3.1 As mulheres da paz no “Planeta dos Macacos”
3.1.3 As MPs em foco
As MPs alocadas no Colégio Municipal de São Cristóvão (o ―Colejão‖) se dividiram em duas turmas bastante distintas entre si. As turmas Municipal I e II compreenderam 48 mulheres, cujas idades variavam entre os 19 e 65 anos, a maioria casadas, com filhos, mas havia também as solteiras com e sem filhos, quase todas desempregadas - com exceção de algumas poucas agentes de saúde -, alfabetizadas, como exigência do curso, com escolaridades variadas. Havia algumas lideranças comunitárias, porém, a maioria era composta de mulheres que passavam a maior parte do tempo em casa, desenvolvendo as atividades domésticas. As turmas se distinguiam em número e comportamento, sendo que a Municipal I continha 33 mulheres, bastante participativas e colaborativas no desenvolvimento das oficinas. Portanto, diferente da turma Municipal II, que, embora em menor número, 15 no total, apresentou grau maior de dispersão e conflitos, dificultando o andamento das atividades propostas.
Foi possível identificar uma tensão promovida pelo convívio direto com os problemas decorrentes de um bairro segregado pela rivalidade entre lideranças do tráfico de drogas e acometido pela violência institucional. Algumas MPs eram esposas, tias, mães ou irmãs de
160 traficantes, em alguns casos, de envolvidos cumprindo pena em penitenciária ou na delegacia à espera de julgamento. Outras mantinham algum tipo de relação de afetividade com os mesmos. Nesse sentido, as suas expectativas sobre a formação eram grandes. De modo geral, elas buscaram obtenção de conhecimento sobre os seus direitos e deveres, promoção da paz e a continuidade do projeto, em suas palavras: menos brigas, mais oportunidades, trabalhos,
igualdade; ou cursos profissionalizantes e ajuda para os jovens; ou boa educação, enfrentar brigas familiares, mudança total; ou uma vida melhor, mudar a vida de muitas famílias que estão sendo destruídas pelas drogas, combater a violência que está demais em nosso bairro;
por fim, união, cidadania, que este projeto venha mudar a realidade atual da nossa
sociedade.
O perfil das turmas para o curso de MP compreendeu uma estratégia da equipe de coordenação em congregar mulheres com perfil de liderança para o desempenho das atividades de mediação de conflitos, diante de alguns imprevistos ocorridos durante a seleção. Diante da desistência de muitas candidatas, então, a equipe afrouxou critérios seletivos, inserindo as mulheres que já desenvolviam atividades de liderança. As poucas líderes fariam o papel de mediadoras dentro do próprio grupo. Conferi o destaque no perfil da turma, de um modo geral, agora, situo algumas particularidades, com o intuito de argumentar sobre a situação na qual se encontram essas mulheres.
Os nomes atribuídos às mulheres que prestaram as informações são fictícios, dada a importância à preservação das suas identidades, conforme a ética no trabalho de pesquisa social e das Ciências Sociais. O anonimato das pessoas envolvidas no desenvolvimento da pesquisa implica em cuidado com relação à integridade moral e física. Levo em consideração os pontos referidos, assegurando como princípio ético a oposição a qualquer possibilidade de identificação dos relatos às identidades das mulheres envolvidas. Entretanto, vale considerar que o anonimato não é algo inteiramente conquistado, já que as histórias circulam nesses espaços e entre as próprias personagens, e dadas as posições de destaque assumidas por algumas delas.
Selecionei sete mulheres do bairro de São Cristóvão para compor o processo da construção dissertativa, representando um pequeno grupo das beneficiárias da política. Para tanto, segui dois critérios. Dadas as circunstâncias de hostilidade por parte das lideranças do tráfico de drogas – como já descrito anteriormente – selecionei as participantes das oficinas dos grupos que liderei no trabalho de consultoria pedagógica pelo projeto MP. Durante a
161 formação, eu e as MPs havíamos cultivado laços de amizade e relações de confiança entre nós. Então, preferi aquelas que já vinham num processo de expor problemas no bairro, tanto nas aulas, como em conversas informais e particulares comigo nos intervalos. Portanto, as que sentiam maior liberdade de expressar suas observações e queixas.
