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CAPÍTULO 3 – Aspectos legais

3.4. As Leis Extravagantes

O ordenamento jurídico do Império colonial português foi marcado por uma legislação complexa baseada no costume e na tradição jurídica. Havia uma multiplicidade de normas vigentes tanto para o Reino, quanto para o mundo imperial. Como se sabe, as Ordenações Filipinas, sistematizadas no período da união peninsular, foram o resultado de atualizações, adaptações e inovações dos códigos anteriores (Afonsinos e Manuelinos), que por sua vez eram tambem recompilações dos Direitos Romano e Canônico. Embora tenham sido utilizadas

479 Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Livro IV. Título XLII. Quando e como se hão de cumprir os legados pios e fazer os sufrágios que os defuntos em seus testamentos ordenarem, ou deixarem em arbítrio dos testamenteiros.

480 CASIMIRO, Ana Palmira Bittencourt Santos. “Constituições Primeiras Do Arcebispado Da Bahia: Educação, Lei, Ordem e Justiça no Brasil Colonial” In. Disponível em:

nos domínios ultramarinos, as Ordenações foram elaboradas pelos juristas ibéricos tendo como referência o reino de Portugal, ou seja, não tinham como alvo as conquistas de além-mar.

Não fortuitamente, às Ordenações se seguiram as Leis Extravagantes, que passaram a vigorar nas colônias, de modo a suprir as lacunas não contempladas pela dita compilação. Essa legislação complementar refletia a capacidade de ordenamento jurídico, de distribuição do poder e de mediação entre os poderes periféricos e centrais, além do controle sobre os diversos órgãos, instituições, entidades, cargos, ofícios e suas respectivas competências, de acordo com o modelo polissinodal, processo mediado e levado a cabo pela coroa portuguesa. As Leis Extravagantes foram fundamentais na governação e na administração do Império colonial e contribuíram para o enquadramento político e jurídico dos diferentes espaços do ultramar.

Tratava-se de um corpo legislativo amplo e variado que aos poucos foi sendo introduzido no mundo ultramarino de modo a atender às demandas locais e regionais das diferentes partes do Império. Eram necessidades diversas, de cunho político, social, jurídico, administrativo e comercial.481 As cartas de lei (e também as cartas régias, que tinham a assinatura do rei e valor de lei, mas eram destinadas a uma pessoa) e os alvarás serviam para problemas gerais. No entanto, a validade destes últimos era de apenas um ano. Já os decretos visavam resolver problemas específicos. De modo semelhante, à medida que os órgãos e instituições administrativas e de governo foram sendo implantados nas conquistas, eles necessitavam também de um corpo normativo que desse respaldo às suas estruturas de cargos e de funções. Nesse caso, a legislação correspondente era chamada de regimento.482 Esse diploma legal amparou os diversos agentes da Coroa nas suas diferentes zonas de atuação, ou seja, na justiça, na fazenda, no governo e na milícia, levando a cabo as ações emanadas do poder central.483 Portanto, tal normatização foi utilizada como forma de mediação entre o poder central e a administração periférica.

481 Cf.: MARCOS, Rui de Figueiredo; MATHIAS, Carlos Fernando; NORONHA, Ibsen. História

do direito brasileiro. Rio de Janeiro: Forense, 2014.

482 SILVA, Priscila de Souza Mariano e. A justiça no período josefino: atividade judiciária e irregularidades dos ouvidores na comarca de Pernambuco entre 1750 e 1777. Recife: UFPE, 2014, p. 37-38. Dissertação.

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Não obstante, as Leis Extravagantes necessitavam de constantes ajustes e adequações para solucionar impasses decorrentes de falhas, imprecisões, insuficiências silenciamentos e contradições. Muitas vezes os agentes não sabiam como agir em determinada situação. Do mesmo modo, as nuances dos seus regimentos não raro se desdobravam em inúmeros conflitos jurisdicionais com outras autoridades. Em tais ocorrências, recorria-se aos poderes do centro, sempre solicitados a intervir. Desses processos, surgiam as provisões – que eram correspondências expedidas por algum tribunal palaciano – e as resoluções, que consistiam em respostas a consultas feitas internamente no âmbito dos tribunais superiores. Dúvidas sobre como agir numa determinada situação, assim como as denúncias ou queixas contra os abusos de poder, eram enviadas ao reino e passavam por diversas mãos. Uma vez no reino, conforme o seu teor, a correspondência passava pelo parecer do procurador da Fazenda e/ou do procurador da Coroa ou por um deputado. Em seguida, o tribunal correspondente tomava uma decisão, que era despachada pelo rei. Esse processo era lento, dadas as condições de comunicação e transporte da época moderna em Portugal e suas conquistas ultramarinas.

