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As mulheres e o mercado de trabalho nos anos 2000

CAPÍTULO 1: OS ANOS 2000: TRAJETÓRIA DE CRESCIMENTO, INCLUSÃO E

1. Introdução:

1.2. A inflexão dos anos 2000: crescimento econômico e políticas sociais

1.2.4. As mulheres e o mercado de trabalho nos anos 2000

A inserção das mulheres nas atividades econômicas, no Brasil, passa a se intensificar nos anos 70/80, em um período de altas taxas de crescimento da economia e de migração rural-urbano, e quando aumentavam sensivelmente os empregos industriais e também a oferta de empregos ligados aos serviços nas grandes cidades. Dessa forma, o ambiente de crescimento econômico e geração de empregos favoreceu a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Segundo Melo (1998) na década de 70 o emprego das mulheres cresceu 92% e o serviço doméstico remunerado 43%. Já nos anos 90, período de avanço da flexibilização e precarização do trabalho, as mulheres sofreram de forma intensa e diferenciada a queda da atividade econômica e a desestruturação do mercado de trabalho. Nessa década cresceu de forma intensa os contratos atípicos de trabalho com aumento da flexibilização e a terceirização, na qual as mulheres foram sobremaneira atingidas. Para a pesquisadora Helena Hirata (2002), a era globalizada da economia – no Brasil nos anos 90 – produziu distintos efeitos sobre o emprego de homens e mulheres. Ao contrário de outros momentos da história, na qual se reafirmava o papel das mulheres como “exército industrial de reserva”, chamada ao trabalho produtivo nos períodos de escassez de mão de obra masculina e orientada de volta para as casas nos períodos de estabilidade econômica, o período atual indica uma maior permanência das mulheres no mercado de trabalho, uma vez que “o emprego feminino foi protegido dos efeitos da crise devido à expansão do setor de serviços” (HIRATA, 2002, p. 175). Dessa forma, a segregação ocupacional e a divisão sexual do trabalho, a qual estabelece uma diferenciação entre trabalho de homens e de mulheres, empurrou o gênero feminino para as ocupações nos setores de serviços e, se por um lado resguardou seus empregos frente aos momentos de crise e recessão econômica, por outro institucionalizou um lugar no mercado de trabalho marcado pela maior precariedade, informalidade e terceirização. Para Araújo e Amorim (2002), a era da globalização trouxe novas e velhas práticas e cenários de precarização do trabalho. Para as autoras ocorreu um deslocamento das mulheres das grandes empresas para os postos de baixa qualificação, em direção às atividades informais, as cooperativas de trabalhos e o trabalho a domicílio.

Paradoxalmente, apesar de ocorrer um aumento da inserção da mulher trabalhadora, tanto no espaço formal e informal do mercado de trabalho, ela ocorre majoritariamente nas áreas onde predominam os empregos precários e vulneráveis (NOGUEIRA, 2004, p. 39).

Da mesma maneira que em outros períodos da história econômica do Brasil, os anos 2000 também apresentam indicadores de evolução distintos para homens e mulheres e sua análise é imprescindível para a compreensão geral do mercado. Segundo Leone (2015), o bom desempenho da atividade econômica manifestou-se de forma diferenciada para homens e mulheres, sobretudo na comparação com as taxas de crescimento da PEA, que teve um crescimento expressivo, e foi explicado pelo maior aumento da participação das mulheres na atividade econômica e uma diminuição da presença dos homens.Entre 2004 e 2013 a PEA cresceu 2,2% ao ano para as mulheres e 1,7% ao ano para os homens, no entanto, a taxa de participação das mulheres no total dos ocupados ainda é significativamente inferior a dos homens.

A PEA relativa ao trabalho por conta própria teve crescimento negativo nos anos 2000, e foi mais significativo entre as mulheres, com -8,12%. No entanto, ainda 7,2% das mulheres trabalham por conta própria, contra apenas 3,9% dos homens. Dessa forma, atesta- se que os anos 2000 apresentaram impactos positivos importantes para as mulheres, no entanto, persistem desigualdades estruturais. Além disso, ainda são significativas as desvantagens femininas na absorção da PEA, uma vez que na contagem estatística se invisibilizam elementos como o trabalho da mulher na agricultura, a alta proporção do trabalho doméstico remunerado, e grandes disparidades de remuneração (LEONE, 2015).