Selecionei o primeiro grupo de mulheres formado por Dilma, Rita e Thaís – as duas últimas, líderes comunitárias no bairro. Assim, como primeiro critério, procurei reunir mulheres de referência no bairro, selecionando quem já exercia liderança comunitária antes do processo formativo, assim como quem não havia passado pela experiência, mas que já fazia queixa sobre o contexto em que se deu o projeto do PRONASCI.
Além disso, como segundo critério, agreguei ao grupo as MPs indicadas pelo primeiro grupo constituído, bem como pela coordenadora Fátima. Então, Diana foi indicada por Dilma, que era sua vizinha; Lourdes e Marta foram inseridas por indicação de Thaís, que me alertara, inicialmente, sobre o risco, caso entrevistasse outras MPs; por fim, incluí a líder comunitária Zeferina, por indicação de Fátima, a única participante de outra turma do curso de formação (ainda no ―Planeta‖), por ser uma das MPs mais antigas do bairro. Então, fechei o grupo de sete MPs, cujas idades se encontravam no intervalo de 33 a 63 anos. Essas MPs são moradoras do Parque São Cristóvão, da Rua Yolanda Pires, do Conjunto Habitacional de São Cristóvão (―Planeta dos Macacos‖ ou ―Planeta‖) e das proximidades da Rua Aliomar Baleeiro, com exceção da moradora da cidade de Lauro de Freitas.
Durante a pesquisa, constatei uma divisão, em particular, entre as MPs segundo dois aspectos. O primeiro ponto de cisão no grupo se estabeleceu com relação ao apoio e continuidade de laços e atividades estabelecidas ao lado de Fátima. Uma parte passou a hostilizar o trabalho de Fátima, em virtude da falta de parte do pagamento de uma campanha na qual trabalharam por incentivo da mesma. É costume candidatos pagarem um valor módico pelo trabalho de distribuição de ―santinhos‖ de candidatos em dias de eleição. Então, Fátima resolveu mobilizar estas MPs para o trabalho. Entretanto, o candidato deixou de realizar o pagamento prometido, de forma que um grupo de MPs culpou a coordenadora. Por sua vez, houve outro grupo de MPs que acreditou na idoneidade da liderança e permaneceu apoiando o seu trabalho, logo depois, ingressando no outro projeto chamado de Mulheres da Paz em
Ação.
Oliveira (2009) problematiza o alcance dos movimentos populares urbanos no Brasil nos anos 1990, enquanto clientela política de grupos, longe de se constituírem como base de
162 um movimento político. O movimento tal como se apresenta indica a crise do sistema político cujos atores não desempenham o questionamento da organização social. Em São Cristóvão, os candidatos locais envolveram a população durante o período eleitoral, alguns se elegeram, mas se distanciaram das questões referentes ao bairro de origem.
O segundo aspecto de cisão entre as MPs se estabeleceu com relação à proximidade estabelecida com os grupos de traficantes. De um lado, posicionavam-se as MPs que mantinham relacionamentos variados com essas lideranças, como também mantinham envolvimento com a atividade criminosa. Essas MPs não escondiam tais laços e despertavam sentimentos de repúdio pela outra parte do grupo. Do outro lado, ficaram o grupo das mulheres que não estabeleciam esses tipos de contatos com os (as) líderes do tráfico.
Não foi possível desenvolver um estudo aprofundado sobre as MPs ―envolvidas‖, dadas as circunstâncias já mencionadas. Entrevistei as MPs que exerciam (ou não) as atividades comunitárias no bairro, sem vínculo com o tráfico de drogas. O primeiro grupo de MPs ao qual darei uma explanação particular é formado por Dilma, Diana e Marta, que não exercem atividades de liderança no bairro.
