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2. O MERCADO DE TRABALHO LIVRE EM SALVADOR

2.5. AS GANHADEIRAS EM CONTEXTO DE CONSPIRAÇÃO

As ganhadeiras foram alvo de muitas abordagens e perseguições da polícia, principalmente aquelas que vendiam alimentos, em ponto fixo, em barracas ou quitandas improvisadas. Como ao redor delas se concentravam muita gente, o movimento levantava suspeita quanto à possibilidade de conspiração. As ganhadeiras enfrentaram com coragem e resistência os embates com as autoridades policiais, em situações que atribuíam a elas a função política de servirem de “[...] elementos de integração entre a população considerada perigosa pela elite” (SOARES, 1996, p. 65). A preocupação do poder público em vigiar as negras de ganho não foi um fato exclusivo da Bahia, aconteceu em outros estados34. A vigilância das ganhadeiras tinha duas razões principais: por representarem elemento de integração e comunicação entre os demais trabalhadores e por terem certo poder de monopolizar a negociação de determinados produtos. As ganhadeiras dominavam o comércio varejista controlando a distribuição de pescados e de alimentos vindos do interior.

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. Em Minas Gerais e São Paulo, e provavelmente em outros estados, também houve muitas ações de controle das ganhadeiras, diante do poder que em certo momento essas trabalhadoras conquistaram nos locais onde atuavam. Ver detalhes em Cecília Soares (1996, p. 65).

Através de “[...] um sistema de especulação de mercado e atravessamento, a que chamavam carambola ou cacheteria, controlavam a circulação de certos produtos básicos de alimentação na cidade”. (SOARES, 1996, p. 61) Em Salvador, as ganhadeiras tinham o domínio sobre o comércio de peixe e de frutas que vinham do Recôncavo, por receberem toda a produção dos pescadores e pequenos agricultores para vender no varejo. O pequeno comércio de rua era uma atividade que beneficiava as escravizadas e nesse campo, as mulheres negras ocuparam lugar de destaque no mercado de trabalho urbano. Algumas ganhadeiras conquistaram poder e renda com a atividade de comércio de alimentos.

As escravas ganhadeiras, como se chamavam, eram obrigadas a dar a seus senhores uma quantia previamente estabelecida, a depender de um contrato informal acertado entre as partes. O que excedesse o valor combinado era apropriado pela escrava, que podia acumular para a compra de sua liberdade ou gastar no seu dia-a-dia. Geralmente os senhores respeitavam as regas do jogo, embora a legislação fosse omissa sobre este assunto. (SOARES, 1996, p. 57).

Através do acordo com os senhores as escravas ocupavam as ruas da cidade comercializando, comida pronta, as tradicionais iguarias baianas, como mocotó, feijoada, fato, etc. Dessa tradição surgiu à figura da baiana de acarajé com importante representatividade na cultura afro baiana. A renda auferida era variável as condições de trabalho e as habilidades culinárias e comerciais das ganhadeiras. As libertas seguramente faturavam mais, por não terem de repassar a quantia ao senhor. Todas as atividades de ganho precisavam de autorização e de pagamento da licença de trabalho, mas no caso das escravas eram os senhores os responsáveis pelo registro.

A grande maioria das libertas também se dedicava ao pequeno comércio. Soares (1996) apresenta um quadro das ocupações das libertas na freguesia de Santana de 184935 composto por 198 negras em condição de liberdade, sendo que 97 delas declararam que mercadejam; 35 eram quitandeiras; 16 trabalhavam de “ganho”, sem especificar em que, seguidas de outras atividades em menor número. Nesse universo, a grande maioria que corresponde a 164 ganhadeiras, está relacionada à atividade de comércio, ou seja, 71% das africanas ex-escravas

35 . Os dados amostrais apresentados pela autora citada tem como fonte o Censo da Freguesia de Santana, em Salvador de 1849, APEBA, da Série Escravos, maço 2898.

negociavam nas ruas, porcentagem que sobre para 79% se incluirmos as que declararam apenas ser de “ganho”. Para a autora, as ganhadeiras eram bem integradas no comércio urbano, garantindo a sobrevivência de muita gente, inclusive em alguns casos a margem de lucro era bastante expressiva. Essas africanas tinham “faro para o negócio”, tendo em vista que a tarefa de “vendedeira” não era difícil para elas que traziam essa herança cultural, por serem “[...] provenientes da Costa Ocidental da África, onde o pequeno comércio era tarefa essencialmente feminina, garantindo às mulheres papéis econômicos importantes.” (SOARES, 1996, p. 60)

Portanto, as mulheres negras assumiram papel de destaque naquele período, pelo bom desempenho na função comercial que requer conhecimento, qualidade dos produtos e preço acessível. O sucesso no ganho era relativo à competência culinária para atender as necessidades dos escravos e dos trabalhadores livres de baixa renda. Ainda hoje é muito forte a presença das mulheres negras no mercado de trabalho urbano no campo da produção e circulação de alimentos, com especial destaque para as baianas de acarajé que se tornaram patrimônio cultural36 do país, por comercializar comida típica africana, como acarajé, abará, acaçá, cocadas etc. As baianas de acarajé em Salvador, além de famosas pela representatividade cultural, alimentam saudavelmente a população que faz uso cotidianamente das suas iguarias. A cidade em alguns lugares cheira a dendê, seduzindo pelo olfato o paladar para saborear o acarajé, massa de feijão frita no dendê. A comercialização de acarajé é responsável pelo sustento de muitas famílias, temática que merece outras pesquisas para tratar especificamente sobre o assunto.

Esse poder aumentou muito a fiscalização sobre essas trabalhadoras que em certa medida ocupavam todos os espaços da cidade. “[...] Além de circularem com tabuleiros, gamelas e cestas habilmente equilibradas sobre as cabeças, as ganhadeiras ocupavam ruas e praças da cidade destinadas ao mercado público e feiras livres, onde vendiam de quase tudo”. (SOARES, 1996, p. 62). Espalhadas pela cidade e concentradas em pontos estratégicos, principalmente, em áreas de intensa

36 .Abaiana do acarajé foi reconhecida como patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2005.

movimentação comercial as ganhadeiras eram figuras presentes na época e agora às baianas de acarajé ocupam o lugar delas nos espaços públicos da cidade.

Enquanto as medidas oficiais de regulação dos trabalhos de ruas datam do período pré-abolição, para inibir as rebeliões e outras insubordinações através das organizações pelo trabalho, o controle do comércio propriamente dito é anterior. A política de fiscalização do pequeno comércio remonta ao período colonial quando da criação das feiras livres. Durante a colonização havia uma norma portuguesa que concedia à exclusividade do comércio varejista as mulheres brancas. Evidentemente que essa determinação não poderia funcionar na Bahia onde a maior parte da população era de negros escravizados.37 Entretanto, só no século XIX a regulação do trabalho de rua se baseia em legislação interna, que estabelece regras de conduta e tributos para a concessão da licença para mercadejar e de multas pesadas para os casos de infração.