CAPÍTULO 1: OS ANOS 2000: TRAJETÓRIA DE CRESCIMENTO, INCLUSÃO E
1. Introdução:
1.2. A inflexão dos anos 2000: crescimento econômico e políticas sociais
1.2.3. Impactos do crescimento sobre o mercado de trabalho
A reativação do mercado de trabalho foi um dos principais determinantes da relativa melhora na condição socioeconômica da população brasileira (BALTAR, 2015). Demasiados foram os efeitos positivos sobre o mercado de trabalho promovidos pelo crescimento econômico e pela centralidade do emprego. Em primeiro lugar é importante destacar que estava presente nas instituições e no pensamento econômico dominante, uma agenda de flexibilização do trabalho. Segundo Krein, Nunes e Santos (2011) as alterações
legais representadas pela reforma sindical e trabalhistas, bem como as medidas flexibilizadoras dos contratos foram perdendo espaços frente aos indicadores de melhora do mercado de trabalho. Entretanto, segundo os autores, esse movimento não é somente de avanços, alguns limites e retrocessos se apresentaram à classe trabalhadora nesse período, como a Reforma da Previdência, a Lei de Falência e o Crédito Consignado. Essas duas últimas privilegiam o setor financeiro em detrimento dos trabalhadores.
O crescimento econômico impulsionou fortemente a geração de renda e de emprego. Os rendimentos, especialmente dos trabalhadores da base da pirâmide social cresceram com vigor e o consumo das famílias voltou a subir.
Gráfico 5 : Evolução do número total de empregos com vínculo formal em milhões no período de 1995 a 2012.
Fonte: Elaboração própria. MTE-RAIS/ Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI.
A elevação das taxas médias de crescimento da economia brasileira ainda apresentou impactos importantes nos indicadores de melhorias no mercado de trabalho em vários sentidos. Talvez o principal deles foi ter reduzido drasticamente o contingente de desempregados no país, que nos anos 90 atingiu taxas exorbitantes. Não somente o desemprego diminuiu como se expandiu o emprego formal, ou seja, aquele que é protegido pelo conjunto dos direitos trabalhistas mediante assinatura na carteira de trabalho. A formalização do emprego também tem relação com o aumento da concessão de créditos pelos bancos públicos no financiamento dos pequenos estabelecimentos, com a contrapartida da sua
23,6 23,8 23,8 24 24 25,0 26,2 27 28,7 29,5 31,4 33 35,2 37,6 39,4 41 44 46,3 47,5 48,9 0 10 20 30 40 50 60 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012
Evolução do número total de empregados com vínculo formal de emprego (Milhões de Empregados)
formalização e dos seus trabalhadores. Segundo Baltar et al (2010) houve crescimento do emprego nos setores mais organizados da economia, inclusive na grande empresa e no setor público. A contrapartida foi a perda do peso do trabalho assalariado sem registro, e também do trabalho por conta própria. O maior número de empregos criados, paradoxalmente, aumentou demasiadamente os trabalhadores que cumpriam os requisitos para o recebimento do seguro desemprego, evidenciando a permanência da grande rotatividade da mão de obra. O resultado disso, segundo Baltar et al (2010) foi a elevação da cobertura do programa e o maior gasto com esse benefício social. A valorização do salário mínimo também foi decisiva para a elevação desse benefício. Para Baltar et al (2010, p. 31)
o seguro-desemprego cumpriu um papel importante durante o período mais agudo da crise econômica, entre o final de 2008 e os primeiros meses de 2009, garantindo renda aos trabalhadores que perderam o emprego com a forte queda da produção industrial e a desaceleração do comércio. Deve-se considerar, ainda, que o tempo de benefício do seguro foi ampliado para os trabalhadores desempregados dos setores mais afetados pela crise, evitando que as condições de vida de parcela significativa da população piorassem ainda mais.
Além disso, outro ponto central, sem dúvida, para a melhoria os indicadores do mercado de trabalho foi a progressiva valorização do salário mínimo, principalmente para os trabalhadores mais pobres, que vêem seu rendimento valorizar anualmente, indexado no piso salarial mínimo.
Gráfico 6 : Evolução do Salário Mínimo Nacional real entre os anos de 1994 e 2014
Fonte: Dado extraído do DIEESE. Elaboração Própria. *Ano base 1994 = 100. Deflator INPC.