Segundo Teixeira (2014) e Dieese (2010) ampliou-se a participação das mulheres em praticamente todos os grupos ocupacionais, no entanto, pouco ou quase nenhuma alteração ocorreu de forma substantiva na estrutura ocupacional. Dessa forma, as mulheres permaneceram inseridas em atividades similares as por elas já exercidas e cresceram em setores tradicionalmente tidos como “nichos” femininos, tais como o comércio e serviços, os quais – também – são os empregos com maior histórico de precarização e baixo rendimento. Para Teixeira e Leone (2013), o emprego doméstico remunerado seguiu com uma expressiva absorção de mão de obra feminina, correspondendo a 7,5% dos postos de trabalho. “Dessa forma, ainda que as mulheres tenham avançado em termos de acesso a cargos melhor remunerados, é ainda predominante a presença masculina nos níveis superiores da hierarquia dos cargos.” (TEIXEIRA & LEONE, 2014, p. 4).

Embora as mulheres permaneçam entre as principais desempregadas (DIEESE 2010: LEONE, 2015), o crescimento econômico vivenciado no último período permitiu uma maior participação da força de trabalho feminina no emprego formal e assalariado, embora elas permaneçam como as principais atingidas pela informalidade (ARAUJO & LOMBARDI,

2013). O aumento do emprego formal em estabelecimento foi superior no caso das mulheres e a maior formalização também ocorreu para elas, inclusive contabilizando o aumento do emprego doméstico formal. Ainda segundo Leone (2015), o crescimento econômico com inclusão social permitiu as mulheres seguir dando continuidade ao processo de consolidação da sua participação na atividade econômica – condição se não única pelo menos necessária para sua emancipação.

As transformações no mercado de trabalho com recorte de gênero ainda precisam ser avaliadas do ponto de vista das mudanças demográficas. A diminuição da quantidade de filhos é fator importante para a maior absorção de mulheres pelo mercado, bem como a sua permanência sem interrupções. Dessa forma fica evidente que as famílias seguem reproduzindo a lógica de estrita divisão sexual do trabalho no domicílio, sendo as atividades de reprodução social ligadas as obrigações “naturais femininas”. A correlação entre a diminuição de número de filhos e o aumento da presença no mercado reforça essa tese, e levanta a hipótese de que a inserção ou não, ou mesmo a inserção parcial ou mesmo precária das mulheres tem relação com o mercado de trabalho mas – sobretudo – com a lógica de organização das famílias e o serviço doméstico gratuito exercido pelas mulheres no interior das unidades familiares (KREIN & CASTRO, 2015).

No que se refere ainda à segregação ocupacional, em que pesem os avanços dessa década, as mulheres seguem inserindo-se – sobretudo – nas atividades ligadas ao funcionalismo público, aos serviços, ao comércio e a educação e saúde. Os empregos ligados à indústria, sobretudo a de construção pesada, permanecem muito masculinizados, e as mulheres seguem ocupando “nichos” sociais, que não por coincidência, são também os de menor renda e menor valor social. Segundo o Dieese (2012), a proporção de mulheres ocupadas no setor de serviços subiu mais de 10 pontos percentuais em menos de 10 anos. As razões para que as mulheres sejam as principais protagonistas nos setores de serviço reafirma uma construção social de gênero na qual as atividades que exigem menos qualificação, detêm as menores remunerações e os maiores índices de rotatividade, são trabalhos para mulheres, sem contar a sua semelhança com os afazeres domésticos, tarefas naturalizadas pelo patriarcado20 às mulheres.

20 Entendo patriarcado como uma construção ideológica do capitalismo enquanto um sistema de dominação dos

homens sobre as mulheres. Essa acepção permite compreender a dominação na somente na esfera da família, se não nas demais relações, como as trabalhistas e políticas. O patriarcado orienta uma dinâmica das relações sociais que se perpetua mediante sua naturalização na vida social, sendo reproduzido até mesmo de forma inconsciente, porém internacionalizada para manter uma estrutura desigual de gênero. Para maiores informações

