2. O MERCADO DE TRABALHO LIVRE EM SALVADOR
2.3. OS CANTOS DE TRABALHO NA CIDADE DE SALVADOR
O sistema de ganho gerou os cantos de trabalhadores libertos e escravos. Os cantos eram instituições formadas por ganhadores que se organizavam, por etnia para ocupar locais específicos da cidade e aí atender ao chamado dos fregueses. Tinham o nome do lugar da cidade onde se reuniam seus ganhadores: canto da Calçada, canto do Portão de São Bento, canto da Mangueira, etc. (REIS, 1987, p. 202)
Os “cantos” de trabalho de Salvador abrigavam escravos, libertos e homens livres, funcionando como uma espécie de agência de trabalho em tempos de elevado desemprego. Nas vésperas da abolição “[...] embora raça e etnia ainda representassem um princípio organizacional fundamental na sociedade baiana como um todo, no mundo do trabalho urbano de rua” os cantos destinados aos trabalhadores de rua “[...] pareciam se encaminhar para uma organização mais orientada por princípios classistas” (REIS, 2000, p. 240.) O autor sinaliza que na origem do mercado de trabalho livre em Salvador havia relações de classe entre os trabalhadores, para além das questões étnicas e raciais mais ressaltadas nos estudos históricos. Apesar de não desenvolver a análise nesta perspectiva, a orientação de classe dos cantos de trabalho aparece no texto, o autor trata das organizações coletivas que envolviam interesses e demandas semelhantes, para diferentes categorias de trabalhadores.
Os espaços legitimados como “cantos” de trabalho eram coordenados por um dos ganhadores que assumia a liderança do grupo, incorporando o papel de
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. A diferença entre os ganhadores escravos e os demais é que esses eram obrigados a dar ao senhor, por dia ou por semana, uma quantia previamente acertada pela realização da atividade. A cota variava de uma ocupação para outra e dependia da idade, saúde e outros atributos individuais dos escravos. (Reis, 1987, p. 198).
“capitão do canto” ao ser escolhido pelos integrantes ou designado pela polícia. A exigência de liderança para o funcionamento do canto era uma forma de controle que estabelecia uma organização de classe para representá-los. Mas, o “capitão do canto” tinha outras representatividades, por possuir saberes que facilitavam as transações de trabalho, provavelmente por ter mais tempo na lida e no lugar. Em geral os comandantes dos cantos dominavam a língua e tinham conhecimento acerca da cidade e dos clientes. Os trabalhadores que chefiavam os “cantos” tinham que organizar o processo de trabalho, mediar os conflitos e cobrar dos demais ganhadores o cumprimento das normas. No período pré-abolição havia um rígido controle dos cantos de trabalho em Salvador, com tudo registrado na polícia, em um livro de matrícula que autorizava o trabalho, detalhando as localizações dos cantos, a composição dos mesmos, os tipos de ocupações e até as características físicas dos integrantes.
O livro de matrícula é um valioso documento histórico pelo raro registro sobre o trabalho nas ruas no século XIX. Instituído em 1887, a matrícula dos ganhadores era uma exigência do Regulamento Policial para o Serviço dos Trabalhadores do Bairro Comercial30 de 1880, que definia as condições dos trabalhos de rua, a cobrança de tributos e o sistema de controle dos mesmos, funcionando como modelo normativo para coibir as insubordinações. A riqueza do documento está no detalhamento dos trabalhadores registrados constando “[...] nome, cor, condição, idade, estado civil, nacionalidade, características físicas, bem como local de trabalho, à época denominada de “canto”, e o local de residência da cada um” (MATTOS, 2011, p. 122). O registro identificava e localizava cada ganhador cadastrado, facilitando a vigilância dos supostos insubordinados, que descumprissem as determinações administrativas ou que tivessem envolvimento em articulações e movimentos políticos.
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. Esses documentos encontram-se no Arquivo Público do Estado da Bahia, foram utilizados por João Reis e Wilson Mattos para analisar o processo de urbanização da cidade de Salvador, pela perspectiva da ocupação dos espaços urbanos pelos negros. Os dados apresentados aqui sobre esse documento histórico são reproduzidos destes autores, não os consultamos diretamente.
Segundo Reis (1987) foi após a rebelião do Malês de 183531 que as autoridades decidiram impor um rígido controle sobre os cantos, por entender que os negros ganhadores, principalmente os nagôs, tiveram participação decisiva nesse movimento. A distância de 45 anos da rebelião leva a crer que a proximidade da abolição tenha sido a razão da institucionalização dos trabalhos de rua com a criação do regulamento e do livro de matrícula dos ganhadores. Para o autor a “[...] identificação caracteriza com eloquência a visão dos poderes públicos de que os ganhadores eram potenciais criminosos, que pertenciam ao mundo das classes perigosas, o mundo das ruas” (REIS, 2000, p. 208). Essa concepção revela como os trabalhadores de rua atemorizavam as classes dominantes que exigiam duras medidas de regulação dos poderes públicos. Os ganhadores eram vistos como propensos a práticas insubordinadas e subversivas simplesmente por fazerem parte do “mundo da rua”. A desconfiança dos trabalhadores de rua era um problema de polícia que tinha o papel de garantir o funcionamento da cidade. Mesmo com as medidas de controle, o processo de urbanização da cidade de Salvador teve formas insurgentes de ocupação do espaço urbano, contrariando a ordem normativa preconizada pelas elites dominantes.
Nesse período que corresponde à crise da escravidão, a urbanização das cidades brasileiras, em geral, envolveu tensos processos, marcados por conflitos de interesses. A época foi marcada por “[...] formas mais autônomas, mais ousadas e mais insubordinadas e desobedientes de ocupação do espaço da cidade por parte das populações negras” (MATTOS, 2011, p119). O clima de tensão às vésperas da abolição intensificou as insubordinações provocando a rigidez das regulamentações sobre os trabalhos de rua. O controle dos cantos não ocorreu sem resistência e luta dos ganhadores, os negros resistiram sistematicamente através das irmandades, terreiros e outros grupos que funcionavam como espaços de aglutinação, organizando estratégias de enfrentamento no cotidiano opressivo. Para Reis (2000) o trabalho de rua era realizado principalmente pelos negros escravos ou libertos que organizados coletivamente conseguiram manter, em alguma medida, a autonomia dos grupos de trabalho.
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A rebelião do malês foi um levante importante na Bahia do século XIX, quando escravos, de descendência mulçumana, se organizaram a partir do trabalho para a luta contra a opressão branca. Muitos dados apresentados neste capítulo foram retirados do clássico livro de João Reis sobre esse fato histórico.
Quando as autoridades decidiram impor maior controle nas ruas, instituindo a necessidade de licença de trabalho conferida pela Câmara Municipal, condicionada ao pagamento de dois mil réis pelo registro, mais três mil réis pela placa de identificação, que teria que ser usada no pescoço pelos ganhadores, houve forte resistência da classe. Neste sentido, “[...] os cantos tiveram o papel de assegurar uma organização solidária entre os trabalhadores africanos, impediram a competição individual exacerbada entre os ganhadores, mantiveram viva a tradição do trabalho coletivo.” (REIS, 2000, p. 203). Portanto, a realização do trabalho coletivo favorecia a solidariedade de classe e os espaços de trabalho propiciavam as organizações coletivas. Como o sistema de ganho possibilitava a aquisição da liberdade para os escravos, que com muito esforço conseguiam acumular recursos com a renda das atividades, os cantos foram fundamentais para a organização do trabalho dos ganhadores que se articulavam melhor e de forma solidária32 para comprar coletivamente a liberdade de alguns escravos.