cenário: Nesse momento estavam presentes algumas crianças que haviam participado do
encontro anterior e várias outras que não estavam (por terem faltado ou por terem sido encaminhadas para outra atividade da instituição como educação física, realização de tarefas da escola regular etc.). A professora também acompanhava a atividade. Foi utilizado o que as crianças fizeram para se destacarem pontos ainda frágeis quanto à captura de imagens com os equipamentos. Como algumas das crianças não sabiam o que havia acontecido no encontro anterior e também como algumas das crianças produtoras das filmagens não estavam na sala no momento o pesquisador comentou algumas das filmagens visando situar o que estava ocorrendo no momento em que elas filmavam ou o que elas queriam retratar. Como, ao emitir seus comentários, o pesquisador imprimia a sua leitura sobre a gravação das crianças, buscou-se, ao término da exibição das filmagens, saber o que eles reconheciam nos trabalhos filmados e as intenções do trabalho de filmagem realizado na atividade anterior.
. vendo e comentando o material elaborado na atividade anterior
Como já abordado anteriormente, as crianças haviam filmado a sala de computadores, pessoas e objetos existentes naquele espaço: telas, teclados, livros, cd-rom. Filmaram também o que estava acontecendo na sala no momento da filmagem: computador exibindo vídeos, criança lendo livro, crianças tirando foto, crianças filmando páginas do livro para montar uma história.
Neste momento, as crianças assistiram à filmagem feita no dia anterior e foram questionadas sobre a qualidade da captura de imagens (movimento e foco da câmera), sobre as “leituras” que faziam das imagens e das intenções das pessoas que as haviam elaborado. A cada conjunto de imagens de uma dada criança, havia conversas abordando os elementos filmados, os efeitos obtidos, bem como a diferenciação de filmagens de elementos que estavam no ambiente.
Em uma das filmagens, ficava evidente o exercício exploratório da criança em ativar e desativar a gravação e o início de troca de informações entre as crianças. Ao assistirem à filmagem, estabeleceu-se um diálogo em que alguns colegas orientam a produtora do vídeo a observar os indicadores: luz e a palavra rec para saber se a filmadora estava ou não filmando.
Nos comentários ocorridos a partir da exibição da filmagem buscou-se resgatar, com as crianças, fatores referentes à manipulação do equipamento. Assim, é possível observar momentos nos quais estão conhecendo o instrumento e especificidades de seu funcionamento:
pesquisador- Como a gente sabe se a filmadora está ligada ou desligada? Gisele – Pela luzinha, olha a luzinha ali.
Criança2 – Faz barulho.
pesquisador- Ah! Tem outra coisa também. A gente não precisa olhar para a luzinha. A gente olha dentro daquele quadradinho na câmera e vê uma palavrinha escrita...
Gisele – Rec.
A partir de uma filmagem que apresenta imagens desfocadas, gerada com o movimento zoom-in de câmera, uma das crianças expressa sua compreensão sobre o movimento e apresenta uma solução para a obtenção mais nítida da imagem do vídeo a que estava assistindo:
Gisele – Tinha que fazer o zoom puxado para trás (criança faz o movimento com as mãos e o corpo)
Esta mesma criança esclarece dúvidas de um colega, que não havia participado da atividade anterior, a respeito da manipulação do equipamento para obtenção do movimento zoom-in:
Guilherme - O zoom é um negócio que quando aberta um botão vai pra frente? Gisele – Aperta um botão vai pra frente e aperta outro botão vai pra trás.
Comentando sobre outra filmagem esta mesma criança revela as inferências e apropriações que estava estabelecendo a respeito da aproximação e distanciamento de objetos na filmagem.
Gisele – Foi muito rápido, não dá para eu ver!
Gisele – Não vê nada se pôr perto. (refere-se ao movimento zoom in usado na filmagem) pesquisador- Isso. Se fica muito perto, embaça, e se fica muito longe, também embaça.
Outra constatação estabelecida pelas crianças no momento de assistirem à filmagem foi a de que ambientes com muito barulho dificultam o entendimento da comunicação ocorrida no vídeo. Constataram também a necessidade de desligar a câmera ao término da captura da imagem, pois, como havia acontecido em uma das filmagens, foram capturados eventos que a criança não tinha intenção de filmar:
Gisele – Acho que ficou legal!
As crianças que não haviam participado da atividade anterior, ao assistirem aos vídeos, buscavam mais indícios para compreender o material imagético produzido pelos colegas:
Maycon – O que estava acontecendo aí?...Professora, por que estava cantando esta música aí? pesquisador- Era um cd que eu tinha posto no computador e ele estava tentando filmar o
computador
Aparecido – Ah! Era o cd-rom?
