1.3 O PRONASCI e a questão de gênero
1.3.1 Pelo “empoderamento” das mulheres: o projeto Mulheres da Paz
A política para a família ―à brasileira‖ inclui a ―não-ação governamental‖, caracterizada pela falta de intervenção estatal efetiva frente aos problemas sociais. O formato dessas políticas sociais sempre foi influenciado pela tradição de ―autoproteção‖ da sociedade em sua relação com o Estado, na qual este partilha suas responsabilidades com a sociedade, a instituição familiar (PEREIRA, 2010, p. 28-29) e as mulheres. De acordo com Mariano e Carloto (2009) e Alvarez (2000) as políticas familistas, voltadas para o fortalecimento das famílias, reforçam a correlação entre mulher e maternidade. Dessa forma, é difícil afirmar a existência de uma política social (familiar) no Brasil, produzindo efeitos positivos.
A instituição de políticas está assentada em estereótipos forjados nas famílias, através das mulheres – as responsáveis pelo cuidado dos entes e do trabalho doméstico segundo a tradição de gênero. Funcionam como espaço de reprodução de desigualdades e preconceitos. Então, a proposta de ações comunitárias estabelecidas pelo projeto MP reproduz tradicionalismos de gênero atribuídos às mulheres.
A entrada da política Mulheres da Paz, do PRONASCI, na agenda governamental, marcou uma interlocução do MJ com grupos da sociedade civil, de forma conflituosa. Foi mantida uma abordagem na qual a decisão de formulação e implementação de uma política pública envolve os níveis hierárquicos superiores da burocracia, neste caso, conhecida como
top-down (OLIVEIRA, 2006). Em 2007, governo, academia e sociedade civil se reuniram em
colóquios temáticos, principalmente, tratando do lugar social tradicionalmente estipulado para mulheres no atual processo de atuação do poder público no combate à violência. Houve também centros de debates com grupos sociais como as ―Mães de Acari‖ e a Central Única de Favelas (Cufa), quando foi destacado o conceito de comunidades ―maternocentradas‖, que se refere ao significado da figura das mães nesses contextos periféricos metropolitanos, com ―grande carga de respeito‖.
60 A partir do conceito de comunidades ―maternocentradas‖, criou-se um primeiro projeto, Mães Ouvidoras, que originou o MP. No processo de formulação, inicialmente, foi encaminhado ao Congresso Nacional o projeto portando o nome de Mães da Paz. Contudo, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e parte da militância de defesa dos direitos das mulheres argumentou que ―mães‖ limitava o papel dessas mulheres na sociedade, além do que a assistência aos jovens seria de obrigação do Estado e não de mulheres da sociedade civil. O único resultado foi a mudança de nome (Mães da Paz) para Mulheres da
Paz, pela Medida Provisória, nº 416, de 2008 (RIOS, YASBEK, GIOVANNI, 2010; GOMES,
SORJ, 2011).
O Estado reconhece a instituição familiar e as mulheres ―[...] como uma base para a construção das redes de segurança para a população pobre‖ (GOMES, SORJ, 2011, p. 150). Influenciados por políticas neoliberais do modelo europeu e estadunidense de 1980, além de sua experiência na proteção social, os governos brasileiros aproveitaram a participação autonomizada e voluntarista da ―família na provisão do bem-estar de seus membros‖. Em condições de ingerência do Estado, famílias, comunidade e mulheres improvisam formas para lidar com os inconvenientes da escassez de recursos, lançando mão de aspectos de ―solidariedade‖ entre determinados grupos, caracterizando-se, assim, como ―fontes ou agentes‖ do setor informal (ABRAHAMSON, 1992 apud PEREIRA-PEREIRA, 2010, p. 32). A prioridade, ou o público-alvo, do PRONASCI eram os jovens considerados em condições de ―vulnerabilidade familiar e social‖ (BRASIL, 2007). O lugar das mulheres, também consideradas nas mesmas condições que as dos jovens, ficou representado pela função de cuidadoras desses jovens, contrariando investiduras de mulheres e feministas para o enfrentamento à violência de gênero 26. Nesse bojo, o Estado aloca as mulheres pobres como sua substituta na provisão de bens e serviços sociais básicos (PEREIRA, 2010), no lugar de dar continuidade aos critérios evidenciados no PNPM. Portanto, abrange a especificidade do seu cotidiano em situação de violência.
Esta especificidade no planejamento de políticas sociais já constitui uma prática nos programas de transferência de renda. Na análise de Gomes e Sorj (2011, p. 148), envolve discursos e práticas díspares entre si, por um lado, na mobilização de ―noções e pressupostos
26 Aqui, o conceito de ―violência de gênero‖ se refere à violência produzida no espaço das relações sociais, cuja
ênfase é dada ao seu caráter relacional num contexto de desigualdades de gênero. Essas relações, de forma complexa e contraditória, abrem possibilidades às práticas sociais, inclusive de lutas individuais e coletivas em que os indivíduos envolvidos recriam suas vidas, reafirmando ou rompendo com as desigualdades (ALMEIDA, 2007).
