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Séculos XVII e XVIII – A “Fome Universal”

4. Arquitetura Residencial

5.4 A Economia Doméstica e os Quintais

5.4.2 O Abastecimento de Alimentos em Salvador

5.4.2.1 Séculos XVII e XVIII – A “Fome Universal”

Através das informações contidas nas fontes documentais dos séculos XVII e XVIII consultadas nesta pesquisa, percebe-se que, de fato, a “fome universal, que tantas lágrimas e honras custou à miserável pobreza que a sentiu”743

, era uma companheira relativamente constante na vida de boa parte da população da cidade de Salvador, pobre e desamparada. É digno de atenção, porém,

[...] o fato de que nem os administradores portugueses e brasileiros do período colonial, nem os cronistas da mesma época têm qualquer constrangimento em se ocupar da fome que tantas vezes reinou no Brasil. Nenhum esconde os fatos, nem lhe atenua as cores, mesmo no formalismo das correspondências e relatos oficiais (AZEVEDO, 1969, p. 300-301).

Com períodos de maior ou menor duração, as crises de abastecimento dos principais gêneros – especialmente da farinha de mandioca, base da alimentação local -, provocadas pelas grandes secas, as epidemias, os ataques às zonas produtoras de alimentos etc. – ou até mesmo pela especulação pura e simples – podiam levar a períodos longos de fome na cidade. Em 1700, por exemplo, a cidade se achava...

[...] no mais miserável estado que se pode considerar, porque padecendo a sete para oito anos fome, agora até de água se vê falta, e está em uma suma miséria, havendo morrido alguma gente de fome, e não bastando a muitos os ganhos de muitos meses para o sustento de poucos dias, nem havendo já fazendas que bastem aos homens para poderem comprar o pouco sustento que acham, e ainda os mais frutos da terra, o qual umas vezes nos tiram as pragas, outras a chuva, e este ano, nove meses de seca e falta de água contínua (PMS, [196-?a], p. 18).

No capítulo 03, por sinal, analisamos uma série de fatores que viriam a afetar, em menor ou maior grau, a economia baiana durante os primeiros séculos de colonização (séculos XVI ao XVIII): a falta de moedas, a manutenção da frota comercial portuguesa,

743

as revoltas indígenas, os ataques corsários e as invasões holandesas do século XVII, a descoberta do ouro nas províncias ao sul, as variações climáticas e as frequentes epidemias. De todos eles, resultavam também, de acordo com as mesmas fontes, as terríveis fomes. Num pequeno resumo deste estudo, teríamos:

a) A Falta de moedas – “[...] por falta de dinheiro, nem os naturais têm quem lhes compre os seus gêneros, nem com que comprar as fábricas tão custosas e necessárias para eles” (VIEIRA, A., 1949, p. 360).

b) A Manutenção da frota portuguesa – “O fornecimento das naus que aportavam isoladamente à cidade, das que arribavam avariadas pelos temporais ou acossadas por piratas, e das frotas que anualmente chegavam e partiam, comboiados por navios armados, [...] era um dos motivos de dificuldade alimentar” (AZEVEDO, 1969, p. 285-286).

c) As revoltas indígenas – “[...] ao menos pelas roças, e lavragens, andar com as armas nas mãos, e os que não podiam tanto, deixando de as cultivar, de que se seguiu nestes anos bastante falta de mantimentos, e frutos da terra” (JABOATÃO, [193-?] apud AZEVEDO, 1969, p. 79).

d) Ataques de naus corsárias e as invasões holandesas do século XVII – “[...] viviam faltos os nossos até do precioso alimento para sustentar as vidas (porque os lavradores, com a vizinhança do perigo deixavam a cultura dos campos), chegava a excessivo preço algum gênero comestível que se descobria, sendo ainda mais caro em aparecer que em se reputar. [...] Por esta causa experimentava uma geral necessidade toda a nossa gente [...]” (PITTA, 1952, p. 195).