Maycon – Por que esta passando este negócio aí? (referindo-se às faixas contínuas que aparecem na gravação da tela do computador)
Pesquisador: Era um cd-rom que eu tinha posto no computador e ele estava tentando filmar o computador
. sintetizando a temática abordada pelas crianças por meio das diferentes filmagens
Após verem e comentarem as filmagens, as crianças foram questionadas sobre se haviam obtido êxito com as capturas de imagens, ou seja, se haviam conseguido registrar elementos e eventos na sala de computadores. Os comentários das crianças revelam que haviam conseguido veicular por meio de imagens o que estava acontecendo na sala de micros bem como os objetos existentes e a atuação das pessoas naquele momento:
Professora- Qual era o assunto que as crianças estavam filmando? Aparecido- Os micros.
Criança1 – A sala. Criança2 – As pessoas.
Maycon – Os objetos dentro da sala.
Criança3 – Vendo o que tinha dentro da sala de computação. Aparecido - Os livros.
Criança4 – Os cds. Criança5- O vídeo.
Ao ser lançado o próximo “desafio” – registrar por meio de imagens o que pensavam, o que queriam dizer sobre a preservação da natureza e a reciclagem - uma das crianças questionou: “A gente é que vai ter que fazer?”. Tal questionamento dá indícios de seu sentimento de dúvida sobre o êxito que poderiam obter nessa nova etapa. Diante de tal questão, voltou-se a enfatizar o que já haviam conseguido, os avanços e as conquistas do grupo, para só então enfocar os próximos passos.
. tirando dúvidas sobre a obtenção de imagens
Também houve a oportunidade de serem trabalhadas algumas dúvidas referentes à manipulação de equipamentos, às formas de captura e planos de enquadramento de imagens. Foi apontada, para as crianças, a necessidade de melhorar a filmagem para que as pessoas pudessem ver
melhor as imagens, contribuindo para o entendimento da idéia filmada. Para isso, algumas dicas de captura de imagem foram apresentadas, utilizando figuras de alguns livros:
• como segurar a filmadora para que a imagem não ficasse "tremida";
• enquadramento de imagem (ponto de referência é o quadrado da tela do equipamento); • colocando em evidência elementos a serem filmados (ocupando o centro da imagem); • relação entre os elementos a serem filmados e a posição que eles ocupam na tela; • posição horizontal e vertical da câmera para ressaltar/enquadrar objetos na filmagem/foto; Tomar contato com a qualidade do material gerado por elas na atividade anterior levou-as a buscar mais informações e também a estabelecer alguns padrões, visando à obtenção de um melhor resultado (como, por exemplo, quando filmar, apoiar a câmera numa base para obtenção de imagens menos tremidas, a velocidade de movimentação da câmera interferindo na imagem que está sendo capturada).
A abordagem de algumas figuras para enfocar enquadramentos de imagens possibilitou o direcionamento do olhar das crianças para questões referentes à captura de determinados elementos em destaque, enquadramento de assuntos em plano geral, em primeiro e segundo plano, noção de profundidade de campo, luminosidade, relações entre a posição do fotógrafo e as linhas que definem a imagem. O olhar atento das crianças sobre os elementos imagéticos levou-as a estabelecerem relações e a expressarem avaliações sobre as imagens apresentadas. Além disso, as observações proferidas dão indícios de como elas selecionam com base em algum critério de qualidade :
Maycon – A foto que saiu melhor foi está última. pesquisador- Por quê?
Maycon – Porque focalizou melhor. Aparecido – Pegou o corpo todo.
pesquisador- Porque os dois estão no centro da fotografia.
A análise de elementos imagéticos possibilitou também investigações por parte das crianças a respeito da obtenção de planos mais abertos e fechados de imagens. Em um dado momento, uma das crianças questionou sobre como proceder para obter um dado efeito na captura de uma imagem e outra criança lançou sua estratégia de se aproximar fisicamente do objeto para obter um
Maycon – Como faz para pegar sem ser o corpo todo, só do jeito que está naquela foto? pesquisador- Você tem que levantar a câmera e focalizar dentro do quadradinho só o rosto. Aparecido – Você também pode deixar a câmera reta e chegar perto. Mas não muito perto, né!
. redirecionamento da ação das crianças para a nova etapa de trabalho da oficina: elaboração de materiais para serem enviados para um concurso
Num primeiro momento, buscou-se a explicitação da criança sobre a proposta de trabalho que estava sendo abordada visando clarificar algumas dúvidas a partir desta comunicação:
pesquisador- Vocês sabem por que vocês vão fotografar, filmar, escrever ou desenhar coisas? Criança1 – Para participar do concurso.
pesquisador- Vocês sabem o que eles querem saber neste concurso? Aparecido- O que nós aprendemos com você.
Keyla – Se a gente filma.
Maycon – Ah! Fotografar sobre a reciclagem.
Vale aqui ressaltar a importância de se obter indícios da compreensão das crianças sobre o contexto em que estão atuando. Neste diálogo, observa-se que a compreensão de suas atuações transita entre o que estavam executando no momento e a temática que iriam desenvolver. Tal compreensão revela também a visão da criança sobre o que o espaço escolar em geral propõe: testar o que foi aprendido pelo indivíduo, seja em termos de conteúdos ou habilidades. A última colocação desse diálogo revela que a criança compreende sua ação no contexto, ou seja, expressar-se a respeito de uma dada temática utilizando-se da imagem como linguagem.