De acordo com a concepção jurisdicionalista do poder, o rei personificava a coexistência de diferentes corpos cujas funções abarcavam a administração voltada para a utilidade pública, a resolução de conflitos de interesses, bem como o poder de editar leis.484 E nesse último aspecto, os tribunais e conselhos palatinos, como o Desembargo do Paço, o Conselho Ultramarino e a Mesa da Consciência e Ordens, se tornam centros de regulamentação, decisão e despacho de leis e ordens a serem cumpridas.

Como vimos no capítulo anterior, no Reino eram as Ordenações que inicialmente orientavam as práticas que os provedores dos Defuntos e Ausentes, Capelas e Resíduos deveriam observar. À medida que se operou a expansão territorial no além-mar, uma nova legislação foi introduzida para determinar a ação dos agentes do rei em terras coloniais. Com efeito, no Brasil a Provedoria de Defuntos e Ausentes, Capelas e Resíduos não fugia à regra. Assim como as mais variadas instituições coloniais, além das disposições das Ordenações do Reino, a Provedoria foi contemplada com uma legislação auxiliar (que fora criada a partir

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das diferentes circunstâncias, como a implantação do Governo Geral, do Bispado da Bahia e da Relação do Brasil) e depois com o Regimento de 1613. Como já dito, isso evidencia que a Coroa buscava adequar as suas instituições à realidade colonial.

Foram muitas as provisões, resoluções, cartas régias entre outros, destinadas às provedorias coloniais. Essas leis, frutos de conjunturas conflituosas que envolviam os membros da Provedoria e as diferentes autoridades locais e regionais, eram despachadas para as diversas partes do Brasil, sendo obrigatório o seu registro nos livros das câmaras e dos governos, incluindo os regimentos. Esses aspectos não devem ser perdidos de vista, pois os regimentos, as cartas régias, as provisões, as consultas e as resoluções são a espinha dorsal dos capítulos que se seguem.

* * *

Com efeito, e diante do que foi exposto até aqui, constata-se que no processo de institucionalização, de centralização do poder real e de expansão territorial, a Provedoria de Defuntos e Ausentes, Capelas e Resíduos ia tomando forma. Como se situava entre os aspectos religiosos e administrativos, envolvendo tanto o poder temporal quanto o poder secular, essa provedoria visava garantir o fortalecimento do poder real na colônia. Quando observados os preceitos corporativos da sociedade portuguesa, pode-se dizer que, ao menos em tese, em terras coloniais a Provedoria deveria assegurar uma continuidade com a metrópole. Mais do que isso, por meio da transmissão dos legados testamentários e do cumprimento das vontades pias, as funções ligadas a essa instituição deveriam assegurar a reprodução material e também espiritual de parte da sociedade colonial que, em tese, compreendia a si mesma como um corpo organizado a partir de uma conotação divina. Todavia, nos próximos capítulos tentaremos compreender em que medida esses preceitos eram válidos no mundo colonial. Mas antes de seguirmos a análise, é necessário recuperar, a partir da historiografia especializada, o perfil daqueles que encabeçavam o Juízo dos Defuntos e Ausentes, ou seja, os magistrados. Precisamos caracterizar minimamente esses agentes de modo a destacar a importância e o papel por eles desempenhado no âmbito imperial, para que possamos avançar na qualificação institucional da Provedoria.

