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Parte I – Premissas

I.3. Ética e mutualismo

I.3.6. Mutualismo e fraternidade

O mutualismo não foi apenas devedor de ideais laicos. O pensamento católico cristão fundou também uma determinada visão ética do mutualismo, a que chamaremos de mutualismo cristão ou, mesmo sendo laico, justifica-se por fundamentos de tradição cristã. Não nos esqueçamos, como chama a atenção José Eduardo Franco, que se pode «observar a evolução de uma Igreja do século XIX, ainda muito ligada a um modelo de sociedade de Antigo Regime e à corrente legitimista, para uma Igreja que vai fermentando ideias, correntes e projetos que fixam o seu olhar na dimensão social, especialmente com a emergência do chamado catolicismo social, da democracia cristã e do movimento do operariado católico. A Rerum Novarum (1891) e a política do raliement (1892) do Papa Leão XIII, na última década de Oitocentos, representaram oficialmente, a partir da cúpula, o reconhecimento dessa viragem que se veio a catalogar como “Doutrina Social da Igreja”. Com o lema “ide ao povo”, Leão XIII pediu aos padres para deixarem as sacristias e envolverem-se para regenerar a sociedade e erguer o homem novo à luz dos valores evangélicos. Aliás, a Igreja passou a intervir em concorrência direta com o que pretendiam as correntes laicas e anticatólicas, como o socialismo, o positivismo, o republicanismo secularista ou a maçonaria. Estas correntes tinham como escopo construir uma sociedade nova e um homem do futuro, mas à luz de outros pressupostos que não os da doutrina católica» (FRANCO, 2015: 12).

A conferência de Júlio de Castilho, O cristianismo e o operariado (1897), proferida na Associação Protectora do Operários, serve-nos de modelo do envolvimento da doutrina católica na questão social do operariado, bem como no movimento mutualista previdencial. Esta associação, criada em 1895, tem a particularidade de ser um dos exemplos de associação mutualista fundada por filantropos com o intuito de socorrer, educar e moralizar os operários, obrigando-os, por estatuto, ao culto religioso.

É uma associação que funde os ideais liberais, filantrópicos, morigeradores com as práticas mutualistas de assistência, de produção e de instrução e a doutrina católica.

Castilho, pressupondo uma desigualdade social natural e necessária, pressupondo um valor desigual entre trabalho intelectual e trabalho físico («o operário não emprega senão o resumido capital físico; por isso é resumido o seu juro» (CASTILHO, 1897: 21)), justifica o baixo rendimento do operariado, apelando, porém, ao espírito de poupança e de previdência providenciado pelo mutualismo, a partir do qual o proletariado poderia aspirar a ascender à burguesia, aquilo a que chama as «classes altas», após algumas gerações igualmente poupadas e previdentes.

Antes de chegarmos à ideia de fraternidade, importa perceber a forma como Castilho representa o operariado: «o operariado não é uma casta; é a matéria-prima das camadas superiors, e nelas se transforma quando é honesto, ordeiro e perseverante» (CASTILHO, 1897: 37). Para Castilho, é através da fraternidade cristã que se chega à igualdade perante Deus, mas também à possibilidade de igualdade perante a sociedade, embora, como há pouco referido, admita como natural e desejável a desigualdade social: «O cristianismo não admite castas. Todos os homens são irmãos perante o trabalho, contanto que se respeitem mutuamente» (CASTILHO, 1897: 38). O mutualismo seria, então, uma forma de elevação geracional das classes operárias pelo trabalho. O dever das classes ascendidas (para Castilho, as classes altas mais não eram do que classes que através do trabalho e de longas gerações acumularam capital financeiro e simbólico) seria o de protegerem e amarem as classes desvalidas (CASTILHO, 1897: 38), fundando associações de socorros mútuos para elas.