0 50 100 150 200 250 300 100 117,1 120,2 123,5 130,5 125,9 132,8 144,6 140,1 152,3 155,4 170,7 193,7 200 205,1 220,8 227,4 229,1 246,2 254,3 263,32
Houve recuperação do valor real dos salários em negociações e convenções coletivas. Isso impulsionou os sindicatos, que voltaram a obter ganhos reais para as categorias e retomar o vigor de greves e mobilizações, afastando o temor e a criminalização com os quais viveram a década neoliberal. Segundo Cardoso (2011) e DIEESE (2012), em 2008 o Brasil bateu a marca de 800 greves, envolvendo um conjunto grande de trabalhadores. Segundo os dados do DIEESE nesse período, cerca de 95% dos acordos de negociação coletiva lograram aumento real de salários, contribuindo decisivamente para o soerguimento do movimento sindical.
Ainda com relação à valorização do salário mínimo, ela contribui para jogar por terra os argumentos dos economistas ortodoxos-liberais de que a elevação dos salários teria impactos profundos sob a economia, gerando uma alta da inflação. Além disso, os impactos também seriam sentidos no interior do próprio mercado de trabalho, com aumento do desemprego e da informalidade. Isso tudo pela crença na impossibilidade de crescimento econômico sem geração de inflação e da queda na taxa de desemprego com ausência de precarização.
Tabela 1: Evolução dos indicadores de informalidade
Informalidade no Brasil 1995 57% 1996 57% 1997 58% 1998 58% 1999 59% 2001 58% 2002 58% 2003 57% 2004 56% 2005 55% 2006 54% 2007 53% 2008 51% 2009 50% 2011 47% 2012 47% 2013 46%
Dessa forma é possível visualizar historicamente a queda expressiva no percentual de trabalhadores em condição de informalidade no Brasil. Enquanto nos anos 1990 crescia esse percentual, a melhora no mercado de trabalho nos anos 2000 mostra uma inflexão importante, fruto – sobretudo – da melhora da balança comercial e das políticas de regulação pública do trabalho.
Quanto à fiscalização, destacam-se a atuação das esferas jurídicas, como Justiça do Trabalho e o Mistério Público do Trabalho, com importante papel de fiscalização e proposição. Por fim, a queda no desnível do rendimento do trabalho também é um importante elemento e uma valorosa herança desse período. Segundo Baltar et al (2010) o exame do caráter das políticas adotadas por um governo deve estar relacionado com as mudanças provocadas na distribuição da renda. Nesse sentido, o autor destaca que nos anos 2000, em paralelo com a melhor estruturação do mercado de trabalho nacional, também houve diminuição da desigualdade de renda, medida pelo índice de Gini, que é o menor da história brasileira. Em 2003 era 0,58% e em 2014 foi para 0,49% (PNAD, 2014). Parece pouco. No entanto os “números” não devem ser tomados no abstrato. Para um país com uma história singular de concentração de riqueza e renda, essa transformação aponta para inflexões importantes.
A melhora nas taxas de crescimento e nas possibilidades de obtenção de emprego
contribuem para diminuir aqueles trabalhos de caráter apenas de “sobrevivência objetiva18”.
Nesse sentido, reduziu-se, no total da ocupação, a importância dos setores econômicos mercados por ocupações precárias, não assalariadas, não protegidas pela legislação e associadas a baixíssimos rendimentos (BALTAR et al, 2010). No entanto, embora as condições do mercado de trabalho tenham melhorado para todos os trabalhadores é preciso atentar que a ausência de políticas afirmativas para mulheres segue reproduzindo um padrão de desigualdade de gênero. Segundo Baltar et al (2010) o desemprego entre as mulheres nos anos 2000 manteve-se bem maior do que o dos homens. Além disso, as mulheres seguem se inserindo nos setores mais precarizados da economia, como o emprego assalariado não formalizado, o trabalho não remunerado, a produção agrícola para autosustento e, claro, o trabalho doméstico assalariado.
No entanto, em que pese essa melhora, é preciso entendê-la na sua totalidade. Embora tenha caído o total de empregos nas ocupações mais precarizadas, quase metade das
18 Que tem rendimentos capazes unicamente de reproduzir a força de trabalho, para que o trabalhador possa
pessoas ocupadas no Brasil segue não contando com um emprego formal, inserido no conjunto dos direitos trabalhistas (BALTAR et al 2010; ARAUJO, 2012). Além disso, o mercado de trabalho, em que pese a crescente formalização, segue reproduzindo as características da nossa construção subdesenvolvida, tais como a existência do trabalho por conta própria, a informalidade, a marginalidade, o trabalho para autoconsumo e o excedente de mão de obra. Segundo Singer (2011) a grande maioria dos empregos gerados no governo Lula oferecia baixa remuneração (90% dos novos empregos formais nos últimos anos pagam até três salários mínimos), o que também se coloca como um limite à construção de uma sociedade menos desigual, embora seja notadamente um avanço importante.
