4. Arquitetura Residencial
5.3 Os Quintais: Zonas de Serviços das Casas em Salvador
5.3.1 Quintais Elementos Construídos
5.3.1.6 As latrinas e “secretas”
Durante boa parte do século XIX, a limpeza pública seria tratada praticamente como uma questão de ordem particular de cada morador. Naquela época,
[...] era costume cavar longitudinalmente, no meio das ruas, uma valeta destinada ao escoamento das águas pluviais – precaução indispensável numa cidade cheia de ladeiras, por vezes muito íngremes, e exposta às tempestades
710 APEB – Seção Judiciária -Livro de Notas 01/05/580 – Folha 38V (grifo nosso). (29/08/1850)
711 Cartório do 2° Ofício de Imóveis e hipotecas da Comarca do Salvador – Livro 03 de Transcrição dos
Imóveis - n° de ordem 149 (grifo nosso). (11/08/1892)
712 Cartório do 2° Ofício de Imóveis e hipotecas da Comarca do Salvador – Livro 03 de Transcrição dos
Imóveis - n° de ordem 1340 (grifo nosso). (25/10/1897)
713
APEB – Seção Judiciária - Inventários e Testamentos – Documento 06/2711/10 (grifo nosso). (Período: 1913)
tropicais. Na prática, porém, essas valetas viravam o escoadouro de todo tipo de água suja e detrito. [...] Só as fortes chuvas limpavam de quando em quando esses esgotos a céu aberto. Até 1856, os moradores tinham a obrigação de limpá-los, mas não o faziam, a despeito de muitas posturas municipais sobre a questão e a criação de diversos depósitos de lixo. Por fim, graças à consciência despertada pela terrível epidemia de cólera-morbo (1855-1857), a lei provincial n° 588 autorizou o governo a controlar com mais rigor os problemas de salubridade. [...] Em 1867, a limpeza de Salvador tornou-se incumbência da Câmara Municipal! O serviço de coleta de lixo doméstico continuou precário (MATTOSO, 1992, p. 442-443),
... eximindo-se de responsabilidade as autoridades municipais, que pouco mais faziam do que baixar “Posturas” sobre o tema, proibindo – desde o século XVII pelo menos – o despejo dos detritos em locais inadequados714, sem os resultados esperados. Segundo Gilberto Freyre715, as capitais brasileiras neste período eram, na verdade, “burgos imundos e tão à toa que a limpeza das ruas, dos quintais, das praias, dos telhados esteve, por muito tempo, entregue quase oficialmente aos urubus e às marés”716
. Curiosamente, a sociedade...
[...] que cuidava de sua aparência pessoal e procurava promover seu asseio corporal era a mesma que vivia em casas recendendo a urina e excrementos; que preparava seus alimentos, servido nas mais finas louças e cristais, em cozinhas imundas e fétidas; que reservava suas bem arrumadas salas às visitas, mas despejava todo o lixo que produzia nas soleiras de suas próprias portas. Bem penteada, finamente vestida e perfumada, passeava elegantemente por ruas e praças, em meio a toda sorte de imundícies (LIMA, T., 1995, p. 36).
Diante de tal quadro, os dejetos produzidos diariamente dentro de casa só tinham
714 “Assim como na Cidade Baixa, a limpeza e a conservação das ruas da Cidade Alta era problemática.
A Câmara Municipal multiplicava em vão as posturas que proibiam o lançamento de águas usadas e detritos nas ruas ou a passagem de animais pelas vias públicas. [...] As posturas sobre limpeza eram renovadas pela Municipalidade a cada ano, estipulando altas multas e ameaçando os infratores com a prisão” (MATTOSO, 1992, p. 442).
715
FREYRE, G., 1968.
716
duas maneiras práticas de serem eliminados717. A mais precária delas, certamente, era a que mais dependia da mão-de-obra escrava: o transporte718 dos barris – ou “tigres” – à beira-mar, todas as noites719, quando então eram lavados e transportados de novo às casas720, aguardando a próxima “viagem”721. Esta opção, porém, caiu em desuso não apenas pela decadência do sistema escravocrata no Brasil, mas também em função da tomada de consciência e da preocupação crescente com a higiene, decorrentes dos avanços nas pesquisas médicas e das próprias epidemias – principalmente a de cólera-
morbo – que trouxeram sérias consequências para Salvador722
entre os anos de 1850 e 1857.
Em meados do século, escudada na necessidade de debelar as grandes febres e surtos epidêmicos, de eliminar focos de infecção, ares e águas contaminados, de baixar as elevadíssimas taxas de morbidade e mortalidade através de severos dispositivos sanitários, a medicina, até então sem qualquer projeto de combate sistemático a essa insalubridade generalizada, passou a exercer um controle fiscalizador crescente, [...]. Com um formidável poder de penetração, introduziu-se em praticamente todos os domínios da esfera social, tendo como alvo não mais o indivíduo, mas a coletividade, sobre a qual foi conquistando uma ascendência cada vez maior (LIMA, T., 1995, p. 33).
