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4 O PLANEJAMENTO EDUCACIONAL NO CONTEXTO DA REGULAÇÃO

4.1 PLANEJAMENTO EDUCACIONAL E FEDERALISMO NO BRASIL

4.1.1 A gênese do PNE: a influência dos Pioneiros

4.1.2.1 As metas do PNE de 1962: o descaso com a EDA permanece

Estabelecidas pelo Conselho Federal de Educação, sob o protagonismo do Estado, as metas quantitativas abrangiam os três níveis de ensino à época, conforme Horta (1982), Ensino

Primário - matrícula até a quarta série de 100% da população escolar de 07 a 11 anos de

idade e matrícula na quinta e sexta séries; matrícula de 70% da população escolar com faixa etária de 12 a 14 anos; Ensino Médio - matrícula de 30% da população escolar de 11 a 14 anos nas duas primeiras séries do ciclo ginasial; matrícula de 50% da população escolar de 13 a 15 anos nas duas últimas séries do ciclo ginasial; e por matrícula de 30% da população escolar com faixa etária de 15 a 18 anos nas séries do ciclo colegial; Ensino Superior - expansão de matrícula até a inclusão, pelo menos da metade daqueles que terminam o colegial.

As metas qualitativas estabelecidas pelo Conselho Federal de Educação para o Plano Nacional de Educação tinham por finalidade assegurar a consecução do segundo objetivo da LDB de 1961, artigo 3º: “[...] a melhoria progressiva do ensino e o aperfeiçoamento dos serviços de educação” (BRASIL, 1961, p.16, grifo nosso). Assim, a operacionalização desse objetivo exigia a determinação de variáveis que pudessem influenciar na qualidade da educação. Para tanto, o Conselho Federal de Educação (CFE) optou por um conjunto de medidas por nível. Para o Ensino Primário, optou por uma qualificação do corpo docente e alterações no tempo de permanência do aluno na escola e pela inclusão de artes industriais no currículo da 5ª e 6ª séries. No que concerne ao Ensino Médio, a melhoria seria alcançada por uma modificação de ordem didática e pela ampliação da carga horária do dia letivo. No que tange ao Ensino Superior, a melhoria da qualidade seria efetivada mediante ampliação do número de professores e alunos em regime integral.

Em face desses objetivos, o CFE deveria estabelecer os critérios segundo os quais os recursos seriam divididos entre as diferentes unidades da Federação. Não se tratava, ainda segundo Horta (1982), de uma experiência difícil, haja vista a experiência do FNEP e do FNEM. Com efeito, o mecanismo instaurado não foi muito diferente daquele já adotado pela execução dos fundos anteriores à LDB. Assim, ao elaborar o Plano Nacional de Educação, em 1962, o CFE tomou como referência propostas de um estudo realizado por Anísio Teixeira apresentado ao plenário em 1962, propostas também apontadas no documento “Sobre o Problema de Como Financiar a Educação do Povo Brasileiro”20

. Os princípios apresentados foram levados em

20

consideração nos debates acerca do FUNDEF e FUNDEB implantados nas décadas de 1990 e 2000, conforme destacado por Martins (2011):

 a educação é um serviço comum e solidário das três órbitas administrativas, sendo responsabilidade do governo federal uma ação fundamentalmente supletiva;

 no nível primário, o plano deverá ser de assistência financeira em primeiro lugar, para em segundo plano exercer assistência técnica;

 deveria ser avaliado o custo por aluno;

 o ideal seria que a educação fosse oferecida por estado e por município de modo equivalente, com professores competentes e pagos da mesma forma;

 as despesas com o magistério deveria considerar um total de 70% da despesa total do fundo.

Assim, sob esses princípios, o Plano Nacional de Educação de 1962 estabeleceu normas reguladoras da aplicação dos recursos nos três níveis de ensino: Primário, Médio e Superior. As normas tinham critérios mais delineados em relação ao Ensino Primário e Superior; no âmbito do Ensino Médio eram muito mais gerais, além de não fixar nenhum índice percentual como fora feito com o Ensino Primário.

Para o Ensino Primário, delineou-se a forma de uso do recurso público e a quantidade de parcelas que seriam administradas em regime de colaboração entre estados e União, além do cálculo por aluno/série. Para o Ensino Médio - nível direcionado à população de 11 a 18 anos - estabeleceu-se em primeiro lugar que os recursos seriam destinados a manutenção federal do Colégio Pedro II, das Escolas Técnicas Industriais e das Escolas Especiais de deficientes e outros institutos federais, além de oferecer bolsas para alunos provenientes de locais onde não houvesse Ensino Médio. Em relação ao Ensino Superior, limitou-se a constatar que as despesas da União excediam aos recursos do Fundo. Por isso, o CFE fez algumas recomendações; dentre elas, a não expansão das universidades21.

Em face do exposto, constata-se mais vez o descaso em relação à EDA no Plano de Educação de 1962, pois a criação dos fundos de financiamento, a organização dos níveis e a proposição das faixas etárias a serem atendidas não contemplavam medidas direcionadas à população

21Sobre o assunto ver Horta (1982, p. 93-125); Martins (2011, p. 80-84); e, discussão sobre o Planejamento

Educacional no Brasil no âmbito do Fórum Nacional de Educação organizada em documento por meio da colaboração de Genuíno Bourdignon, Arlindo Queiroz e Lêda Gomes -, disponível em: http://fne.mec.gov.br/images/pdf/planejamento.

adulta e analfabeta do país; fato que denuncia a fragilidade e o caráter dual e elitizante do plano. Destaca-se também que as disputas em torno da elaboração do Plano Nacional de Educação de 1962 revelam ainda as interferências internacionais via acordos estabelecidos por ocasião das conferências mundiais; interferências dos signatários do manifesto bem como o protagonismo do Conselho Federal de Educação, enquanto órgão estatal. Além disso, verifica-se o baixo grau de representatividade das classes mais pobres, apesar de os movimentos sociais estarem em cena.