3.2.3.1 Dilma
Dilma é uma mulher de 44 anos de idade, autodefinida como parda durante a entrevista, mas nos seus escritos se coloca como mulher negra. Ela tem o Ensino Médio concluído, é casada, mãe de três filhos, desempregada e a única responsável pelas atividades domésticas em sua casa. É moradora do bairro há catorze anos. No curso, Dilma chamou a atenção da turma devido à quantidade de páginas escritas com seus pensamentos e sobre o seu cotidiano, em forma de diários – a atividade proposta, já mencionada anteriormente, para viabilizar a expressividade das participantes – como também pela constante participação nas oficinas de formação. Em sua escrita se fazem presentes críticas que tece sobre a sua condição de mulher negra, pobre, casada com um homem branco, mãe de dois filhos, moradora de um bairro com problemas como falta de transporte urbano, poluição sonora, brigas constantes
163 entre vizinhos, falta de espaços de lazer em que possa estar com os seus filhos, saneamento básico, falta de água, incidência alta de violência, etc.
Dilma precisava aumentar a renda familiar, por isso se inscreveu no Projeto do PRONASCI. A MP cumpriu as atividades propostas pelo projeto de forma satisfatória, conforme avaliado pela equipe pedagógica. Sobre as atividades que remetiam à sua história de vida, nos seus relatos, orais ou via diário e outras produções escritas, desenvolveu pouco sobre o seu passado, e tornou públicos, geralmente, os acontecimentos mais recentes da sua vida, principalmente, o seu casamento e a sua relação com os filhos e vizinhança. Nos breves relatos sobre a sua infância, Dilma se remete exclusivamente à situação de violência pela qual passara na casa que habitava com a família.
Na época, o grupo familiar composto por Dilma (filha), pai, mãe, irmãos e um agregado eventual, numa ―casa de luxo‖, num momento em que o seu pai ―tinha condição‖. Teve uma infância marcada por situações de violência doméstica, familiar e sexual, aqui tomadas segundo a conceituação estabelecida na Lei 11.340/2006, como violação dos direitos humanos de mulheres e meninas no que tange à negligência, discriminação, exploração, opressão e agressões verbais/físicas/sexuais. Nesses termos, Dilma sofria agressões físicas e humilhações de sua mãe quando não correspondia às suas expectativas, principalmente, quando urinava na cama enquanto dormia. A mãe relatava aos familiares e vizinhos o problema da filha que, como punição, era alvo de chacotas, o que provocava a perda de respeito diante dos irmãos. A situação de violência física e psicológica era alimentada pelo assédio moral ou sexual praticado pelos familiares, vizinhos ou agregados. Dilma descreve o período da seguinte forma:
Eu não fui feliz na minha infância, porque a minha mãe me humilhava muito [...] ela falava para todas as pessoas conhecidas [...] que eu nunca ia me casar, e dizia: quem
vai casar com uma mijona, e todos davam risadas. Minha mãe me batia muito e eu
ficava tão triste e revoltada... (Atividade de escrita em Diário/Projeto Mulheres da
Paz, 2010).
A condição de violência física e psicológica a levou à tentativa de suicídio aos oito anos de idade, bebendo querosene. No ano seguinte, aos nove anos de idade, foi violentada
164 sexualmente no quarto, enquanto dormia, por um agregado que passava uma temporada em sua casa. Dilma afirma ter sido ―a coisa mais horrível‖ que lhe aconteceu. O quadro foi agravado quando sua mãe, ao ouvir dela o que havia acontecido e depois de ter visto o lençol sujo de sangue, ignorou a violação chamando-a de ―louca‖ e permitiu a permanência do agressor na casa, favorecendo, dessa forma, outras tentativas de estupro. A atitude de sua mãe se diferencia do que se observa no comportamento das mães de crianças e adolescentes vitimados sexualmente (LIMA, 2008) que percebem os abusos e denunciam o agressor.
Na ausência da mãe, Dilma livrou-se de seu agressor sexual atacando-o com pimenta em seu órgão sexual exposto. Desde então, passou a ser tratada pela família como ―doida‖, o que contribuiu para outras tentativas de abuso sexual praticadas por outros rapazes que frequentavam a sua casa. Dois primos mais velhos, adolescentes com idade entre quatorze e dezesseis anos, assediavam-na sexualmente de forma constante. Dilma pedia ajuda da mãe, entretanto não contava com o seu apoio. Sua saída foi defender-se, novamente, mediante uma resposta violenta, queimando o rosto de um dos agressores com o ferro de passar roupas que usava no momento. Assim, aumentou a sua fama de ―doida‖ dentro da família.