61 maternalistas, associados à feminilidade‖; por outro lado, na reunião de novas abordagens sobre cidadania baseadas na individualização dos sujeitos, mediante ―valorização da autonomia e do autodesenvolvimento‖, conforme a ideia de ―empoderamento‖ especificada no referido projeto. As autoras ressaltam que:
Diferentes discursos sobre a valorização das mulheres como agentes políticos da mudança cohabitam o universo programático das políticas sociais contemporâneas no Brasil e, em particular, do Programa Mulheres da Paz (MP). Comunicam percepções de gênero distintas que, no jogo administrativo das políticas, adquirem variadas configurações: oposição, disputa, aliança, acomodação (GOMES, SORJ, 2011, p. 151).
O MP insere as mulheres como cidadãs ativas em processo de ―empoderamento‖. Para tanto, fundamenta o conceito de ―empoderamento‖ na constituição da autoestima do self feminino e na valorização da atuação junto à comunidade. Nas atividades de formação, as mulheres eram convidadas a construírem narrativas do self em que surgiam identidades ―empoderadas‖, mostrando-se adequadas ao protagonismo social e à autotransformação. Foi dado foco ao engajamento e agência social das mulheres para o combate à violência logo na apresentação do curso para as beneficiárias (AVANTE, 2009; GOMES, SORJ, 2010).
Todavia, na função de ―provedoras de bem-estar‖, as mulheres assumiram uma posição de desvantagem por conta de seus parcos recursos para a almejada provisão27. Isto porque, no lugar de políticas públicas de gênero – proposta feminista que indica transformações nas condições de vida das mulheres e da população de modo geral – o governo, através de apropriação peculiar do constructo, adota políticas voltadas para as mulheres dentro dos padrões tradicionais atribuídos ao universo feminino, logo, políticas reprodutoras de desigualdades de gênero. A forma particular de o Estado conceber a questão de gênero através da execução de políticas públicas esboça uma das formas de desigualdade inseridas nas relações de poder dentro das instituições estatais no Brasil (ALVAREZ, 1988).
Com relação à noção de ―empoderamento‖ não é diferente. O Estado não é neutro acerca das questões de gênero, repete o poder dos interesses masculinos sobre as resoluções
27 Para Pereira (2010), é a família que assume um lugar de desvantagem diante da transferência de
62 das pautas das mulheres (ALVAREZ, 1994), lança projetos reprodutores dessas desigualdades estabelecidas no interior do espaço político-partidário, com concessões aos grupos sociais discriminados, espelhando a relação conflituosa entre a subordinação da mulher na sociedade e o poder político institucionalizado. Assim, distancia-se da perspectiva feminista que concebe ―empoderamento‖ como escolhas ou autodeterminações, ou ainda, o poder de fazermos escolhas estratégicas, de forma que administremos nossas vidas na gama das relações e da expansão de limites sociais. Esse processo envolve, portanto, as (pré) condições de recursos para fazermos tais escolhas, e envolve também as ações dentro das possibilidades postas, assim como as suas concretizações (IORIO, 2002; SARDENBERG, 2006).
O destaque do projeto MP direcionado à agência humana ou ao protagonismo social conectou as mulheres entre os níveis micro e macrossociais, tornando a atividade de capacitação o ápice do projeto. A mulher passaria a se reconhecer como participante ativa dos processos sociais, como protagonista da sua história. Nesse sentido, configura-se o deslocamento do nível do ―empoderamento‖ individual para o ―empoderamento‖ via comunidade, no qual elas desempenham o papel de cuidadoras dos jovens em situação de violência (GOMES, SORJ, 2010).
As duas vertentes – ―empoderamento‖ individual e via comunidade – abrigam tensões entre as mulheres beneficiárias. Algumas mulheres se satisfizeram com os processos formativos porque puderam voltar à sala de aula, representando um passo para novas conquistas que viessem a realizar, enquanto outras expuseram o vazio criado pela política pela falta de perspectivas de mudanças significativas em suas vidas. Conforme observado entre as MPs do Rio de Janeiro, de um lado, a ação de cuidar dos jovens foi muito valorizada entre elas por abrir a oportunidade de ganharem reconhecimento e distinção na comunidade; por outro lado, elas pressionaram os gestores do programa e demais atores políticos para formularem políticas de ―[...] inserção no mercado de trabalho, de educação formal e de capacitação profissional‖ (idem, p. 156), já que esta seria a forma efetiva de se ―empoderarem‖.
As contradições que envolvem a concepção de ―empoderamento‖ dentro da política social contemporânea brasileira, em especial, no Projeto MP, denotam as diversas formas de conceber a questão de gênero dentro da administração política. No próximo tópico, serão analisadas as contradições envolvidas na concepção do projeto, no que se refere à ideia de
63 mulher atrelada à identidade de mãe, assim, estabelecendo o seu lugar de cuidadora e pacificadora de conflitos.