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O indivíduo e o processo de criação

2.3 Plano da Mídia

2.3.2 As Mídias na sociedade atual

Na sociedade atual, extremamente mediada pelas revistas e jornais, emissoras de rádio e televisão e pela Internet, os símbolos, embora mutantes, estão sempre presentes no processo de conhecimento. A construção de conhecimentos realizada pelo indivíduo na sociedade mediatizada envolve várias formas de expressão e comunicação, a utilização de diferenciadas linguagens e aparatos tecnológicos, bem como as formas de interações que ele estabelece consigo, com os outros e com o meio em que vive.

O avanço tecnológico e a conseqüente integração dos aparatos às várias ações que os indivíduos exercem ao longo de suas vidas demandam que se fique atento à “não neutralidade” dos meios.

Para o pensador francês Roland Barthes, vivemos num ambiente cultural difuso e os meios de comunicação abandonaram sua função de educar. Segundo esse pensador, há uma supervalorização de todas as expressões que alcançam a mídia e o que se vê é a rotulação generalizada de quase todas as expressões humanas, desde a música e o cinema até o comportamento das pessoas e o modo como elas se vestem. Atento ao crescente poder dos meios, Barthes dizia temer um mundo que se expressasse por idéias fechadas, em vez de matrizes de idéias, geradoras de reflexão. Um mundo assim, na sua opinião, se tornaria progressivamente menos apto ao entendimento e mais vulnerável aos conflitos (Costa, 2001).

Segundo Csikszentmihalyi (1999), na sociedade atual, o tempo livre é ocupado por três tipos principais de atividades. O primeiro é o consumo de mídia – na maior parte televisão, com uma pitada de leitura de jornais e revistas. O segundo é a conversação. O terceiro tipo de atividade é, para o referido autor, um uso "mais ativo" do tempo livre: hobbies, fazer música, praticar esportes ou exercícios, ir a restaurantes, ao cinema etc. Evidenciadas as principais atividades exercidas pelos indivíduos na atualidade, o autor enfatiza que a qualidade da programação veiculada pelos meios de comunicação e a quantidade de tempo que o indivíduo dedica à mesma podem levar a um lazer passivo e “viciante” pela facilidade com que as mídias atraem a atenção e "aprisionam" a ação do indivíduo.

Quando se aborda o uso de mídias, normalmente se apresenta a questão e propósito de quais indivíduos estão sendo formados pela mídia. Essa preocupação tem sido redimensionada, pois na época atual ressaltam-se a identidade, a subjetividade, a singularidade e, ao mesmo tempo, considera-se o multiculturalismo, pluralidade e diversidade cultural. Sob esse aspecto, Alves (2001) destaca que, apesar das ações de globalização que marcam diversos setores sociais em nossa vida cotidiana, observa-se, nas mais diferentes práticas culturais, uma afirmação das

individualidades e das diferenças. Adorno (1998, citado por Braga & Calazans, 2001), abordando as relações do indivíduo com a mídia em seus estudos sobre a violência, considera a mídia como um espaço de interpretação do social, e, por ser uma interpretação, passível de várias leituras e apropriações e não como um recurso plenamente poderoso no sentido da imposição de significações e da deflagração de atos sociais.

Quando se abordam as potencialidades das mídias, não faz sentido cotejar “vantagens e desvantagens” de um meio com relação a outro, pois, como ressaltam Braga & Calazans (2001), é o conjunto, em sua parcial diversidade e parcial redundância interna, que tem conseguido atender à variedade (crescente) de interações a que a sociedade se dedica.

A sociedade gera, desenvolve e usa um conjunto de meios diversificados para uma multiplicidade de necessidades e propostas variadas. Os meios, em articulação, se complementam. Cada componente desse conjunto viabiliza uma determinada variedade de produtos e processos (informação, troca de mensagens, entretenimento, conhecimentos, criação estética), utilizando diferentes substâncias expressivas (som, imagem fixa, imagem em movimento, expressão verbal escrita, expressão oral, formas, cores).

Braga & Calazans (2001) destacam que as bases de interesse geral das mídias tecnológicas modernas se concentram em torno do tripé propagação/atualidade/diversão. Esses meios, em função do tipo de sociedade em que surgiram, organizaram-se voltados a diferenciados objetivos: registro e transmissão de conhecimento, expressão literária, propagação de produtos, imagens e idéias; informação sobre atualidade; e entretenimento.

Interações sociais

Revisitando algumas concepções sobre os usos dos meios, Braga & Calazans (2001) observam que tradicionalmente os meios foram estudados em uma perspectiva que tendia a enfatizar sua ação sobre os usuários e receptores. Uma das preocupações habituais era investigar “qual o efeito dos meios” sobre seus usuários. Observa-se aí uma valorização excessiva das características tecnológicas e uma ênfase na mídia como sujeito da ação social.