Diante da falta de assistência de seus familiares e da violência que se configurava em sua vida, as tentativas de suicídio rondaram seus pensamentos até os seus dezessetes anos de idade, quando deixou de estudar e foi trabalhar como empregada doméstica. Assim, teria mais liberdade e melhores condições de custear as suas necessidades básicas, longe da família. A convivência com o patrão, médico, possibilitou uma melhora na sua saúde emocional e psicológica e, sua autoestima aumentou quando passou a tomar remédios receitados por ele, depois de ouvi-la sobre o seu problema de depressão. A melhora no quadro de sua saúde foi possível porque, pela primeira vez, sentiu-se respeitada. O seu problema de depressão foi tratado com a atenção médica do patrão, alguém fora do seu contexto familiar, portanto, fora do espaço que considerava como base para o acolhimento. Assim, afirma em seu diário:
Foi aí que tudo começou a fazer muito sentido na minha vida, e comecei a dar muito valor à vida, aquela tristeza que sentia desapareceu. É por isso que tenho problemas hoje, mas não pior como os problemas de antes. Falar sobre o passado é como se eu tivesse vivendo tudo de novo. Eu não gosto muito de falar sobre isso. (Atividade de escrita em Diário/Projeto Mulheres da Paz, 2010).
165 Dilma relatou a sua história de violência na infância para todas as mulheres presentes na sala de aula, durante uma das oficinas, movida pela necessidade de expor, pela primeira vez, o sofrimento que guardava represado em sua memória. Foi, portanto, uma forma de romper com o silêncio e a angústia que trazia com relação ao passado, que abrigava a experiência de estupro, assédio e negligência. Entretanto, recusou-se a continuar relatando sobre sua infância, a ponto de não tornar conhecida a ocupação de seus pais e o lugar do seu pai na sua vida, assim como detalhes sobre as condições em que vivia com a sua família.
A vida atual de Dilma é desgastante e lhe causa frustração, como afirma em sua narrativa. Não está satisfeita com o seu casamento por causa da rispidez e ―irresponsabilidade‖ do seu ―marido‖, mas também com a falta de recursos financeiros para levar uma vida tranquila, em que possa se alimentar bem e desenvolver atividades de lazer. Segundo seus escritos, parou de ir ao cinema quando casou, além disso, vê-se impedida de viajar e de ―passear‖ com seus filhos por falta de dinheiro para se locomover na cidade e custear as despesas. Relata, então, no seu diário:
Não é muito que ganho nesse Projeto, mas dar pelo menos para sair um pouco com meus filhos. [...] Vivo uma vida de faz de conta, fecho os olhos um pouco e fico delirando em pensamentos, sempre pensamentos bons. (Atividade de escrita em Diário/Projeto Mulheres da Paz, 2010).
Em alguns momentos do seu diário, Dilma menciona ―fugas‖ para a sua condição de falta de dinheiro e de trabalho remunerado. Geralmente, para esquecer os seus problemas, ela desenvolve as tarefas domésticas até ficar esgotada, para depois dormir durante a tarde. Assim, trabalha sem reconhecimento do cônjuge, dorme ―fora de hora‖ ou se perde em pensamentos nos quais desenvolve projeções fantasiosas sobre a sua vida.
Dilma deixa o lar de seus pais, onde realizava tarefas domésticas e vivia em situação constante de violência, para viver com seu cônjuge e filhos também de forma desgastante. A transformação da ―menina‖ em ―mulher‖ é perpassada pelo modelo de submissão feminina. Mesmo quando Dilma desautoriza o marido em determinados momentos, não rompe com a condição de violência que permeia o seu lar, desta vez, não mais física, mas simbólica. Pois, ela é obrigada e se obriga a abdicar de um trabalho remunerado em defesa dos padrões
166 tradicionais que sustentam os grupos familiares, em que se espera da mulher as atividades de cuidado dos entes do grupo (TAVARES, 2010).