717
Segundo Gilberto Freyre (FREYRE, 1968), no entanto, às vezes o quadro era mais tenebroso: “O grosso do pessoal das cidades defecava no mato, nas praias, no fundo dos quintais, ao pé dos muros e até nas praças. Lugares que estavam sempre melados de excremento ainda fresco” (FREYRE, 1968, v. 1, p. 198).
718 “Todo este material destinado à excreção foi portátil, móvel e sem um aposento definido na casa
brasileira [...], até praticamente a introdução e disseminação do water closet e das instalações hidráulicas, ao final do século XIX e início do XX, quando finalmente ganhou um cômodo especial, reservado, permanente e fixo da unidade doméstica” (LIMA, T., 1995, p.13).
719 Postura de número 32, aprovada em 25/02/1831: “O despejo imundo das casas será levado ao mar
em vasilhas de pau cobertas, depois de oito horas da noite: os que forem apanhados antes da hora marcada, ou fazendo o despejo nas ruas, e outros lugares públicos, serão inclusos na pena de 2$000 réis, ou vinte e quatro horas de prisão. Ficam os senhores responsáveis por seus escravos” (FGM: Posturas - 1829 a 1859. Estante 08. Número de ordem 119.5 – Folha 20).
720
Segundo Vauhtier (VAUHTIER, 1975), em Recife eram estes “tigres” mantidos “a um canto afastado da casa do seu amo” (VAUTHIER, 1975, p. 59-60), de preferência nos quintais e pátios abertos ao fundo das casas.
721
De acordo com Gilberto Freyre, “a remoção de matérias fecais das casas para as praias era feito de modo [...] repugnante. Tais matérias, depois de acumuladas em barril conservado no fundo do quintal ou em um quarto mais discreto, [...] eram, depois de completamente cheio o barril – que se chamava tigre – transportados para a praia à cabeça dos escravos” (FREYRE, 1943 apud VAUTHIER, 1975, p. 59).
722
Em função, pois, destas medidas higienizadoras, foram sendo criadas nos quintais, num canto afastado das casas, as “latrinas” ou “secretas”. Em grande parte, eram constituídas estas dependências de “[...] “casinhas” com simples barris sem fundo enterrados até o meio sobre uma fossa”723, ou mesmo, segundo Leila Mezan Algranti,
instaladas de maneira a permitir a instalação de chiqueiros em sua parte inferior:
Além das áreas de serviço, o quintal podia conter a senzala e a secreta. Esta última era uma edificação com fins de higiene existente em algumas casas mas que consistia muitas vezes apenas num buraco na terra, embaixo do qual podiam se instalar os chiqueiros (ALGRANTI, 1997, p. 94-95).
Vê-se, portanto, como afirmado anteriormente na análise das “casas de banho”, que estas “latrinas” funcionavam de maneira autônoma; ou seja, a noção contemporânea de “banheiro” – incluindo num mesmo ambiente fechado todos os recursos necessários à higiene pessoal - não encontrava similaridade nestas dependências de meados do século XIX.
Desta forma, explica-se o fato de encontrarmos então um número maior de registros destas “latrinas” justamente nas fontes originárias dos últimos anos do século XIX, quando as “novas” práticas higiências já haviam sido então mais assimiladas pela população:
a) O sobrado de n°28 da “Rua da Cruz do Paschoal”, adquirido em 1892 pelo “Capitão Bento Beryllo da Silva e Oliveira”, possuía em seu quintal, além da “cozinha fora”, uma “latrina, banheiro, galinheiro e um pequeno quarto [...]”.724
b) O “sobrado com andar” pertencente a José Fernandes de Carvalho Braga na rua Direita de Santo Antônio n° 114 também tinha em seu quintal uma “latrina”.725
723
FREYRE, 1968, v. 1, p. 198.
724 Cartório do 2° Ofício de Imóveis e hipotecas da Comarca do Salvador – Livro 03 de Transcrição dos
Imóveis - n° de ordem 149 (grifo nosso). (11/08/1892)
725 Cartório do 2° Ofício de Imóveis e hipotecas da Comarca do Salvador – Livro 03 de Transcrição dos
c) A “casa térrea” pertencente a Ricardo Miguel de Sant’Anna, localizado na Rua dos Carvões, n° 81 possuía também a sua “cozinha fora”, além de um depósito de ferro para água, banheiro e latrina” em seu quintal.726
d) O sobrado de “número oitenta e cinco, sito à Rua do Sodré, distrito de São Pedro”, arrolado entre os bens de Joaquim Gonçalves Maia, possuía dentro de seu “quintal murado” a sua “cozinha fora”, “latrina” e um “banheiro”.727