e) A descoberta e exploração do ouro “das Minas” – “O ouro das Minas do Sul foi a

pedra-ímã da gente do Brasil, e com tão veemente atração, que muita parte dos moradores das suas capitanias (principalmente da província da Bahia) correram a buscá-lo, levando os escravos que ocupavam em lavouras, [...]. Da sua ausência

se foi logo experimentando a falta na carestia dos víveres e mantimentos, por haverem ficado desertas as fazendas que os produziam [...]” (PITTA, 1952, p. 390).

f) As variações climáticas – “[...] havia dois meses que principiaram as chuvas e suposto que não têm sido as que bastam para se restituirem as fontes ao estado em que se achavam antes de seca, [...] se experimentará uma grande disformidade na América Portuguesa, porque no mesmo tempo que a seca continuava de 13 graus para o norte, era tanta a chuva desta latitude para o sul que para aquela parte fez grande dano o excesso de águas; e para a outra considerável prejuízo a falta dela, e que de toda esta irregularidade procederá a falta de frutos e especialmente a farinha da terra [...]” (CARTAS..., 1721 apud ACCIOLI; AMARAL, 1925, pt. 3, s. 3).

g) As epidemias – “Pelos recôncavos foram tanto mais penetrantes os estragos, quanto era maior a falta dos remédios e dos médicos, morrendo os enfermos antes que os da cidade, aonde recorriam, lhes fossem as receitas e as medicinas; e constando a maior parte dos habitadores de escravos para as fábricas dos engenhos, fazendas e lavouras, houve alguns senhores destas propriedades, que perdendo todos os que tinham, ficaram pobres e não puderam em sua vida tornar a beneficiar as suas possessões [...]. Seguiu-se depois uma geral fome, que alguns anos padeceu o Brasil, por faltarem cultores das plantas e sementeiras e dos outros gêneros precisos para alimentar a vida [...]” (PITTA, p. 274-275).

Além destes fatores, Gilberto Freyre, em sua obra Sobrados e Mucambos.

Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano744, traz à tona outra discussão importante, apontando uma nova causa para as constantes crises de abastecimento de alimentos nas grandes capitais brasileiras, com especial ênfase para os casos do Recife e de Salvador, zonas de economia baseada na monocultura açucareira. Segundo ele,

744

[...] com a urbanização mais intensa [...], a situação só fez piorar. De tal modo se acentuou a alta dos preços da carne, dos legumes e do leite que os economistas da época se preocuparam gravemente com o problema. E o atribuíam às causas mais diversas. Uns, vagamente, à “diminuição de produção e aumento do consumo”. Outros, à falta de braços que vinha ocorrendo depois do fechamento do tráfico negro e da devastação dos escravos pela epidemia de cólera. Sebastião Ferreira Soares, em suas Notas Estatísticas Sobre a

Produção Agrícola e Carestia dos Gêneros Alimentícios no Império do Brasil,

[...] teve a intuição que hoje nos surge como a mais séria e a mais profunda de todas: a maior concentração dos braços na cultura dos gêneros exportáveis – o açúcar e depois o café – em desprezo pelos de alimentação comum [...]” (FREYRE, 1968, v. 1, p. 175-176).

Desta forma, com base neste raciocínio, “o flagelo era mais intenso” obviamente nas grandes capitais litorâneas do Brasil, “não pela circunstância de serem marítimas, mas, principalmente, porque eram as regiões de monocultura mais profunda. Pernambuco e a Bahia, entregues à produção quase exclusiva de açúcar”745

, em prejuízo da produção de alimentos básicos para a sua população.

Como é possível perceber, a maioria destes fatores era de difícil prevenção – ou

solução -, escapando ao controle das autoridades – com mandatos temporários - e da

população em geral746. Desta forma, se por um lado a impressão que a terra do Brasil passava aos colonos portugueses era a melhor possível, descrita como “fértil de tudo”747, “mui viçosas”748 e ricas em “muitas frutas”749

, por outro lado temos os documentos e cartas oficiais, que traçam um quadro geral de penúria e dificuldades. Na verdade, segundo as fontes consultadas, a alimentação da maioria da população, inclusive a dos escravos, era rica apenas em calorias, compondo então “uma ração de qualidade inferior”750. “No século XVIII, quando aumentava muito o número de libertos e

745

FREYRE, 1968, v. 1, p. 176.

