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4. Arquitetura Residencial

5.3 Os Quintais: Zonas de Serviços das Casas em Salvador

5.3.1 Quintais Elementos Construídos

5.3.1.7 Os jiraus 728 e varais

Se a lavagem de boa parte da tralha doméstica e da própria roupa de casa era, muitas vezes, em função do problema do abastecimento de água, realizada na beira de rios e lagoas da cidade729, restava encontrar posteriormente uma solução para secar estes artigos de maneira rápida e segura. Obviamente que o interior das casas não se prestava a este tipo de serviço, uma vez que estas já encontravam-se naturalmente úmidas e mal ventiladas730, não sendo interessante, portanto, transportar ainda mais umidade para dentro de seus aposentos. Apesar do hábito de algumas pessoas utilizarem os espaços públicos para secar e “corar” – ou “quarar”, segundo Hildegardes Vianna731 - suas roupas, especialmente as de cores claras732, acreditamos que esta não fosse a alternativa mais eficiente ou mesmo a preferida pela população de Salvador,

726 Cartório do 2° Ofício de Imóveis e hipotecas da Comarca do Salvador – Livro 03 de Transcrição dos

Imóveis - n° de ordem 1340 (grifo nosso). (25/10/1897)

727

APEB – Seção Judiciária – Inventários e Testamentos – Documento 06/2711/10 (grifo nosso). (Período: 1913)

728

De acordo com o Novo Dicionário da Língua Portuguesa (FERREIRA, 1995, p. 988), o termo “jirau” deriva do tupi (“yi’rab), significando “estrado de varas sobre forquilhas cravadas no chão, usado para guardar panelas, pratos, legumes, etc. [...]”.

729

“Era inevitável que a parte referente às lavagens de roupa fosse resolvida executando-se o serviço nas margens dos rios, ou em tanques públicos, dado o grande volume de líquido pedido” (LEMOS, 1978, p. 34).

730

MATTOSO, 1992, p. 447.

731

VIANNA, H., 1979, p. 153.

732 Segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa (FERREIRA, 1995, p. 447), o termo “corar”

apresenta duas definições ligadas ao ato de lavar roupas: “Branquear, expondo ao sol (roupa, cera etc.)”, ou ainda “Branquear em consequência de ficar exposto ao sol: A lavadeira estendeu a roupa a corar.”

levando-se em conta a precária situação da limpeza pública ao longo de boa parte do século XIX733.

Efetivamente, vamos encontrar, pois, nos quintais destas residências os espaços ideais para a secagem de todos estes artigos domésticos, mantendo o excesso de umidade sempre longe do interior dos cômodos. Para esta tarefa, no entanto, usavam-

se comumente os jiraus734 – normalmente para os utensílios domésticos - ou mesmo os

varais – geralmente para as roupas.

No quintal, o jirau alto servia para secar alimentos resguardados dos animais domésticos, para enxugar o trem de cozinha lavado, para secar a rede de pesca e a roupa lavada e para suportar plantas trepadeiras. [...] Tivemos, também, o jirau prolongamento de alpendre, o jirau continuação de telheiros, o jirau para fazer sombra [...]” (LEMOS, 1978, p. 43, grifo nosso).

Figura 11: Camilo Vedani (c. 1862) (Sem título). In: FERREZ, 1989, p. 9. A foto acima mostra o Terreiro de Jesus, na Cidade Alta, com várias roupas no chão, à esquerda, corando sob o sol.

733

MATTOSO, 1992, p. 442-443.

734

“No Brasil, sempre que possível, os fogões e jiraus foram levados para fora e deixados a cargo das escravas, mesmo nas regiões mais frias [...]” (ALGRANTI, 1997, p. 102-103).

Na verdade, mesmo que as roupas pudessem eventualmente ser estendidas diretamente sobre o chão do quintal, queremos crer que o uso de varais ou jiraus suspensos735 garantiriam melhores resultados, afastando do chão sujo e do alcance das

crianças e animais domésticos a roupa – bem como os demais utensílios domésticos -

lavada com tanto trabalho na beira dos rios e lagoas nos arredores da cidade.

Em resumo, percebemos até aqui uma curiosa ambiguidade entre o estilo de vida da

maioria das famílias baianas e o sistema de funcionamento de suas residências. Ou seja, o caráter intimista do seu viver e a valorização exacerbada da privacidade (levando a uma reclusão quase monástica – especialmente no caso das mulheres da casa), contrastam fortemente com a enorme dependência externa de suas moradias. Estas “casas térreas” e sobrados, até então, não funcionavam adequadamente sem a mão-de-obra escrava, que, por sua vez, representava o elo de ligação entre os ambientes internos destas moradias e os espaços abertos da cidade: as fontes públicas (para o abastecimento regular de água potável), os rios e lagoas (para a lavagem de roupas e a limpeza de maior volume), as praias (para o despejo dos dejetos acumulados ao longo do dia e posterior limpeza dos “barris” ou “tigres”), as ruas e praças (colocando à venda, muitas vezes, os produtos produzidos artesanalmente em casa ou os próprios serviços de carregadores, carpinteiros etc.) etc. Os escravos, pois, entravam e saíam de casa o dia todo, levando e trazendo todo tipo de produtos – e notícias...

Para os serviços domésticos corriqueiros, porém, os quintais forneciam o espaço necessário e adequado às mais diversas tarefas inerentes ao funcionamento destas antigas residências. As cozinhas externas afastavam do interior da casa a fumaça e a fuligem do fogão de lenha, junto com toda a sujeira inerente à produção de alimentos – especialmente naquelas casas que produziam quantidades maiores de quitutes para o pequeno comércio da cidade. Os telheiros abrigavam todo tipo de atividade que provocasse barulho ou sujeira indesejados: sob sua cobertura os escravos – ou

empregados – faziam a pequena lavagem das tralhas domésticas, executavam o

artesanato doméstico etc. Sobre os varais e jiraus descansavam os peixes e as carnes

735

salgadas, mantendo ainda as panelas, louças e até mesmo a roupa longe do alcance das crianças e dos animais domésticos criados soltos. Nas “casas de banho” e nas “latrinas” externas, mais comuns à partir da segunda metade do século XIX, os moradores procuravam atender às novas medidas higiênicas impostas pelas autoridades em função das graves epidemias que assolavam a cidade em determinados períodos.

Enfim, a área aberta existente próxima às residências – representada pelos quintais – era extremanente importante para o pleno funcionamento das casas em Salvador. Sem estes quintais, muitas tarefas domésticas simplesmente não podiam ser

desempenhadas – ou então demandariam um sacrifício maior dos escravos (ou

empregados), forçando-os a permanecerem mais tempo longe de casa, limitando assim sua “produtividade”. Efetivamente, percebemos que praticamente todas as casas possuíam um espaço com estas características (dos quintais), e aquelas que não os tinham – independente dos motivos (topografia irregular, dimensão dos lotes urbanos etc.) procuravam, de alguma forma, alternativas similares:

“Escritura de compra, venda, paga e quitação, que faz Antônio Francisco Marinho, [...] a José Antônio dos Santos Guerra, ambos moradores nesta Cidade, de uma casa térrea à freguesia de Pirajá, subúrbio desta cidade e lugar denominado São João, [...] sem, número, com frente construída de tijolos e caixa de taipa coberta de telha, com porta e três janelas, devide de um lado com terreno baldio, que serve de quintal da mesma casa [...]. (APEB – Seção Judiciária – Livro de Notas 01/05/580 – Folha 05V - grifo nosso). 736