Segundo Baltar (2015) o emprego e a renda do trabalho aumentaram em circunstâncias nas quais a melhora no balanço de pagamento e a queda da inflação sinalizavam a continuidade do crescimento do PIB e o aumento do emprego, bem como a renda do trabalho. Esses elementos têm favorecido, desde 2005, o aumento do poder de compra dos trabalhadores. A renda média do trabalho em 2008 teve poder de compra pouco mais de 2% maior que em 1995, e entre estes dois períodos o PIB por pessoa ocupada aumentou 7,5% (BALTAR, 2015). Um aumento da ocupação das pessoas em um ritmo de 2% a.a, segundo Baltar (2015) somado com um aumento da renda média do trabalho de 3,5% a.a. provocou ampliação da massa total da renda do trabalho em um ritmo anual de 5,6%, o que é muito além do crescimento do consumo no total do país no mesmo período. O autor destaca porém, que o crescimento do PIB e o aumento da renda média do trabalho foram menores que nos anos auges da industrialização; no entanto, a melhora no crescimento da renda foi feita com menos dispersão entre as categorias, contribuindo para a queda da desigualdade. No entanto, embora tenham diminuído as diferenças de renda do trabalho, a parcela desta na renda nacional recuperou somente uma pequena parte com relação à renda do capital.
Dessa forma, alguns limites ainda se impõem a emergência do pleno emprego e de uma agenda de trabalho decente, e outros elementos caminham no sentindo de aprofundar a precarização. Esse é o caso das medidas pró flexibilização do trabalho que ganharam força e aprovação nos anos 2000, mostrando o movimento contraditório de avanços e retrocessos, e ressaltando os limites de um presidencialismo de coalizão e da ausência de representantes dos trabalhadores nos espaços de representação política. A nova Lei de Falências e de Recuperação Judicial, o Super Simples, a Reforma da Previdência e o crédito consignado são medidas que caminham nesse sentido (KREIN, NUNES & SANTOS, 2010). Além disso, segundo Krein e Biavaschi (2015), também estavam presentes contradições na esfera da
regulação pública do trabalho. O avanço da terceirização, da jornada modular e da remuneração variável atestam que esse período apresenta limites e retrocessos, marcados por um contexto internacional da flexibilização das relações de trabalho, e uma correlação de forças internas marcada pelo avanço do conservadorismo. (ARAUJO & LOMARDI, 2013; KREIN & CASTRO, 2015).
Para finalizar esse debate é preciso ter clareza para apontar os limites desse processo. Estar imerso na realidade que nos desafiamos a estudar – se por um lado contribui para pensar a realidade concreta, por outro, pode nos “cegar” e mistificar o real sentido e impactos dessas transformações. Os anos 2000 foram de significativas e importantes melhoras, mas principalmente sob o olhar da década de 90 e do aprofundamento do
neoliberalismo ortodoxo19. Em verdade os anos 2000 não podem ser vistos na perspectiva de
um “bloco homogêneo”, assim como se divide o primeiro mandato de Lula, o final da primeira década também já trás indícios de um processo de queda na taxa de crescimento e retorno à alguns indicadores de piora do mercado de trabalho e estancamento da queda da desigualdade social. O que é possível constatar é que embora a taxa de investimento tenha se ampliado nesse último período, ela ainda é pífia em relação ao nosso passado de desenvolvimento, chegando somente aos 17% do PIB. Uma estratégia de crescimento que vise superar as “décadas perdidas” precisa ousar na condução de outra política econômica, que enfrente os interesses do rentismo e amplie as possibilidades para alargar nossa estrutura produtiva, retomando o vigor dos empregos industriais e do dinamismo econômico. Somente essa estratégia – e não a de ampliação do consumo – pode permitir um desenvolvimento a longo prazo e sustentável da economia brasileira.
Essa é, por fim, a caracterização mais geral dos anos 2000, sob diversas perspectivas mais, principalmente, ancorada na análise das transformações no mercado de trabalho e seu caminho de reestruturação. É com base nesse cenário de retomada do crescimento, de uma agenda mais “desenvolvimentistas”, de construção de políticas sociais e de reestruturação do mercado de trabalho que analisaremos nosso objeto de pesquisa, com vistas a identificar sua dinâmica desse período, atentando para quando as melhorias da categoria superam as da média nacional, bem como aquelas elementos que não acompanham o cenário de melhora, como é notadamente o caso da formalização.