Trata-se de um modelo de fraternidade mutualista caritativa cristã, através da qual o operário nobilitaria o suor do seu rosto (CASTILHO, 1897: 62), portanto, esperando do operário o mesmo sacrifício que o sacrifício de Jesus Cristo ensinara, e contra a qual as associações de classes e associações mutualistas operárias se opunham, fundadas num regime de associativismo livre e de autogestão. O anti-caritativismo é um dos mais reiterados «loci of value» (lugares de valor ou unidades de análise moral) (SLACK e WHITT, 1992: 573) do associativismo mutualista livre, como é exemplificativo um artigo de um operário, António Zaroya, no jornal da associação mutualista A Voz do Operariado: «A caridade, dizeis, atende aos pobres; nas portas das igrejas, nos conventos, socorre-se o necessitado. Entrega-se-lhe, quando há para todos, um pedaço de pão ou uma moeda de cobre. Em troca desta mercê, que converte os povos em verdadeiras cortes dos milagres, que rebaixa a altivez própria, que exige a

submissão e a hipocrisia, que não resolve problema algum, as congregações vivem, reúnem capitais enormes, ajudam os governos ineptos, opõem-se a toda a reforma social e perpetuam a miséria, a exploração e a injustice. Não, os pobres não querem já a caridade à D. João dos Pobres» (Jornal A Voz do Operariado, 08/03/1908, n.º 1480).

Com o Estado Novo, que implantou um regime corporativista também no campo da previdência, e constrangendo em muito a liberdade das associações mutualistas livres, o debate em torno do mutualismo parece ter ressurgido como forma de resistência à interferência estatal, por um lado, mas, também por outro, existiram aqueles que acreditavam que o mutualismo apenas poderia beneficiar de tal interferência. Manuel Anselmo é um dos pensadores do mutualismo português, com a particularidade de ser aquilo a que se costuma chamar de intelectual do regime. Era a favor do Estado Novo, tanto que proferiu e publicou uma conferência intitulada As ideias sociais e filosóficas do Estado Novo (1934), nela confessando a sua adesão à ideologia do regime.

Um dos conceitos basilares para a análise da ajuda mútua é o conceito de fraternidade, mais próximo de uma linguagem de tradição religiosa cristã do que o conceito de solidariedade, mais laico. Um dos autores da vaga pensadores do mutualismo de 1933 é Manuel Anselmo que deixou publicada a sua conferência sobre o tema proferida a 21 de Janeiro de 1933 na Associação Marítima, de Viana do Castelo, intitulada O mutualismo como doutrina social. Nela afirma que «o mutualismo é, afinal de contas, a verdadeira fraternidade organizada» (ANSELMO, 1933: 19). Anselmo determina a lógica da cooperação entre os homens, por via do mutualismo, «dentro da compreensão do amor fraterno que mutuamente se devem e do interesse que a vida individual deve merecer-lhes» (ANSELMO, 1933: 19-20). Continua dizendo que «a base do mutualismo está numa lei racional e justa: o homem encontra o seu próprio interesse apenas quando sabe unir-se com os seus semelhantes, mutuando o auxílio que deles recebe com o que lhes presta, seja através das suas associações de socorros mútuos, seja através das cooperativas e sindicatos» (ANSELMO, 1933: 20).

Manuel Anselmo proporciona também um pequeno retrato do estado das associações mutualistas no país nesse ano: «Em Portugal, o movimento pode dizer-se que ainda está embrionário. Se não fossem certos sócios benfeitores, a maior parte das nossas associações de socorros mútuos tinha já há muito morrido. Os nossos concidadãos, sem quererem atentar na vanidade e inutilidade do esforço individual desde que não acompanhado do esforço alheio, preferem encerrar-se entre as quatro

paredes do seu isolamento, esquecendo que, depois da Guerra, com essa doença que é um flagelo para o operário, desprevenido e que se chama o desemprego, ninguém pode contar só consigo para o dia de amanhã» (ANSELMO, 1933: 21-22).

Em 1933 o jornal O Século dedicou uma semana inteira ao mutualismo associativo, tendo ficado conhecida como a Semana do Mutualismo. Severino Costa profere a conferência sobre mutualismo e fraternidade humana na Associação Fraternal dos Artistas Vianenses durante precisamente a Semana do Mutualismo. Era habitual surgirem estas personagens ligadas de algum modo às práticas associativas mutualistas a discursarem sobre o tema. Uma das ideias essenciais que estava na base do mutualismo era a fraternidade, o espírito de associação e de entreajuda.

Uma das características do movimento mutualista associativo era precisamente o de ter aberto dentro da sociedade um espaço de comunicação e de debate. A ideia de que todos poderiam falar parecia uma prática cultural inata ao espírito do mutualismo.

Não nos esqueçamos que a Europa estava a viver um clima de grande tensão. Já tinha passado por uma guerra mundial e em pouco avizinhava-se uma seguinte. Mais do que nunca, as pessoas gostariam de agarrar-se a ideias que unissem as pessoas e o mutualismo proporcionava um discurso cultural de união e de fraternidade, aliás, termos-chave desde sempre associados ao movimento.

