1) incapacidade da perspectiva lexicalista em definir de modo bem sucedido a noção de palavra; (2) economia derivada do fato de a Morfologia Distribuída não necessitar postular operações e regras especiais para explicar fenômenos lexicais; e (3) elegância resultante do arsenal teórico da Morfologia Distribuída que permite um “excelente tratamento” do fenômeno que estuda.

Sem entrar no mérito de suas escolhas teórico-analíticas, observa-se que a perspectiva cognitivista e construcionista da linguagem (cf. capítulo 2) não apresenta o mesmo tipo de limitação observada para Hipótese Lexicalista gerativista, uma vez que a assunção da noção de palavra enquanto construção (par forma-função) é capaz de abarcar as particularidades de forma e significação relacionadas a essas construções alocadas no nível do léxico bem como explicar, através de mecanismos psicológicos gerais, a relação que estabelecem entre si.

Ademais, mesmo valendo-se de um aparato teórico distinto daquele utilizado por Medeiros (2008), este trabalho (assim como outros) ilustra, mais adiante, que, mesmo assumindo uma unidade única como estruturadora de todos os âmbitos da linguagem e mesmo que esse componente seja um aparato flexível e capaz de abarcar, a um só tempo, generalizações e idiossincrasias (cf. seção 2.2), não é possível dar um tratamento uniforme a todos os níveis da linguagem, porque possuem aspectos ímpares, que tornam a abordagem de objetos pertinentes às diferentes áreas da linguagem única (o capítulo 2 tocou nesse ponto e os capítulos 5 e 6 voltarão a ele).

No que diz respeito à economia e elegância, pesquisas em Linguística Cognitiva têm evidenciado que a linguagem quase nunca opera com tais princípios. Bybee (2010, p. 14-32) apresenta evidências de que o conhecimento humano está majoritariamente registrado na forma de exemplos, que, na maior parte das vezes, possuem informações redundantes e variáveis. Barsalou (1992, p. 180 citado em CROFT E CRUSE, 2004, p. 278) corrobora essa posição ao afirmar que evidências psicológicas sugerem que conceitos e propriedades do conhecimento humano são organizados com pouca elegância e parcimônia.

Questões teóricas à parte, a análise oferecida por Medeiros (2008) para a participação do sufixo [-ada] em palavras que evocam a noção de coletividade é bastante limitada ao seu aspecto estrutural (haja vista o objetivo da tese de discutir traços morfossintáticos e subespecificações na gramática do Português). Muito pouco

é dito sobre os aspectos semânticos que envolvem essas palavras e nada é comentado sobre os seus usos.

Porém, mesmo no que diz respeito a questões estruturais, muitas questões ainda ficam em aberto. De acordo com a pesquisa, as nominalizações com [-ada] que resultam nos coletivos e as que resultam em “pratos, sucos e doces” compartilhariam uma mesma estrutura e a interpretação como uma coisa ou outra estaria atrelada ao tipo de raiz que entra na estrutura. Todavia, dizer que aquela construção agregaria raízes de nomes de seres animados ou de “adjetivos que marcam determinados grupos humanos”33 e essa, nomes de ingredientes que dão a base a tais “pratos, sucos e doces” não é suficiente. Levando em conta tais considerações, não é possível explicar, por exemplo, casos altamente convencionalizados em Português como “cervejada”, “chachaçada” e “churrascada”, que evocam a noção de coletividade, mas não são nem nomes de seres animados nem “adjetivos que marcam determinados grupos humanos”. Apesar de não serem ingredientes-base para nenhum prato, suco ou doce, estariam mais próximos dessa categoria, já que se tratam de alimentos. Da integração dessas raízes com o sufixo, porém, resultam nomes que remetem a outra ideia supostamente relacionada à mesma estrutura, a noção de coletivo, de existência de grande quantidade daquilo que denota a raiz.