746

Neste estudo, é importante salientar que estaremos restringindo nossa análise apenas aos mantimentos produzidos na própria colônia, não absorvendo então as variáveis que podiam afetar o comércio dos alimentos importados (azeite, farinha de trigo, vinho, bacalhau, queijos etc.), até mesmo porque entendemos que estes, submetidos a “impostos escorchantes” (BOXER, 2000, p. 38), dificilmente comporiam o cardápio regular das camadas mais pobres da população.

747

NÓBREGA, 1931, p. 84. Obra original do século XVI.

748

GANDAVO, 1980, p. 29. Obra original do século XVI.

749

CARDIM, 1978, p. 175. Obra original do século XVI.

750

de brancos pobres nas cidades, sua dieta em pouco ou nada se diferenciava da

alimentação da escravaria”751 e até mesmo “o peixe escasseava” em suas mesas.

De todos os mantimentos consumidos ao longo do período colonial, de longe o mais importante para a dieta dos brasileiros era a farinha de mandioca, sendo esta, em consequência, alvo de uma série de controles e medidas oficiais – registradas, por exemplo, nas Atas da Câmara e nas Cartas do Senado (vide as referências bibliográficas) -, além das notícias fornecidas pelos principais cronistas do Brasil colonial. Em meados do século XVI, por exemplo, o francês Jean de Léry752 fez as seguintes observações sobre o cultivo da mandioca na região da Baía da Guanabara:

Os americanos têm duas espécies de raízes, a que chamam aypi e maniot, que crescem dentro da terra em três ou quatro meses [...]. Depois de arrancá-las, as mulheres (os homens não se ocupam disso) secam-nas ao fogo no bucan [...]; ou então as ralam ainda frescas sobre uma prancha de madeira, cravejada de pedrinhas pontudas [...], e as reduzem a uma farinha alva como a neve. Essa farinha ainda crua, bem como o farelo branco que dela sai apresentam um cheiro de amido [...]. Para preparar essa farinha usam as mulheres brasileiras grandes e amplas frigideiras de barro, com capacidade de mais de um alqueire e que elas mesmas fabricam com muito jeito, põem-na ao fogo com certa porção de farinha dentro e não cessam de mexê-la com cabaças [...] até que a farinha assim cozida tome a forma de granizos ou confeitos. Fazem farinha de duas espécies: uma muito cozida e dura, a que os selvagens chamam uhi

antan, usada nas expedições guerreiras por se conservar melhor; outra menos

cozida e mais tenra a que chamam uhi pon, muito mais agradável do que a primeira porque dá à boca a sensação de miolo de pão branco ainda quente. Ambas, depois de cozidas, mudam de sabor, tornando-se mais agradáveis e delicadas (LÉRY, 1941, p. 123-124).

A farinha de mandioca, portanto, de acordo com estas fontes, era então o principal

alimento da população baiana, frequentando as mesas dos mais ricos aos mais pobres753. Os seus grandes centros produtores concentravam-se em algumas vilas do

751

Ibid., p. 69.

752

LÉRY, 1941. Obra original do século XVI.

753

Segundo o Padre Manuel da Nóbrega, a farinha de mandioca era bastante apreciada pelo próprio Tomé de Souza, que a prefria mesmo à farinha “do Reino” (NÓBREGA, 1931, p. 97).

Recôncavo e do baixo sul754, com as quais a administração municipal de Salvador mantinha contratos de fornecimento. Dentre estas vilas, destacavam-se: Cairu, Boipeba, Camamu, Jaguaripe, Maragogipe, Capanema e Cachoeira. Porém, este

fornecimento nem sempre era garantido, apesar dos contratos755, levando o Senado da

Câmara a intervir em inúmeras ocasiões, protestando formalmente contra estes atrasos e desvios da farinha. Em alguns casos, a farinha, transportada em sírios de palha756, extremamente frágeis, perdia-se no caminho da cidade (ou era roubada mesmo por alguns dos tripulantes das pequenas embarcações que faziam o comércio entre os diferentes povoados) diminuindo a quantidade final do produto acertado entre as autoridades municipais. Em outras ocasiões, porém, estava o sistema de abastecimento da farinha – em embarcações – sujeito a complicações próprias deste meio de transporte: “[...] o fornecimento de farinha, na maior parte do Mar em fora, [...] muitas vezes, pelo rigor do tempo que impede a navegação, se padece necessidade, e de mais, nas ocasiões de inimigo, fica de todo impedida a entrada daquela parte”757

.