Severino Costa, porém, remete essa ideia de fraternidade, e vejamos que opta pelo termo fraternidade em vez de solidariedade, para uma perspectiva cristã: «O mundo, o pequenino mundo de então, pressente que alguma coisa de novo aparece. Pressente naquele simples filho dum carpinteiro, um facho de luz e uma aurora de redenção. A sua silhueta de visionário, arrasta as multidões e leva-o ao alto de uma cruz. Ele falava de Fraternidade, dizia que todos éramos irmãos, e o que ele dizia pareciam loucuras, mas deslumbrava» (COSTA, 1933: 5-6).

Como outros, faz remontar as origens do mutualismo à Idade Média, aos compromissos e aos montes de piedade: «E todavia ele fica e perdurará como um dos movimentos e das aspirações mais altas da Humanidade contra a aridez dogmática da Idade Média. É que embora a Idade Média nos tenha dado embrionariamente os primórdios do mutualismo e, portanto, da fraternidade humana organizada, a verdade também é que o dogma encerrava o vasto pensamento da humanidade dentro de limites tão rasteiros, que esse pensamento humano estava reduzido a um exercício sem lógica, em cujo fundo residia apenas uma fé sem limites» (COSTA, 1933: 8-9).

O marco, porém, essencial para se chegar ao mutualismo moderno associativo é a Revolução Francesa e à emergência do individualism e da democracia para, a partir daí, se redefinir a força da fraternidade: « não se vá pensar que eu condeno em bloco o individualismo. Se ele, de facto, contrariou o movimento associativo e de socorros mútuos, a verdade principal é que ele deu ao homem a sensação do seu poder pessoal e sobretudo a consciência do seu valor como unidade duma sociedade melhor. O individualismo, ouso mesmo afirmá-lo, era absolutamente necessário para a formação das futuras sociedades onde havia de florescer a ideia de associação, muito especialmente na preparação do grande século do mutualismo, o século XIX» (COSTA, 1933: 9).

Severino Costa coloca, portanto, a tónica do princípio de associação como princípio altruísta, embora com o reconhecimento de uma base também ela individualista. No entanto, opõe a Rousseau e junta-se a Spencer para afirmar que o homem nasce mau e a solidariedade não é um sentiment inato, mas algo que deve ser cultivado pelo espírito de associação: «a solidariedade cultiva-se» (COSTA, 1933: 11).

Mais à frente, estabelece fortes nexos entre a democracia e a fraternidade: «Bem-dita seja a democracia que deu consciência ao homem, e pôs em marcha a ideia da Fraternidade humana [...]. O homem tende para as sociedades pelo instinto de defesa e pelo convencimento da fraqueza. O que precisamos é dar-lhe, dentro dela, o sentimento de força e do altruísmo» (COSTA, 1933: 12).

À fraternidade opõe o sentimento do egoísmo: «Apelar para os sentimentos de fraternidade humana, ainda não basta. O egoísmo ainda está cá dentro doseado duma maneira que abafa todos os sentimentos generosos. O que temos é de lutar para o combater e para o matar. Olhemos em volta de nós. Os que temos saúde e aqueles que podem ganhar a sua vida, que atentem nos órfãos, nos velhos e nas viúvas. Que tenham o momento de contrição e que pensem que, inscrevendo-se numa associação de socorros mútuos como aquela onde estamos, ajudará não só a minorar muito o sofrimento, mas também a preparar um mundo melhor. Sejamos generosos e ensinemos os nossos filhos a sê-lo. Sem o sentimento de fraternidade, o homem é qualquer coisa de repulsivo.

Dominemos o espírito do mal, sejamos dignos da inteligência que nos dá, dentro do nosso agitado coração, a chama dignificadora que nos eleva.

Um dia virá – certamente – em que sobre a terra uma justiça melhor impere, e então o homem poderá viver e morrer tranquilamente [...]. Se todos nós pensássemos assim uma vez ou outra, se o sentimento da impotência nos desse o sentimento da

fraternidade, essa fogueira enorme e milenária que há infinitos anos queima na sua chama de tragédia o corpo e a alma da Humanidade, daria lugar a uma aurora deslumbradora de sossego – à felicidade sobre a terra, à paz entre os homens, à Fraternidade Universal» (COSTA, 1933: 19-20).