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2.4 Considerações metodológicas sobre o campo da pesquisa

2.4.5 Os saberes situados e a questão da objetividade

Quando consideramos a agência das pessoas estudadas podemos evitar conhecimentos equivocados. As explicações de um mundo "real" dependem da relação social entre pessoas

124 que se aproximam e se afastam de acordo com os elementos que as façam convergir ou divergir no processo interativo. Portanto, as trocas que se estabelecem no processo da pesquisa social revelam conversas perpassadas pelas tensões presentes nos conflitos de interesse, como também pelas relações de poder. As (os) agentes de conhecimento53 formam um eixo ativo, geram ―significado‖ e ―aparato da produção corporal‖. O seu poder gerativo têm sua base nas fronteiras sociais, a todo o tempo. É assim que me aproximo de Haraway (1995, p. 40), quando defende o conhecimento situado e corporificado, longe de pensar nas perspectivas dos grupos excluídos como distantes de posicionamento político.

O projeto de ciência feminista implica numa relação crítica e reflexiva com o mundo, em relação a nós mesmas e às práticas de desigualdade de privilégio e opressão presentes nas diversas posições sociais. Nesse sentido, a objetividade compreende saberes localizados, ou situados, (HARAWAY, 1995), que dizem respeito à corporificação específica e particular dos agentes envolvidos nos grupos sociais. Os saberes situados se apoiam na possibilidade das redes de conexão solidária e de conversas compartilhadas entre os (as) agentes.

Assim, apenas a perspectiva parcial alcança a objetividade que, para feministas, compreende a localização limitada e o conhecimento localizado, de forma que passamos a nos responsabilizar pelo que interpretamos. A objetividade é racionalidade posicionada, ―um estruturar mútuo e comumente desigual‖, em que assumimos os riscos da impossibilidade do controle das coisas ―reais‖ (HARAWAY, 1995, p. 41). As respostas das mulheres entrevistadas se diversificavam à medida que se estabeleciam os seus julgamentos sobre o meu trabalho desenvolvido anteriormente em São Cristóvão. Se, por um lado, a passada experiência facilitou o meu acesso a elas e o desenvolvimento dos nossos diálogos, por outro lado, permitiu a ocorrência de algumas suspeitas no grupo das MPs. No desenvolvimento de uma entrevista, a MP Diana não quis expor as dificuldades enfrentadas no trabalho proposto durante a atividade de acompanhamento do projeto federal, nem os problemas existentes no bairro – visto que em seu imaginário eu era a integrante da equipe do governo a colher informações sobre ela e sobre o bairro em que residia – e contra eles – para o Estado; já em outras entrevistas, algumas expuseram várias questões em tom de denúncia, com a finalidade de tornar públicos todos os problemas enfrentados, ou ainda, almejando algum direcionamento meu no sentido de providenciar medidas assistenciais. Em outras manifestações, prevaleceram por parte das mulheres os sentimentos de medo, representando os valores locais em que o silêncio mantém a integridade das pessoas (ESPINHEIRA, 2002,

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125 2008; ZALUAR, 1985); como também prevaleceram os valores de amizade, confiança e desejo de transformações das condições vivenciadas.

A importância em buscar as perspectivas dos grupos excluídos, como afirma Haraway (1995), está em pensarmos sobre as realidades que foram (são) desconhecidas até então. Um olhar posicionado, de algum lugar em particular, nos fornece outras explicações que podem ser mais apropriadas e objetivas, portanto, transformadoras do mundo. Dessa forma, poderemos seguir para um caminho de consolidação de uma sociedade mais distante dos eixos de dominação. O posicionamento crítico se traduz em objetividade porque constitui a base do conhecimento organizado, político e ético. De acordo com a autora (idem, p. 30-32), argumento a favor de políticas e epistemologia ―de alocação, posicionamento e situação‖, nas quais a parcialidade é a condição de ser ouvido nas propostas a se fazer para o conhecimento racional.

Os meus conceitos passaram por novas interpretações, ao passo em que estabelecíamos as trocas. As ―comunidades de pensamento‖ distintas estiveram em contato permanente, e os conceitos e práticas circularam continuamente entre ―estilos de pensamento‖ também distintos. Esses elementos se tornam indispensáveis à tradução interpretativa, crítica e parcial (LOWY, 2000, p. 34). A tradução, aqui, é entendida como ―imperfeita‖, criadora e inovadora, dado o processo de interação entre a pesquisadora e as demais envolvidas na pesquisa. O processo de interação na busca pela compreensão sobre outros grupos, considerando os posicionamentos políticos, enriquece o nosso entendimento do mundo (idem). Assumir a tradução parcial de outro modo de pensamento implica também em questionarmos as nossas próprias certezas, favorecendo o desenvolvimento de um estudo científico mais produtivo – juntamente com a abertura para as potencialidades inexploradas de grupos excluídos bem como de seus diferentes pontos de vista.

Para o desenvolvimento do trabalho científico (e político), cabe a interpretação e a tradução – em que uma apoia a outra – do parcialmente compreendido, ―com as ciências dos sujeitos múltiplos‖, ―com uma visão crítica, consequentemente, com um posicionamento crítico num espaço social não homogêneo e marcado pelo gênero‖, pela raça, classe, status social, geração, ocupação profissional, orientação sexual, etc. Posição não é algo estático, mas envolve ―[...] redes de posicionamentos diferenciais‖ e, a partir daí, encontramos uma epistemologia e política de posições engajadas que têm como objetivo a cientificidade (idem, p. 32).

