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3. TRABALHO INFORMAL E NOÇÕES CORRELATAS

3.4. TEORIAS DA MODERNIZAÇÃO E DA MARGINALIDADE

Com forte assento no debate preliminar, estava a Teoria da Modernização61 com seus pressupostos de desenvolvimento via transitoriedade, defendendo a superação do subdesenvolvimento pela capitalização dos países periféricos através da industrialização. Essa teoria, desenvolvida pela CEPAL, com base no estruturalismo histórico, preencheu uma lacuna teórico-metodológica na região, cumprindo importante papel ao propor medidas políticas que buscavam combinar o desenvolvimento econômico com a construção de uma sociedade mais igualitária. Do outro lado, as teorias críticas insistiam na contradição inerente ao desenvolvimento da acumulação capitalista que gera seu próprio excedente de trabalho. A discussão inicial produziu alguns construtos teóricos que analisavam a

61. Tese cepalina que opunha formalmente um setor “atrasado” e um setor “moderno”, propondo uma forma das economias pré-industriais, penetradas pelo capitalismo, passarem para formas mais avançadas.

situação dos desempregados nos países capitalistas periféricos, a exemplo de “massa marginal”62

, conceito que teve muita aceitação na época.

A Teoria da Marginalidade teve ampla repercussão nacional e na América Latina sobre as questões urbanas, avançando em relação à Teoria da Modernização, por destacar a heterogeneidade dos mercados de trabalho.Enquanto essa era institucional e política,63 a Teoria da Marginalidade, academicamente, analisava os bairros considerados marginais por abrigar os migrantes nas grandes cidades, investigando, principalmente, as condições de sobrevivência dos não integrados na estrutura produtiva, para além da dualidade estrutural que opunha um setor moderno a um setor arcaico ou tradicional. Mas, foi a partir também da análise do funcionamento da economia com base em dualidades que se estruturou a Teoria da Marginalidade, explicando o problema da não-integração através da ideia de um “[...] desajuste ou uma inadequação (de indivíduos, regiões, atividades econômicas) a um “padrão normal” como inerente e próprio da cultura industrial ”(KOWARICK, 1975, p.47). O modelo ideal seria um mercado organizado para gerar emprego assalariado com proteção social.

Kowarick (1975) foi o principal representante nacional deste debate que se fazia, na década de 70, acerca da vinculação do trabalho informal com a noção de marginalidade. Ele defendia que o conceito de marginalidade64 vinha sendo largamente utilizado na época para explicar quase tudo, mas deveria ser usado especificamente para discutir os processos de integração de formas desvinculadas dos procedimentos tipicamente capitalistas, ou seja, o assalariamento com vínculo trabalhista. Para este autor a Teoria da Marginalidade se ramificou em dois sentidos ideológicos diferentes, a partir da vinculação com a Teoria da Modernização analisou a situação na perspectiva funcionalista priorizando a questão da integração social. E, no sentido mais crítico, ganhou roupagem histórica estruturalista de inspiração marxista por influência das Teorias da Dependência que insistiam nas contradições e conflitos do processo histórico que produzem as condições de

62. Conceito cunhado por José Num para tratar daqueles que seriam incapazes de participar do processo de acumulação capitalista.

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. A modernização representa tanto a proposta teórica para o desenvolvimento quanto os projetos políticos desenvolvimentistas.

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“marginalidade”. Kowarick se assume integrante da corrente mais crítica analisando a marginalidade urbana para além de motivos individuais.

Neste sentido, o debate inicial foi disputado por, pelo menos, três perspectivas teóricas diferentes que analisaram a questão do subdesenvolvimento com divergências ideológicas. Apesar das controvérsias quanto aos métodos e às perspectivas teóricas, essas correntes concordavam em alguns aspectos relativos ao modo de refletir sobre a estrutura social produtiva, tomando a indústria como polo dinâmico central e o modelo do trabalho fabril assalariado como referência ideal para analisar os outros tipos de trabalho. Apesar de partirem do mesmo pressuposto, de que a indústria era o lugar do padrão específico de regulação das relações de trabalho, na expectativa de uma eventual universalização dos direitos a partir da ampliação do assalariamento, as divergências analíticas eram evidentes.

Mesmo com alguns acordos, havia diferenças profundas entre tais correntes. A Teoria da Modernização buscava entender a situação do sistema produtivo periférico a partir da interpretação do funcionamento da economia pela lógica polarizada da coexistência, ou seja, produziram uma análise sistemática do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo como sistema econômico mundial organizado hierarquicamente. Nessa relação desigual, à periferia caberia produzir e exportar matérias primas para atender os interesses dos países centrais. A CEPAL elaborou a tese da “deterioração dos termos de troca” para explicar e contestar a situação de desvantagem da periferia, mas não para superar a subordinação. Ao contrário, as Teorias da Dependência interpretavam o processo questionando os moldes de integração da economia capitalista mundial, entendendo o subdesenvolvimento como produto necessário ao desenvolvimento. Esta corrente baseada na lei da acumulação capitalista de Marx estava preocupada com as contradições da estrutura de classe, das relações de poder e dos conflitos provocados pela não integração da população relativamente excedente.

Em síntese, as primeiras investigações divergiam quanto à interpretação do subdesenvolvimento, analisando de forma diferente a questão nacional. A Teoria da Modernização defendia os interesses do grande capital partindo da interpretação liberal de que “[...] o subdesenvolvimento decorria de uma desvantagem no valor

relativo das trocas econômicas entre o centro desenvolvido e a periferia” (COSTA, 2010, p.173). Representada pelos economistas da CEPAL,65 a teoria do desenvolvimento, adaptada para a realidade latino-americana, concebia a estrutura econômica periférica pela forte presença de “[...] um setor de subsistência ou informal, caracterizado pela baixa densidade de capital, pelo precário nível técnico da produção e pela baixa produtividade” (ibidem), convivendo indiretamente com o outro lado da economia formado por “[...] um setor moderno, de avançado padrão tecnológico, economicamente mais capitalizado e dinâmico” (ibidem, 2010, p. 173). O pressuposto teórico das “etapas históricas distintas” entendia o subdesenvolvimento como um processo histórico autônomo e não como uma fase que tenha passado as economias avançadas. A produção cepalina defendia medidas específicas para a região, sustentadas na importância do papel do Estado na dinamização da economia, diante dos limites do mercado e das elites nacionais. Apesar das contribuições do pensamento cepalino para compreender a realidade da América Latina, este foi alvo de muitas críticas pelas Teorias da Dependência, como veremos a seguir.