3.5. Os provedores

Foi com o Regimento de 1613 que a Provedoria de Defuntos e Ausentes tomou impulso. A partir daí, os magistrados régios – isto é, ouvidores, desembargadores e juízes de fora – parecem ter gradualmente assumido a função de provedores dos Defuntos e Ausentes nas partes do Brasil. Desde o fim do medievo ibérico, a Coroa buscava criar mecanismos de controle dos poderes locais. A magistratura profissional foi criada para ser uma extensão da autoridade real. Tratava-se de um grupo de indivíduos que tinham formação universitária em direito e que atuariam na área da justiça. Tanto no reino quanto no ultramar, na qualidade de juízes da Coroa, os magistrados se tornaram a espinha dorsal do governo real.485

A criação desse grupo seleto de agentes demonstra a preocupação da Coroa em profissionalizar a administração e a justiça. O domínio das letras desempenharia um papel fundamental no nível local, onde prevaleciam a rusticidade e a oralidade.486 Assim, aos poucos a administração periférica passava a sofrer uma interferência do poder central, por meio dos representantes do rei: os corregedores e os juízes de fora, que atuariam como intermediários entre centro referencial do poder e as periferias. Como lembrou Stuart Schwartz, a presença dos magistrados nas cidades e aldeias portuguesas exprimia a intenção de controlar os poderes locais.487 Ainda segundo o autor, a racionalização do sistema judiciário havia se tornado o plano estrutural do Império, pois a magistratura foi estendida para as colônias e oferecia à Coroa um meio burocrático de controle.488 Por isso, a administração da justiça deve ser compreendida como um importante instrumento de centralização e ampliação do poder real. A criação de magistrados profissionais desempenhou um papel essencial nesse sentido489 e pode ser compreendida como um mecanismo que atendia à razão de Estado.

485 SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e sociedade no Brasil colonial. Op. cit. p. 76.

486 HESPANHA, António Manuel. “Centro e periferias na estrutura administrativa do Antigo Regime”. In: Ler História, Lisboa, 8, 1986; ANTUNES, Álvaro de Araújo. “Em meio às cutiladas e triagas: leis e justiça dos sábios e dos rústicos em Vila Rica e Mariana (1750-1808)”. In: I

Simpósio Impérios e Lugares no Brasil: território, conflito e identidade. Mariana: 2007,

ICHS/UFOP. Anais eletrônicos.

487 SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e sociedade no Brasil colonial. Op. cit. p. 29. 488

Ibidem, p. 40.

489 Ibidem, p. 34. Em relação ao ultramar, não foi apenas no Brasil que a Coroa se valeu da iniciativa particular para a implementação inicial de um sistema judiciário. No início do século XVI, já havia, em nas ilhas de São Tomé e Cabo Verde, terras jurisdicionais cujos senhores detinham o poder de nomeação de juízes, embora estivessem, desde 1516, sob supervisão dos

Aqueles que desejassem entrar para a magistratura deveriam se matricular na Universidade de Coimbra para adquirir um título acadêmico. Os estudos universitários abriam caminho para a administração civil e eclesiástica. Podia-se obter três títulos: licenciatura (que exigia quatro anos a mais de estudo, mas posteriormente à reforma de 1612 perdeu importância), bacharel (para quem quisesse ingressar nas carreira de advogado ou na magistratura), e doutorado (para aqueles que pretendiam seguir carreira docente na universidade).490

No que tange à feição contrarreformista da expansão marítima, não se deve perder de vista que a importância do papel desempenhado pelos jesuítas não se restringia apenas à catequização dos nativos, abrangendo também a formação intelectual dos representantes régios – os magistrados, com a filosofia neotomista na Universidade de Coimbra. Os alunos da Universidade de Coimbra, formados pelos jesuítas numa cultura de lealdade e obediência ao rei, aprendiam que a magistratura era uma criação do soberano, a quem deviam ser subservientes.491Tendo-se em vista os preceitos corporativos da sociedade portuguesa moderna, os magistrados eram as mãos que efetuavam os comandos enviados pela cabeça do corpo político – o rei.

Uma vez formados, os bachareis ingressavam na carreira jurídica. É certo que a maioria daqueles que se formavam não entravam para o serviço régio (ou seja, para a magistratura), optando por colocar os seus serviços à disposição daqueles que pudessem pagar pelos seus honorários de advogados. Não obstante, aqueles que ensejavam seguir na magistratura, deveriam se submeter à leitura de bacharéis, um exame admissional realizado no último ano da universidade. Por meio de tal exame o Desembargo do Paço selecionava os candidatos considerados aptos a ingressar na carreira magistrática. Tratava-se da elaboração e análise de uma lista na qual constavam os nomes e as informações pessoais dos candidatos, que geralmente eram indicados por outros magistrados ou pelo próprio Tribunal do Desembargo.492 As informações sobre a vida pessoal dos candidatos eram fornecidas por testemunhas, e as que mais interessavam diziam respeito à limpeza

corregedores régios. Em 1571 era nomeado o primeiro capitão donatário de Angola, com poderes para nomear ouvidores e confirmar as nomeações judiciais no nível municipal. Ibidem, p. 38. 490

Ibidem, p. 78.