O certo é que por um longo tempo, em função da irregularidade do seu fornecimento, haveria uma forte especulação nos preços de muitos gêneros em Salvador, principalmente da farinha de mandioca, o que obviamente afetava em maior grau a população pobre. A “estupenda usura nos mercados”758, pode ser entendida, por exemplo, pela análise do que acontecia com o mercado do peixe. Apesar do enorme potencial piscoso de seu litoral, até mesmo o peixe era fruto de especulações no

comércio de Salvador, tornando o seu preço excessivamente caro759. Segundo Vilhena

(1798), se não fosse pelo descontrole da especulação,

[...] não se comeria nesta cidade peixe pesado a dinheiro, quando aliás é aqui o mar bastante piscoso; o que é inevitável por passar por quatro, ou cinco mãos, antes de chegar às do que o compra para comê-lo; todos sabem desta desordem, mas ninguém a emenda, por ser aquele negócio como privativo de

754 OLIVEIRA, M., M., 1998, p. 11. 755 AZEVEDO, 1969, p. 284. 756 AZEVEDO, 1969, p. 284.

757 PMS, 1953, p. 32-33. Cópia de uma carta enviada “à Sua Majestade” em 14 de julho de 1686. 758

MATOS, 1968, p. 35.

759

Disto temos o testemunho, por exemplo, de John Bulkley e John Cummings no século XVIII (BULKELEY; CUMMINGS, 1936, p. 40) e o de Thomas Lindley logo no início do século XIX (LINDLEY, 1969, p. 116).

ganhadeiras, que de ordinário são, ou foram cativas de casas ricas, e chamadas nobres, com as quais ninguém quer se intrometer, pela certeza de ficar mal, pelo interesse que de comum têm as senhoras naquela negociação (VILHENA, 1969, v. 1, p. 127).

As autoridades municipais, pelo menos formalmente, ao longo do tempo parecem ter- se preocupado, pela insistência no assunto, com as manobras de certos fornecedores de gêneros de primeira necessidade (carne bovina, peixe, legumes, vinho, pão, farinha etc.). “Configurava-se então, com toda clareza, a ação danosa de elementos já aí chamados de atravessadores, isto é, aqueles que compravam mercadorias na fonte produtora por quantia irrisória e as revendiam aos negociantes por preço altíssimo”760

:

[...] havia nesta cidade muitos regatões que atravessavam todas as mercadorias e mantimentos que vinham a esta cidade, o que era em grande prejuízo dos moradores dela, porquanto quando queriam ir comprar haviam de ir aos atravessadores, que lhes vendiam por excessivos preços (PMS, 1949a, p. 64).

Em uma mesma semana do final do século XVII, por exemplo, valia “o sírio de farinha a doze tostões”761, e mesmo assim escasseava o produto no mercado. Bastou uma decisiva intervenção do Governador-Geral, dom João Lencastro (1694-1702), para que o preço caísse pela metade, além de aparecer “em abundância”762, prova efetiva da

forte especulação que podia ser encontrada neste comércio em Salvador.

Que falta nesta cidade? ... Verdade Que mais por sua desonra ... Honra Falta mais que se lhe ponha ... Vergonha.

O demo a viver se exponha, Por mais que a fama exalta, Numa cidade onde falta Verdade, Honra, Vergonha.

760 ARAÚJO, E., 1997, p. 311. 761 PMS, 1959, p. 51. 762 Ibid., p. 51.

Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio Quem causa tal perdição? ... Ambição E o maior desta loucura? ... Usura

Notável desventura

de um povo néscio, e sandeu, que não sabe, que o perdeu Negócio, Ambição, Usura.