Braga & Calazans (2001) ressaltam que, a partir dos anos 80, começa-se a perceber o usuário como possivelmente ativo. Redescobrem-se as inserções culturais dos receptores, usando suas

condições para agir concretamente sobre as mensagens, para além do nível elementar de selecioná-las ou não.

Avançando no tempo, Braga & Calazans (2001) observam que, a partir dos anos 90, com o uso do computador e particularmente da Internet, passa-se a ressaltar a interatividade nesse novo meio de comunicação. O processo mediatizado passa a envolver, além de algumas possibilidades de interações entre interlocutores, as interações do indivíduo com o produto, com o meio-de- comunicação, além de relações entre outros interlocutores sobre e a partir de produtos, sem a interferência imediata e recíproca de emissores/receptores entre si.

Com a interação mediatizada vista de uma forma ampla, o que mais importa é a situação de grupos e pessoas interagindo sobre os produtos mediáticos, percebidos como disponibilidades sociais, e, sob esse aspecto, todos os tipos de interação passam a ser relevantes tanto para a comunicação como para a educação, trabalhando modos acurados de ver o mundo em sua diversidade social e de vivenciá-lo pela inclusão do imaginário e do simbólico.

Braga & Calazans (2001) consideram que ainda não dominamos conceitualmente nem praticamente todas as complexas questões que envolvem o funcionamento de uma sociedade mediatizada e que as perspectivas apresentadas ainda são insuficientes para dar conta das relações entre a sociedade e seu sistema mediático. Tais perspectivas contribuem para deixarmos de pensar a comunicação social como uma relação bipolar entre mídia e usuário, passando-se a observar a ocorrência de interações entre setores da sociedade e entre pessoas através dos meios de comunicação. O que se tem de concreto é que os materiais simbólicos que circulam na sociedade são interpretados e usados, são fontes de ações e de interações entre pessoas, e produzem efeitos de sentido. Esse complexo jogo de interações, que ocorre em graus variados e em combinações incessantemente reformuladas, caracteriza uma sociedade mediatizada.

Para Braga & Calazans (2001), sociedade mediatizada assinala a presença e a relevância da mídia na comunicação entre as pessoas, sem entretanto pretender que a mídia “determine” as estruturas sociais ou que seja monolítica e totalizante.

Ao se dotar de mediações tecnológicas para desenvolver as interações sociais, a sociedade não apenas acrescenta instrumentos que aceleram e diversificam sua comunicação, mas acaba por modificar seus próprios processos. A fotografia, o rádio, a televisão, o cinema oferecem o som e a imagem como substâncias de objetificação. Mas propõem, sobretudo, outros modos de representar o mundo, outras percepções, outras maneiras de construir esse mundo.

A importância dos novos meios não deriva apenas dos oferecimentos imediatos que nos fazem (imagem, som, registro, reprodutibilidade técnica, aceleração, simulação, virtualização); advém também, de suas características modificadoras na comunicação. Os novos recursos, além de incluírem elementos que podem ser representados, adicionam também os processos e espaços sociais registráveis pelos equipamentos. Nesse sentido, os meios de comunicação penetram nos processos sociais, modificando-os em função de seus próprios modos operatórios. A comunicação passa a ser, ao mesmo tempo, parte constitutiva e necessária em qualquer atividade social como espaço geral de interações sociais.

A proposta de “estudo para os meios” na escola seria voltada para o desenvolvimento dos estudantes em sua capacidade de trabalhar com a lógica das tecnologias mediáticas, com seus processos criativos, com as questões político-sociais e econômicas dos sistemas mediáticos. A outra linha pode ser referida como a de “leitura crítica”. Trata-se de observar a produção corrente da mídia para, por meio de pontos de vistas diferenciados, desenvolver nos estudantes uma competência para a “leitura” (interpretação) desses produtos e processos. As duas perspectivas, de “educação para os meios” (media education) e de “leitura crítica”, são complementares entre si, e estão possivelmente envolvidas em um mesmo programa de ação. Observa-se que o desafio transcende a questão de inclusão da mídia na escola. Trata-se de decidir como, através de que processos, com quais critérios e objetivos, a escola pode trabalhar tais questões de modo efetivamente útil e intelectualmente enriquecedor.

Na sociedade mediatizada, os saberes circulam de modo acelerado, diversificado, a partir de fontes variadas e vinculados a objetivos diferenciados. Mais do que “saberes”, multiplicam-se dispositivos de mediação e circulação dos saberes. Em conseqüência, deve-se modificar também as aprendizagens relacionadas a tais saberes.