Russo (2009), ao discutir os aspectos semânticos, conceituais e morfossintático de categorias nominais, adentra de modo considerável nos nomes coletivos, para os quais dedica um capítulo de sua dissertação. Um dos focos da autora é discutir, em um nível quase filosófico, o status conceitual dessa subcategoria nominal. À parte desse debate (do qual os aspectos mais relevantes para este trabalho foram discutidos à Introdução), são identificadas quatro categorias distintas de nomes coletivos: (i) coletivos distintos (“cardume”, “alcateia”, “exército”, etc.), (ii) coletivos numerais (“par”, “dezena”, “centena”, etc.), (iii) coletivos genéricos (“grupo”, “classe”, “conjunto”, etc.) e (iv) coletivos derivados (no caso as CQMS, “meninada”, “arvoredo”, “arrozal”, etc.).

33Esses dois tipos de raízes são, na verdade, a mesma coisa, uma vez que “adjetivos que marcam

determinados grupos humanos”, tais como os adjetivos pátrios e outros afins, são usados com muita frequência como substantivos. “Os europeus são muito críticos” é um exemplo desse uso. Assim, dada a frequência dessa construção que resulta em uma interpretação de agrupamento, coletividade com raízes que constituem nomes, como poderá ser visto mais adiante, acreditamos que essas palavras participam de tal operação como nomes e não como adjetivos propriamente. O Aulete Digital e o Aurélio, inclusive, registram a maior parte dessas palavras como adjetivos e como substantivos.

A classificação da autora agrupa, em uma mesma (sub)categoria, denominada por ela “coletivos”, aquilo que que vimos assumindo por nomes coletivos no decorrer deste trabalho (i e iv), mas também as construções binominais de quantificação definida (ii) e de quantificação indefinida (iii) (essa estudadas por BRODBECK, 2009, e TAVARES, 2014). Embora as quatro formações sejam expressões semânticas de coletivo, vincular (ii) e (iii) a (i) e (iv), a nosso ver, é um equívoco, parecido com o que é cometido por Neves (2001). Uma vez que a ideia de coletividade e quantificação, nesses casos, advém dessas construções e não do uso do termo em si, indica que estamos diante de elementos da língua de natureza diversa, isto é, em (ii) e (iii) não temos nomes propriamente, mas expressões nominais complexas (cf. seção 2.3).

Russo (2009, p. 124) reconhece isso ao afirmar que tais subcategorias sempre “necessitam de um aparato sintático para que possam completar sua função

referencial por completo”, no caso, o que denomina construção partitiva {X do(a)s Y-s} (“um grupo de alunos”) e construção pseudo partitiva {X de Y-s} (“o

grupo dos alunos de Letras”), entretanto prefere abordá-los, os quatro tipos, como uma única categoria nominal.

À parte disso, alguns aspectos interessantes dos coletivos derivados, que serão inclusive retomados na análise das CQMS, são desvelados: (1) tais coletivos são sempre indeterminados do ponto de vista numérico; (2) os formados com o sufixo [-ada] são, em boa parte, depreciativos; e (3) os grupos denotados por esses coletivos são totalmente homogêneos, denotados exclusivamente pelo nome do qual derivam.

Por fim, o ensaio de Schmitz (2011), na edição de número 70 da Revista Língua Portuguesa, já citado à Introdução, traz uma especulação interessante acerca de um sufixo formador de coletivos que ainda não havia sido observado na literatura – o sufixo [-aiada]. Embora não haja aprofundamento analítico, é observado algo que atinge diretamente a relevância deste trabalho. Segundo o autor,

Os substantivos coletivos com o sufixo -aiada servem os usuários do português para designar, no português falado informal, grupos de coisas encontradas na vivência diária. Ao mesmo tempo, tais formas permitem que os falantes transmitam a sua impaciência diante casos de excesso e de exagero. É uma hipótese. Há sempre outros elementos despercebidos no idioma, uma verdadeira seara para pesquisa.

Cumprida a tarefa de apresentação de abordagens prévias dos sufixos quantificadores, passemos a algumas considerações a respeito do conteúdo do capítulo, antes de seguir adiante com a Metodologia envolvida na pesquisa.

No documento igordeoliveiracosta (páginas 83-91)