126 Os estudos de gênero, de raça, de classe, são ilustrativos do desenvolvimento de uma ciência embasada nas desigualdades sociais. Tais estudos se originaram nos movimentos sociais – feminista, negro, etc. – centrados nos problemas de dominação e de exclusão nos quais as mulheres, particularmente, as negras, se encontravam em desvantagem social. A transversalidade de gênero nos estudos científicos, por sua vez, alavancou a produção de conhecimentos parciais e situados, ―inscritos na ação e nas redes densas de interações‖ (LOWY, 2000, p. 37). Tomando a questão do presente trabalho de pesquisa, a atuação do Estado através do Projeto Mulheres da Paz, considero que o mesmo deslocou essa raiz questionadora e transformadora do constructo ―gênero‖, propondo uma política para mulheres, no entanto, classificando-a como ―de gênero‖, ao fixar o lugar das mulheres (especificamente, as negras) como responsáveis pelo cuidado e mediação dos conflitos urbanos.

Longe de posturas deterministas, o saber situado dos grupos excluídos, nos quais me identifico como mulher negra que pretende alcançar o ―status de sujeito do saber‖, produzo uma ciência que agrega angústias, ―a paixão, a crítica, a contestação, a solidariedade e a responsabilidade‖, fazendo notar a historicidade do saber científico, a ―ebulição de práticas situadas‖ e os estudos de gênero e raça, questionando a objetividade e a universalidade dos conhecimentos produzidos pelos grupos de elite (LOWY, 2000, p. 37-38).

As informações são construídas no processo interativo da pesquisa. Neste trabalho de pesquisa, as mulheres se apresentam como pessoas em estudo, capazes de tecerem observações cruciais a respeito de suas ações cotidianas. O trabalho sobre as experiências das mulheres, a partir de seus próprios pontos de vista, é importante para a compreensão de processos sociais mais amplos, como também para que elas reconstruam suas histórias. É fundamental permitir que as mulheres expressem suas queixas e análises (SCOTT, 1993; SALEM, 1978) visto que, ao remontarem suas trajetórias, terão considerado tanto suas observações, quanto suas interpretações a respeito de processos que atravessaram. Tais observações podem ser consideradas como fontes primárias para conhecer experiências situadas.

As experiências abrem caminhos para interpretações da realidade de uma cultura codificada pelos demarcadores sociais. Daí, a relevância da discussão das escolhas e estratégias seguidas por essas mulheres, a partir da sua própria reconstrução dos eventos dentro do contexto específico (PISCITELLI, 1989). Na sua proposta de ciência interpretativa

127 à procura de significados, Geertz (1978, p. 15) insere ―todos‖ os fenômenos sociais como sistemas de significações os quais se prendem às pessoas. A cultura – considerada como ―teias de significações‖ tecidas pelos sujeitos – é pública e se insere num contexto específico, passível de ser captado e compreensível. De forma que permita pensar as estratégias, em cada grupo, dentro da cultura local, passando por seus ideais e pensando sobre as pautas que compõem o centro de suas narrativas, considerando os diferentes lugares ocupados em sua vida cotidiana, sobre interações, conflitos, perdas e ganhos.

Neste caso, a abordagem qualitativa de caráter descritivo-analítico, viabilizada pelo estudo de caso sobre as Mulheres da Paz de São Cristóvão, passa por um enquadramento social, político e histórico do comportamento humano no referido contexto. Assim, considero pertinente a estruturação proposta por Fonseca (1999, p. 66), que define cinco momentos para o trabalho de pesquisa 54, assim dividido: ―estranhamento‖ em campo; ―esquematização dos dados empíricos‖; ―desconstrução de estereótipos preconcebidos‖; ―comparação‖ com casos análogos extraídos da literatura sobre o assunto em questão; e ―sistematização do material em modelos alternativos‖. No movimento interpretativo, as particularidades são necessárias para aprofundar a análise e para evitar simplificações rasteiras da realidade.

A presente análise é desenvolvida em torno do conhecimento situado e corporificado, e ainda, assumindo as perspectivas dos grupos excluídos como dotados de posicionamento político. Assim considerado, no próximo capítulo, serão discutidas realidades que se referem à violência no bairro de São Cristóvão, apontadas pelas MPs. Sob alguns aspectos, realidades essas que se mantiveram desconhecidas até então.

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128 3 A violência em São Cristóvão

Neste capítulo, apresento, inicialmente, a história do bairro de São Cristóvão, a partir de dados de pesquisas anteriormente realizadas, bem como de dados apresentados pelas Mulheres da Paz moradoras da região. Em seguida, analiso os conflitos existentes no cotidiano das moradoras que influenciaram negativamente na realização das suas atividades, exigidas pelo Projeto Mulheres da Paz, como também as formas como os enfrentaram. No segundo tópico, passo para o detalhamento das MPs e do local onde realizaram a formação para alcançar, então, as dificuldades para o desempenho da mediação de conflitos. Por último, indico como estas MPs vislumbraram os processos de transformação de suas vidas, dado o contexto de pobreza.