Quem faz os círios mesquinhos? ... Meirinhos Quem faz as farinhas tardas? ... Guardas Quem as têm nos seus aposentos? ... Sargentos

Os círios lá vêm aos centos, e a terra fica esfaimada, porque os vão atravessando Meirinhos, Guardas, Sargentos.763

No século XVIII, a ação dos atravessadores continuava desenfreada, mantendo o estado de penúria alimentar na cidade e, mais uma vez, suscitando novos protestos das autoridades. Em 1723, por exemplo, o vice-rei Vasco Fernandes César de Menezes (1720-1735), conde de Sabugosa, escrevia uma carta ao rei em Portugal protestando contra a “multidão de atravessadores que há nesta cidade e seu Recôncavo a toda casta de mantimento”764

, reconhecendo ainda a ação danosa – para o povo - de sua existência:

[...] os gêneros principais de que se provê esta cidade vem do sertão e do Recôncavo [...], mas com tal desordem que os senhores deles eram os mesmos que arbitravam os preços à proporção dos seus interesses; e não obstante estes excessos, acrescia serem revendidos pelos atravessadores, negros e negras vendedeiras que os compravam (CARTAS..., 1723 apud ACCIOLI; AMARAL, p. 385).

763

MATOS, 1968, p. 62-63.

764

Mais tarde, em 1769, D. Luis de Almeida Portugal vira-se obrigado a intervir no

mercado e proibir “os embargos que se faziam nos gêneros comestíveis” 765,

regularizando o comércio local. Vilhena relembra os esforços despendidos pelo então governador D. Rodrigo José de Menezes (1784-1788), logo no início de sua administração, para sufocar os desmandos dos especuladores e “monopolistas”, acostumados à inação – ou incapacidade de intervir - de governos anteriores:

Não tardou muito que o ócio pretérito não fizesse sobrevir uma muito sensível falta de víveres para um povo tão numeroso, chegando a extremo tal que o exmo. Governador se viu precisado a sair em pessoa ao Recôncavo, por aquelas paragens mais próximas, onde se colhia, e fabricava a mandioca, donde fêz expedir as possíveis porções de farinha para apaziguar, em parte o povo, que cometido da fome, se achava como em um desesperado frenesi; sabendo porém que aquela falta procedia, não só da escassez de frutos, como da ambição, e fraudes dos monopolistas, instituiu um Celeiro Público, para que nele, e não em outra parte, fosse o povo comprar farinha pelo preço correspondente à sua qualidade, e abundância [...]” (VILHENA, 1969, v. 2, p. 419).

Com base nestas informações, tomamos conhecimento então que a produção e distribuição de alimentos destinados à população de Salvador - ou pelo menos daqueles gêneros de maior procura -, ao longo do período colonial, atravessava fases de contração, em maior ou menor intensidade, resultando na tão temida “fome

universal” de que falava o Senado da Câmara766

ao final do século XVII. Em momentos assim, quando viam-se, pois, acossados pela fome, tinham os moradores da cidade que recorrer a todos os expedientes ao seu alcance para garantir um mínimo de subsistência. No nosso entendimento, seriam então as inúmeras lavouras espalhadas ao redor da cidade desde o final do século XVI767 – as roças e hortas -, bem como as plantações e criações domésticas encontradas nos quintais que reduziriam as privações de muitas famílias. 765 PORTUGAL, 1972, p. 174. 766 PMS, 1959, p. 51. 767 SOUSA, 1938, pt. 2, cap. 10.

Ou seja, aqueles produtos que “não se achava na praça, nem no açougue”768

eram, muitas vezes, encontrados dentro das casas:

Notava as coisas e via que mandava comprar um frangão, quatro ovos e um peixe para comer, e nada lhe traziam, porque não se achava na praça, nem no açougue, e, se mandava pedir as ditas coisas e outras mais às casas particulares, lhas mandavam. Então disse o bispo: verdadeiramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república, sendo-o cada casa (SALVADOR, 1975, p. 42-43).