O redirecionamento da atenção das crianças para a participação no concurso e para a abordagem de uma dada temática possibilitou a elucidação de novas dúvidas referentes à atividade de que estavam participando:
Aparecido – Nós vamos competir com os Japoneses? Raquel- Mas as outras crianças também vão ver?
É relevante observar, ainda, que tais questionamentos contribuem para que destaque a importância do olhar do "outro" sobre o fruto da vivência do indivíduo em processos de criação.
Em outras atividades desenvolvidas na escola, itens como coleta seletiva do lixo, processo de reciclagem de papel, preservação do meio ambiente já haviam sido abordados. Buscou-se então
levar as crianças a refletirem e se expressarem sobre estes assuntos, no intuito de revelar para outras pessoas o que estavam fazendo, vendo, pensando e aprendendo sobre tais temáticas.
. começando a pensar sobre o que filmar, fotografar, desenhar ou escrever
Neste momento, a atividade foi direcionada para a necessidade de as crianças planejarem o que iriam abordar e enviar para o concurso. Procurou-se levá-las a pensar sobre a preservação da natureza e a reciclagem em relação à comunidade.
Nesta oportunidade, algumas crianças expressaram determinados elementos que gostariam de retratar: lixão e córrego próximos a sua residência, ação de jogar lixo fora dos respectivos recipientes de coleta.
pesquisador- Quem tem alguma coisa para falar e que gostaria de mostrar?
Maycon – Se eu ganhasse a máquina fotográfica ou então a câmera eu ia lá no lixão e ia tirar um montão de foto lá. Tem um outro lugar perto da minha casa que tem um córrego que tá um lugar proibido, porque muita gente joga lixo lá.
pesquisador- O que você gostaria de falar com estas fotos aí?
Maycon – Queria falar para quem joga lixo nas ruas que é muito perigoso. Quando dá enchente, fica tudo em frente das nossas casas e fica muito ruim. Aí a gente tem que ficar limpando.
As crianças também foram orientadas a descrever no storyboard, por meio de textos e desenhos, o que gostariam de tratar com as fotos e vídeos. Ao fazer tal descrição, estariam envolvidas em pensar e especificar o que queriam filmar, como iriam filmar e o porquê. Nesses planejamentos, poderiam revelar quais materiais, objetos e pessoas seriam filmados. Poderiam também registrar quais recursos seriam utilizados para gerar e capturar imagens: desenhos em papel, desenhos elaborados no computadores, imagens do mundo real, como as cenas seriam divididas, quais movimentos de câmera seriam utilizados.
Considerações sobre o Momento 3
A análise sobre o material gerado demandou a busca de mais informações, bem como o estabelecimento de algumas estratégias para obtenção de melhores resultados.
As crianças, ao assistirem as filmagens realizadas e ao opinarem sobre as mesmas, puderam resgatar informações sobre o manuseio do equipamento, relacionar recursos do equipamento com a obtenção de imagens com melhor qualidade, estabelecer inferências, esclarecer dúvidas e solicitar mais informações. Estabelecer um "olhar focalizado" possibilitava o estabelecimento de vínculos entre o evento filmado e o contexto no qual ele havia ocorrido.
Nas análises realizadas pelas crianças, pode-se observar dois tipos de “olhares”: as crianças que haviam participado da atividade anterior, ao assistirem às filmagens, rememoravam o que haviam vivenciado, relacionando o elemento filmado ao contexto ocorrido. Dispunham de várias fontes de referência para olhar o que é veiculado pelas imagens e para estabelecer suas significações. Nesse sentido, assistir às filmagens que os colegas haviam realizado possibilitou o desencadeamento do processo de rememoração e reconstituição de parte da experiência vivida, pelas imagens e nas imagens. As crianças que não haviam participado do evento anterior, ao assistirem às filmagens, faziam questionamentos com o intuito de constituírem sua leitura da filmagem. Por outro lado, assistir à filmagem sobre algo de que não haviam participado privilegia um "olhar de fora" que favorece a síntese, a apreensão de conjuntos de eventos. Já o assistir a algo referente a um contexto de que se tenha participado, favorece um "olhar focalizado" e, nesse sentido, rever uma dada cena pode desencadear pontes e relações com o momento vivido.
Esses dados também nos permitem destacar que a significação de uma imagem visual é constituída em grande parte pela experiência e pelo saber que a pessoa contempladora adquiriu anteriormente. Identificados esses tipos de "olhares", podemos dizer que o contato com as imagens requer, além de aguçados mecanismos de percepção visual, também imaginação, dedução e comparação dessas com outras imagens para que o intérprete possa se constituir em um receptor competente. Entre a imagem e a realidade que ela representa existe uma série de mediações que fazem com que, ao contrário do que se pensa habitualmente, a imagem não seja restituição, mas reconstrução da realidade. Retomando os dizeres de Goethe (citado por Leite, 1998 p. 40), "em cada olhar atento, uma inspeção; cada inspeção, uma reflexão; cada reflexão, uma síntese".