Nos lares de chefia masculina, cujos padrões morais se baseiam na autoridade do ―homem que é homem‖, a contrapartida da mulher é ser ―boa dona de casa‖. A mulher ―boa dona de casa‖ deve acompanhar as conquistas do companheiro trabalhador. Ela faz com que o dinheiro, apesar de pouco, dê para o suprimento das necessidades da família, motivo pelo qual é respeitada. Entretanto, recebe a menor fração da comida feita por ela, além de assumir a
obrigação de servir o companheiro com presteza e subserviência e passar por situações em
que são violentadas fisicamente, moralmente. São padrões nos quais se mantém muitas famílias brasileiras (SARTI, 1996).
O racismo é outra forma de violência que relata em seu diário. Num dos episódios, a agressão partiu da mãe e da irmã do seu cônjuge, numa visita à casa das mesmas. Ela desabafa assim: ―Elas me chamaram de preta do cabelo duro, e disseram que a maior infelicidade delas foi ver ele casando com uma preta, uma negrinha e que ele foi o único a dar esse desgosto para a família‖. As implicações da hegemonia da branquitude no imaginário social se manifestam nas relações sociais como uma violência invisível e repercutem negativamente na subjetividade das mulheres negras (CARNEIRO, 2002; 2011).
Com uma história de vida atravessada por situações cotidianas de violência, Dilma assumiu a sua expectativa com o curso do PRONASCI em lutar contra a depressão que a afligia, contraditoriamente, perpetuando a sua suposta obrigação em relação ao outro, ―ajudando a comunidade no que for possível, com a ajuda do grupo, com a união de todos.‖.
3.2.3.2 Diana
Diana, com 33 anos de idade, estudante universitária, declarou-se parda, em união estável, com dois dependentes, sem renda mensal, cadastrada no programa Bolsa Família. O seu cônjuge também está desempregado, mas é ela quem assume sozinha a execução das atividades domésticas. Vive em situação de violência doméstica e familiar e, mantém convívio com o agressor por causa da ajuda financeira que recebe dele, dos ―bicos‖ que faz,
167 para custear os seus estudos. Ela é moradora do bairro de São Cristóvão há cinco anos e a sua religião é a confiança que deposita em ―Deus‖. Afirma: ―creio no Ser Supremo, que fez os céus e a Terra.‖.
A partir da sua postura e produção nas oficinas do curso, foi possível perceber alguns aspectos da sua personalidade e, da forma de se relacionar com as pessoas ao seu redor. Diana era bastante participativa, mostrava-se sempre sorridente e solícita para desempenhar as atividades propostas. A MP se definia como uma pessoa amorosa, sensível, alegre e, assumia os seus defeitos, vaidosa, ciumenta e nervosa. Algumas vezes, reportou-se a mim para pedir orientações sobre como agir em situações que envolviam seus filhos. Num momento, queixou-se da falta de apoio financeiro por parte do pai de sua primeira filha, ela não sabia como mover uma ação na Justiça para pedido de pensão alimentícia; no outro, não sabia como agir diante da vontade que a sua filha de 10 anos tinha de viver com o pai e não com ela, que vivia com outro homem e o filho do novo casal. Em seu contexto familiar, sentia-se ―insignificante‖, o que desencadeava um sentimento de inferioridade em relação aos outros, especificamente, em relação ao seu atual cônjuge. Os indivíduos e a cultura legitimam pactos, diferenças, acuando e sobrepondo definições aos demais. Os sistemas simbólicos propagam e impõem desejos e ordens de um grupo sobre o outro, o que conhecemos como violência simbólica. Assim, as relações de força são alimentadas e sustentadas, mantendo o ciclo da violência. 57
Numa atividade proposta durante o segundo mês do curso, em que as participantes deveriam estabelecer um paralelo entre os ―papéis‖ das mulheres e os dos homens na sociedade, Diana se remete à sua condição própria de desigualdade cotidiana. Para ela, a atribuição da ―mulher‖ é ―cozinhar, passar, cuidar dos filhos; trabalhar fora; outras não têm responsabilidade; não fazem nada vezes nada.‖. Já que não se satisfaz com essas condições postas para o universo feminino, a MP estabelece uma série de pontos nos quais as mulheres encontram formas de realização pessoal. Então, as mulheres devem ―conquistar o seu espaço; ser mais decisivas nos assuntos; não deixar que o homem baixe o seu alto estima; deixar os