491 Ibidem, cit. p. 79-80.

492 SOUZA, Maria Eliza de Campos. Ouvidores de comarca na capitania de Minas Gerais no

século XVIII (1711-1808): origens sociais, remuneração de serviços, trajetórias e mobilidade social

de sangue, à religiosidade e à honra pessoal.493 Esse órgão colegiado criava os critérios para a seleção, nomeação, avaliação e promoção da carreira magistrática.494 Uma vez aprovados, passavam a ser nomeados para cargos com mandatos trienais.

Acresce que muitos segmentos sociais eram excluídos do serviço régio, conforme os “defeitos” referentes à estratificação social vigente naquela sociedade de ordens. Era o caso de judeus, cristãos novos, negros, mulatos495 – considerados de sangue infecto – e daqueles que exerciam trabalho manual, ou seja, portadores de “defeitos” mecânicos. Contudo, em que pese tais critérios, a magistratura não se restringia aos estratos mais elevados da população. Era uma porta aberta para amplos setores da sociedade portuguesa da época, desde que pudessem arcar com os pesados encargos financeiros dos estudos na Universidade de Coimbra. Nesse sentido, não é difícil deduzir que, fosse pelos critérios formais, fosse pelos critérios “informais”, a maioria da população estava excluída do serviço real.

Saliente-se ainda que, em contraste com o deveria ser, já abordado no primeiro capítulo, as pesquisas sobre os magistrados no Brasil Colônia endossam a impossibilidade da completa observância dos limites impostos para o ingresso na vida acadêmica. Poder-se-ia dizer que, na prática, os critérios decorrentes dos “defeitos” eram constantemente burlados, sendo comuns as omissões e manipulações quanto às origens sociais e familiares dos candidatos.496 Aliás, algumas vezes a própria Coroa fazia vistas grossas e os candidatos reprovados pelo Desembargo, devido à mácula da origem mecânica, acabavam sendo dispensados de tal critério, podendo ingressar no serviço régio.497 Quando se tem em mente que um dos fatores que desencadearam a Revolução de 1789 na França foi justamente a estagnação dos mecanismos de ascensão social, isso nos permite relativizar a noção de burla e a pensar como a abertura de caminhos para a carreira no serviço régio poderia estar relacionada à Razão de Estado. Ademais, esses mecanismos não se basevam apenas em um momento específico da vida do indivíduo.

493 ATALLAH, Cláudia Cristina Azeredo. Da justiça em nome d’El Rey... Op. cit., p. 43. 494 SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e sociedade no Brasil colonial. Op. cit. p. 32, 80. 495 Ibidem, p. 292.

496

SOUZA, Maria Eliza de Campos. Ouvidores de comarca na capitania de Minas Gerais..., Op.

cit., p. 83-84, 204.

497 Foi o caso de 8 dos 84 ouvidores estudados por Maria Eliza de Campos Souza. SOUZA, Maria Eliza de Campos. Ouvidores de comarca na capitania de Minas Gerais no século XVIII (1711-

Quanto às origens sociais dos juízes designados pelo Desembargo do Paço, nos valemos dos dados levantados por historiadores estrangeiros e brasileiros que vêm se dedicando ao estudo da magistratura colonial. No levantamento da profissão paterna dos desembargadores que serviram na Relação da Bahia feito por Stuart B. Schwartz, a maioria dos magistrados eram filhos de nobres (fidalgos, letrados, médicos, governança da terra, amanuenses e comerciantes).498 De modo similar, considerando a filiação e os avós paternos e maternos, Maria Eliza de Campos Souza constatou que a maioria dos magistrados que atuaram nas Minas Gerais setecentistas era proveniente de famílias nobres.499 Por sua vez, Isabele de Matos Pereira de Mello afirma que, entre os magistrados atuantes na administração da justiça no Rio de Janeiro na mesma centúria, a maioria era composta por filhos de lavradores e de oficiais militares do reino.500

Como salientou Nuno Gonçalo Monteiro, houve uma ampliação do conceito de nobreza, que visava acompanhar a dinâmica social mediante o alargamento dos setores intermediários da sociedade, tanto no Portugal moderno quanto nas paragens ultramarinas. Nesse sentido, surgiram vários graus de nobreza: a nobreza política, ligada à governança; a nobreza da terra, formada pelaselitesagráriasque viviam à lei da nobreza; e a fidalguia, a nobreza herdada pelo sangue.

