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Parte I – Premissas

I.3. Ética e mutualismo

I.3.1. As grandes esperanças éticas

Não seria intelectualmente honesto avançar para um capítulo intitulado «Ética e mutualismo» sem respeitar a reiterada exigência de explanação de um conceito como o de ética obriga bem como a de expor a distinção entre ética e moral. Se «na linguagem corrente, um e outro são usados indiferentemente» (DELRUELLE, 2009: 16), um uso semelhante num contexto de um estudo desta natureza seria incorrecto porque, de facto, há uma diferença a ser estabelecida para a análise cultural do mutualismo.

Edouard Delruelle, filósofo belga contemporâneo, fornece-nos a melhor distinção por ser operativa para o nosso estudo: «O termo “ética” permite delimitar uma dimensão do comportamento que escapa à moral» (DELRUELLE, 2009: 16), tendo em conta que esta última é definida, e bem, por Delruelle como «o conjunto de regras de conduta tidas como válidas numa dada sociedade» (DELRUELLE, 2009: 15), ao que acrescentamos a possibilidade de circunscrição desse código um pouco mais ainda, operando num determinado grupo para estabelecimento das suas condutas no meio onde actuam. Por exemplo, nas instituições mutualistas era esperado de cada sócia ou sócio um determinado conjunto de comportamentos, o qual estava rigorosamente estipulado em estatutos, inclusivamente práticas democráticas de sufrágio interno, de participação em assembleia ou de exercício de cargos administrativos que, no século XIX, ainda não eram práticas tão comuns no exercício político público da relação do cidadão com o Estado. Estas regras foram criadas pelos próprios, já que o mutualismo associativo livre, como explicámos, é um regime de auto-gestão. Contudo, é observável que muitas dessas regras são devedoras das regras comummente aceites pela sociedade como as exemplares do bom comportamento. Muitos são os estatutos destas instituições, especialmente as do século XIX, que estatuem a necessidade de o sócio ser uma pessoa de honra ou da viúva que recebesse a pensão, legada por morte do sócio, fosse reputada de honrada também. São determinações que presidem à esfera da conduta desejável numa sociedade e foram aqui replicadas durante algum tempo nas normas das práticas de mutualidade.

A ética seria então «a dimensão subjectiva e ponderada dos valores e das normas; a forma como cada um se conduz, como cada um se define enquanto sujeito moral» (DELRUELLE, 2009: 16). Se em última instância essa dimensão ética se reduz a um diálogo do sujeito moral consigo mesmo, num âmbito cultural não deixa de poder afirmar-se que essa dimensão subjectiva não exista colectivamente, indo recuperar, assim, o conceito de consciência colectiva apresentada no capítulo anterior.

Apesar da distinção feita entre ética e moral, Delruelle chama a atenção para a permanente intercepção que existe entre ambas. «É evidente que as duas dimensões se confundem permanentemente: até a mais pessoal das condutas éticas mantém uma relação constante com códigos culturais e normativos colectivos e instituídos; pelo contrário, mesmo os aspectos mais codificados e regulamentados da vida social nunca deixam de integrar uma dimensão interior. Todavia, é preciso fazer uma distinção entre estas duas dimensões: a da moral enquanto código, sistema de regras incorporado por cada um de nós, e a da ética enquanto estilo de existência, prática de si» (DELRUELLE, 2009: 16).

Segundo Bauman, Nietzsche, na Genealogia da moral, tem uma concepção aristocrática do bem e do mal: «Mas a liberdade do nobre, permitam-nos fazê-lo notar, é a não liberdade do comum; a espontaneidade do superior e do poderoso tem como reflexo o destino estranho e incontrolado do inferior e do pobre. Não é surpreendente que a contra-moral do “humilde e vil” invoque leis: reclama as leis, leis coercivas, leis vinculativas – leis cuja força impositiva venha em socorro da impotência dos dominados. Nietzsche fareja em toda a moral legalmente vinculativa, em toda a ética, uma conspiração dos escravos» (BAUMAN, 2007: 48).

«Foi justamente o fraco, o comum, o desprovido de talento, o impotente que inventou a moral trazida pela lei e se serviu dela como de uma arma de guerra contra a verdadeira moral do nobre», ainda segundo Nietzsche (BAUMAN, 2007: 48). É impossível não partir daqui para a dialéctica do senhor e do escravo de Hegel, segundo Jacques d’Hont, impropriamente assim denominada, pois no original denomina-se “valete” e não “escravo” (cf. D’HONT, s/d: 18-19).

«A passagem do silogismo por analogia ao silogismo da necessidade – do silogismo indutivo ao silogismo por analogia – do silogismo do universal ao particular – do silogismo do particular ao universal – a exposição do encadeamento e das passagens: eis a tarefa de Hegel. Ele demonstrou realmente que as formas e as leis lógicas não são

um invólucro vazio e sim um reflexo do mundo objectivo. Ou, mais exactamente, não o demonstrou, mas pressentiu-o genialmente» (LÉNINE, 1975: 105-106).

Bauman descreve o século XIX e os princípios do século XX, nos quais o mutualismo moderno ganha as primeiras raízes, como a «passada grande época das esperanças éticas» (BAUMAN, 2007: 51).

«Em grande medida como outrora, os muitos são empurrados com mais frequência do que andam pelo seu pé – e até mesmo quando o fazem, encaminham-se para onde pensam que virão a ser a seguir empurrados. Em grande medida como outrora, raramente dispõem de tempo para se sentarem e reflectirem sobre os seus princípios: o jogo que jogam é o da sobrevivência e a sobrevivência impõe como regra ser garantida até ao fim do dia de hoje ou do dia seguinte. Aceitam-se as coisas como vão sendo, e esquecem-se à medida que vão passando. Para estes muitos, os princípios éticos não se desvaneceram, simplesmente nunca estiveram em primeiro lugar» (BAUMAN, 2007: 51).

O mutualismo é uma prática de resistência pela sobrevivência e por melhores condições de vida: «As pessoas mergulhadas até aos cabelos na luta quotidiana pela sobrevivência nunca foram capazes, nem sentiram essa necessidade, de codificar o seu entendimento do bem e do mal sob a forma de um código ético. Bem vistas as coisas, os princípios são sobre o futuro – sobre a questão de saber em que medida o futuro deferirá do presente. Por natureza, os princípios adequam-se bem ao indivíduo moderno emancipado, “desincorporado”, “não-preenchido”, que se auto-constrói e auto- aperfeiçoa, e tem o coração livre das preocupações ancilares com o que come, o que calça e com o que o abriga, podendo por isso dedicar o seu tempo a “superar” todas essas coisas; os princípios são necessários para (é pelo menos o que se espera) impedir a superação de escapar ao nosso controlo. A sobrevivência, pelo contrário, é essencialmente conservadora. O seu horizonte mostra as cores de ontem; continuar a viver hoje significa não perder seja o que for daquilo que ontem garantia a nossa existência – e não muito mais do que isso. A sobrevivência consiste em as coisas não ficarem agora piores do que antes» (BAUMAN, 2007: 51).

O facto de observarmos a mutualidade enquanto prática de resistência vem no seguimento de um entendimento de Maria Manuel Baptista do que são os estudos culturais: «Em síntese, trata-se de estudar aspectos culturais da sociedade, isto é, de tomar a cultura como prática central da sociedade e não como elemento exógeno ou separado, nem mesmo como uma dimensão mais importante do que outras sob

investigação, mas como algo que está presente em todas as práticas sociais e é ela própria o resultado daquelas interacções» (BAPTISTA, 2009: 21).