Tabela2: Percentual de pessoas com 16 anos ou mais ocupadas segundo sexo. 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2011 2012 2013 HOMENS Administração Pública 5,6 5,5 5,4 5,5 5,4 5,3 5,5 5,7 5,6 5,9 Agrícola 22,8 23,5 22,7 21,7 20,7 20 19,9 18,2 17,3 17,1 Comércio 18,9 18,3 18,9 18,6 18,9 18,1 18,3 17,9 18 18 Indústria 16 16,5 16,7 16,7 17,3 17,1 16,4 15,1 15,6 15,1 Construção Civil 11,2 10,9 11,2 11,3 11,5 12,7 12,8 14,3 14,8 15,7 Serviços Auxiliares 10,3 10,1 10,1 10,2 10,4 10,7 10,4 12,2 12,1 12 Serviços Sociais 4,4 4,4 4,4 4,5 4,5 4,5 4,9 4,7 4,8 5,1 Outras Atividades 10,9 10,9 10,8 11,5 11,2 11,6 11,7 11,8 11,7 11,2 Total 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 MULHERES Administração Pública 4,5 4,5 4,5 4,5 4,6 4,5 4,8 5,3 5,4 5,2 Agrícola 15,5 15,6 15,5 14,7 13,6 12,9 12,1 10,9 9,8 9,9 Comércio 15,8 15,8 16,2 16 16,5 16,2 16,7 17,6 17,4 17,4 Indústria 12,5 12,6 12,9 12,6 12,7 13 12,7 11,3 11,9 11,3 Construção Civil 0,4 0,4 0,4 0,5 0,5 0,6 0,5 0,5 0,6 0,7 Serviços Auxiliares 5,6 5,6 5,8 6 6 6,5 6,4 7,9 8 7,9 Serviços Sociais 34,3 33,6 33,4 33,3 33,5 32,7 33,8 32,6 32,3 33,2 Outras Atividades 11,3 12 11,3 12,4 12,5 13,6 13 13,9 14,5 14,4 Total 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100

Fonte: IPEADATA.PNAD/IBGE. Elaboração Própria/

Nota-se, dessa forma, que ocupações tradicionalmente masculinas seguem reproduzindo um mesmo gênero entre os ocupados, como é o caso dos empregos ligados à Indústria e a Construção Civil. Por outro lado os serviços de forma geral – e os serviços sociais de forma particular – seguem como um reduto feminino. Como apontam os dados da tabela acima, em 2013 o peso dessa atividade era de 33,2% da força de trabalho feminina, enquanto representava no mesmo ano escassos 5,1% da mão de obra masculina. Embora tenha havido avanços, a segmentação ocupacional permanece como um elemento importante.

Tabela 3:Escolaridade de homens e mulheres nos anos 2000 em anos de estudo

2004 2005 2006 2007 2008 2009 2011 2012 2013 Mulheres 6,5 6,6 6,8 7 7,1 7,3 7,5 7,7 7,9

Homens 6,3 6,4 6,6 6,8 6,9 7,1 7,2 7,4 7,5

Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração Própria.

ver em SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes. Mito e realidade. Expressão Popular. São Paulo, 2013.

Ainda no que tange as contradições estruturais de gênero, tem-se que nos anos 2000 as mulheres apresentaram ligeira melhora nos indicadores de escolaridade, mostrando-se as mais escolarizadas em todos os níveis e com vantagem – ainda que pequena – com relação aos homens em todos os anos que marcam a trajetória da década.

Da análise desse capítulo podemos extrair algumas sistematizações. A primeira delas é que a formação nacional e especialmente a nossa construção como nação guarda profundas marcas no nosso mercado de trabalho. Os anos 90, sob o manto do neoliberalismo, trataram de aprofundá-las, mediante a quebra das indústrias nacionais, o aumento do desemprego, a especialização regressiva e a desestruturação do nosso mercado de trabalho. Os anos 2000 trazem uma inflexão nesse cenário, exemplificado por políticas regulatórias do mercado de trabalho, a melhora no rendimento dos trabalhos, a melhoria ocupacional e a queda do desemprego. No entanto, esse movimento não é sem limites nem sem contradições, posto que ainda persistem demasiadas desigualdades e formas atípicas de contratação de mão de obra, assim como instabilidade externa e ausência de políticas industriais efetivas. No que tange as mulheres, elas avançaram na estrutura ocupacional e diminuíram o fosso dos rendimentos comparados com os homens, no entanto, o caminho ainda é longo para a conquista da igualdade. É com base nesse cenário tanto da economia nacional como da situação das mulheres na ultima década que conseguiremos partir, agora, para a análise propriamente dita do trabalho doméstico, situando-o histórica e conjunturalmente.

CAPÍTULO 2: AS TRABALHADORAS DOMÉSTICAS: QUEM SÃO E