Se o serviço régio, mesmo em se tratando de funções honradas e nobilitantes, tinha portas abertas para alguns setores medianos ou mesmo subalternos, era de se esperar que a magistratura, por enquadrar-se na nobreza política, tenha se tornado uma oportunidade irresistível de aquisição de capital simbólico. Dessa forma, muitas famílias que angariaram importância econômica, mas que ainda galgavam o reconhecimento social, desenvolveram estratégias de mobilidade social em busca do estatuto de nobreza. O investimento na formação acadêmica de um dos membros se tornou um estratagema de nobilitação que atenderia aos seus anseios de ascensão social naquela sociedade de ordens.501Ao seguir o caminho das letras, entrando para a universidade e ingressando na magistratura, os seus filhos passavam a prestar serviços à monarquia. Isso lhes

498 SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e sociedade no Brasil colonial. Op. cit., p. 362-378. 499

SOUZA, Maria Eliza de Campos. Ouvidores de comarca na capitania de Minas Gerais no

século XVIII (1711-1808). Op. cit., p. 90.

500 MELLO, Isabele de Matos Pereira de. Magistrados a serviço do rei... Op. cit., p. 281.

501 SOUZA, Maria Eliza de Campos. Ouvidores de comarca na capitania de Minas Gerais..., Op.

conferia um grande prestígio político. Eram homens que vinham de famílias queviviam de suas propriedades fundiárias, de famílias de negociantes de grosso trato, de militares, de proprietários de ofícios e de letrados como médicos e advogados. Mas havia ainda uma quantidade menos expressiva de indivíduos que vinham de setores mais subalternos ou menos prestigiados da sociedade, como oficiais mecânicos e lavradores.502

Ademais, os serviços prestados à Coroa abriam múltiplas oportunidades de acumulação de títulos nobiliárquicos, o que contribuía para a distinção e a mobilidade social familiar. Embora fossem poucos os que no final da carreira conquistaram os títulos mais importantes, como os de cavaleiros fidalgos e fidalgos cavaleiros (cerca de 12% entre os ouvidores mineiros), outros títulos menores, mas muito expressivos, também funcionavam como elementos de distinção. Além dessas formas de prestígio e distinção por meio da acumulação de bens honrosos, a remuneração pela prestação de serviços à monarquia no ultramar conferia a oportunidade de acumulação de riquezas. O acúmulo de bens pecuniários, seja por meios lícitos ou seja por meios ilícitos, era outro elemento de distinção e elevação social.503

Em terras reinóis, havia três níveis magistráticos. O primeiro era o juiz de fora, criado em 1352; em seguida vinham os corregedores; e logo acima se situavam os desembargadores das relações superiores. O topo da carreira magistrática era alcançado com uma posição como desembargador da Casa da Suplicação, como conselheiro ultramarino ou como deputado da Mesa da Consciência e Ordens.504 Estes órgãos palatinos faziam parte de um processo de centralização e de certo cerceamento dos poderes locais. Cada qual tinha o seu regimento específico que, com o passar do tempo, foram sofrendo sensíveis alterações e sendo adequados de acordo com as necessidades.

Incumbido de exercer a presidência dos senados das câmaras nas municipalidades do reino, o juiz de fora atuava para cercear os abusos dos “aristocratas” e dos “fidalgos”.505

Este magistrado tinha atribuições

502 Ibidem, p. 90. 503 Ibidem, p. 115-155. 504

Cf.: Ordenações. Livro III, Título XLIV. SILVA, Priscila de Souza Mariano e. A justiça no

período josefino. Op. cit., p. 50.

505 CAMPOS, Pedro Moacyr. “As instituições coloniais: antecedentes portugueses.” In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (coord.). História geral da civilização brasileira. v. 1. Op. cit., p. 25.

administrativas e judicias e a sua presença representava a introdução de meios mais eficazes de controle judicial e administrativo. Uma das razões de sua criação